quinta-feira, 5 de abril de 2007

Sobre livros e leitura, Arthur Schopenhauer

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Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis. Portanto, o trabalho de pensar nos é, em grande parte, negado quando lemos. Daí o alívio que sentimos quando passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos à leitura.

Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando estes, finalmente, se retiram, que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé.

Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos.

Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pelo peso contínuo de um corpo estranho, o mesmo acontece com o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios. E assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por excesso de alimentação do espírito, abarrotá-lo e sufocá-lo.

Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas umas sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação [em nota: "Na prática, o fluxo contínuo e forte de novas leituras só serve para acelerar o esquecimento do já lido."]: e só com ela é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre pelo comer mas pela digestão.

Se lemos continuamente sem pensar depois no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde. Em geral não acontece com a alimentação do espírito outra coisa que com a do corpo: nem a qüinquagésima parte do que se come é assimilado, o resto desaparece pela evaporação, pela respiração ou de outro modo.

Acrescente-se a tudo isso que os pensamentos postos no papel nada mais são que pegadas de um caminhante na areia: vemos o caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho, precisamos usar nossos próprios olhos.

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É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Esta arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público, o tempo todo, com panfletos políticos ou literários, romances, poemas, etc., que fazem tanto barulho durante algum tempo, atingindo mesmo várias edições no seu primeiro e último ano de vida: deve-se pensar, ao contrário, que quem escreve para palhaços sempre encontra um grande público e consagre-se o tempo sempre muito reduzido de leitura unicamente às obras dos grandes espíritos de todos os tempos e de todos os países, que se destacam do resto da humanidade e que a voz da fama identifica. Só eles educam e ensinam realmente.

Os ruins nunca lemos de menos e os bons nunca relemos demais. Os livros ruins são veneno intelectual: eles estragam o espírito.

Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos.

Arthur Schopenhauer, Sobre livros e leitura. Über lesen und bücher. Ed. bilíngüe. Trad. de Philippe Humblé e Walter Carlos Costa. Florianópolis: Paraula, 1994, p. 17-19-21; 33 e 35.

Na segunda metade do século XIX, quando se vivia o que chegou a ser chamado de "leituromania", as críticas de Schopenhauer nos lembram críticas feitas hoje ao uso imoderado da televisão e mesmo as que se fazem às práticas de jogos eletrônicos e mesmo da Internet, especialmente pelos jovens. O que lhe parece, cara leitora e raro leitor?

Haverá sempre uma elite (pretensa ou não) para criticar tudo que possa ser acessível a muitos - às massas? O que acha dessas recomendações? Serão radicais, no mau sentido?
Ler muito pode embotar o pensamento próprio ou, como diz, hoje, Michel de Certeau, todo consumo cultural é sempre um ato criador? Faça seu comentário.

10 comentários:

CONSTANCIA disse...

Assino embaixo sua teoria.Sempre disse para meus alunos: "São maravilhosas as histórias contidas nos livros...mas a história de cada um de vocês tem importância fundamental para mim.

CONSTANCIA disse...

Que satisfação conhecê-lo! Sempre tive preguiça para ler algo que não tinha nada daquilo que pensava...
Hoje sou professora e sempre falo para meus alunos: Os livros trazem histórias as mais diversas...mas a sua história é a mais importante de todas! Registre a sua história.

Alvaro disse...

Muito interessante esta passagem do Schopenhauer, Aníbal!

Bem em linha com o que Hannah Arendt defendia:

"Combateu com toda a alma os regimes totalitários e condenou-os em seus livros "Eichmann em Jerusalém" e "As origens do totalitarismo". No primeiro, estuda a personalidade medíocre de Adolf Eichmann, formulando o conceito da "banalidade do mal". Em seus depoimentos, Eichmann disse que cumpria ordens e considerava desonesto não executar o trabalho que lhe foi dado, no caso, exterminar os judeus.

Hannah concluiu que ele dizia a verdade: não se tratava de um malvado ou de um paranóico, mas de um homem comum, incapaz de pensar por si próprio, como a maior parte das pessoas. Essa afirmação é um eco da frase do filósofo e matemático francês Pascal (1623-1662) "Nada é mais difícil que pensar".

Fonte:
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u616.jhtm

Dr. Sexta-feira disse...

Haverá sempre uma elite, ler muito pode embotar o pensamento próprio e todo consumo cultural é sempre um ato criador.

4seriecfelicidade disse...

OI,ANIBAL BRAGANÇA NÓS SOMOS CAROLINA,THAYANE...
NÓS SOMOS DA ESCOLA MANOEL BARBOSA DE SOUZA.......
NÓS QUEREMOS,SABER UM POUCO SOBRE VOCÊ....E DA SUA VIDA NÓS ADORAMOS VOCÊ E SEUS LIVROS.........
BEIJOS,ABRAÇOS,MUITOS BEIJOS
DA CAROLINA,THAYANE!!!!!!!!!!!!!!!

4seriecfelicidade disse...

OI,ANIBAL BRAGANÇA NÓS SOMOS CAROLINA,THAYANE...
NÓS SOMOS DA ESCOLA MANOEL BARBOSA DE SOUZA.......
NÓS QUEREMOS,SABER UM POUCO SOBRE VOCÊ....E DA SUA VIDA NÓS ADORAMOS VOCÊ E SEUS LIVROS.........
BEIJOS,ABRAÇOS,MUITOS BEIJOS
DA CAROLINA,THAYANE!!!!!!!!!!!!!!!

Aníbal Bragança disse...

Carolina e Thayne, há mais informações sobre minha vida e meus trabalhos neste endereço:
http://www.uff.br/lihed/index.php/sobreanibal.html
Eu adorei conhecer vocês pessoalmente na escola, junto com os professores e outros colegas.
Abraços,
Aníbal

Thiago Leite disse...

Olá, Professor!
Não sabia da existência desse núcleo de estudos sobre o livro na UFF. Sou aluno da graduação em Pedagogia e me interesso muitíssimo sobre as problemáticas que envolvem a leitura e seus suportes. Pelo que vejo, o senhor é uma peça rara em nossa universidade. Preciso me inteirar mais de seu trabalho e pesquisas, pois creio que poderão me auxiliar em trabalhos próximos.
Saudações. Grande Abraço!

Thiago Leite disse...

Olá, Professor!
Não sabia da existência desse núcleo de estudos sobre o livro na UFF. Sou aluno da graduação em Pedagogia e me interesso muitíssimo sobre as problemáticas que envolvem a leitura e seus suportes. Pelo que vejo, o senhor é uma peça rara em nossa universidade. Preciso me inteirar mais de seu trabalho e pesquisas, pois creio que poderão me auxiliar em trabalhos próximos.
Saudações. Grande Abraço!

Aníbal Bragança disse...

Thiago,
há uma página da UFF www.uff.br/lihed onde talvez você encontre algo interessante para as suas pesquisas.
Fico ao seu dispor.
Abraço,
Aníbal