quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Uma biblioteca, por Luiz Antônio de Assis Brasil
Uma biblioteca não terá fim. Bibliotecas são para sempre. Ali se respira o ar do tempo que, em seu lento evoluir, cria romances, novelas, contos, tratados, compêndios, ensaios, artigos, poemas, dicionários, enciclopédias, e também jornais, revistas.
Uma biblioteca tem o cheiro do tempo. As páginas, amarelecendo como se estivessem num perpétuo outono, possuem um perfume que só os iniciados conhecem.
Ao olharmos à distância para uma estante de biblioteca, não distinguiremos os nomes dos autores, nem os títulos dos livros. Todos os livros parecem iguais. Enquanto não nos aproximarmos, eles irão manter-se numa velada promessa. Isso é bom; isso incita à aproximação. Esse zoom que fazemos com ansiosa expectativa, ao chegar perto das lombadas, revela-nos os títulos, os nomes, numa descoberta caprichosa, quase solene e, ao mesmo tempo, íntima. É como uma descoberta do mundo.
Ao levarmos a mão a um livro, ele se torna nosso. Mesmo que saibamos que ele já foi muito manuseado e que depois passará a outras mãos, naquele instante único ele é nosso. Só nós temos o direito de lê-lo. Na leitura silenciosa não há partilha. É um bem-vindo egoísmo, uma luxúria do espírito.
Mas há novidades neste mundo tão antigo. Depois de quase 500 anos, começam a surgir outras modalidades de uma obra chegar a seu leitor. Como nova geração, chega com algum
alarde. Mas nós sabemos, também, que essas novas formas vieram para permanecer entre
nós. Ótimo: são muito bem-vindas. Seus lugares já estão escolhidos: serão numa biblioteca. Ali conviverão em diálogo com as gerações mais velhas. Ali receberão o cuidado dos bibliotecários. Ali, esses generosos e eficientes funcionários saberão dar a palavra certa ao leitor. Ser bibliotecário é mais do que assumir uma profissão: é entender o mundo como uma ordem. Bibliotecários instauram o Cosmo em meio ao Caos.
Assim, inaugurar uma biblioteca é dar um sentido a tudo o que o ser humano fez nesta longa trajetória sobre a Terra. Sem nenhum drama nem exagero podemos dizer: inaugurar uma biblioteca é um ato para a eternidade.
In Zero Hora, Porto Alegre, RS, 5 de novembro de 2008. Graças à divulgação de Hugo & Cândida, a quem estamos sempre gratos.
Vivemos em época cheia de contradições e com múltiplas realidades, convivendo de forma nem sempre harmônica. Por um lado, percebe-se que o governo, através da Fundação Biblioteca Nacional, do Ministério da Cultura, busca avançar na instalação de bibliotecas públicas nos municípios em que elas ainda não existem. É pouco, mas é muito ao mesmo tempo, pois existir município em que os leitores não tenham acesso a esse espaço de encontros e sociabilidades intelectuais é algo lastimável, numa sociedade moderna. Ao mesmo tempo, vemos que muitas bibliotecas públicas não cumprem verdadeiramente sua missão. E assistimos também à redução das bibliotecas particulares, por várias razões, desde a redução de espaço até ao preço do livro.
Com tudo isso, vozes como a do escritor gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil se fazem ouvir em defesa das bibliotecas e de sua permanência. Assim seja!
E você, raro leitor, usa bibliotecas, além da sua? Está satisfeito com as bibliotecas de que se serve? Acha que a Internet e o Google lhe oferecem acesso a tudo que precisa?
sábado, 16 de junho de 2007
Serviço: Dicas e sugestões
Palestra no Rio de Janeiro, 29 de junho, 9:30
Roger Chartier: O que é um autor científico?
(em espanhol)
Auditório do Observatório Nacional
Inscrições: michele@mast.br
Visite o novo jornal
Primeira Fonte
http://www.primeirafonte.com/
Destaque para a matéria “A droga do amor é um barato”,
de Ana Laura Diniz e Esther Lúcio Bittencourt (você entenderá por que)
Conheça mais:
1. Visite o sítio virtual do
Museu da Língua Portuguesa Estação da Luz
http://www.estacaodaluz.org.br/
E, logo que possa, faça uma visita “real”. É extraordinário.
2. A história do livro escolar no Brasil. Visite o
Banco de Dados LIVRES
e tenha acesso à produção das diversas disciplinas escolares brasileiras desde o século XIX até hoje e muito mais.
http://paje.fe.usp.br/estrutura/livres/index.htm
Coordenação: Circe Maria Fernandes Bittencourt (FE/USP)
3. Visite o sítio Amigos do Livro e participe da enquête:
Escolha um livro de autor brasileiro "inesquecível"
http://www.amigosdolivro.com.br/home.php
4. Visite o sítio e blog:
Liter & Art
http://www.litereart.org.br/
http://litereartbrasil.blogspot.com/
Cultura, arte e uma agenda bem atualizada
5. Visite o blog do fotógrafo Sérgio Guida
Grafia in foto
Niterói (e o interior fluminense) captados com rara beleza
http://grafiainfoto.blogspot.com/
6. Acompanhe as atualizações do
Blog do Galeno
http://www.blogdogaleno.com.br/
O universo brasileiro do livro e da leitura
7. Acesse o blog e conheça a proposta da
Alfagrama Ediciones (Argentina)
http://alfagrama.blogspot.com/2007/04/historia-del-libro.html
Um espaço virtual (em castelhano) que navega pelo universo do livro com grande riqueza de informações e que tem uma proposta para autores.
E você, rara leitora, tem alguma sugestão ou dica para repassar?
terça-feira, 17 de abril de 2007
Um país se faz com homens e livros. Na América!
Um paiz se faz com homens e livros. Minha visita aos monumentos de George Washington e Lincoln provou que a América tinha homens. Ter homens, para um paiz, é ter Washingtons e Lincolns, individualidades tão marcantes que sobre seus vincos não pode a morte. Viva quanto viver a América, seus dois heroes viverão com ella, dia a dia mais sublimados. Já não são homens hoje, decennios passados do desapparecimento da scena, mas semi-deuses. Um seculo mais que transcorra e serão deuses. Crescem sempre. Divinisam-se. Em torno dessas pilastras a America se crystallisa. Nas maiores crises moraes nunca lhe faltará o apoio do general que não mentia e do lenhador que impediu a destruição da obra do general.Com homens e livros. Nos livros está fixada toda a experiencia humana. É por meio delles que os avanços do espírito humano se perpetuam. Um livro é uma ponta de fio, que diz: Aqui parei; toma a ponta e continua, leitor. (...)
Mr. Slang certa vez me disse que o homem só tinha duas creações, a invenção do alphabeto (com suas naturaes consequencias, livro, imprensa, etc.) e a descoberta do fogo. O alphabeto permitiu o accumulo da experiência individual; o fogo abriu caminho para a dominação da natureza. (...)
Estavamos a caminho da Biblioteca do Congresso – o maior templo que ainda se erigiu ao livro, (...).
- Eil-a, disse Mr. Slang apontando para o colossal monumento que ao entrarmos no Capitol Grounds se nos fronteou. Ha lá dentro, catalogados, á disposição de quem os queira consultar, 3.890.096 pontas de cousas impressas, como sejam livros, mappas, musicas e “prints”, sem contar os manuscriptos. Ora, isso quer dizer que ha alli mais de quatro milhões de pontas de fio. Quadro milhões de vidas passadas no estudo e na elaboração escripta da experiência pessoal armazenam nesta bibliotheca a summula do seu esforço. Philosophos, scientistas, artistas – a gente toda que faz uso do cerebro e, havendo tomado as pontas dos fios legados pelos avós, proseguiu na obra e legou aos netos nova ponta por onde continuem o novello sem fim.
Admirei o monumento com todos os ímpetos da minha capacidade de admiração architectonica, embora sua real grandeza não estivesse na fachada, sim no miolo. Quadro milhões de pontas!....
Tudo alli eram symbolos. A casa das pontas é uma casa de symbolos. (...)
Portas de bronze nas tres entradas representam a Imprensa – “Minerva presidindo a diffusão dos productos da arte graphica”. E paineis com allegorisações da Intelligencia Humana, da Escripta, da Verdade, da Pesquiza, da Tradição, da Memória, da Imaginação.
(...) E as marcas usadas pelos mais celebrados impressores. Um mar de symbolos, uma ansia de juntar tudo quanto a imaginação humana pode conceber para adorar o Livro e a arte do Livro e os autores de livros famosos. Tudo isso obra da collaboração de centenares de artistas tomados dos mais notáveis da Europa e America, pintores, esculptores, imagistas, paineladores, architectos, entalhadores.... Positivamente estávamos na Cathedral do Livro, uma outra S. Pedro de Roma em que o Deus honrado era a Ponta do Fio, como o queria o meu inglez.
- Estou meio tonto, Mr. Slang. Acho que quem vem a esta bibliotheca não tem tempo de abrir um livro. Há cousas demais para distrahil-o e occupar-lhe a attenção.
- É que a bibliotheca em si é um livro - o primeiro a ser consultado. A única differença está em que não é um livro composto em papel, na forma clássica. Não está lendo mil cousas nestes marmores e bronzes? Acho que esta bibliotheca foi o primeiro grande livro que a America compoz. Só tem um defeito: para que o possamos ler é mister havermos lido alguns dos livros de papel que estão dentro. Sem isso limitamo-nos a vel-o.
- Pois subamos a escadaria para ver o primeiro capitulo.. Isto aqui me parece apenas prefacio.
(...)
Excertos, na grafia original, do capítulo VI do livro de Monteiro Lobato, America, 1a. ed. S. Paulo: Nacional, 1932, p. 37...41. Capa de J. U. Campos. É também nesse livro que Lobato apresenta o personagem que inventou para dialogar na exposição de seus pensamentos e reflexões, Mr. Slang: “Annos atraz o bom deus Acaso poz no meu caminho um homem de singular philosophia, conhecido como – o inglez da Tijuca. Suas idéas chocavam, aberrantes que eram das idéas e pontos de vista do monstro de mil corpos e uma só cabeça, chamado Toda-a-gente. Mr. Slang via com os seus olhos azues e pensava com o seu cérebro crystallino. Pensava em linha recta e via com nitidez: - porisso era olhado de esguelha pelos que viam torto e pensavem enevoadamente.” (p. 5)
Amanhã, 18 de abril, o Brasil comemorará o nascimento de Monteiro Lobato (no ano de 1882), um dos seus filhos mais ilustres. Esse dia foi estabelecido para ser o Dia Nacional do Livro Infantil. Homenagem de mérito inquestionável, pois Lobato foi sem dúvida o escritor que mais contribuiu para o enriquecimento da literatura para crianças e jovens em nosso país, com a criação de personagens imortais, como Narizinho, Emília, Tia Anastácia, Dona Benta e outros.
Na área do livro, entretanto, pode-se questionar o epíteto pelo qual é referido o escritor na obra de seus amigos memorialistas e também na de bons pesquisadores, talvez levados por um certo entusiasmo a que é difícil escapar diante de sua figura: o de criador da indústria editorial brasileira.
As comemorações dos 200 anos da criação da indústria editorial brasileira, ano que vem, certamente oferecerão oportunidades para uma revisão de nossa historiografia do livro.
O que acha você, rara leitora ou leitor, destas questões? E da apropriação da frase do livro sobre os Estados Unidos da América? E da própria frase? Como você a conheceu?
Faça seu comentário.
Sacralização ou estigmatização de Monteiro Lobato?, de Israel Pedrosa

O livro de Israel Pedrosa traz ainda outros ensaios dedicados a artistas como Portinari, Siqueiros, Quirino Campofiorito, Hilda Campofiorito, Newton Rezende, Antônio Parreiras, dentre outros, e, ainda, um dedicado ao poeta de Metanáutica, “A latência poética de Geir Campos”.
A obra, editada por Leo Christiano, será lançada, no próximo dia 16 de maio, às 16h, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, com palestra do autor.
sábado, 14 de abril de 2007
Eclesiastes, um livro de sabedoria
...Que proveito tem o homem de toda a fadiga a que se sujeita debaixo do sol?
Uma geração passa, outra geração entra, mas a terra permanece para sempre. O sol se levanta, o sol descamba, anelando pelo lugar donde novamente se levantará. O vento sopra para o sul, volta-se para o norte, num contínuo vaivém sopra o vento. Todos os rios desembocam no mar, sem que o mar transborde. Para onde os rios correm, para lá correm sem cessar.
Tudo é tedioso. Ninguém pode dizer. O olho não se sacia de ver, o ouvido não se enche de tanto ouvir.
....
Qohelet, além de ser sábio, instruiu o povo na ciência, meditou, perscrutou e fez muitas composições a respeito de sentenças. Esforçou-se, Qohelet, por encontrar palavras agradáveis, e por registrar corretamente pensamentos de verdade. As palavras do sábio são como aguilhões e pregos fixados: sentenças colhidas, compostas por um único pastor.
No mais, meu filho, fica prevenido, escrevem-se livros sem fim
e o estudo contínuo cansa o corpo.
Fim do discurso: teme a Deus e guarda seus preceitos, porque este é o dever de todo homem.
Deus julgará todos os atos, mesmo os ocultos, os bons e os maus.
Dos comentários, no livro: Qohelet: o Pregador, no meio da assembléia, ou, conforme o grego, no meio da ekklesia, daí o nome de Eclesiastes (p. 272).
Trad. de Pe. Frederico Dattler S.V.D., in A Bíblia, v. 4 – Os livros sapienciais. S. Paulo: Abril, 1966, p. 272; 287.
Imagem (p. 273): Anônimo, séc. XII. Miniatura, Escola Renana, "Evangeliário", Biblioteca Regional, Karlsruhe, Alemanha.
Trecho retirado do livro Eclesiastes. Além de toda a sabedoria nele contida, que nos ensina a cada releitura, o objetivo de traze-lo aqui, para iniciar uma conversa com você, rara ou raro leitor, é específica: a referência que faz ao "fazer livros".
E, como é possível ocorrer em qualquer tradução, são muitas as versões para a frase e mais ainda ao sentido que a ela se dá. Aqui se diz: "escrevem-se livros sem fim"; já na tradução atribuída a João Ferreira de Almeida, publicada, revista, pela Sociedade Bíblica do Brasil, talvez a mais conhecida, a frase é esta: "não há limite para fazer livros", o que já permite uma outra leitura; a tradução do Centro Bíblico Católico, revista por Frei João José Pedreira de Castro, publicada pela Editora "Avé Maria", indica: "...se podem multiplicar os livros a não mais acabar"; a tradução do Pe. Matos Soares, publicada pela Paulinas, diz: "não se põe termo em multiplicar livros".
Mas a "tradução" que mais freqüentemente se vê usada por editores você certamente conhece, mas eu não consegui ainda saber de quem é: "fazer livros é um trabalho sem fim".
Esta poderia ser usada também por autores. Faz sentido!
Será que sempre estaremos construindo o "nosso" sentido em qualquer leitura ou mesmo em qualquer tradução, que é, afinal, também uma leitura?
De qual sentido mais gosta você, cara leitora? A advertência de que se fazem livros demais e que muito estudo (apenas) cansa o corpo, pois as palavras do mestre são como "aguilhões e pregos fixados", que não se devem mexer nem nada acrescentar? Pois o que conta, afinal, são os atos do homem ou da mulher?
Ou a que indica ser a tarefa de escrever, traduzir, revisar ou de editar livros um trabalho (difícil) de ter fim?
Faça seu comentário.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Maus efeitos da riqueza, Lúcio Aneu Sêneca
Aprendamos a cultivar em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir nossa vaidade, a dominar nossas cóleras, a considerar a pobreza com um olhar calmo, a considerar a frugalidade, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejos naturais; a não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos.
[4] As despesas de ordem literária, as mais justas de todas, não são estas mesmas razoáveis, a não ser que sejam moderadas. Para que servem inúmeros livros e bibliotecas, se o proprietário encontra apenas o tempo em sua vida para ler as etiquetas? Uma profusão de leituras sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra; e melhor seria aplicar-se muito a um pequeno número de autores do que vagar no meio de muitos.
[5] Quarenta mil volumes foram queimados em Alexandria [49aC]. Quantos outros exaltam este esplêndido monumento da magnificência real, como Tito Lívio, que o chama a obra-prima do gosto e da solicitude dos reis. Eu não vejo lá nem gosto nem solicitude, mas orgia da literatura; e quando digo da literatura minto, pois o cuidado pelas letras lá não era cultivado: aquelas belas coleções só eram constituídas para amostra. Quantas pessoas desprovidas da mais elementar cultura têm também livros, que não são de modo algum instrumentos de estudo, mas que adornam suas salas de refeições! Compremos os livros dos quais temos necessidade, não os compremos para ostentação.
[6] É mais moral, dizes tu [a obra é dedicada pelo autor ao amigo Aneu Sereno], assim gastar seu dinheiro, em lugar de o desperdiçar em vasos de Corinto e em quadros. Há vício desde que haja excesso. Por que esta indulgência para um homem que coleciona armários de cidreira e de marfim, que compra obras completas de autores desconhecidos ou medíocres, para bocejar no meio de tantos milhares de volumes, não aproveitando de seus livros a não ser as encadernações e os títulos?
[7] Eis como verás em casa dos mais insignes preguiçosos toda a coleção de oradores e de historiadores e estantes para livros construídas até o teto: pois hoje em dia, ao lado dos banhos nas termas, a biblioteca tornou-se um ornamento obrigatório de toda casa que se preza. Eu perdoaria perfeitamente esta mania, se ela nascesse de um excesso de amor ao trabalho; mas estas obras sagradas, dos mais raros gênios da humanidade, com as estátuas de seus autores, que assinalam sua classificação, são adquiridas para serem vistas e para decorarem as paredes.
Excerto de Da tranqüilidade da alma, in Os Pensadores, V. 1a. ed. Trad. e notas de Giulio Davide Leoni. S. Paulo: Abril, 1973, p. 214-6.
Esta é talvez uma das primeiras admoestações registradas sobre a inconveniência do excesso de livros (neste caso, no contexto de uma condenação de todos os excessos) e do uso deles para ostentação. Na época os livros eram todos manuscritos, copiados um a um, em geral por encomenda, escritos em papiro ou em pergaminho e guardados em forma de rolo na estante, com a etiqueta para fora. Vivemos hoje, dois milênios depois, em que muitos (como eu, admito) estão sufocados no meio de tantos livros não abertos e tantas leituras à espera, que não será demais reler Sêneca [Córdoba, 4aC-Roma, 65dC] e refletir sobre a simplicidade de vida que ele, um estóico, nos propõe para que alcancemos a felicidade. Dizem alguns que um pequeno número de obras não deveríamos deixar de ler e que esse número nos bastaria para alcançar um saber verdadeiro, se as relêssemos até à plena compreensão. O que acha você, rara ou raro leitor? Tem alguma sugestão? Faça seu comentário.
sexta-feira, 6 de abril de 2007
Literatura, filosofia e amizade – Drummond e Sloterdijk

Carlos Drummond de Andrade, Tempo, vida, poesia. Confissões no rádio. Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 58
*
Livros, observou certa vez o escritor Jean Paul [1763-1825], são cartas dirigidas a amigos, apenas mais longas. Com esta frase ele explicitou precisamente, de forma graciosa e quintessencial, a natureza e a função do humanismo: a comunicação propiciadora de amizade realizada à distância por meio da escrita. O que desde os dias de Cícero se chama humanitas faz parte, no sentido mais amplo e no mais estrito, das conseqüências da alfabetização.
Desde que existe como gênero literário, a filosofia recruta seus seguidores escrevendo de modo contagiante sobre amor e amizade. Ela é não apenas um discurso sobre o amor à sabedoria, mas também quer impelir outros a esse amor. Que a filosofia escrita tenha logrado manter-se contagiosa desde seus inícios, há mais de 2.500 anos, até hoje, deve-se ao êxito de sua capacidade de fazer amigos por meio do texto. (...)
Faz parte das regras do jogo da cultura escrita que os remetentes não possam antever seus reais destinatários; não obstante, os autores lançam-se à aventura de pôr suas cartas a caminho de amigos não-identificados.
Peter Sloterdijk, Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo. Trad. de José Oscar de Almeida Marques. S. Paulo: Estação Liberdade, 2000, p. 7-8.
Não resisti a registrar a coincidência de posições sobre o maior valor da literatura e da filosofia, entre nosso poeta maior, definida em entrevista concedida a Lya Cavalcanti, em programa na Rádio MEC, só muito tempo depois transcrita e publicada, no livro Tempo Vida Poesia, que merece ser revisitado, e a do polêmico filósofo alemão, nascido em 1947, e autor, também, de O desprezo das massas. Ensaio sobre lutas culturais na sociedade moderna.
Para mim, sem qualquer dúvida, os livros foram ponte para a construção de amizades, distantes e, especialmente, próximas. Tudo começou quando, em 1966, iniciei minha atividade de livreiro em Niterói (Encontro, Diálogo, LUFE, Centro do Livro/Livros para Todos, Pasárgada), que se estendeu até 1986. Foram 20 anos fazendo muitos amigos e amigas através de livros e leituras. E vivi ainda, tempos depois, a breve experiência, da criação do Sebo Fino.
Na Universidade, em relação mais delicada e complexa com alunas e alunos, tivemos sempre livros como mediadores, às vezes felizes outras nem tanto. Já então se iniciava um tempo em que, mesmo no ensino superior ler livros ou mesmo capítulos, se faz, em geral, com alguma resistência, maior ou menor. As exceções, de jovens aficicionados pela leitura, confirmam a regra e trazem muitas recompensas.
Quando foi publicado o Livraria Ideal, do cordel à bibliofilia, em 1999, ah!, quantas alegrias, dessas a que se refere o Drummond. Com alguns leitores, ficamos amigos 'para sempre' a partir da história de Silvestre Mônaco e sua livraria em Niterói.
E você, rara leitora e leitor, tem alguma história de amor ou de amizade construída a partir de livros e leituras, como nos indicam Drummond e Sloterdijk? Acrescente seu comentário.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Sobre livros e leitura, Arthur Schopenhauer
Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis. Portanto, o trabalho de pensar nos é, em grande parte, negado quando lemos. Daí o alívio que sentimos quando passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos à leitura.
Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando estes, finalmente, se retiram, que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé.
Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos.
Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pelo peso contínuo de um corpo estranho, o mesmo acontece com o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios. E assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por excesso de alimentação do espírito, abarrotá-lo e sufocá-lo.
Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas umas sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação [em nota: "Na prática, o fluxo contínuo e forte de novas leituras só serve para acelerar o esquecimento do já lido."]: e só com ela é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre pelo comer mas pela digestão.
Se lemos continuamente sem pensar depois no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde. Em geral não acontece com a alimentação do espírito outra coisa que com a do corpo: nem a qüinquagésima parte do que se come é assimilado, o resto desaparece pela evaporação, pela respiração ou de outro modo.
Acrescente-se a tudo isso que os pensamentos postos no papel nada mais são que pegadas de um caminhante na areia: vemos o caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho, precisamos usar nossos próprios olhos.
...
É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Esta arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público, o tempo todo, com panfletos políticos ou literários, romances, poemas, etc., que fazem tanto barulho durante algum tempo, atingindo mesmo várias edições no seu primeiro e último ano de vida: deve-se pensar, ao contrário, que quem escreve para palhaços sempre encontra um grande público e consagre-se o tempo sempre muito reduzido de leitura unicamente às obras dos grandes espíritos de todos os tempos e de todos os países, que se destacam do resto da humanidade e que a voz da fama identifica. Só eles educam e ensinam realmente.
Os ruins nunca lemos de menos e os bons nunca relemos demais. Os livros ruins são veneno intelectual: eles estragam o espírito.
Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos.
Arthur Schopenhauer, Sobre livros e leitura. Über lesen und bücher. Ed. bilíngüe. Trad. de Philippe Humblé e Walter Carlos Costa. Florianópolis: Paraula, 1994, p. 17-19-21; 33 e 35.
Na segunda metade do século XIX, quando se vivia o que chegou a ser chamado de "leituromania", as críticas de Schopenhauer nos lembram críticas feitas hoje ao uso imoderado da televisão e mesmo as que se fazem às práticas de jogos eletrônicos e mesmo da Internet, especialmente pelos jovens. O que lhe parece, cara leitora e raro leitor?
Haverá sempre uma elite (pretensa ou não) para criticar tudo que possa ser acessível a muitos - às massas? O que acha dessas recomendações? Serão radicais, no mau sentido?
Ler muito pode embotar o pensamento próprio ou, como diz, hoje, Michel de Certeau, todo consumo cultural é sempre um ato criador? Faça seu comentário.
domingo, 11 de março de 2007
Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino
Volto sempre a esta obra iluminadora. No Brasil foi feita uma tradução (por Margarida Salomão) editada pela Nova Fronteira, em 1982, de onde retirei o trecho abaixo, e há também outra, editada pela Cia. das Letras, que me faz lembrar de uma querida amiga que ma presenteou.
"Há uma linha que separa: de um lado os que fazem livros, de outro os que lêem. Quero continuar a fazer parte daqueles que lêem, e por isso presto muita atenção para me manter sempre deste lado da linha. Senão, o prazer desinteressado de ler já não existe, ou ao menos se transforma em alguma outra coisa, que não é o que eu quero. É uma fronteira imprecisa, que tende a desaparecer: o mundo daqueles que têm relação profissional com os livros está cada vez mais povoado, e tende a se identificar com o mundo dos leitores. Evidentemente os leitores também são cada vez mais numerosos, mas pode-se dizer que o número daqueles que utilizam os livros para produzir outros livros cresce definitivamente mais depressa que o número daqueles que gostam dos livros para ler. Sei que se eu transpuser o limite, mesmo acidentalmente, arrisco me perder, nesta maré que sobe; conclusão: recuso-me a pôr, mesmo por alguns minutos, os pés numa editora."
Proponho a você, leitor ou leitora, que, se ainda não leu, busque esta obra em alguma livraria ou sebo e leia-a. Aos que a leram, convido a compartilharem conosco suas impressões de leitura.