quinta-feira, 12 de abril de 2007

Maus efeitos da riqueza, Lúcio Aneu Sêneca

[IX – 2] Habituemo-nos a ter o luxo à distância e a fazer uso da utilidade dos objetos e não de sua sedução exterior. Comamos para matar a fome, bebamos para apagar a sede e reduzamos ao necessário a satisfação de nossos desejos. Aprendamos a andar com nossas pernas, a regular nosso vestuário e nossa alimentação, não sobre a moda do dia, mas sobre o exemplo dos antigos.

Aprendamos a cultivar em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir nossa vaidade, a dominar nossas cóleras, a considerar a pobreza com um olhar calmo, a considerar a frugalidade, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejos naturais; a não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos.

[4] As despesas de ordem literária, as mais justas de todas, não são estas mesmas razoáveis, a não ser que sejam moderadas. Para que servem inúmeros livros e bibliotecas, se o proprietário encontra apenas o tempo em sua vida para ler as etiquetas? Uma profusão de leituras sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra; e melhor seria aplicar-se muito a um pequeno número de autores do que vagar no meio de muitos.

[5] Quarenta mil volumes foram queimados em Alexandria [49aC]. Quantos outros exaltam este esplêndido monumento da magnificência real, como Tito Lívio, que o chama a obra-prima do gosto e da solicitude dos reis. Eu não vejo lá nem gosto nem solicitude, mas orgia da literatura; e quando digo da literatura minto, pois o cuidado pelas letras lá não era cultivado: aquelas belas coleções só eram constituídas para amostra. Quantas pessoas desprovidas da mais elementar cultura têm também livros, que não são de modo algum instrumentos de estudo, mas que adornam suas salas de refeições! Compremos os livros dos quais temos necessidade, não os compremos para ostentação.

[6] É mais moral, dizes tu [a obra é dedicada pelo autor ao amigo Aneu Sereno], assim gastar seu dinheiro, em lugar de o desperdiçar em vasos de Corinto e em quadros. Há vício desde que haja excesso. Por que esta indulgência para um homem que coleciona armários de cidreira e de marfim, que compra obras completas de autores desconhecidos ou medíocres, para bocejar no meio de tantos milhares de volumes, não aproveitando de seus livros a não ser as encadernações e os títulos?

[7] Eis como verás em casa dos mais insignes preguiçosos toda a coleção de oradores e de historiadores e estantes para livros construídas até o teto: pois hoje em dia, ao lado dos banhos nas termas, a biblioteca tornou-se um ornamento obrigatório de toda casa que se preza. Eu perdoaria perfeitamente esta mania, se ela nascesse de um excesso de amor ao trabalho; mas estas obras sagradas, dos mais raros gênios da humanidade, com as estátuas de seus autores, que assinalam sua classificação, são adquiridas para serem vistas e para decorarem as paredes.

Excerto de Da tranqüilidade da alma, in Os Pensadores, V. 1a. ed. Trad. e notas de Giulio Davide Leoni. S. Paulo: Abril, 1973, p. 214-6.

Esta é talvez uma das primeiras admoestações registradas sobre a inconveniência do excesso de livros (neste caso, no contexto de uma condenação de todos os excessos) e do uso deles para ostentação. Na época os livros eram todos manuscritos, copiados um a um, em geral por encomenda, escritos em papiro ou em pergaminho e guardados em forma de rolo na estante, com a etiqueta para fora. Vivemos hoje, dois milênios depois, em que muitos (como eu, admito) estão sufocados no meio de tantos livros não abertos e tantas leituras à espera, que não será demais reler Sêneca [Córdoba, 4aC-Roma, 65dC] e refletir sobre a simplicidade de vida que ele, um estóico, nos propõe para que alcancemos a felicidade. Dizem alguns que um pequeno número de obras não deveríamos deixar de ler e que esse número nos bastaria para alcançar um saber verdadeiro, se as relêssemos até à plena compreensão. O que acha você, rara ou raro leitor? Tem alguma sugestão? Faça seu comentário.

Imagem anônima de um librarius - livreiro romano (c. 100 dC).
Fonte: Bibliopola, de Sigfred Taubert. Hamburg: Dr. Ernst Hauswedell & Co, 1966, p. 3.

Um comentário:

Danilo disse...

shalom, ola gostei do texto acho os escritos de seneca interesante, mais conheso um pouquinho, e realmente ja comprei livros i quase nao leio, um critica bem construtiva, naodevemos nos ligar a vaidade ou a ostentasao por querer tipo mostrar q detemos poder por meio do conhecer saber é precioso i deve ser cultivado thau valeu