quarta-feira, 18 de abril de 2007

Entre a oralidade e a escrita, Sócrates, segundo Platão

(...)
- Sócrates: Bem, ouvi dizer que na região de Náucratis, no Egito, houve um dos velhos deuses daquele país, um deus a que também é consagrada a ave chamada Íbis. Quanto ao deus, porém, chamava-se Thoth. Foi ele que inventou os números e o cálculo, a geometria e a astronomia, o jogo de damas e os dados, e também a escrita. Naquele tempo governava todo o Egito, Tamuz, que residia ao sul do país, na grande cidade que os egípcios chamam Tebas do Egito, e a esse deus davam o nome de Ámon.

Thoth foi ter com ele e mostrou-lhe as suas artes, dizendo que elas deviam ser ensinadas aos egípcios. Mas o outro quis saber a utilidade de cada uma, e enquanto o inventor explicava, ele censurava ou elogiava, conforme essas artes lhe pareciam boas ou más. Dizem que Tamus fez a Thoth diversas exposições sobre cada arte, condenações ou louvores cuja menção seria por demais extensa.

Quando chegaram à escrita, disse Thoth: Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.

Responde Tamuz: Grande artista Thoth! Não é a mesma cousa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal cousa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos.

Logo, tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites para teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em conseqüência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.

- Fedro: Com que facilidade, Sócrates, inventas histórias egípcias assim como de outras terras, quando isso te apraz!
(...)
- Sócrates: O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das cousas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma cousa.

Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita de auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.
(...)
- Sócrates: Tu bem vês que aquele que conhece o justo, o bom e o verdadeiro não irá escrever na água essas cousas, nem usará um caniço [papiro] para semear os seus discursos, pois eles se mostrarão incapazes de ensinar eficientemente a verdade.

- Fedro: Provavelmente não fará isso.
- Sócrates: Claro que não. Naturalmente, semeará nos jardins literários apenas por passatempo. Se escrever, será na intenção de acumular para si mesmo um tesouro de recordações para a velhice, se chegar até lá; porque os velhos esquecem tudo. Escreverá também para os que caminham na mesma rua com ele, e se alegrará vendo crescer as tenras plantas. (...)


Excertos de Fedro, in Platão, Diálogos, Ménon – Banquete – Fedro. Trad. Jorge Paleikat, 8a. ed. Porto Alegre: Globo, 1954, p. 255-259.

Esta é talvez a primeira reflexão que se registrou, atribuída a um filósofo – Sócrates – sobre o nascimento da escrita e suas conseqüências para a memória, para o conhecimento e para sua difusão. A origem da escrita muitas vezes é associada a um dom divino, mas os historiadores da escrita fazem, em geral, uma relação de seu nascimento com o desenvolvimento da agricultura e do embrião de estado, com sua administração e contabilidade.

Numa sociedade em trânsito do oral ao escrito, como a grega clássica, onde, com a criação, lá, do alfabeto pleno, com vogais, começam a ampliar-se as práticas de escritas e de leituras, as reflexões atribuídas a Sócrates indicam que, para ele, a escrita traria dois grandes inconvenientes: o primeiro, a perda da memória interna, e o outro, a possibilidade de transmissão de um conhecimento estático e, pior ainda, sem que seu autor pudesse saber se o leitor que teria acesso a ele saberia entende-lo corretamente.

Certamente, seriam resistências de uma cultura baseada na oralidade diante de uma nova tecnologia intelectual, a mais importante da sociedade humana em toda a sua história, a escrita, que iria provocar grandes transformações nas práticas culturais em todas as sociedades por onde, de uma ou outra forma, se estabeleceu, criando o indivíduo, a noção de tempo linear e a idéia de progresso, dentre outras importantes mudanças.

E você, rara leitora ou leitor, já refletiu sobre as diferenças entre as práticas de saber existentes em uma cultura oral, como as de nossos indígenas, por exemplo, e aquelas onde há a presença da escrita como forma de registro e comunicação? Tem alguma história para contar sobre a sabedoria tradicional de uma cultura oral? Ou de alguma pessoa que não chegou a alfabetizar-se?

Faça seu comentário. E releia depois o Fedro inteiro, claro!

4 comentários:

João Batista de Andrade disse...

CADÊ O COMENTÁRIO QUE POSTEI SOBRE O VERBO ESCRITO E O VERBO FALADO.

Aníbal Bragança disse...

Caro João Batista,
algo de errado aconteceu na postagem anterior que você fez, pois não chegou. Terá sido algum capricho da máquina?
Peço-lhe que o envie de novo. Fico muito contente com sua participação.
Um abraço,
Aníbal

João Batista de Andrade disse...

EU DIZIA QUE HÁ MESMO UMA FORTE DIFERENÇA ENTRE O DITO ORAL E O DITO ESCRITO.
TIVE EXPERIÊNCIAS TERRÍVEIS COM ISSO.PRINCIPALMENTE QUANDO FUI DIRETOR DO CURSO SIG E MAIS TARDE QUANDO CHEFIEI A DEFESA CIVIL.
ESCREVIA UMA COISA E O PESSOAL ENTENDI OUTRA.
QUANDO EU FALAVA PESSOALMENTE NINGUÉM DEIXAVA DE ENTENDER.
É QUE A VOZ MODULA ATÉ UM NÃO A PONTO DE A NEGATIVA SE TORNAR ACEITÁVEL.
FUI POR AÍ...

Roberto Berlinck disse...

Prezado Aníbal,
Bela citação. Eu a conheci nesta semana, lendo o livro "What is Life?", por Margulis e Sagan (filho de Carl).