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sábado, 4 de outubro de 2008

Livros aos montes!, 2

Livros recebidos ou adquiridos, à espera, na pilha do blogueiro:


Mercados globais, histórias nacionais. Anuário Obitel 2008 (Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva). Maria Immacolata Vassalo de Lopes e Lorenzo Vilches, organizadores. S. Paulo: Globo Universidade, 2008, 359 p.
www.redeglobo.com.br

Antropologia do espelho. Uma teoria da comunicação linear e em rede.
Muniz Sodré. Petrópolis: Vozes, 2002, 268 p.
www.vozes.com.br

História do pensamento comunicacional, José Marques de Melo. S. Paulo: Paulus, 2003, 373 p.
www.paulus.com.br

180 anos do Jornal do Commercio 1827-2007. De D. Pedro I a Luiz Inácio Lula da Silva, de Cícero Sandroni. Rio de Janeiro: Quorum, 2007, 575 p. Ilustrado. Uma história da imprensa através de um de seus mais importantes veículos.
www.quorumeditora.com

Imprensa e poder na corte Joanina. A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1821). Juliana Gesuelli Meirelles. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2008, 252 p. Prêmio Dom João VI de Pesquisa, 2007.

A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822): Cultura e Sociedade. Maria Beatriz Nizza da Silva. Rio de Janeiro. EdUERJ, 2007, 288 p.
www.eduerj.uerj.br

Imprensa brasileira. Personagens que fizeram história, vol. 3. José Marques de Melo, organizador. S. Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo ; S. Bernardo do Campo (SP): Universidade Metodista de S. Paulo, 2008, 304 p.
www.imprensaoficial.com.br

Páginas de sensação. Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924), de Alessandra El Far, edição da Companhia das Letras, 2004, 373 p. Uma
importante contribuição à história do livro no Brasil, onde desponta a Livraria do Povo, de Pedro Quaresma. Saiba mais:
www.livroehistoriaeditorial.pro.br/pdf/alessandraelfar.pdf
www.companhiadasletras.com.br

São Paulo, Espaço e História. Marisa Midori Deaecto, Lincoln Secco, Marcos Silva e Raquel Glezer, organizadores. S. Paulo: LCTE, 2008, 222 p.
www.lcte.com.br

Crítica e movimentos estéticos. Configurações discursivas do campo literário, organizado por Celima Maria Moreira de Mello e Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina. Edição da 7letras, do Rio de Janeiro, 2006, 223 p. Dentre outros, um belo texto de Armando Gens, “A trajetória do poeta B. Lopes em perspectiva crítica”.
www.7letras.com.br

De sombras e vilas. Poesia. Cláudio Neves. Rio de Janeiro: 7letras, 2008,111 p.
www.7letras.com.br

As conseqüências do letramento. Jack Goody e Ian Watt. Tradução de Waldemar Ferreira Netto. S. Paulo: Paulistana, 2006, 77 p.

Você, raro leitor, já leu algum destes livros que estão na pilha da mesa deste blogueiro à espera de uma leitura de verdade, como merecem? Convido-o a publicar aqui algum comentário ou nota que deseje fazer. Isso certamente compensará a falta (talvez temporária) do meu. Até a um próximo Livros aos montes!

sábado, 31 de maio de 2008

O credo de um poeta, de Jorge Luís Borges

Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia. A princípio, certamente, eu era apenas um leitor. Porém acho que a felicidade de um leitor está além da de um escritor, pois o leitor não precisa experimentar aflição nem ansiedade: seu negócio é simplesmente a felicidade. E a felicidade, quando se é leitor, é freqüente. Assim, antes de passar a discorrer sobre minha produção literária, gostaria de dizer umas palavras a respeito dos livros que foram importantes para mim. Sei que essa lista abundará em omissões, tal como todas as listas. Aliás, o perigo de compor uma lista é que as omissões sobressaem e as pessoas nos tomam por insensível.

Falei alguns momentos atrás das Mil e um noites de Burton. Na verdade, quando penso nas Mil e uma noites não penso naqueles vários volumes, pesados e pedantes (ou antes empolados), mas nas que posso chamar as verdadeiras Mil e uma noitesas Mil e uma noites de Galland e, talvez, de Edward Willliam Lane.

In “O credo de um poeta”, Esse ofício do verso, tradução de José Marcos Macedo. S. Paulo: Cia. das Letras, 2000, p. 106.

O pequeno e belo livro Esse Ofício do Verso, organizado por Calin-Andrei Mihailescu, traz os textos de palestras de Jorge Luís Borges feitas em inglês na Universidade de Harvard, em 1967-1968. Ler todo o livro é conhecer a “leveza e elegância” com que um dos maiores escritores contemporâneos trata de temas ligadas à escritura e à leitura, aos “enigmas da língua e da literatura”. No capítulo O credo de um poeta, através das referências que faz aos livros mais importantes em sua formação, cara leitora, teremos um roteiro excepcional para leituras que trazem felicidade. Sobre as traduções de As mil e uma noites, devemos lembrar que já saíram, pela Globo, os primeiros volumes da primeira tradução brasileira feita diretamente do árabe, do professor da USP, Mamede Jarouche, que inclui manuscritos nem sempre incluídos nas traduções anteriores.

sábado, 2 de junho de 2007

A leitura em A Arte dos Ociosos, Hermann Hesse

... Para que os possíveis artistas entre os leitores, em vez de se dedicarem metodicamente à prática do ócio, não se afastem decepcionados de mim, como de um charlatão, farei, a seguir, um resumo de minha primeira fase de aprendizado no templo dessa arte.

1. Certo dia fui apanhar, movido por um vago pressentimento, na biblioteca, as edições completas, em alemão, de As mil e uma noites e das Viagens de Sajed Batthal [épico persa medieval] e me enfronhei na leitura dessas obras, descobrindo, depois de um breve satisfação inicial e de um dia de leitura, que ambas eram enfadonhas.

2. Pensando sobre as causas dessa frustração, percebi, finalmente, que esses livros só podem ser lidos com prazer quando estamos deitados ou, pelo menos, sentados no chão. No Ocidente, a cadeira de espaldar vertical tira-lhes todo o efeito. Ao mesmo tempo pude, pela primeira vez, entender a perspectiva completamente modificada do espaço e dos objetos que se observa a partir da posição deitada ou acocorada.

3. Em breve descobri que o efeito do ambiente oriental era duas vezes mais poderoso quando, deixando a leitura, me tornava ouvinte (embora o narrador, neste caso, tivesse de se deitar ou acocorar).

4. A leitura, por mim daí por diante racionalmente praticada, deu-me um sentimento de resignação, de ouvinte, e em breve a condição de poder ficar, também sem a leitura, durante horas imóvel e dedicar minha atenção a objetos aparentemente sem importância (aerodinâmica do vôo dos mosquitos, rítmica das partículas de pó sob o efeito da luz solar, metódica das ondas luminosas etc.).

Com isso desenvolveu-se em mim uma crescente admiração pela pluralidade dos acontecimentos e um total, tranqüilizante olvido de meu ser, ponto de partida para que eu conseguisse habituar-me a um benéfico far niente, que nunca me entediou.

Trata-se, contudo, apenas de um começo. Outros irão escolher outros caminhos para, durante algumas horas, do estado consciente mergulhar no auto-esquecimento, tão necessário para um artista e tão difícil de ser alcançado.

Se minha experiência puder seduzir um eventual mestre do lazer, no Ocidente, a me explicar o seu sistema, ter-se-ia cumprido o meu mais acalentado desejo.

In A arte dos ociosos, tradução de Paul Schenetzer e Mathilde Latja, Rio de Janeiro, Record, s/d, p. 12-3. ISBN 85-1-008409-2

Este breve trecho do livro que Herman Hesse [2/7/1877-9/8/1962] apresentou [em 1932] como uma reunião de “artigos ocasionais – alegres, imaginosos e, às vezes, ligeiramente humorísticos – escritos intencionalmente na linguagem coloquial folhetinesca”, remete-nos à importância do estudo das práticas sociais de leitura e, mais ainda, à permanência das características das criações da cultura oral mesmo após serem transcritas para texto e difundidas em culturas letradas. E, por fim, mas não menos importante, para algo que temos, muitos de nós, rara ou raro leitor, esquecido, voluntária ou involuntariamente: a importância do cultivo do ócio para a criação artística e para o bem-viver. O que pensa você sobre isso?

Mais informações sobre o admirável escritor Prêmio Nobel de Literatura de 1946: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermann_Hesse

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Linha Mestra – Revista digital – Já disponível o número 2

Publicada pela Associação de Leitura do Brasil (ALB) é dedicada, em especial, a questões relativas às práticas de leitura e educação em nosso país.

Índice:
CAPA: "Menino Lendo" - Samuel John Peploe (1871-1935), Escócia
EDITORIAL - A importância de Chartier, Conselho Editorial
RETINAS - As retinas (im)pertinentes de Bakunin
ENTREVISTA - Estação da Leitura, Maria Afonsina Ferreira Matos
DEPOIMENTO - O CELIJ de Presidente Purdente, Renata Junqueira de Souza
IMAGEM - Leitura na retina de Michelangelo
POEMA - Prova de Francês, Maria do Rosário Mortatti
CONTO - Receita, Ana Elisa Ribeiro
ARTIGO 1 - Reflexões sobre a inserção na cultura digital, Daniela Perri Bandeira de Albuquerque
ARTIGO 2 - Notas de estudo: a história cultural e as possibilidades de pesquisa leitura, Carlos Humberto Alves Corrêa
LANÇAMENTO - Não-violência em educação, Jean Marie Muller

Mais uma excelente contribuição da ALB www.alb.com.br .
Vale a pena conferir: http://www.alb.com.br/pag_revista.asp

sábado, 5 de maio de 2007

Leitura nas Confissões de Santo Agostinho (354-430)

Confissões VI: O trabalho de Ambrósio

(...) No pouquíssimo tempo em que não estava com eles, [Ambrósio} refazia o corpo com o alimento necessário, ou o espírito com a leitura.

Mas, quando lia, os olhos divagavam pelas páginas e o coração penetrava-lhes o sentido, enquanto a voz e a língua descansavam. Nas muitas vezes em que me achei presente – porque a ninguém era proibida a entrada, nem havia o costume de lhe anunciarem quem vinha –, sempre o via ler em silêncio e nunca doutro modo.

Assentava-me e permanecia em longo silêncio – quem é que ousaria interrompê-lo no seu trabalho tão aplicado? –, afastando-me finalmente. Imaginava que, nesse curto espaço de tempo, em que, livre do bulício dos cuidados alheios, se entregava a aliviar a sua inteligência, não se queria ocupar de mais nada. Lia em silêncio, para se precaver, talvez, contra a eventualidade de lhe ser necessário explicar a qualquer discípulo, suspenso e atento, alguma passagem que se oferecesse mais obscura no livro que lia. Vinha assim a gastar mais tempo neste trabalho e a ler menos tratados do que desejaria. Ainda que a razão mais provável de ler em silêncio poderia ser para conservar a voz, que facilmente lhe enrouquecia. Mas, fosse qual fosse a intenção com que o fazia, só podia ser boa, como feita por tal homem. (...)

In Santo Agostinho, Confissões, trad. de J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S.J. S. Paulo: Abril, 1973, 1a. ed., p. 111. Coleção Os Pensadores, v. VI.

Oferecemos a você, rara ou raro leitor, um pequeno excerto da obra de Santo Agostinho muito citado pelos historiadores da leitura quando se querem referir aos primeiros registros da leitura feita em silêncio, tão comum hoje que parece ter sido sempre assim, mas que durante séculos e em muitas práticas sociais em diferentes culturas foi feita em voz alta, para proveito do próprio leitor, por vezes, também, do autor do texto, de discípulos ou de condiscípulos, de quem não sabia ler etc. Na época Agostinho sentiu necessidade de justificar a prática de seu mestre.

Post-scriptum:

Santo Agostinho nasceu em 13 de novembro de 354, em Tagaste (hoje Souk-Ahras), na Argélia; morreu em 28 de agosto de 430, em Hipna (hoje Annaba, na Argélia). Cresceu no norte da África colonizado por Roma e foi educado em Cartago. Foi professor de retórica em Milão, em 383. Converteu-se ao cristianismo pela pregação de Ambrósio de Milão. Em 396 foi nomeado bispo assistente de Hipona (com o direito de sucessão em caso de morte do bispo corrente), e permaneceu como bispo de Hipona até sua morte em 430, durante o cerco de Hipona pelos Vândalos. No mesmo volume da coleção Os Pensadores citado está incluído o belo livro de Santo Agostinho, De magistro (Do mestre), que se inicia com o capítulo "Finalidade da linguagem", seguido de outros como, "O homem mostra o significado das palavras só pelas palavras", "Se devemos preferir as coisas, ou o conhecimento delas, aos seus sinais", "Se é possível ensinar algo sem sinais. As coisas não se aprendem pelas palavras" etc. Animou-se a procurar o volume no seu sebo preferido?

Comece a ler mais de e sobre Santo Agostinho na Wikipédia - a enciclopédia livre -, de onde extraímos as referências acima:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_de_Hipona

terça-feira, 24 de abril de 2007

A leitura e as palavras nos poemas de Maria Helena Latini

Leitura

Linhas escritas:
fios de alta-tensão,
repouso de passarinho.

Cortante

Pa – la – vra
Vra – vra –vra
Era vidro mastigado puro
Doía. Ainda dói quando lembro.
Amor ferido sangrado
Solidão. Escuro. Quietude.
E aquele frio
O corte
A cicatriz
Di – la – ce – ra – ção.
Fragmentos
Palavras vras – vras – vras.
Vidro moído.

Sucata para fazer pipa

As palavras trituradas em vidro
colei-as uma a uma
E do gume de estiletes
aprontei fina envergadura
de cruz e sustentação

para o meu papel de seda.

Requinte

Eu quero a elegância
da palavra “aspargo”
e uma mesa ornada
lírios brancos
hastes túrgidas
candelabros
linho fino.

In Fio de prumo. Rio de Janeiro: 7letras, 2006.
www.7letras.com.br

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Entre a oralidade e a escrita, Sócrates, segundo Platão

(...)
- Sócrates: Bem, ouvi dizer que na região de Náucratis, no Egito, houve um dos velhos deuses daquele país, um deus a que também é consagrada a ave chamada Íbis. Quanto ao deus, porém, chamava-se Thoth. Foi ele que inventou os números e o cálculo, a geometria e a astronomia, o jogo de damas e os dados, e também a escrita. Naquele tempo governava todo o Egito, Tamuz, que residia ao sul do país, na grande cidade que os egípcios chamam Tebas do Egito, e a esse deus davam o nome de Ámon.

Thoth foi ter com ele e mostrou-lhe as suas artes, dizendo que elas deviam ser ensinadas aos egípcios. Mas o outro quis saber a utilidade de cada uma, e enquanto o inventor explicava, ele censurava ou elogiava, conforme essas artes lhe pareciam boas ou más. Dizem que Tamus fez a Thoth diversas exposições sobre cada arte, condenações ou louvores cuja menção seria por demais extensa.

Quando chegaram à escrita, disse Thoth: Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.

Responde Tamuz: Grande artista Thoth! Não é a mesma cousa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal cousa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos.

Logo, tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites para teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em conseqüência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.

- Fedro: Com que facilidade, Sócrates, inventas histórias egípcias assim como de outras terras, quando isso te apraz!
(...)
- Sócrates: O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das cousas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma cousa.

Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita de auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.
(...)
- Sócrates: Tu bem vês que aquele que conhece o justo, o bom e o verdadeiro não irá escrever na água essas cousas, nem usará um caniço [papiro] para semear os seus discursos, pois eles se mostrarão incapazes de ensinar eficientemente a verdade.

- Fedro: Provavelmente não fará isso.
- Sócrates: Claro que não. Naturalmente, semeará nos jardins literários apenas por passatempo. Se escrever, será na intenção de acumular para si mesmo um tesouro de recordações para a velhice, se chegar até lá; porque os velhos esquecem tudo. Escreverá também para os que caminham na mesma rua com ele, e se alegrará vendo crescer as tenras plantas. (...)


Excertos de Fedro, in Platão, Diálogos, Ménon – Banquete – Fedro. Trad. Jorge Paleikat, 8a. ed. Porto Alegre: Globo, 1954, p. 255-259.

Esta é talvez a primeira reflexão que se registrou, atribuída a um filósofo – Sócrates – sobre o nascimento da escrita e suas conseqüências para a memória, para o conhecimento e para sua difusão. A origem da escrita muitas vezes é associada a um dom divino, mas os historiadores da escrita fazem, em geral, uma relação de seu nascimento com o desenvolvimento da agricultura e do embrião de estado, com sua administração e contabilidade.

Numa sociedade em trânsito do oral ao escrito, como a grega clássica, onde, com a criação, lá, do alfabeto pleno, com vogais, começam a ampliar-se as práticas de escritas e de leituras, as reflexões atribuídas a Sócrates indicam que, para ele, a escrita traria dois grandes inconvenientes: o primeiro, a perda da memória interna, e o outro, a possibilidade de transmissão de um conhecimento estático e, pior ainda, sem que seu autor pudesse saber se o leitor que teria acesso a ele saberia entende-lo corretamente.

Certamente, seriam resistências de uma cultura baseada na oralidade diante de uma nova tecnologia intelectual, a mais importante da sociedade humana em toda a sua história, a escrita, que iria provocar grandes transformações nas práticas culturais em todas as sociedades por onde, de uma ou outra forma, se estabeleceu, criando o indivíduo, a noção de tempo linear e a idéia de progresso, dentre outras importantes mudanças.

E você, rara leitora ou leitor, já refletiu sobre as diferenças entre as práticas de saber existentes em uma cultura oral, como as de nossos indígenas, por exemplo, e aquelas onde há a presença da escrita como forma de registro e comunicação? Tem alguma história para contar sobre a sabedoria tradicional de uma cultura oral? Ou de alguma pessoa que não chegou a alfabetizar-se?

Faça seu comentário. E releia depois o Fedro inteiro, claro!

quinta-feira, 5 de abril de 2007

De quem reclamar?, André Lara Resende

O ritmo da vida moderna não nos deixa tempo para nada por inteiro. A leitura também é fragmentada. É difícil ler do início ao fim. Passa-se os olhos, lê-se em diagonal, para saber do que se trata.

Ando lendo muito picado. Desde que começaram a ser publicados pela Companhia das Letras, tenho sempre algum livro de Nelson Rodrigues na cabeceira e na pasta. Não há leitura mais compatível com o tempo restrito e a toda hora interrompido.

Parágrafos iniciais do artigo com o título acima, Folha de São Paulo, 19/3/1996, 1º caderno, p. 2 – Opinião.

O artigo já tem mais de 10 anos e o ritmo da vida não desacelerou. Você conseguiu ler algum livro inteiro este ano? Mais de um? Quantos? Ou também você, como eu e o ex-presidente do BNDES, também anda lendo muito picado, cara e caro leitor? Faça seu comentário.

sábado, 31 de março de 2007

Felicidade clandestina, de Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. (...)

In Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p. 7ss.

Você, rara ou raro leitor, pertence à geração dos filhos de Monteiro Lobato? Ou à dos leitores de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da Clarice? Fico pensando se Reinações de Narizinho poderá ter sido um tipo de Harry Porter da infância de Clarice, que os leitores, infantes e jovens, ficavam com desejo de comprar diante das vitrines das livrarias ou, ansiosos, esperavam chegar sua vez de ler na biblioteca. O que acha disso?

Você tem alguma estória de uma felicidade clandestina pra (nos) contar?

O que você acha que mudou ou não mudou nas práticas de leitura de livros?

Vale procurar na estante ou num sebo o Felicidade clandestina para reler esse e os outros contos de nossa escritora maior. Mas se gostar de livro com cheirinho de novo, na próxima visita à livraria, procure-o. E, após passar pelo caixa - lembre-se! -, saia “andando bem devagar” e leia-o calmamente em casa.

Há hoje um outro meio. Busque-o no Google e releia-o agora mesmo. E faça o seu comentário.

Foto: http://br.geocities.com/claricegurgelvalente/12_fotografias.htm

terça-feira, 20 de março de 2007

Dos progressos do espírito humano, por Condorcet (1743-1794)

.............
Não se suspeitava que os direitos dos homens estivessem escritos no livro da natureza e de que era preciso evitar consultar outros. Era nos livros sagrados, nos autores respeitados, nas bulas dos papas, nos rescritos dos reis, nas compilações dos costumes, nos anais das igrejas, que se procuravam as máximas ou os exemplos dos quais podia ser permitido extrair conseqüências. Não se tratava de examinar um princípio em si mesmo, mas de interpretar, de discutir, de destruir ou de fortificar, por outros textos, aqueles nos quais eles se apoiavam. Não se adotava uma proposição porque ela era verdadeira, mas porque ela estava escrita em tal livro; e porque ela tinha sido admitida em tal país e desde tal século.

Assim, em todas as partes, a autoridade dos homens tinha substituído a autoridade da razão. Estudavam-se os livros muito mais do que a natureza, e as opiniões dos antigos antes que os fenômenos do universo. Esta escravidão do espírito, na qual não se tinha ainda nem mesmo o recurso de uma crítica esclarecida, foi então mais nociva aos progressos do espírito humano, pela direção que ela dava aos espíritos do que por seus efeitos imediatos. Estava-se tão longe de ter alcançado os antigos que ainda não era hora de procurar corrigi-los ou ultrapassa-los.

Durante essa época, os costumes conservam sua corrupção e sua ferocidade; a intolerância religiosa foi até mesmo mais ativa; e as discórdias civis, as guerras particulares dos senhores substituíram as invasões dos bárbaros. Na verdade, o galanteio dos menestréis e dos trovadores, a instituição de uma cavalaria professando a generosidade e a franqueza, dedicando-se à manutenção da religião e à defesa dos oprimidos, assim como ao serviço das damas, pareciam dever dar mais suavidade, decência e elevação. Mas essa mudança não alcançava a massa do povo, estava limitada às cortes e aos castelos. Disso resultou um pouco mais de igualdade entre os nobres, menos perfídia e crueldade em suas relações entre si; mas seu desprezo pelo povo, a violência de sua tirania, a audácia de sua pilhagem permaneceram
as mesmas; e as nações, igualmente oprimidas, foram igualmente ignorantes, bárbaras e corrompidas.

Este espírito de galanteio, esta cavalaria, devidos em grande parte aos árabes, cuja generosidade natural resistiu por muito tempo, na Espanha, à superstição e ao despotismo, sem dúvida foram úteis: eles difundiram os germes de humanidade que só deviam frutificar em tempos mais felizes; e este foi o caráter geral dessa época de ter disposto o espírito humano para a revolução à qual a descoberta da tipografia devia conduzir, e de ter preparado a terra que as épocas seguintes deviam cobrir com uma colheita tão rica e tão abundante.
*
In “Sétimo período – Desde os primeiros progressos das ciências, quando de sua restauração no Ocidente, até a invenção da tipografia”, capítulo do livro Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano [1793-1794]. Campinas: Ed. da Unicamp, 1991, p. 107-8.

terça-feira, 13 de março de 2007

Leituras, hoje, na Inglaterra

Gastam 16 mil numa vida em livros pra não ler nem a metade
15:15 Estou com 4 livros na cabeceira da minha cama. O 1º que comprei foi 'Emotional Intelligence' do Daniel Goleman. Comecei a ler e tal, mas no meio do caminho resolvi comprar outros 3 livros - 'The Definitive Guide of Body Language', 'Kundalini Tantra' e 'The Media Equation - How People Treat Computers, Television, and New Media Like Real People and Places'. Agora, cada vez que chego em casa, resolvo qual deles vou ler. Ler livro, pra mim, tem muito a ver com o meu humor e assunto de interesse naquele dia.

Mas eu sei que nem todo mundo é assim. Segundo pesquisa realizada aqui, os ingleses gastam mais de R$ 16 mil comprando livros ao longo de suas vidas, mas não terminam de ler nem a metade. Entre as desculpas estão 'cansaço' (48%), 'ver televisão' (46%) e 'jogar no computador' (26%). Sempre existe uma desculpa, né? Na lista dos mais não-lidos de ficção estão 'Harry Potter and the Goblet of Fire', da JK Rowling, 'Os Versos Satânicos', do Salman Rushdie, e 'O Alquimista', do Paulo Coelho. 13/03
Yami Trequesser em Londres
Fonte: Bluebus 13.03.2007
http://www.bluebus.com.br/show.php?p=1&id=75309

Minhas perguntas: Serão desculpas ou justificativas? O que terá de diferente a situação em relação ao Brasil?

sábado, 3 de março de 2007

Ana e o livro na pedra

Foi com esta foto que iniciei o blog. Sem comentários, então. Apenas a imagem, que me parecia dispensar as palavras. Hoje - 24março2007 - revisito a foto de minha querida netinha, Ana, filha de Joana e Pedro, irmã de João Pedro. De novo me encanto com a expressão de curiosidade e interesse infantil pelo objeto livro. Desde que nasceu, Aninha, entre outros presentes, vem ganhando livros. Os primeiros, de pano, para ficarem com ela carinhosamente no berço, onde aprendeu a folhear e descobrir as surpresas que guardam as capas. Hoje ela já está na escolinha e os livros continuam fazendo parte de seu cotidiano. Ela ouve as estorinhas contadas e lidas pela mãe folheando os livros. Carrega-os de um lado para o outro, como mais um brinquedo. Certamente a atenção, o aconchego e o carinho associados às imagens e estórias dos livros deixarão no espírito e no corpo de Aninha um prazer que a fará amar os livros. E as letras, e o papel e a tinta de que são feitos. O avô coruja acha que sim. E ela poderá crescer desenvolvendo potencialidades cognitivas criadas pelo contato com as pessoas e a natureza, com as imagens em movimento do cinema, vídeo e televisão (e do computador) e também com a decifração desses símbolos e representações da vida real e imaginária, as letras, que são depositárias, nos textos, de uma rica tradição da cultura humana, talvez indispensáveis a uma realização plena da existência.
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