sábado, 31 de maio de 2008

O credo de um poeta, de Jorge Luís Borges

Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia. A princípio, certamente, eu era apenas um leitor. Porém acho que a felicidade de um leitor está além da de um escritor, pois o leitor não precisa experimentar aflição nem ansiedade: seu negócio é simplesmente a felicidade. E a felicidade, quando se é leitor, é freqüente. Assim, antes de passar a discorrer sobre minha produção literária, gostaria de dizer umas palavras a respeito dos livros que foram importantes para mim. Sei que essa lista abundará em omissões, tal como todas as listas. Aliás, o perigo de compor uma lista é que as omissões sobressaem e as pessoas nos tomam por insensível.

Falei alguns momentos atrás das Mil e um noites de Burton. Na verdade, quando penso nas Mil e uma noites não penso naqueles vários volumes, pesados e pedantes (ou antes empolados), mas nas que posso chamar as verdadeiras Mil e uma noitesas Mil e uma noites de Galland e, talvez, de Edward Willliam Lane.

In “O credo de um poeta”, Esse ofício do verso, tradução de José Marcos Macedo. S. Paulo: Cia. das Letras, 2000, p. 106.

O pequeno e belo livro Esse Ofício do Verso, organizado por Calin-Andrei Mihailescu, traz os textos de palestras de Jorge Luís Borges feitas em inglês na Universidade de Harvard, em 1967-1968. Ler todo o livro é conhecer a “leveza e elegância” com que um dos maiores escritores contemporâneos trata de temas ligadas à escritura e à leitura, aos “enigmas da língua e da literatura”. No capítulo O credo de um poeta, através das referências que faz aos livros mais importantes em sua formação, cara leitora, teremos um roteiro excepcional para leituras que trazem felicidade. Sobre as traduções de As mil e uma noites, devemos lembrar que já saíram, pela Globo, os primeiros volumes da primeira tradução brasileira feita diretamente do árabe, do professor da USP, Mamede Jarouche, que inclui manuscritos nem sempre incluídos nas traduções anteriores.

2 comentários:

Regina Fernandes disse...

Olá Anibal foi um prazer te encontrar escrevendo textos inteligentes e agradáveis, como sempre o fez.
Estou indicando seu blog no meu (Razão e Loucura). Depois apareça por lá. Vamos manter contato.
Abração

Aníbal Bragança disse...

Querida Regina,
receber sua mensagem, visitar seus blogs, ler seus textos, ver sua foto foi uma dádiva neste domingo chuvoso e calmo.
Você me fez viajar no tempo... até à Diálogo, à rua Tiradentes, ao seu sorriso constante com ar travesso e alegre, à nossa juventude. E que travessia pela maturidade... estou encantado com seus escritos e sua generosidade expressa nos dois blogs.

Razão e loucura
http://razaoeloucura.blogspot.com/
"As coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão". (Gide)
Traços e laços
http://traoselaos.blogspot.com/

Que possamos renovar nosso encontro e nossos diálogos.
Um carinhoso e fraterno abraço,
Aníbal