quinta-feira, 5 de junho de 2008

No Dia Internacional do Meio Ambiente, poemas de Drummond



Evocação

À sombra da usina, teu jardim
Era mínimo, sem flores.
Plantas nasciam, renasciam
para não serem olhadas.

Meros projetos de existência,
desligavam-se de sol e água,
mesmo daquela secreção
que em teus olhos se represava.

Ninguém te viu quando, curvada,
removias o caracol
da via estreita das formigas,
nem sequer se ouviu teu chamado.

Pois chamaste (já era tarde)
e a voz da usina amorteceu
tua fuga para o sem-país
e o sem tempo. Mas te recordo

e te alcanço viva, menina,
a planejar tão cedo o jardim
onde estás, eu sei, clausurada,
sem que ninguém, ninguém te adivinhe.



Declaração de amor

Minha flor minha flor minha flor. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Minha peônia. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Flor flor flor. Floramaralílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha. Catléia delfínio estrelítzia. Minha hortensegerânea.Ah, meu nenúfar. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu ciclâmen. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha. Daliabegônia minha. Forsitiaíres tuliparrosa minhas. Violeta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.


A folha

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

In A paixão medida, 3a. edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981. Capa e ilustrações de Luís Trimano.



A imagem da capa e, especialmente, a da dedicatória (que alegra meu coração e que devo a Marly Medalha, amiga do Poeta), pretendem marcar a saudade de Drummond, sempre atento à natureza e mais ainda aos homens, ao seu tempo e ao país. Que falta faz não termos Carlos Drummond de Andrade escrevendo suas crônicas no jornal. Os dias que correm no Brasil certamente seriam menos tristes e mais belos. E talvez, quem sabe, a criminosa destruição da Amazônia seria punida e contida. E até a ministra Marina Silva estaria prestigiada e não defenestrada. Quem sabe? Também neste Dia Internacional do Meio Ambiente, que falta faz o Poeta!

5 comentários:

Henrique Chaudon disse...

Amigo Aníbal:
Hoje é o terceiro da Lua Nova, a mais bela, e nos brindas com os versos do Poeta medindo-se pela Natureza, que foi, e continua a ser, a grande medida.Obrigado.
Penso que a tristeza do Poeta seria imensa nestes tempos de 'créditos de carbono'...
Abraço do seu leitor.

lucia disse...

Que linda poesia vou leva-la comigo...so mesmo a poesia para falar com propriedade neste dia.

Conceição disse...

Querido poeta!
Lindas poesias mesmo
PObre do nosso planeta, tao agredido, e a Mãe natureza sabe dar a resposta a altura e as consequencias ja sabemos quais sao.
beijos

Regina Fernandes disse...

Olá Anibal
Lendo com atraso suas postagens me deparo com o poeta Drummond. Que escolha admirável!Deixo aqui para você "Memória", um dos meus prediletos.
Abraços


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

sérgio disse...

Bela homenagem poética à nossa TERRA ressequida!