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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Meu encontro com o sino, Geir Campos



Das igrejas o que melhor recordo são meus contatos (não religiosos) com os sinos, por exemplo.

Havia então em Campos três igrejas mais ou menos próximas, no centro da cidade: duas na Praça de São Salvador, e uma na então Rua da Constituição. E era nos meses de novenas, principalmente, em maio sobretudo, que lá íamos, eu e outros meninos, tocar os sinos para a altissonante convocação dos fieis.

Não havia, em nosso gesto – mais para a brincadeira – a menor intenção sagrada. Em vez disso, o que havia era pura vocação lúdica: puxar as cordinhas dos sinos, dois ou três em cada torre, fazendo-os bimbalhar ao nosso gosto, ou afinal pendurar-nos à corda grossa do sino maior, levando-o a girar num redobro que, para nós, nada poderia ser de lúgubre ou melancólico.
(...)

Tudo isso estava já longe, arquivado na mais doce das lembranças, quando, numa véspera de Natal, minha irmã caçula chegou da rua e colocou em cima da mesa, onde a família acabava de almoçar, um pequeno sino de papelão, que lhe haviam dado de presente, recheado de bombons.

Fiquei olhando aquele sino de brinquedo, fazendo força para pensar em outra coisa; mas sem poder tirar dele a vista. Toda a infância me ocorreu, naquela contemplação contrafeita, a começar pelas subidas às torres das igrejas campistas; e dei por mim com uns versos forçando a saída, tentando-me com força e dar-lhes forma escrita.
(...)

Lutava eu contra a premência de escrever, contra uma espécie de necessidade orgânica; mas com vontade de não ceder, de largar o lápis e o papel, de esquecer aquilo. No mais, o tema seria banal; dali não poderia sair coisa que se aproveitasse. E eu assim resistia, sabotando descaradamente as Musas, coitadas; e elas teimavam, forçando-me a pegar o lápis e a anotar o que me viesse à cabeça, não importava a caligrafia, aliás horrível...

Com aqueles rabiscos, difíceis – mesmo para mim – de ler, saí para dar uma volta; andei mais de meia hora, à toa. Só o que eu não queria era voltar, para não recomeçar tudo aquilo de novo.

Três ou quatro horas mais tarde, quando eu já me considerava com a digestão completamente feita, retomei os papeis rabiscados e comecei a tentar organizar aqueles rabiscos; o que dele resultou foi o poema intitulado “O sino”, último de meu livro Arquipélago. É um dos poemas mais ‘sofridos’ que escrevi: sofrido fisicamente, organicamente sofrido.

Excerto de “Meu encontro com o sino”, in Bragança, Aníbal e Santos, Maria Lizete dos, org. A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil. Niterói: Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2002, p. 139-141. Para comprar: www.estantevirtual.com.br


Hoje, lembra-me Dora Sodré, Geir faria 86 anos. Deixou-nos uma belíssima obra, composta por livros de poesia (dentre outros, Metanáutica, 1970, e Tarefa, 1981), de contos, como O vestíbulo (2ª. ed., 1979), crônicas, peças de teatro, livros infanto-juvenis, teses, ensaios, traduções etc., que o fizeram um dos marcos da literatura brasileira do século XX. Seu ensaio “Carta aos livreiros do Brasil” (1960) continua sendo a melhor análise da situação então vivida no mercado editorial.

Este registro pretende ser uma homenagem ao escritor admirável, ao cidadão combativo, ao amigo terno, e a todos os seus leitores, a quem recomendamos a Antologia Poética, organizada por Israel Pedrosa, editada por Leo Christiano em 2003, que é quase sua obra poética completa. Acesse http://www.leochristiano.com.br/

Você, rara leitora, conhece a poesia de Geir Campos?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Périplo, de Sávio Soares de Sousa

Abro o livro de Homero e me surpreendo,
anônimo, entre heróis de iluminura,
eu, caipira inocente, de mistura
com gregos e troianos, combatendo.

Incomoda-me o peso da armadura.
Nem mesmo sei se agrido ou me defendo.
E devo confessar: só não me rendo
porque desperto ao cabo da leitura.

Fecho o volume. Saio do aeroporto,
fatigado de errâncias, quase morto.
Ulisses, eu? Meu lema é amor e paz.

Retorno ao lar e, em pouco, estou refeito:
Penélope me aguarda, no seu leito,
e essa história de guerra - nunca mais!

Niterói, 28/11/2008.

Inédito do poeta niteroiense, a sair em seu próximo livro, A penúltipla guerra de Tróia (Poesia Reunida), pela Traço&Photo, previsto para 2009. Fiquemos atentos, pois a poesia de Sávio é sempre boa de saborear.

domingo, 17 de agosto de 2008

Waly Salomão (1943-2003) – A saudade e a lição do poeta


(...)

JMJ - Você disse em certo texto que “saudade” era uma palavra a ser banida do dicionário. Que tipo de relação você mantém com o passado?

WALY – Eu acho que não há uma simbiose assim tão perfeita entre o poeta e a pessoa. Marcel Proust já falava isso. Quer dizer, o escritor é diferente do ser social. No momento em que se está escrevendo, o que move a pessoa a escrever é diferente da vida corriqueira. É como se o escritor fosse uma construção.

Por exemplo, quando você me diz isso da saudade, é também um sentimento de Waly e do poeta. Afinal de contas, eu não tenho essa vida assim tão separada da poesia. Mas me assombrou o termo “banido”, porque aí se vê o um lado terrorista, quase de explosão, como um sentimento.

Há dezenas de pessoas que falam que a palavra da língua portuguesa que não existe em outras línguas é “saudade”. Quer dizer, então, que eu quis realmente dinamitá-la Por isso eu estou me chamando de terrorista. Dinamitar um sentimento do senso comum tão estabelecido que chega até às raias da mitologia. As pessoas falam como se nenhuma outra língua tivesse uma palavra que exprimisse essa sensação. O que está longe de ser verdade, é uma grande mentira.

Muitas outras línguas têm palavras que expressam uma sensação semelhante ao conjunto de sensações englobadas pela palavra “saudade”. Isso não é próprio do português, nem do brasileiro. Então, para que ficar amarrando a nossa burra, a nossa bula, o nosso cavalo nesse mourão da saudade portuguesa? Temos que inventar a mistura que deu no Brasil. Temos que inventar outras saídas bastante originais, fortes e enérgicas para o mundo.

JMJ – Quando você fala, Waly, dá a impressão de que aí tem uma divisão.

WALY – (risos) Eu falo por entre as divisões, eu acho. É nos interstícios delas, é nas frestas delas. Mas, principalmente, eu sinto por entre. Primeiro que eu já começo no meio das coisas, não é? E, de repente, afasto umas divisões e me aproximo de outras.

O poema em que fala em saudade não por acaso se chama “Ars poética, operação limpeza”. E a epígrafe que eu uso nele é de um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos, Sá de Miranda: “assim me tem repartido/ extremos que não entendo”.

A epígrafe já mostra essa divisão, mostra um poeta que se sente doloridamente dividido por extremos, não pelo mediano. Um poeta que nem entende esses extremos que ele é. Mas o que digo que abomino na palavra “saudade” é a meleira, que eu chamo no poema de “enxurro”. (...)

(...)

JMJ – O “paraíso artificial” de Waly é espreguiçar nos braços dos livros?

WALY – É, nisso eu cumpro o verso de Castro Alves que diz “Livros à mancheia”. O que não dá na contracultura ou no movimento hippie é esse culto à ignorância. Eu preciso ler, ler, ler... É como se não me bastasse, como se não tivesse ponto terminal. O meu veículo, o meu ônibus, não tem ponto terminal. Então, estou sempre atrás de novas camadas de leituras, de interpretações do mundo, pois não há uma interpretação finalista do mundo. Eu estou sempre em movimento, buscando novas significações, novos sinais. Eu acho que é assim que o homem tem que ser.

(...)

JMJ – Como Waly vê o autor na divulgação de sua obra? O autor como “marketeiro” de si mesmo?

WALY – O livro está pronto, lavo as minhas mãos. Eu acho que quando se está fazendo um poema não se é um mercador, pois o poema está sendo desdobrado na sua inteireza, na sua pureza, na sua autonomia em relação ao real. Mas, depois do livro pronto, aí já é um objeto, é uma mercadoria no balcão em meio a tantas outras mercadorias. Então, propugno que o autor – e é o que eu faço, ou tento fazer – arregace as mangas e vá vender seu peixe como uma mercadoria como outra qualquer. Isso não o desmerece.
(...)

JMJ – Como fica o “poeta-divulgador” diante dos meios de comunicação de massa, diante da indústria cultural?

WALY – Claro que não vai ter o mesmo aparato mercadológico, competitivo, de um livro de um Paulo Coelho, ou de um livro de um Jorge Amado, de um Umberto Eco. Apesar de tudo, eu acho uma grande alegria, tenho um grande contentamento quando uma pessoa traz um livro meu e pede um autógrafo.

O Jornal do Brasil publicou a resenha do meu livro agora no início de junho. Isso foi muito bom. Eu sou “milionário de contradições”, na expressão maravilhosa de Oswald de Andrade, porque eu mesmo, quando vejo aquela fila enorme que tem tido nos meus lançamentos, fico penetrado de uma sensação de que a pessoa que despendeu 12 ou 15 reais para comprar meu livro vai se decepcionar. Então é muito gratificante. As pessoas que vêem o livro tiram esse ou aquele cabaço da cabeça. Então, eu vejo que a poesia tem essa função ativa no mundo também.

Entrevista concedida a José de Mello Junior (junho de 1996), in Livro Aberto, ano I, nº 1, S. Paulo, agosto de 1996, p. 14-19.

Na busca de recuperar e recolocar em circulação certos textos que ficaram preservados, mas talvez “sepultados” em impressos esgotados, rara leitora, oferecemos excertos de uma entrevista concedida pelo poeta, músico e letrista Waly Salomão, que certamente irá contribuir para nossas discussões e reflexões sobre o ler, escrever e publicar.

Waly Salomão, autor de sucessos inesquecíveis da música popular brasileira, teve uma breve, mas marcante, experiência no Ministério da Cultura, como Secretário Nacional do Livro e da Leitura, no início do primeiro governo de Lula e da gestão do ministro Gilberto Gil, de quem era amigo pessoal. Faleceu pouco tempo depois de ter tomado posse, deixando projetos inacabados e perplexos e tristes muitos de nós, seus admiradores. A seguir, abriu-se um conturbado período na área que dirigira no Ministério da Cultura, que lamentavelmente demorou a se encerrar.

Para saber mais sobre a vida e a obra de Waly Salomão:

Uol Música:
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/waly-salomao.asp

Jornal de Poesia:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/wsalomao.html#heloisa

Jornal Poesia Viva:
http://www.uape.com.br/poesiaViva24/poesia_wally.htm#alto

sábado, 16 de agosto de 2008

Cora Coralina (1889-1985): poemas de formação

“Autobiografia”

Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.

(...)

Numa ânsia de vida eu abria
o vôo nas asas impossíveis
do sonho.

Venho do século passado.
Pertenço a uma geração
ponte, entre a libertação
dos escravos e o trabalhador livre.
Entre a monarquia
caída e a república
que se instalava.

(...)

Tive uma velha mestra que já
havia ensinado uma geração
antes da minha.
Os métodos de ensino eram
antiquados e aprendi as letras
em livros superados de que
ninguém mais fala.

Nunca os algarismos me
entraram no entendimento.
De certo pela pobreza que marcaria
para sempre minha vida.
Precisei pouco dos números.

Sendo eu mais doméstica do
que intelectual.
Não escrevo jamais de forma
consciente e raciocinada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a consciência de ser autêntica.

Nasci para escrever, mas, o meio,
o tempo, as criaturas e fatores
outros, contramarcaram minha vida.

Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora, sendo a Arte culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que estão ligadas a vida e
a saúde humana.

Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.
Sempre houve na família, senão uma
hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.
Talvez, por tudo isso e muito mais,
sinta dentro de mim, no fundo dos meus
reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo.

Sobrevivi, me recompondo aos bocados,
à dura compressão dos
rígidos preconceitos do passado.

(...)

A escola da vida me suplementou
as deficiências da escola primária
que outras o destino não me deu.

Foi assim que cheguei a este livro
sem referências a mencionar.

Nenhum primeiro prêmio.
Nenhum segundo lugar.
Nem menção honrosa.
Nenhuma láurea.

Apenas a autenticidade de minha
poesia arrancada aos pedaços
do fundo da minha sensibilidade,
e este anseio:
procuro superar todos os dias
minha própria personalidade
renovada,
despedaçando dentro de mim
tudo que é velho e morto.
(...)

In Meu livro de cordel. Poemas e crônicas. 1ª. ed. Goiânia (GO): P. D. Araújo – Livraria e Editora Cultura Goiana, 1976, 11-13.


Nasci antes do tempo

Tudo o que criei ou defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?

Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim
acontecia a alguém:
fulano nasceu antes do tempo.
Guardei.

Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
nasci antes do tempo.

Alguém me retrucou:
você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse Amém.


Mestra Silvina

Vesti a memória com meu mandrião balão.
Centrei nas mãos meu vintém de cobre.
Oferta de uma infância pobre, inconsciente, ingênua,
revivida nestas páginas.

Minha escola primária, fostes meu ponto de partida,
dei voltas ao mundo.
Criei meus mundos...
Minha escola primária. Minha memória reverencia minha velha Mestra.
Nas minhas festivas noites de autógrafos, minhas colunas de jornais
e livros, está sempre presente minha escola primária.
Eu era menina do banco das mais atrasadas.

Minha escola primária...
Eu era um casulo feio, informe, inexpressivo.
E ela me refez, me desencantou.
Abriu pela paciência e didática da velha mestra,
cinqüentanos mais do que eu, o meu entendimento ocluso.

A escola da Mestra Silvina...
Tão pobre ela. Tão pobre a escola...
Sua pobreza encerrava uma luz que ninguém via.
Tantos anos já corridos...
Tantas voltas deu-me a vida...

No brilho de minhas noites de autógrafos,
luzes, mocidade e flores à minha volta, bruscamente a mutação se faz.
Cala o microfone, a voz da saudação.

Peça a peça se decompõe a cena,
retirados os painéis, o quadro se refaz,
tão pungente, diferente.

Toda pobreza da minha velha escola
se impõe e a mestra é iluminada de uma nova dimensão.

Estão presentes nos seus bancos
seus livros desusados, suas lousas que ninguém mais vê,
meus colegas relembrados.
Queira ou não, vejo-me tão pequena, no banco das atrasadas.

E volto a ser Aninha,
aquela em que ninguém
acreditava.

Meu epitáfio

Morta... serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.

Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.

Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

In Cora Coralina. Melhores poemas. 2ª. ed., rev. e ampl. Seleção de Darcy França Denófrio. S. Paulo: Global, 2004.

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto, surgiu para o mundo literário nacional em 1980 "pelas mãos" de Carlos Drummond de Andrade quando a apresentou no Jornal do Brasil como “mulher extraordinária, diamante goiano, cintilando na solidão, e que pode ser contemplado, em sua pureza no livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais”, que definiu como um livro “comovedor”. Nessa época já contava Cora Coralina mais de 90 anos de idade. Teve um reconhecimento tardio.

Para conhecer mais da sua obra, dentre outros, há o estudo de Darcy França Denógrio, professora da Universidade Federal de Goiás, responsável pela seleção dos seus Melhores poemas, volume editado pela Global, no qual incluiu o ensaio “Cora dos Goiases”.

Os poemas que ora lhe apresentamos, rara leitora, podem ser testemunho, na sua "autenticidade", de uma formação singular nas artes da escrita no Brasil, fora de seus centros, quando da passagem do século XIX para o XX, na sua modernidade inacabada. Para sempre inacabada.

Para saber mais:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cora_Coralina

terça-feira, 8 de julho de 2008

Vinícius de Moraes: eterno, enquanto dure sua obra

Vinicius de Moraes com Geir Campos, Pablo Neruda e a esposa, Matilde Urrutia. Almoço em Paris, 1957. Foto do arquivo da família de Geir Campos, reproduzida do livro Livraria Ideal, do cordel à bibliofilia, 1999, deste blogueiro
O poeta

Olhos que recolhem
Só tristeza e adeus
Para que outros olhem
Com amor os seus.

Mãos que só despejam
Silêncios e dúvidas
Para que outras sejam
Das suas, viúvas.

Lábios que desdenham
Coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.

Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente.


Poética (I)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

New York, 1950

Ouça Vinícius recitando (parte d)este poema em
http://www.viniciusdemoraes.com.br/poetica.html


Poética (II)

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!

Rio, 1960


Bilhete a Baudelaire

Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
Na velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!

Los Angeles, 1947

Soneto a Pablo Neruda

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor – os dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor – o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!

Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960

Soneto a Vinicius
Pablo Neruda

Vinicius, como el animal herido
Vuelve a buscar su origen, su vertiente,
Este soneto que creí perdido
Vulve a tocar tu pecho transparente.

Durmió tal vez en un remido ruido
O se quemó em la luz del continente.
En Ouro Preto atravesó el olvido
Y despertó el cristal intransigente.

Así otra vez, hermano, há renacido
El soneto elevado y escondido.
Acepta en él la sal y alegría

Que nos lleva en la tierra, mano a mano
A celebrar lo divino y lo humano
Y a vivir de verdad la poesía.

Todos os poemas acima estão na obra de Vinícius de Moraes, Poesia completa e prosa, organizada por Afrânio Coutinho (com assistência do autor), editada pela Nova Aguilar, em 1968 e reeditada em 1974 e reimpressa em 1976 (de onde os retiramos).

Em 1967, a Livraria Diálogo, em Niterói, promoveu uma grande noite de autógrafos a que deu o nome de Noite da Sabiá, pois seria com os autores desta então nova editora criada por Fernando Sabino e Rubem Braga, que sucedia, de certa forma, à Editora do Autor. Esperávamos os autores da casa, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, Rubem Braga, Fernando Sabino e a grande atração na época, o cronista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), que estava fazendo o maior sucesso com o livro FEBEAPÁ (O Festival de Besteiras que Asssola o País), já em plena ditadura militar (mas antes do famigerado AI-5, que é de dezembro de 1968, como quase todos sabem).

Nesse dia falei ao telefone com Clarice (inesquecível para mim), pois havia confirmado e a estávamos esperando, quando disse que não viria mais. Rubem Braga, Fernando Sabino e Stanislaw vieram e a noite foi memorável. Stanislaw escreveu sobre ela uma crônica na Última Hora, onde afirmou (escrevo de memória) que não diria mais que “em Niterói urubu voa de costas!”, como dizia antes para gozar a cidade do outro lado da baía.

A ausência de Vinícius deixou todos, especialmente as jovens – aquelas para quem se cantava "Se você quer ser minha namorada...", para quem vendíamos (mais para os namorados as presentearem) Para uma menina com uma flor, Para viver um grande amor, Livro de Sonetos, além da Antologia Poética, “best-sellers”!, – tristemente decepcionados. Você, rara leitora, acaso esteve na Diálogo nessa noite?

Vinícius, a quem só vimos, de longe, em 1977, no histórico show com Tom Jobim, Toquinho e
Miúcha, no Canecão, foi presença muito marcante, poética, musical e existencial, na nossa geração.

A Vinícius de Moraes (19/10/1913-9/7/1980), que cultivava a beleza, com saudades, este singelo registro ao se completarem 28 anos de ausência. Que viva para sempre sua obra e, na nossa memória, também sua singular forma de vida.
Para saber mais, acesse:

Wikipédia em português:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vin%C3%ADcius_de_Moraes e

O sítio oficial do poeta, “Vinicius de Moraes”:
http://www.viniciusdemoraes.com.br/
onde, inclusive, pode ouvir trechos de seus discos e de seus poemas, ditos pelo próprio.

domingo, 6 de julho de 2008

Vinicius de Moraes: Sobre vida e literatura

A idéia ocorreu-me em março de 1967, quando ganhei pela ...ésima vez, para grande prazer meu, um novo Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de meu velho amigo Aurélio Buarque de Holanda, que nada tem a ver com Sérgio e Chico, mas é, também, homem de muita cachola. Lembro de que era noite, e fiquei folheando-o à toa, e verificando uma vez mais a minha imensa ignorância do nosso léxico. De cada 10 palavras, não sabia o significado de três ou quatro.

É verdade que eram, o mais das vezes, palavras eruditas, de conteúdo científico e – bolas! – eu não sou cientista nem nada. Mas para um escritor, uma tal constatação é, de qualquer forma, humilhante. Passei a ler com mais freqüência o dicionário, como recomendava Gide – o que, aliás, constitui para mim uma ocupação melhor que a leitura desses escritores de best-sellers que andam em voga.

Muitos amigos me têm pedido que escreva as minhas memórias. Fernando Sabino em particular. Fico pensando... Para quê? Parece-me um ato de vaidade, mais que de despudor. Mas, pondera ele – e Oto Lara Resende, já me disse o mesmo – eu percorri um caminho de tal modo vário em experiências, aqui e no estrangeiro, que sonegá-las aos que acreditam no que escrevo, à mocidade em particular, é, de certo modo, uma forma de vaidade maior ainda. Considerando-se, ademais, que minha vida sempre foi, por assim dizer, vivida abertamente...

Não sei. Tenho horror à idéia de tornar-me literário, de começar a redigir no ato de escrever. O que me dificulta, hoje em dia, a leitura dos escritores em geral, com pouquíssimas exceções, é de justamente esse detestável defeito. Mal sinto, em lugar de estilo, o menor maneirismo, a menor fita, largo o livro de mão. Acho-os, na maioria, uns chatos, só contam o que todo mundo já sabe ou logo adivinha. A vida é infinitamente mais rica que suas palavras – e estou certo de que mesmo os mais medíocres são portadores de experiências que nas mãos de um bom romancista ou um bom biógrafo dariam matéria de interesse universal. Pois tudo tem interesse, mesmo o coito de duas moscas, desde que provoque no ser que observa um reflexo vital.

Vale dizer que pouca gente vive: esta é a grande verdade; vive no sentido de queimar-se sem reservas, sem preconceitos, sem atitudes, sem julgamentos canonizados por uma moral convencial imposta. Mas, por outro lado, eu não gostaria de escandalizar. Escandalizar pode ser também uma forma infame de vaidade, um processo auto-complacente de criar uma antimoral como justificação de taras ou fraquezas pessoais.


Não: eu sou um homem que, até certo ponto, venceu as barreiras do medo de viver, e viver é, hoje em dia, para mim, um ato simples, perturbado apenas pelas neuroses conseqüentes do simples ato de viver. A vida, trata-se de cumpri-la bem, sem outro temor que ter de apertar-lhe as rédeas. Ai de mim, que ilusão! – dizer isto na quadra dos cinqüenta, quando os frutos do amor crescem cada vez menos ao alcance das mãos do meu desejo...
(...)
Rio, 17/18-8-1969

In Anteato: “Palavra por palavra” (I), de “Crônicas publicadas no Jornal do Brasil entre 15.6.1969 a 20.10.1969” , in Vinicius de Moraes, Poesia completa e prosa. Ed. org. por Afrânio Coutinho com assistência do autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976, reimpressão da 2a. ed., p. 675-6.

O comentário de meu raro leitor, o poeta e amigo Henrique Chaudon, sobre o que escreveu Herman Hesse sobre livros e leituras, postado aqui ontem, estava na minha cabeça quando pesquisava sobre Vinícius de Moraes, nosso grande poetinha, cujo aniversário de morte é na próxima quarta-feira, dia 9 (lembrou-me a seção que Jourdan Amóra mantém no Jornal de Icaraí de efemérides da semana) – quando completa 28 anos! – e não quero deixá-la passar em branco, pela importância que teve sua obra, e sua vida, na minha e na de muitos companheiros de geração. O resultado desse pequeno e saboroso trabalho – ler e reler textos de Vinicius – estará aqui na quarta.

Este texto acima pretende ser, entretanto, uma resposta ao comentário de Henrique, nas palavras de um poeta que, acima de tudo, viveu intensamente e tinha disso consciência, para além de ser um Escritor.

E você, rara leitora, como sente e pensa a relação entre escritura e vida?

E ainda, sem autobiografia, resta-nos a biografia de Vinicius, O poeta da paixão, escrita por José Castello, editada pela Cia. das Letras, em 1994, com apoio da Fundação Biblioteca Nacional. Ainda não a li (a compra denota essa intenção). O que achou dela o raro leitor que a leu?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Cecília Meireles, poemas

O principiante

Sua mão mal se movimenta,
custa a escorregar pela mesa,
caracol no jardim da ciência,
desenrolando letra a letra
a obscura linha do seu nome.

Ah, como é leve o átomo puro,
e ágil o equilíbrio do mundo,
e rápido, e célere, o curso
do céu, do destino de tudo!

Mas na terra o pálido aluno
devagar escreve o seu nome.

(Em Retrato natural, p. 355-6)


Jornal longe

Que faremos destes jornais, com telegramas, notícias,
anúncios, fotografias, opiniões...?

Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
e o sol empalidece suas letras infinitas.

Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.

De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
“Os jornais servem para fazer embrulhos.”

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.

(Em Mar Absoluto e outros poemas, p. 301)


Comunicação

Pequena lagartixa branca,
ó noiva brusca dos ladrilhos!
sobe à minha mesa, descansa,
debruça-te em meus calmos livros.

Ouve comigo a voz dos poetas
que agora não dizem mais nada,
– e diziam coisas tão belas! –
ó ídolo de cinza e prata!

Ó breve deusa de silêncio
que na face da noite corres
como a dor pelo pensamento,
– e sozinha miras e foges.

Pequena lagartixa – vinda
qara quê? – pousa em mim teus olhos.
Quero contemplar tua vida,
a repetição dos teus mortos.

Como os poetas que já cantaram,
e que já ninguém mais escuta,
eu sou também a sombra vaga
de alguma interminável música.

Pára em meu coração deserto!
Deixa que te ame, ó alheia, ó esquiva...
Sobre a torrente do universo,
nas pontes frágeis da poesia.

(Em Retrato natural, p. 335)

Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente – claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

(Em Vaga música, p. 183)

Hoje, rara leitora, senti falta de poesia no blog e em mim. Tenho pensado nalguns versos imortais de Cecília Meireles – eu não tinha este rosto de hoje – e busquei na belo volume da sua Obra poética, editada pela Nova Aguilar, de 1983, estes poemas que nos falam de escritura, leitura, livros e ternura. Passou. Espero que aprecie.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

No Dia Internacional do Meio Ambiente, poemas de Drummond



Evocação

À sombra da usina, teu jardim
Era mínimo, sem flores.
Plantas nasciam, renasciam
para não serem olhadas.

Meros projetos de existência,
desligavam-se de sol e água,
mesmo daquela secreção
que em teus olhos se represava.

Ninguém te viu quando, curvada,
removias o caracol
da via estreita das formigas,
nem sequer se ouviu teu chamado.

Pois chamaste (já era tarde)
e a voz da usina amorteceu
tua fuga para o sem-país
e o sem tempo. Mas te recordo

e te alcanço viva, menina,
a planejar tão cedo o jardim
onde estás, eu sei, clausurada,
sem que ninguém, ninguém te adivinhe.



Declaração de amor

Minha flor minha flor minha flor. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Minha peônia. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Flor flor flor. Floramaralílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha. Catléia delfínio estrelítzia. Minha hortensegerânea.Ah, meu nenúfar. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu ciclâmen. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha. Daliabegônia minha. Forsitiaíres tuliparrosa minhas. Violeta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.


A folha

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

In A paixão medida, 3a. edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981. Capa e ilustrações de Luís Trimano.



A imagem da capa e, especialmente, a da dedicatória (que alegra meu coração e que devo a Marly Medalha, amiga do Poeta), pretendem marcar a saudade de Drummond, sempre atento à natureza e mais ainda aos homens, ao seu tempo e ao país. Que falta faz não termos Carlos Drummond de Andrade escrevendo suas crônicas no jornal. Os dias que correm no Brasil certamente seriam menos tristes e mais belos. E talvez, quem sabe, a criminosa destruição da Amazônia seria punida e contida. E até a ministra Marina Silva estaria prestigiada e não defenestrada. Quem sabe? Também neste Dia Internacional do Meio Ambiente, que falta faz o Poeta!