terça-feira, 8 de julho de 2008

Vinícius de Moraes: eterno, enquanto dure sua obra

Vinicius de Moraes com Geir Campos, Pablo Neruda e a esposa, Matilde Urrutia. Almoço em Paris, 1957. Foto do arquivo da família de Geir Campos, reproduzida do livro Livraria Ideal, do cordel à bibliofilia, 1999, deste blogueiro
O poeta

Olhos que recolhem
Só tristeza e adeus
Para que outros olhem
Com amor os seus.

Mãos que só despejam
Silêncios e dúvidas
Para que outras sejam
Das suas, viúvas.

Lábios que desdenham
Coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.

Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente.


Poética (I)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

New York, 1950

Ouça Vinícius recitando (parte d)este poema em
http://www.viniciusdemoraes.com.br/poetica.html


Poética (II)

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!

Rio, 1960


Bilhete a Baudelaire

Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
Na velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!

Los Angeles, 1947

Soneto a Pablo Neruda

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor – os dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor – o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!

Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960

Soneto a Vinicius
Pablo Neruda

Vinicius, como el animal herido
Vuelve a buscar su origen, su vertiente,
Este soneto que creí perdido
Vulve a tocar tu pecho transparente.

Durmió tal vez en un remido ruido
O se quemó em la luz del continente.
En Ouro Preto atravesó el olvido
Y despertó el cristal intransigente.

Así otra vez, hermano, há renacido
El soneto elevado y escondido.
Acepta en él la sal y alegría

Que nos lleva en la tierra, mano a mano
A celebrar lo divino y lo humano
Y a vivir de verdad la poesía.

Todos os poemas acima estão na obra de Vinícius de Moraes, Poesia completa e prosa, organizada por Afrânio Coutinho (com assistência do autor), editada pela Nova Aguilar, em 1968 e reeditada em 1974 e reimpressa em 1976 (de onde os retiramos).

Em 1967, a Livraria Diálogo, em Niterói, promoveu uma grande noite de autógrafos a que deu o nome de Noite da Sabiá, pois seria com os autores desta então nova editora criada por Fernando Sabino e Rubem Braga, que sucedia, de certa forma, à Editora do Autor. Esperávamos os autores da casa, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, Rubem Braga, Fernando Sabino e a grande atração na época, o cronista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), que estava fazendo o maior sucesso com o livro FEBEAPÁ (O Festival de Besteiras que Asssola o País), já em plena ditadura militar (mas antes do famigerado AI-5, que é de dezembro de 1968, como quase todos sabem).

Nesse dia falei ao telefone com Clarice (inesquecível para mim), pois havia confirmado e a estávamos esperando, quando disse que não viria mais. Rubem Braga, Fernando Sabino e Stanislaw vieram e a noite foi memorável. Stanislaw escreveu sobre ela uma crônica na Última Hora, onde afirmou (escrevo de memória) que não diria mais que “em Niterói urubu voa de costas!”, como dizia antes para gozar a cidade do outro lado da baía.

A ausência de Vinícius deixou todos, especialmente as jovens – aquelas para quem se cantava "Se você quer ser minha namorada...", para quem vendíamos (mais para os namorados as presentearem) Para uma menina com uma flor, Para viver um grande amor, Livro de Sonetos, além da Antologia Poética, “best-sellers”!, – tristemente decepcionados. Você, rara leitora, acaso esteve na Diálogo nessa noite?

Vinícius, a quem só vimos, de longe, em 1977, no histórico show com Tom Jobim, Toquinho e
Miúcha, no Canecão, foi presença muito marcante, poética, musical e existencial, na nossa geração.

A Vinícius de Moraes (19/10/1913-9/7/1980), que cultivava a beleza, com saudades, este singelo registro ao se completarem 28 anos de ausência. Que viva para sempre sua obra e, na nossa memória, também sua singular forma de vida.
Para saber mais, acesse:

Wikipédia em português:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vin%C3%ADcius_de_Moraes e

O sítio oficial do poeta, “Vinicius de Moraes”:
http://www.viniciusdemoraes.com.br/
onde, inclusive, pode ouvir trechos de seus discos e de seus poemas, ditos pelo próprio.

7 comentários:

Gracinda Rosa disse...

Aníbal
Eu fui uma das muitas pessoas que estiveram na Diálogo no dia 12/12/67.
Era a "Noite da Sabiá", e lá fui eu com o meu FEBEAPÁ na mão, em busca do autógrafo do Sérgio Porto. Era tanta gente, que mal podíamos subir aqueles degraus e nos aproximar dos autores ali presentes. Foi uma noite inesquecível, como tantas outras que você proporcionou aos seus amigos.
Um abraço da Gracinda.

Aníbal Bragança disse...

Gracinda,
que belo testemunho, inclusive com a data exata!
Obrigado.
Em especial pelas palavras generosas de quem compartilhou nessa época os bons momentos na vida literária de Niterói.
E continua hoje presente nela.
Um forte abraço,
Aníbal

Regina Fernandes disse...

Anibal
Que lembrança maravilhosa! O pensamento voou como um passáro sobre a brisa leve da lembrança e chegou lá na Diálogo dos anos sessenta! Quantos bons momentos literários, encontros, papos com amigos. Eu morava ali pertinho, na Visconde de Morais e a livraria era parada obrigatória quando chegava do colégio onde fazia o Curso Normal.Estive presente nessa noite e em muitas outras que trago na memória e no coração.
Abração

Victor Oliveira Mateus disse...

Exmo. Prof. Aníbal Bragança, encontrei hoje, por puro acaso, num blog de um senhor que, ao que eu saiba não lecciona em qualquer
estabelecimento de ensino estatal,
e cuja obra publicada, que eu saiba
também - e aguardo correcção - não
passa de dois ou três meros textos
curtos, encontrei - dizia- uma resposta sua a um pedido de recepção da revista "Poesia Sempre"(li depois o pedido do dito senhor no blog do professor!) pelo facto da mesma trazer um texto de
minha autoria sobre a poesia de
Ramos Rosa de quem sou amigo há
quase uma década, nunca usando eu essa
amizade para bater a qualquer porta, coisa que, felizmente, não preciso. Assim, informo o Exmo. Prof., que o pedido do exemplar da Revista para António Ramos Rosa foi já por mim feito à direcção da mesma, podendo, obviamente, ser enviado um outro para o dito senhor, pois tal não me diz respeito, desde
que isso não seja entendido como incúria da minha parte em qualquer
acto.No meu país cada um organiza essa coisa
a que se chama carreira literária
como melhor entende, no meu caso
específico, não preciso de manter blogues com textos ambíguos e/ou
com informações não confirmadas,
nem de alimentar um insuflado Eu,
que, felizmente, não possuo. Creia, pois, Exmo. Prof., que o exemplar da Revista para Ramos Rosa
continuará a ser por mim pedido,
podendo, no entanto, o indivíduo em questão obter os exemplares que
entender, tal já não me diz respeito. Peço-lhe desculpa pelo
tamanho deste comentário e creia-me
com elevado respeito e a máxima consideração

Victor Oliveira Mateus
(escritor e professor aposentado)

Aníbal Bragança disse...

Prezado Prof. Victor Oliveira Mateus,
o referido senhor não voltou a se comunicar conosco depois de ter feito o pedido da Revista Poesia Sempre, que, por isso, não lhe foi enviada por nosso intermédio, pois sequer indicou o seu endereço postal.
Mas o mesmo senhor poderá ter encaminhado o pedido diretamente à editora da revista. Isso não é da nossa conta, como o senhor diz.
Sobre o nosso Vinícius de Moraes, como professor e escritor, conhece a sua obra?
Cordialmente,
Aníbal Bragança

Victor Oliveira Mateus disse...

Caro Prof., peço-lhe desculpa por
ter ocupado este espaço com algo que vinha a despropósito, mas não me ocorreu outro meio. Quanto a Vinícus, eu sou daqueles que, no
tempo da Ditadura, sabia poemas dele de cor... Foi um poeta que marcou muito a minha geração.
Ainda hoje conservo religiosamente
um CD de uma festa em casa de Amália, onde ele, Natália Correia,
David Mourão-Ferreira, etc., dizem os seus poemas. Não sou um especia-
lista em nada... não passo de um aprendiz de tudo, mas tenho uma grande admiração pela poesia de
Vinícius.
Com os meus respeitos,
Victor Oliveira Mateus

Aníbal Bragança disse...

Prezado Victor,
somos certamente da mesma geração que guarda de Vinicius lembranças ligadas mais que tudo a emoções transmitidas pela palavra poética.
Pode não ser o mesmo que guarda em CD, mas tenho ainda em fita magnética, já gasta e em desuso, um disco em que Amália e Vinícius cantam. Quantas vezes me emocionei ouvindo Saudades do Brasil em Portugal - Saudades de Portugal no Brasil (?)e outras belas canções, gravadas ao vivo, no calor de um encontro amoroso e fraterno!
Gostei muito de conhecer seu blog A Dispersa Palavra, sobre o que escrevo em outra postagem.
Abraço-o cordialmente,
Aníbal