domingo, 6 de julho de 2008

Vinicius de Moraes: Sobre vida e literatura

A idéia ocorreu-me em março de 1967, quando ganhei pela ...ésima vez, para grande prazer meu, um novo Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de meu velho amigo Aurélio Buarque de Holanda, que nada tem a ver com Sérgio e Chico, mas é, também, homem de muita cachola. Lembro de que era noite, e fiquei folheando-o à toa, e verificando uma vez mais a minha imensa ignorância do nosso léxico. De cada 10 palavras, não sabia o significado de três ou quatro.

É verdade que eram, o mais das vezes, palavras eruditas, de conteúdo científico e – bolas! – eu não sou cientista nem nada. Mas para um escritor, uma tal constatação é, de qualquer forma, humilhante. Passei a ler com mais freqüência o dicionário, como recomendava Gide – o que, aliás, constitui para mim uma ocupação melhor que a leitura desses escritores de best-sellers que andam em voga.

Muitos amigos me têm pedido que escreva as minhas memórias. Fernando Sabino em particular. Fico pensando... Para quê? Parece-me um ato de vaidade, mais que de despudor. Mas, pondera ele – e Oto Lara Resende, já me disse o mesmo – eu percorri um caminho de tal modo vário em experiências, aqui e no estrangeiro, que sonegá-las aos que acreditam no que escrevo, à mocidade em particular, é, de certo modo, uma forma de vaidade maior ainda. Considerando-se, ademais, que minha vida sempre foi, por assim dizer, vivida abertamente...

Não sei. Tenho horror à idéia de tornar-me literário, de começar a redigir no ato de escrever. O que me dificulta, hoje em dia, a leitura dos escritores em geral, com pouquíssimas exceções, é de justamente esse detestável defeito. Mal sinto, em lugar de estilo, o menor maneirismo, a menor fita, largo o livro de mão. Acho-os, na maioria, uns chatos, só contam o que todo mundo já sabe ou logo adivinha. A vida é infinitamente mais rica que suas palavras – e estou certo de que mesmo os mais medíocres são portadores de experiências que nas mãos de um bom romancista ou um bom biógrafo dariam matéria de interesse universal. Pois tudo tem interesse, mesmo o coito de duas moscas, desde que provoque no ser que observa um reflexo vital.

Vale dizer que pouca gente vive: esta é a grande verdade; vive no sentido de queimar-se sem reservas, sem preconceitos, sem atitudes, sem julgamentos canonizados por uma moral convencial imposta. Mas, por outro lado, eu não gostaria de escandalizar. Escandalizar pode ser também uma forma infame de vaidade, um processo auto-complacente de criar uma antimoral como justificação de taras ou fraquezas pessoais.


Não: eu sou um homem que, até certo ponto, venceu as barreiras do medo de viver, e viver é, hoje em dia, para mim, um ato simples, perturbado apenas pelas neuroses conseqüentes do simples ato de viver. A vida, trata-se de cumpri-la bem, sem outro temor que ter de apertar-lhe as rédeas. Ai de mim, que ilusão! – dizer isto na quadra dos cinqüenta, quando os frutos do amor crescem cada vez menos ao alcance das mãos do meu desejo...
(...)
Rio, 17/18-8-1969

In Anteato: “Palavra por palavra” (I), de “Crônicas publicadas no Jornal do Brasil entre 15.6.1969 a 20.10.1969” , in Vinicius de Moraes, Poesia completa e prosa. Ed. org. por Afrânio Coutinho com assistência do autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976, reimpressão da 2a. ed., p. 675-6.

O comentário de meu raro leitor, o poeta e amigo Henrique Chaudon, sobre o que escreveu Herman Hesse sobre livros e leituras, postado aqui ontem, estava na minha cabeça quando pesquisava sobre Vinícius de Moraes, nosso grande poetinha, cujo aniversário de morte é na próxima quarta-feira, dia 9 (lembrou-me a seção que Jourdan Amóra mantém no Jornal de Icaraí de efemérides da semana) – quando completa 28 anos! – e não quero deixá-la passar em branco, pela importância que teve sua obra, e sua vida, na minha e na de muitos companheiros de geração. O resultado desse pequeno e saboroso trabalho – ler e reler textos de Vinicius – estará aqui na quarta.

Este texto acima pretende ser, entretanto, uma resposta ao comentário de Henrique, nas palavras de um poeta que, acima de tudo, viveu intensamente e tinha disso consciência, para além de ser um Escritor.

E você, rara leitora, como sente e pensa a relação entre escritura e vida?

E ainda, sem autobiografia, resta-nos a biografia de Vinicius, O poeta da paixão, escrita por José Castello, editada pela Cia. das Letras, em 1994, com apoio da Fundação Biblioteca Nacional. Ainda não a li (a compra denota essa intenção). O que achou dela o raro leitor que a leu?

2 comentários:

Regina Fernandes disse...

Olá Aníbal

Escrever é dar uma resposta à vida através da arte.

Já tive a oportunidade de ler a biografia de Vinicius, escrita por Jose Castello. Percebi um livro com características de romance, mas que narra a historia da vida do Poetinha, desde seu nascimento, passando pelos fatos mais marcantes, seus casamentos, paixões, parcerias e nos mostra suas principais obras, musicas e poesias. As fotos são boas e nos dá o privilegio de compartilhar um pouco da trajetória do grande poeta que foi Vinicius de Moraes.

Regina Fernandes disse...

Voltei!
Esqueci de deixar um abraço e também para dizer que estou sempre atenta ao seu blog que é excelente.
Abração
;)