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domingo, 17 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Os autores e as suas obras, segundo Schopenhauer (1788-1860)
As obras são a quintessência de um espírito; daí elas serem incomparavelmente mais ricas que o contato pessoal, mesmo quando se trata de um grande espírito, as obras acabam por substituí-lo na essência - e, inclusive, o superam largamente e o deixam para trás. Mesmo os escritos de um espírito medíocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e agradáveis, precisamente porque são sua quintessência, o resultado, o fruto de todos os seus pensamentos e estudos; - enquanto a convivência com ele não consegue nos satisfazer. Daí que possamos ler livros de pessoas cuja convivência não nos agradaria e, assim, uma alta cultura espiritual nos leva pouco a pouco a encontrar entretenimento quase exclusivamente com livros e não mais com as pessoas.
In Schopenhauer, Arthur. Sobre livros e leitura / Über lesen und bücher. Trad. de Philippe Humblé e Walter Carlos Costa. Porto Alegre (RS): Paraula, 1993.
Creio que todos os que já publicaram livros compreendem bem o que afirma o filósofo alemão. Na preparação de uma obra busca-se sempre excluir o que é secundário ou imperfeito, em uma luta para alcançar o melhor. Nesse sentido, a obra será sempre superior ao autor, porque ela reflete o melhor que ele tem a oferecer naquele momento. Já a vida não dá pra recortar. Mas não chegaríamos por isso à mesma conclusão de Schopenchauer. Esta a proposta de reflexão ou discussão que lhe propomos, rara leitora. Participe.
In Schopenhauer, Arthur. Sobre livros e leitura / Über lesen und bücher. Trad. de Philippe Humblé e Walter Carlos Costa. Porto Alegre (RS): Paraula, 1993.
Creio que todos os que já publicaram livros compreendem bem o que afirma o filósofo alemão. Na preparação de uma obra busca-se sempre excluir o que é secundário ou imperfeito, em uma luta para alcançar o melhor. Nesse sentido, a obra será sempre superior ao autor, porque ela reflete o melhor que ele tem a oferecer naquele momento. Já a vida não dá pra recortar. Mas não chegaríamos por isso à mesma conclusão de Schopenchauer. Esta a proposta de reflexão ou discussão que lhe propomos, rara leitora. Participe.
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sábado, 4 de outubro de 2008
Livros aos montes!, 2
Livros recebidos ou adquiridos, à espera, na pilha do blogueiro:
Mercados globais, histórias nacionais. Anuário Obitel 2008 (Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva). Maria Immacolata Vassalo de Lopes e Lorenzo Vilches, organizadores. S. Paulo: Globo Universidade, 2008, 359 p.
www.redeglobo.com.br
Antropologia do espelho. Uma teoria da comunicação linear e em rede.
Muniz Sodré. Petrópolis: Vozes, 2002, 268 p.
www.vozes.com.br
História do pensamento comunicacional, José Marques de Melo. S. Paulo: Paulus, 2003, 373 p.
www.paulus.com.br
180 anos do Jornal do Commercio 1827-2007. De D. Pedro I a Luiz Inácio Lula da Silva, de Cícero Sandroni. Rio de Janeiro: Quorum, 2007, 575 p. Ilustrado. Uma história da imprensa através de um de seus mais importantes veículos.
www.quorumeditora.com
Imprensa e poder na corte Joanina. A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1821). Juliana Gesuelli Meirelles. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2008, 252 p. Prêmio Dom João VI de Pesquisa, 2007.
A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822): Cultura e Sociedade. Maria Beatriz Nizza da Silva. Rio de Janeiro. EdUERJ, 2007, 288 p.
www.eduerj.uerj.br
Imprensa brasileira. Personagens que fizeram história, vol. 3. José Marques de Melo, organizador. S. Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo ; S. Bernardo do Campo (SP): Universidade Metodista de S. Paulo, 2008, 304 p.
www.imprensaoficial.com.br
Páginas de sensação. Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924), de Alessandra El Far, edição da Companhia das Letras, 2004, 373 p. Uma
importante contribuição à história do livro no Brasil, onde desponta a Livraria do Povo, de Pedro Quaresma. Saiba mais:
www.livroehistoriaeditorial.pro.br/pdf/alessandraelfar.pdf
www.companhiadasletras.com.br
São Paulo, Espaço e História. Marisa Midori Deaecto, Lincoln Secco, Marcos Silva e Raquel Glezer, organizadores. S. Paulo: LCTE, 2008, 222 p.
www.lcte.com.br
Crítica e movimentos estéticos. Configurações discursivas do campo literário, organizado por Celima Maria Moreira de Mello e Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina. Edição da 7letras, do Rio de Janeiro, 2006, 223 p. Dentre outros, um belo texto de Armando Gens, “A trajetória do poeta B. Lopes em perspectiva crítica”.
www.7letras.com.br
De sombras e vilas. Poesia. Cláudio Neves. Rio de Janeiro: 7letras, 2008,111 p.
www.7letras.com.br
As conseqüências do letramento. Jack Goody e Ian Watt. Tradução de Waldemar Ferreira Netto. S. Paulo: Paulistana, 2006, 77 p.
Você, raro leitor, já leu algum destes livros que estão na pilha da mesa deste blogueiro à espera de uma leitura de verdade, como merecem? Convido-o a publicar aqui algum comentário ou nota que deseje fazer. Isso certamente compensará a falta (talvez temporária) do meu. Até a um próximo Livros aos montes!
Mercados globais, histórias nacionais. Anuário Obitel 2008 (Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva). Maria Immacolata Vassalo de Lopes e Lorenzo Vilches, organizadores. S. Paulo: Globo Universidade, 2008, 359 p.
www.redeglobo.com.br
Antropologia do espelho. Uma teoria da comunicação linear e em rede.
Muniz Sodré. Petrópolis: Vozes, 2002, 268 p.
www.vozes.com.br
História do pensamento comunicacional, José Marques de Melo. S. Paulo: Paulus, 2003, 373 p.
www.paulus.com.br
180 anos do Jornal do Commercio 1827-2007. De D. Pedro I a Luiz Inácio Lula da Silva, de Cícero Sandroni. Rio de Janeiro: Quorum, 2007, 575 p. Ilustrado. Uma história da imprensa através de um de seus mais importantes veículos.
www.quorumeditora.com
Imprensa e poder na corte Joanina. A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1821). Juliana Gesuelli Meirelles. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2008, 252 p. Prêmio Dom João VI de Pesquisa, 2007.
A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822): Cultura e Sociedade. Maria Beatriz Nizza da Silva. Rio de Janeiro. EdUERJ, 2007, 288 p.
www.eduerj.uerj.br
Imprensa brasileira. Personagens que fizeram história, vol. 3. José Marques de Melo, organizador. S. Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo ; S. Bernardo do Campo (SP): Universidade Metodista de S. Paulo, 2008, 304 p.
www.imprensaoficial.com.br
Páginas de sensação. Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924), de Alessandra El Far, edição da Companhia das Letras, 2004, 373 p. Uma
importante contribuição à história do livro no Brasil, onde desponta a Livraria do Povo, de Pedro Quaresma. Saiba mais:
www.livroehistoriaeditorial.pro.br/pdf/alessandraelfar.pdf
www.companhiadasletras.com.br
São Paulo, Espaço e História. Marisa Midori Deaecto, Lincoln Secco, Marcos Silva e Raquel Glezer, organizadores. S. Paulo: LCTE, 2008, 222 p.
www.lcte.com.br
Crítica e movimentos estéticos. Configurações discursivas do campo literário, organizado por Celima Maria Moreira de Mello e Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina. Edição da 7letras, do Rio de Janeiro, 2006, 223 p. Dentre outros, um belo texto de Armando Gens, “A trajetória do poeta B. Lopes em perspectiva crítica”.
www.7letras.com.br
De sombras e vilas. Poesia. Cláudio Neves. Rio de Janeiro: 7letras, 2008,111 p.
www.7letras.com.br
As conseqüências do letramento. Jack Goody e Ian Watt. Tradução de Waldemar Ferreira Netto. S. Paulo: Paulistana, 2006, 77 p.
Você, raro leitor, já leu algum destes livros que estão na pilha da mesa deste blogueiro à espera de uma leitura de verdade, como merecem? Convido-o a publicar aqui algum comentário ou nota que deseje fazer. Isso certamente compensará a falta (talvez temporária) do meu. Até a um próximo Livros aos montes!
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sábado, 23 de agosto de 2008
Herôdotos (c.484-c.425 a.C): Sobre escrita alfabética e livros
Os fenícios vindos com Cadmos [herói mítico grego associado à difusão da escrita alfabética], entre os quais estavam esses gefireus, introduziram numerosos conhecimentos entre os helenos quando se estabeleceram em seu território – entre outros o conhecimento do alfabeto, que os helenos, até onde vai o meu conhecimento, não possuíam anteriormente; de início esse alfabeto era o mesmo usado pelos fenícios; depois, com o passar do tempo, simultaneamente com a língua esses cadmeus mudaram também a forma das letras.
As regiões circunvizinhas eram habitadas em sua maior parte por helenos de raça iônia; eles adotaram os caracteres aprendidos dos fenícios e passaram a usá-los com ligeiras modificações, e usando-os eles os divulgaram, como era justo – pois os fenícios haviam sido os seus introdutores na Hélade – sob o nome de “fenícios”.
Da mesma forma, os iônios chamam os livros de diphteroi [de couro] por causa dos usos antigos, pois anteriormente, em decorrência da raridade do papiro para livros, eles usavam peles de cabra ou carneiro; ainda em minha época muitos bárbaros escrevem nessas peles.
In Herôdotos, História. Trad. do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Ed. UnB, 1985, p. 274.
Segundo Mário da Gama Kury, Herôdotos, é o autor da primeira obra em prosa da literatura grega preservada até nossos dias. Nasceu em Halicarnassos (hoje na Turquia), aproximadamente 484 a.C. Em 445, já estava em Atenas, onde teria lido sua obra História (ou parte dela), feita a partir dos conhecimentos adquiridos em suas pesquisas e viagens.
Herôdotos (aqui seguimos a grafia indicada por Kury, diferente da usual, Heródoto), é considerado o “pai da história”. Esta disciplina, desde sua origem, está associação a “busca, investigação, pesquisa”, sendo o historiador, do ponto de vista etimológico, “uma pessoa que se informa por si mesma da verdade, que viaja, que interroga, ao invés de limitar-se a transcrever dados à sua disposição e repetir genealogias, cronologias, lendas” (p. 9).
Destacamos aqui, rara leitora, este excerto da monumental obra de Herôdotos que fala da apropriação pelos gregos do alfabeto criado pelos fenícios, por se tratar certamente de um dos registros escritos mais recuados sobre esse fato (provavelmente ocorrido cerca de 4 séculos antes), que teria repercussão notável na nossa cultura, quando, através do latim, se tornou a base de todas as escritas européias e assim da cultura ocidental.
É interessante no trecho também a referência ao uso do papiro (egípcio) em seu tempo e ao uso do couro de pequenos animais para suporte da escrita de livros pelos “bárbaros”. Apesar do papiro continuar a ser usado ainda durante séculos, o uso do couro se disseminou, quando, mais tarde, em Pérgamo, pequeno reino helenizado (hoje na Turquia), notável por sua biblioteca que rivalizava com a de Alexandria, se criou uma técnica especial que o tornaria mais dócil para receber a escrita e fazer livros. Passou a ser chamado de pergaminho e foi o substituto do papiro quando este se tornou novamente raro. Utilizado durante toda a Idade Média, o pergaminho perdeu definitivamente espaço para o papel quando da invenção da tipografia por Gutenberg, no século XV.
As regiões circunvizinhas eram habitadas em sua maior parte por helenos de raça iônia; eles adotaram os caracteres aprendidos dos fenícios e passaram a usá-los com ligeiras modificações, e usando-os eles os divulgaram, como era justo – pois os fenícios haviam sido os seus introdutores na Hélade – sob o nome de “fenícios”.
Da mesma forma, os iônios chamam os livros de diphteroi [de couro] por causa dos usos antigos, pois anteriormente, em decorrência da raridade do papiro para livros, eles usavam peles de cabra ou carneiro; ainda em minha época muitos bárbaros escrevem nessas peles.
In Herôdotos, História. Trad. do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Ed. UnB, 1985, p. 274.
Segundo Mário da Gama Kury, Herôdotos, é o autor da primeira obra em prosa da literatura grega preservada até nossos dias. Nasceu em Halicarnassos (hoje na Turquia), aproximadamente 484 a.C. Em 445, já estava em Atenas, onde teria lido sua obra História (ou parte dela), feita a partir dos conhecimentos adquiridos em suas pesquisas e viagens.
Herôdotos (aqui seguimos a grafia indicada por Kury, diferente da usual, Heródoto), é considerado o “pai da história”. Esta disciplina, desde sua origem, está associação a “busca, investigação, pesquisa”, sendo o historiador, do ponto de vista etimológico, “uma pessoa que se informa por si mesma da verdade, que viaja, que interroga, ao invés de limitar-se a transcrever dados à sua disposição e repetir genealogias, cronologias, lendas” (p. 9).
Destacamos aqui, rara leitora, este excerto da monumental obra de Herôdotos que fala da apropriação pelos gregos do alfabeto criado pelos fenícios, por se tratar certamente de um dos registros escritos mais recuados sobre esse fato (provavelmente ocorrido cerca de 4 séculos antes), que teria repercussão notável na nossa cultura, quando, através do latim, se tornou a base de todas as escritas européias e assim da cultura ocidental.
É interessante no trecho também a referência ao uso do papiro (egípcio) em seu tempo e ao uso do couro de pequenos animais para suporte da escrita de livros pelos “bárbaros”. Apesar do papiro continuar a ser usado ainda durante séculos, o uso do couro se disseminou, quando, mais tarde, em Pérgamo, pequeno reino helenizado (hoje na Turquia), notável por sua biblioteca que rivalizava com a de Alexandria, se criou uma técnica especial que o tornaria mais dócil para receber a escrita e fazer livros. Passou a ser chamado de pergaminho e foi o substituto do papiro quando este se tornou novamente raro. Utilizado durante toda a Idade Média, o pergaminho perdeu definitivamente espaço para o papel quando da invenção da tipografia por Gutenberg, no século XV.
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sábado, 5 de julho de 2008
Hermann Hesse: Leituras e livros
Os livros não existem para tornar mais dependentes ainda pessoas já de si tão dependentes. Muito menos existem eles para dar a homens de si inaptos para viver uma mera ilusão ou sucedâneo de vida. Ao contrário. Os livros só têm valor quando nos estimulam a viver, quando servem à vida e lhe são úteis. Desperdiçada toda hora de leitura da qual não resulte para o leitor uma centelha de energia, uma impressão de rejuvenescimento, um sopro do novidade e de viço.
*
Ler sem pensar, ler distraidamente, é como passear por entre belas paisagens com os olhos vendados. Tampouco devemos ler para esquecer-nos a nós e à nossa vida cotidiana, mas, ao contrário, para reassumirmos em nossas mãos firmes e da maneira mais consciente e madura a nossa própria existência. (...)
*
Sempre nos conforta a alma o livro antigo que a nós se dirige com sua voz vinda de tão longe. Podemos ouvi-la ou não. E se, de repente, certas palavras ou expressões mais percucientes nos atingem de cheio com o seu brilho, não as recebemos como de um livro de hoje, escrito por este ou aquele autor. Ao contrário, acolhemo-las como de primeira mão, como um grito de gaivota ou um raio de sol.
*
Podemos tranqüilamente deixar de ler muitos manuais, compêndios e históras da filosofia. Qualquer obra de um pensador original nos fornece coisa melhor, pois nos faz pensar em nós mesmos e nos educa e revigora a consciência.
*
Quanto mais, ao longo do tempo, a necessidade que sente o povo de se divertir e de se instruir é satisfeita graças às novas invenções da técnica, tanto mais valor e autoridade ganham os livros. Não obstante todo o progresso atual, felizmente essas novas descobertas como, por exemplo, o rádio, o cinema etc., ainda não conseguiram retirar ao livro impresso as funções lhe são próprias.
*
Ocorre com a leitura o mesmo que com qualquer outra espécie de prazer: este será sempre mais profundo e duradouro, quanto mais intimamente e com amor a ele nos entregamos.
*
Segundo minha própria experiência, não há propósito melhor para as férias do que o de não ler uma só linha. E, depois, se a oportunidade for favorável, nada mais delicioso do que ser infiel àquele propósito e ler um livro realmente bom.
Hermann Hesse, “Leituras e livros”, in Para ler e pensar. 8a. ed. Rio de Janeiro: Record, s/d.
Passou-nos despercebido o dia de aniversário de nascimento de Hermann Hesse (2/7/1877-9/8/1962). Só hoje o registramos aqui, com esta seleção de seus pensamentos sobre livros e leituras, extraídos de Para ler e pensar, um volume que reúne aforismos extraídos de seus livros e cartas.
Hesse, alemão, é um dos mais admiráveis escritores da literatura ocidental, Prêmio Nobel em 1946, autor de clássicos modernos como os romances O lobo da estepe, Sidarta, Demian, O jogo das contas vidro, Narciso e Goldmund, dentre outros sucessos.
Que tal, rara leitora, um retorno a seus livros, hoje menos em voga do que nos anos de minha juventude (já se passou muito tempo...), mas sempre capaz de nos encantar e de nos fazer pensar, como ocorre com estas suas reflexões sobre livros e leituras?
*
Ler sem pensar, ler distraidamente, é como passear por entre belas paisagens com os olhos vendados. Tampouco devemos ler para esquecer-nos a nós e à nossa vida cotidiana, mas, ao contrário, para reassumirmos em nossas mãos firmes e da maneira mais consciente e madura a nossa própria existência. (...)
*
Sempre nos conforta a alma o livro antigo que a nós se dirige com sua voz vinda de tão longe. Podemos ouvi-la ou não. E se, de repente, certas palavras ou expressões mais percucientes nos atingem de cheio com o seu brilho, não as recebemos como de um livro de hoje, escrito por este ou aquele autor. Ao contrário, acolhemo-las como de primeira mão, como um grito de gaivota ou um raio de sol.
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Podemos tranqüilamente deixar de ler muitos manuais, compêndios e históras da filosofia. Qualquer obra de um pensador original nos fornece coisa melhor, pois nos faz pensar em nós mesmos e nos educa e revigora a consciência.
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Quanto mais, ao longo do tempo, a necessidade que sente o povo de se divertir e de se instruir é satisfeita graças às novas invenções da técnica, tanto mais valor e autoridade ganham os livros. Não obstante todo o progresso atual, felizmente essas novas descobertas como, por exemplo, o rádio, o cinema etc., ainda não conseguiram retirar ao livro impresso as funções lhe são próprias.
*
Ocorre com a leitura o mesmo que com qualquer outra espécie de prazer: este será sempre mais profundo e duradouro, quanto mais intimamente e com amor a ele nos entregamos.
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Segundo minha própria experiência, não há propósito melhor para as férias do que o de não ler uma só linha. E, depois, se a oportunidade for favorável, nada mais delicioso do que ser infiel àquele propósito e ler um livro realmente bom.
Hermann Hesse, “Leituras e livros”, in Para ler e pensar. 8a. ed. Rio de Janeiro: Record, s/d.
Passou-nos despercebido o dia de aniversário de nascimento de Hermann Hesse (2/7/1877-9/8/1962). Só hoje o registramos aqui, com esta seleção de seus pensamentos sobre livros e leituras, extraídos de Para ler e pensar, um volume que reúne aforismos extraídos de seus livros e cartas.
Hesse, alemão, é um dos mais admiráveis escritores da literatura ocidental, Prêmio Nobel em 1946, autor de clássicos modernos como os romances O lobo da estepe, Sidarta, Demian, O jogo das contas vidro, Narciso e Goldmund, dentre outros sucessos.
Que tal, rara leitora, um retorno a seus livros, hoje menos em voga do que nos anos de minha juventude (já se passou muito tempo...), mas sempre capaz de nos encantar e de nos fazer pensar, como ocorre com estas suas reflexões sobre livros e leituras?
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