... Para que os possíveis artistas entre os leitores, em vez de se dedicarem metodicamente à prática do ócio, não se afastem decepcionados de mim, como de um charlatão, farei, a seguir, um resumo de minha primeira fase de aprendizado no templo dessa arte.
1. Certo dia fui apanhar, movido por um vago pressentimento, na biblioteca, as edições completas, em alemão, de As mil e uma noites e das Viagens de Sajed Batthal [épico persa medieval] e me enfronhei na leitura dessas obras, descobrindo, depois de um breve satisfação inicial e de um dia de leitura, que ambas eram enfadonhas.
2. Pensando sobre as causas dessa frustração, percebi, finalmente, que esses livros só podem ser lidos com prazer quando estamos deitados ou, pelo menos, sentados no chão. No Ocidente, a cadeira de espaldar vertical tira-lhes todo o efeito. Ao mesmo tempo pude, pela primeira vez, entender a perspectiva completamente modificada do espaço e dos objetos que se observa a partir da posição deitada ou acocorada.
3. Em breve descobri que o efeito do ambiente oriental era duas vezes mais poderoso quando, deixando a leitura, me tornava ouvinte (embora o narrador, neste caso, tivesse de se deitar ou acocorar).
4. A leitura, por mim daí por diante racionalmente praticada, deu-me um sentimento de resignação, de ouvinte, e em breve a condição de poder ficar, também sem a leitura, durante horas imóvel e dedicar minha atenção a objetos aparentemente sem importância (aerodinâmica do vôo dos mosquitos, rítmica das partículas de pó sob o efeito da luz solar, metódica das ondas luminosas etc.).
Com isso desenvolveu-se em mim uma crescente admiração pela pluralidade dos acontecimentos e um total, tranqüilizante olvido de meu ser, ponto de partida para que eu conseguisse habituar-me a um benéfico far niente, que nunca me entediou.
Trata-se, contudo, apenas de um começo. Outros irão escolher outros caminhos para, durante algumas horas, do estado consciente mergulhar no auto-esquecimento, tão necessário para um artista e tão difícil de ser alcançado.
Se minha experiência puder seduzir um eventual mestre do lazer, no Ocidente, a me explicar o seu sistema, ter-se-ia cumprido o meu mais acalentado desejo.
In A arte dos ociosos, tradução de Paul Schenetzer e Mathilde Latja, Rio de Janeiro, Record, s/d, p. 12-3. ISBN 85-1-008409-2
Este breve trecho do livro que Herman Hesse [2/7/1877-9/8/1962] apresentou [em 1932] como uma reunião de “artigos ocasionais – alegres, imaginosos e, às vezes, ligeiramente humorísticos – escritos intencionalmente na linguagem coloquial folhetinesca”, remete-nos à importância do estudo das práticas sociais de leitura e, mais ainda, à permanência das características das criações da cultura oral mesmo após serem transcritas para texto e difundidas em culturas letradas. E, por fim, mas não menos importante, para algo que temos, muitos de nós, rara ou raro leitor, esquecido, voluntária ou involuntariamente: a importância do cultivo do ócio para a criação artística e para o bem-viver. O que pensa você sobre isso?
Mais informações sobre o admirável escritor Prêmio Nobel de Literatura de 1946: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermann_Hesse
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sábado, 2 de junho de 2007
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