Mileide Flores, da Livraria Feira do Livro, de Fortaleza, uma guerreira em defesa das livrarias e do livro, distribuiu informações e sugeriu leituras para a qualificação do debate, que consideramos muito pertinentes e passamos a nossas raras e raros leitores:
Sá-Earp, Fábio e Kornis, George (2005). A economia da cadeia produtiva do livro. Rio de Janeiro. BNDES. Disponível gratuitamente em: http://www.bndes.gov.br/conhecimento/publicacoes/catalogo/ebook.asp
O texto: “A questão do preço único: uma contribuição da Editora SENAC/SP”, disponível para acesso nos "Arquivos" do e-grupo Cultura Letrada:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
E o livro:
Gerlach, Markus (2006). Proteger o livro: desafios culturais, econômicos e políticos do preço fixo. Rio de Janeiro. LIBRE.
Sugerimos também a leitura da revista
Pensar el libro, publicada pelo CERLALC (Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina y el Caribe, com um número especial sobre o preço fixo (em espanhol). Acessível em: http://www.cerlalc.org/revista_precio/n_articulo09.htm
O tema foi retomado na 17ª Convenção Nacional de Livrarias que aconteceu entre os dias 10 e 12 de setembro último, no Rio de Janeiro.
Mais informações: sítio da Associação Nacional de Livrarias: www.anl.org.br
A questão, como sabem nossas raras leitoras e leitores, é de grande interesse, pois visa proteger as pequenas e médias livrarias diante do poder avassalador das grandes redes de comercialização do livro, que tem levado à redução do número, já tão pequeno em nosso país, dessas livrarias, fundamentais para as editoras e para o leitor cujos interesses vão além dos best-sellers. A questão, como se pode imaginar, é complexa, por isso, está em discussão. Contribua com seu comentário.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Marcus de Moraes, in memorian
Foi sepultado hoje no Cemitério do Marui, em Niterói, Marcus Felicius Ayrosa Fernandino de Moraes, brilhante advogado e ser humano exemplar. Dele guardo, em especial, a convivência fraterna no período em que estivemos juntos servindo a um projeto político na Prefeitura Municipal de Niterói. Dessa convivência, saí com a certeza que há homens capazes de fazer política sem se deixar corromper. Marcus de Moraes foi um desses homens raros. Seu saber, dignidade e elegante discrição eram um exemplo para todos nós, seus amigos e admiradores. Niterói, a política fluminense e o saber jurídico sofrem uma grande perda. Perco eu uma das referências e um gentil amigo. Duras perdas, hoje.
Em 1963, Marcus de Moraes publicou este soneto:
A Ela
Dourado pomo de passada infância,
amor medroso de querer demais,
meu caminho perdido na distância
que o retorno do tempo não refaz.
Desejo de viver como a fragrância,
trespassado de sol, de luz, de paz.
Revérbero de rubra rutilância
que o retorno do tempo hoje me traz.
Beijos de luz de minha meninice,
aurora de esperanças que se abrisse
em claridade mística de cor,
no chão que piso há catassóis esparsos,
iluminuras dos teus olhos garsos,
desejos novos do teu velho amor!
In 37 poetas fluminenses, 1963, p. 150.
MARCUS DE MORAES (16/07/1929-8/10/2007), poeta, jornalista, advogado, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1929. Passou sua infância em Cachoeiras de Macacu. Em 1944, radicou-se em Niterói, onde estudou no Colégio Brasil, Colégio Plínio Leite e na Faculdade de Direito de Niterói, onde se formou em 1953. Foi orador de quase todas as turmas e agremiações a que pertenceu, inclusive, da antiga Associação Fluminense de Estudantes. Assinou, durante algum tempo, “A Coluna do Trabalhador”, no jornal Diário do Povo, de Niterói, colaborou no O Gládio, jornal da faculdade, e nos jornais Hoje e Diário Fluminense, neste como colunista diário, em 1961. Tem trabalhos poéticos publicados em revistas e jornais e no livro 37 Poetas Fluminenses, de 1963, Edições Letras Fluminenses (Niterói-RJ), com prefácio de Lyad de Almeida e capa de Luís Antônio Pimentel. Publicou Almenaras, uma seleção de poemas produzidos até 1963, e deixa inédito um outro livro de poemas, De sonhar, ao menos.
Membro da Academia Fluminense de Letras. Foi advogado do BNDES e procurador do então Estado da Guanabara. Amigo do governador Leonel de Moura Brizola, foi advogado do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Exerceu vários cargos públicos, dentre eles o de Procurador Geral do município de Niterói e também no município do Rio de Janeiro. Recentemente publicou uma obra jurídica.
Fonte principal: Enciclopédia de Niterói, de Luís Antônio Pimentel, Obras Reunidas 1, organização de Aníbal Bragança, Niterói Livros, 2004, p. 208-9.
Em 1963, Marcus de Moraes publicou este soneto:
A Ela
Dourado pomo de passada infância,
amor medroso de querer demais,
meu caminho perdido na distância
que o retorno do tempo não refaz.
Desejo de viver como a fragrância,
trespassado de sol, de luz, de paz.
Revérbero de rubra rutilância
que o retorno do tempo hoje me traz.
Beijos de luz de minha meninice,
aurora de esperanças que se abrisse
em claridade mística de cor,
no chão que piso há catassóis esparsos,
iluminuras dos teus olhos garsos,
desejos novos do teu velho amor!
In 37 poetas fluminenses, 1963, p. 150.
MARCUS DE MORAES (16/07/1929-8/10/2007), poeta, jornalista, advogado, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1929. Passou sua infância em Cachoeiras de Macacu. Em 1944, radicou-se em Niterói, onde estudou no Colégio Brasil, Colégio Plínio Leite e na Faculdade de Direito de Niterói, onde se formou em 1953. Foi orador de quase todas as turmas e agremiações a que pertenceu, inclusive, da antiga Associação Fluminense de Estudantes. Assinou, durante algum tempo, “A Coluna do Trabalhador”, no jornal Diário do Povo, de Niterói, colaborou no O Gládio, jornal da faculdade, e nos jornais Hoje e Diário Fluminense, neste como colunista diário, em 1961. Tem trabalhos poéticos publicados em revistas e jornais e no livro 37 Poetas Fluminenses, de 1963, Edições Letras Fluminenses (Niterói-RJ), com prefácio de Lyad de Almeida e capa de Luís Antônio Pimentel. Publicou Almenaras, uma seleção de poemas produzidos até 1963, e deixa inédito um outro livro de poemas, De sonhar, ao menos.
Membro da Academia Fluminense de Letras. Foi advogado do BNDES e procurador do então Estado da Guanabara. Amigo do governador Leonel de Moura Brizola, foi advogado do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Exerceu vários cargos públicos, dentre eles o de Procurador Geral do município de Niterói e também no município do Rio de Janeiro. Recentemente publicou uma obra jurídica.
Fonte principal: Enciclopédia de Niterói, de Luís Antônio Pimentel, Obras Reunidas 1, organização de Aníbal Bragança, Niterói Livros, 2004, p. 208-9.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Alcione Fernandes Baptista, adeus!
Conheci Alcione, estudante, freqüentadora da Livraria Encontro, depois, Diálogo, formando com Wagner Neves da Rocha e José Jeremias de Oliveira Filho, o trio de jovens intelectuais, formandos na área de Ciências Sociais, na UFF e na UFRJ, em 1966/1967. Eram os maiores compradores de livros da então recém-fundada livraria e certamente os maiores leitores dessa geração.
Alcione se destacava também por sua coragem cívica. Morando perto da livraria, percebeu logo quando esta reabriu após ter sido saqueada e fechada pós-AI-5. Foi a primeira a entrar e prestar solidariedade. Nem todos tiveram essa atitude, receando comprometer-se numa época de medos e ameaças.
Desde esse tempo Alcione esteve no bom combate. Escreveu a tese "O povo capturado na apreensão do Brasil. Uma releitura dos estudos brasileiros de folclore: 1945-1964", defendida na Universidade Federal Fluminense em 1986, que infelizmente não foi ainda publicada, embora suas qualidades sejam sempre louvadas.
Pequena mostra do perfil intelectual e do lugar social ocupado por Alcione se pode perceber no texto do discurso que fez em homenagem ao artista plástico Miguel Coelho, quando este foi homenageado na Câmara Municipal de Niterói, em 2002, do qual extraímos este excerto:
(...)
As reuniões da casa de Dr. Paulo eram realizadas nas noites de sexta-feira. Nos acontecimentos especiais ou quando recebiam visitas ilustres, transferiam-nas para as tardes de sábado. Houve o impacto da visita de Dona Célia Guevara, mãe de Che Guevara, no momento decisivo da Revolução Cubana.
Estiveram em casa de Dr. Paulo artista do porte de Frank Schaeffer e do casal de pintores franceses Roger e Júlia van Roger. Gente da expressão de Newton Rezende e Iberê Camargo.
O crítico literário Agripino Griecco deixava o Jardim do Méier e marcava presença na Quinze de Novembro. Achilles, Ruy, Magro e Miltinho, via CPC da UNE, criavam o MPB-4. E lá cantavam o “Subdesenvolvido”, onde diziam que os papagaios – que deslumbraram a frota de Cabral em 1500 – haviam se transformado em frangos das “Casas da Banha”, rede de supermercados da época.
Lou, poderosíssima jornalista da efervescente “Última Hora” – um espaço enorme em sua coluna diária – levava equipes da TV-Rio para a cobertura dos eventos. E Luís Antônio Pimentel, como sempre, fotografava tudo.
Participaram daquele movimento: Affonso Celso Nogueira Monteiro, Marta e Geraldo Reis, Alcinda e Geir Campos, as duas Marias Jacinthas – tia e sobrinha, Lou e Jacy Pacheco, Luís Antônio Pimentel, Renata e Dr. Aldo Rossi – com suas filhas Dália, Adriana e Lia Mônica, Maria Felisberta obviamente, Dayse Lemos, Irene Galindo e Dr. Alberto Hammerli – pais da bailarina Áurea e da profissional de saúde Ilara, o professor Tasso Moura, Lígia Lemme e Wilson Menezes, Jacy Pereira Lima – o Jacy Barbudo, Elza Sauerbronn, o médico Irun Santana, Irene e Rubem Guawer Wanderley, ela vereadora e ele engenheiro construtor. Com a diáspora da tragédia de 1964, foram residir na Bolívia.
Tive oportunidade de ir uma única vez à casa de Dr. Paulo. Eu era forasteira, adventícia, recém-chegada a Niterói. Fui na companhia do engenheiro Roberto Botelho Salles, filho do médico campista Dr. Walter Salles e de Dona Jacy, pessoas que Affonsinho conheceu muito. Enfim, expressões libertárias da cidade de Campos.
Pouco retive da reunião a que compareci: a primeira vez que vi o nosso pintor. Miguel era de uma visibilidade imensa, parecia personagem central do movimento da casa de Dr. Paulo.
Aproveito a oportunidade para fazer um agradecimento. Cheguei aqui em 1962 e posso dizer que entrei pela porta da esquerda. Tive sorte e olhos para ver. Na primeira hora, conheci Roberto e Affonsinho. Roberto me apresentou a Pimentel que, por sua vez, me apresentou à cidade e consolidou minha paixão por Niterói.
Conheci Lou, então destacada jornalista na imprensa do Rio, simpática, delicada, afável. E prima de Noel Rosa. Sem ter sido sua aluna, fui interlocutora privilegiada da teatróloga Maria Jacintha, o que me enchia de orgulho. Muito mais tarde, aproximei-me de Maria Felisberta. Nunca me filiei ao PCB. Ninguém acredita, porque assimilei suas formas de pensamento e militância.
Só que o “Mundo Livre” venceu o “Império do Mal”. Nos marcos da Guerra Fria, caiu a longa noite de 1964, a maior decepção de minha vida.
Miguel não perdeu a capacidade de instigar. O crítico Walmir Ayala promoveu uma exposição em Ipanema, com doze pintores. Cada um deveria expressar a sua concepção de Cristo. Miguel se inspirou no atleta Paulo César Lima que, aderindo à onda black-power de rebeldia dos negros norte-americanos fora apedrejado na Zona Sul, por estar com carro da moda e namorada loura.
Pintou uma tela agressiva, em que Paulo César ocupava o lugar de Cristo na cruz. A censura proibiu sua entrada na galeria. Viu o famoso Guima e outros artistas retirarem seus quadros e a exposição se realizou na calçada. A tela foi adquirida pela senhora Georgete Tauil Rodrigues que, com sua sensibilidade, captou o significado do episódio, naqueles anos de chumbo.
Foi na Livraria Diálogo, de Aníbal Bragança, Carlos Alberto Jorge e Renato – a primeira livraria de envergadura de Niterói – na rua Visconde de Moraes, que, em 1966, conversei com Miguel. Tempo da passeata dos Cem Mil. Miguel ilustrou o livro “O Menino de Belém”, do poeta César Araújo, movido pela morte do estudante paraense Edson Luís, no restaurante “Calabouço”, da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. E expunha na “Diálogo” no exato momento do Ato Institucional n° 5, em dezembro de 1968. Como ocorreu com todos os espaços da inteligência, lacraram a livraria e prenderam Aníbal. Os quadros foram retidos, inclusive a “Bandinha de Música”, tela preferida de Ludmila, ainda muito pequena.
(...)
Para ler o texto completo, acesse os "Arquivos" do e-Grupo Cultura Letrada:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
Alcione acaba de nos deixar órfãos de sua presença e sua amizade. Seu corpo está sendo velado e será enterrado amanhã, dia 9 de outubro, no Cemitério Parque da Colina, em Niterói, às 12h. Deixa-nos uma presença indelével, na vida política e cultural da cidade, e na memória: uma guerreira doce e fraterna combatendo ao lado dos que sonharam (e sonham?) com um mundo melhor.
Alcione se destacava também por sua coragem cívica. Morando perto da livraria, percebeu logo quando esta reabriu após ter sido saqueada e fechada pós-AI-5. Foi a primeira a entrar e prestar solidariedade. Nem todos tiveram essa atitude, receando comprometer-se numa época de medos e ameaças.
Desde esse tempo Alcione esteve no bom combate. Escreveu a tese "O povo capturado na apreensão do Brasil. Uma releitura dos estudos brasileiros de folclore: 1945-1964", defendida na Universidade Federal Fluminense em 1986, que infelizmente não foi ainda publicada, embora suas qualidades sejam sempre louvadas.
Pequena mostra do perfil intelectual e do lugar social ocupado por Alcione se pode perceber no texto do discurso que fez em homenagem ao artista plástico Miguel Coelho, quando este foi homenageado na Câmara Municipal de Niterói, em 2002, do qual extraímos este excerto:
(...)
As reuniões da casa de Dr. Paulo eram realizadas nas noites de sexta-feira. Nos acontecimentos especiais ou quando recebiam visitas ilustres, transferiam-nas para as tardes de sábado. Houve o impacto da visita de Dona Célia Guevara, mãe de Che Guevara, no momento decisivo da Revolução Cubana.
Estiveram em casa de Dr. Paulo artista do porte de Frank Schaeffer e do casal de pintores franceses Roger e Júlia van Roger. Gente da expressão de Newton Rezende e Iberê Camargo.
O crítico literário Agripino Griecco deixava o Jardim do Méier e marcava presença na Quinze de Novembro. Achilles, Ruy, Magro e Miltinho, via CPC da UNE, criavam o MPB-4. E lá cantavam o “Subdesenvolvido”, onde diziam que os papagaios – que deslumbraram a frota de Cabral em 1500 – haviam se transformado em frangos das “Casas da Banha”, rede de supermercados da época.
Lou, poderosíssima jornalista da efervescente “Última Hora” – um espaço enorme em sua coluna diária – levava equipes da TV-Rio para a cobertura dos eventos. E Luís Antônio Pimentel, como sempre, fotografava tudo.
Participaram daquele movimento: Affonso Celso Nogueira Monteiro, Marta e Geraldo Reis, Alcinda e Geir Campos, as duas Marias Jacinthas – tia e sobrinha, Lou e Jacy Pacheco, Luís Antônio Pimentel, Renata e Dr. Aldo Rossi – com suas filhas Dália, Adriana e Lia Mônica, Maria Felisberta obviamente, Dayse Lemos, Irene Galindo e Dr. Alberto Hammerli – pais da bailarina Áurea e da profissional de saúde Ilara, o professor Tasso Moura, Lígia Lemme e Wilson Menezes, Jacy Pereira Lima – o Jacy Barbudo, Elza Sauerbronn, o médico Irun Santana, Irene e Rubem Guawer Wanderley, ela vereadora e ele engenheiro construtor. Com a diáspora da tragédia de 1964, foram residir na Bolívia.
Tive oportunidade de ir uma única vez à casa de Dr. Paulo. Eu era forasteira, adventícia, recém-chegada a Niterói. Fui na companhia do engenheiro Roberto Botelho Salles, filho do médico campista Dr. Walter Salles e de Dona Jacy, pessoas que Affonsinho conheceu muito. Enfim, expressões libertárias da cidade de Campos.
Pouco retive da reunião a que compareci: a primeira vez que vi o nosso pintor. Miguel era de uma visibilidade imensa, parecia personagem central do movimento da casa de Dr. Paulo.
Aproveito a oportunidade para fazer um agradecimento. Cheguei aqui em 1962 e posso dizer que entrei pela porta da esquerda. Tive sorte e olhos para ver. Na primeira hora, conheci Roberto e Affonsinho. Roberto me apresentou a Pimentel que, por sua vez, me apresentou à cidade e consolidou minha paixão por Niterói.
Conheci Lou, então destacada jornalista na imprensa do Rio, simpática, delicada, afável. E prima de Noel Rosa. Sem ter sido sua aluna, fui interlocutora privilegiada da teatróloga Maria Jacintha, o que me enchia de orgulho. Muito mais tarde, aproximei-me de Maria Felisberta. Nunca me filiei ao PCB. Ninguém acredita, porque assimilei suas formas de pensamento e militância.
Só que o “Mundo Livre” venceu o “Império do Mal”. Nos marcos da Guerra Fria, caiu a longa noite de 1964, a maior decepção de minha vida.
Miguel não perdeu a capacidade de instigar. O crítico Walmir Ayala promoveu uma exposição em Ipanema, com doze pintores. Cada um deveria expressar a sua concepção de Cristo. Miguel se inspirou no atleta Paulo César Lima que, aderindo à onda black-power de rebeldia dos negros norte-americanos fora apedrejado na Zona Sul, por estar com carro da moda e namorada loura.
Pintou uma tela agressiva, em que Paulo César ocupava o lugar de Cristo na cruz. A censura proibiu sua entrada na galeria. Viu o famoso Guima e outros artistas retirarem seus quadros e a exposição se realizou na calçada. A tela foi adquirida pela senhora Georgete Tauil Rodrigues que, com sua sensibilidade, captou o significado do episódio, naqueles anos de chumbo.
Foi na Livraria Diálogo, de Aníbal Bragança, Carlos Alberto Jorge e Renato – a primeira livraria de envergadura de Niterói – na rua Visconde de Moraes, que, em 1966, conversei com Miguel. Tempo da passeata dos Cem Mil. Miguel ilustrou o livro “O Menino de Belém”, do poeta César Araújo, movido pela morte do estudante paraense Edson Luís, no restaurante “Calabouço”, da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. E expunha na “Diálogo” no exato momento do Ato Institucional n° 5, em dezembro de 1968. Como ocorreu com todos os espaços da inteligência, lacraram a livraria e prenderam Aníbal. Os quadros foram retidos, inclusive a “Bandinha de Música”, tela preferida de Ludmila, ainda muito pequena.
(...)
Para ler o texto completo, acesse os "Arquivos" do e-Grupo Cultura Letrada:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
Alcione acaba de nos deixar órfãos de sua presença e sua amizade. Seu corpo está sendo velado e será enterrado amanhã, dia 9 de outubro, no Cemitério Parque da Colina, em Niterói, às 12h. Deixa-nos uma presença indelével, na vida política e cultural da cidade, e na memória: uma guerreira doce e fraterna combatendo ao lado dos que sonharam (e sonham?) com um mundo melhor.
domingo, 7 de outubro de 2007
Um ensaio filosófico a partir dos haicais de Luís Antônio Pimentel


(...)
A introdução da cultura ocidental no Oriente foi responsável por alterações na perspectiva de seus povos. No Japão, a presença da cultura ocidental-européia é registrada desde os séculos XVI e XVII. Enquanto doutrina possuidora de uma perspectiva, o cristianismo se consolidava principalmente entre a população camponesa até sua violenta repressão e seguida proibição no auge da dinastia dos Tokugawa (1616-1868). Essa deu início a um período de isolacionismo cultural, por um lado fecundo ao campo do pensamento e das artes nativas, de modo a falar-se de um renascimento daquela cultura e da superação do modelo cultural chinês, vigente desde o século IV. d.C.
Nesse período, vemos o cultivo do haicai com autores como Busson, Kobayashi e Issa. Entre esses, o último tornou-se, em sua época, mais conhecido do que o próprio Bashô ao introduzir inovações ao haicai. Não se tem notícia de que Issa tenha tido contato com a cultura judaico-cristã, mas constatam-se algumas características de seus poemas que o aproximam dessa e o distanciam do modo canônico de se fazer haicai.
Perspectiva recrudescida sob a Era Meiji (1868-1912), na qual se abriu a cultura à influência dos ocidentais deixando que o mundo europeu (representado nas artes pelo romantismo, simbolismo e impressionismo) infiltrasse o pensar japonês.
O contato com o mundo ocidental apresentou necessidades que até então o japonês não tinha. Promoveu a urgência de desenvolver vocabulário e gramática para dizer o que era experiência completamente exótica àquele. Nesse período, vê-se nas universidades européias, sobretudo nas de Letras e de Filosofia, grande procura de acadêmicos japoneses ávidos de tomar conhecimento daquele modo de pensar que não se contenta com a imediatez da coisa e se lança ao perscrutar a realidade-verdade.
Doravante, a distinção entre Ocidente e Oriente passaria a não ser mais uma convenção geográfica das fronteiras entre os hemisférios do globo, Ocidente passa a ser a denominação de
uma visão de mundo que acomete outra e que faz com que encontremos também na segunda a preocupação em pensar o universal de todas as coisas. Essa preocupação parece refletir no
Oriente quando presenciamos questionamentos formulados no interior de haicais, como Pimentel evoca:
Que é um haicai?
É o cintilar das estrelas
num pingo de orvalho.
(...)
O livro Verdade-Metafísica-Poesia – Um ensaio de filosofia a partir dos haicais de Luís Antônio Pimentel, do qual retiramos o excerto acima, é de Roberto Kahlmeyer-Mertens, professor universitário, doutorando em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Kahlmeyer-Mertens escreveu um ensaio filosófico, denso, profundo, mas claro e leve, que, a partir da análise da poesia haicai de Luís Antônio Pimentel, aponta para as hibridizações entre as culturas ocidental e oriental. Leitura muito agradável e enriquecedora que recomendamos aos nossos raros leitores.
A obra, editado pela NitPress http://nitpress.tripod.com/ , foi lançada na Bienal Internacional do Livro, do Rio de Janeiro, em 22/09/2007, com mesa-redonda composta por este neoblogueiro, o próprio autor e Luís Antônio Pimentel. O evento se deu na ilha Letras de Niterói, organizada por vários editores da antiga capital fluminense.
Para ver imagens do lançamento, acesse o álbum de fotos (endereço abaixo):
http://picasaweb.google.com/anibalbraganca/BienalInternacionalDoLivroRioDeJaneiroLanAmentoLivroDeRobertoKahlmeyer
O escritor fluminense Luís Antônio Pimentel viveu no Japão de 1937 a 1942, onde teve publicado, no idioma japonês, o livro Namida no Kito (Prece em lágrimas), em 1940, a primeira obra poética de autor brasileiro editada no país do sol nascente. Para saber mais dessa edição e conhecer sua obra literária, sugerimos consultar Contos do velho Nipon, 12 dias com Leviana, Tankas e Haicais, o volume 2 das Obras Reunidas de Luís Antônio Pimentel, organizadas por este neoblogueiro, e publicadas pela Niterói Livros [livros@culturaniteroi.com.br ], em 2004, onde se incluiu uma edição parcial, fac-similar, ilustrada, acompanhada de versão em português, hoje desaparecida, de alguns dos seus belos poemas de Namida no Kito, além do hoje clássico Tankas e Haicais, originalmente publicado em 1953. O volume inclui estudos da poética de Pimentel por Sonia Regina Longhi Ninomiya, Lúcia Teixeira, Cyana Leahy e Luiz Fernando Medeiros de Carvalho, além da apresentação deste neoblogueiro.
A introdução da cultura ocidental no Oriente foi responsável por alterações na perspectiva de seus povos. No Japão, a presença da cultura ocidental-européia é registrada desde os séculos XVI e XVII. Enquanto doutrina possuidora de uma perspectiva, o cristianismo se consolidava principalmente entre a população camponesa até sua violenta repressão e seguida proibição no auge da dinastia dos Tokugawa (1616-1868). Essa deu início a um período de isolacionismo cultural, por um lado fecundo ao campo do pensamento e das artes nativas, de modo a falar-se de um renascimento daquela cultura e da superação do modelo cultural chinês, vigente desde o século IV. d.C.
Nesse período, vemos o cultivo do haicai com autores como Busson, Kobayashi e Issa. Entre esses, o último tornou-se, em sua época, mais conhecido do que o próprio Bashô ao introduzir inovações ao haicai. Não se tem notícia de que Issa tenha tido contato com a cultura judaico-cristã, mas constatam-se algumas características de seus poemas que o aproximam dessa e o distanciam do modo canônico de se fazer haicai.
Perspectiva recrudescida sob a Era Meiji (1868-1912), na qual se abriu a cultura à influência dos ocidentais deixando que o mundo europeu (representado nas artes pelo romantismo, simbolismo e impressionismo) infiltrasse o pensar japonês.
O contato com o mundo ocidental apresentou necessidades que até então o japonês não tinha. Promoveu a urgência de desenvolver vocabulário e gramática para dizer o que era experiência completamente exótica àquele. Nesse período, vê-se nas universidades européias, sobretudo nas de Letras e de Filosofia, grande procura de acadêmicos japoneses ávidos de tomar conhecimento daquele modo de pensar que não se contenta com a imediatez da coisa e se lança ao perscrutar a realidade-verdade.
Doravante, a distinção entre Ocidente e Oriente passaria a não ser mais uma convenção geográfica das fronteiras entre os hemisférios do globo, Ocidente passa a ser a denominação de
uma visão de mundo que acomete outra e que faz com que encontremos também na segunda a preocupação em pensar o universal de todas as coisas. Essa preocupação parece refletir no
Oriente quando presenciamos questionamentos formulados no interior de haicais, como Pimentel evoca:
Que é um haicai?
É o cintilar das estrelas
num pingo de orvalho.
(...)
O livro Verdade-Metafísica-Poesia – Um ensaio de filosofia a partir dos haicais de Luís Antônio Pimentel, do qual retiramos o excerto acima, é de Roberto Kahlmeyer-Mertens, professor universitário, doutorando em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Kahlmeyer-Mertens escreveu um ensaio filosófico, denso, profundo, mas claro e leve, que, a partir da análise da poesia haicai de Luís Antônio Pimentel, aponta para as hibridizações entre as culturas ocidental e oriental. Leitura muito agradável e enriquecedora que recomendamos aos nossos raros leitores.
A obra, editado pela NitPress http://nitpress.tripod.com/ , foi lançada na Bienal Internacional do Livro, do Rio de Janeiro, em 22/09/2007, com mesa-redonda composta por este neoblogueiro, o próprio autor e Luís Antônio Pimentel. O evento se deu na ilha Letras de Niterói, organizada por vários editores da antiga capital fluminense.
Para ver imagens do lançamento, acesse o álbum de fotos (endereço abaixo):
http://picasaweb.google.com/anibalbraganca/BienalInternacionalDoLivroRioDeJaneiroLanAmentoLivroDeRobertoKahlmeyer
O escritor fluminense Luís Antônio Pimentel viveu no Japão de 1937 a 1942, onde teve publicado, no idioma japonês, o livro Namida no Kito (Prece em lágrimas), em 1940, a primeira obra poética de autor brasileiro editada no país do sol nascente. Para saber mais dessa edição e conhecer sua obra literária, sugerimos consultar Contos do velho Nipon, 12 dias com Leviana, Tankas e Haicais, o volume 2 das Obras Reunidas de Luís Antônio Pimentel, organizadas por este neoblogueiro, e publicadas pela Niterói Livros [livros@culturaniteroi.com.br ], em 2004, onde se incluiu uma edição parcial, fac-similar, ilustrada, acompanhada de versão em português, hoje desaparecida, de alguns dos seus belos poemas de Namida no Kito, além do hoje clássico Tankas e Haicais, originalmente publicado em 1953. O volume inclui estudos da poética de Pimentel por Sonia Regina Longhi Ninomiya, Lúcia Teixeira, Cyana Leahy e Luiz Fernando Medeiros de Carvalho, além da apresentação deste neoblogueiro.
sábado, 6 de outubro de 2007
Arthur Arezio da Fonseca, baiano, tipógrafo notável, autor do primeiro dicionário de artes gráficas da língua portuguesa
No Dicionário de Tipógrafos e Litógrafos Famosos, de Rui Canaveira, o verbete sobre o grande tipógrafo baiano Arthur Arezio da Fonseca (1873-1940), oferece-nos informações básicas da sua trajetória:
FONSECA, ARTHUR AREZIO da – Tipógrafo brasileiro nascido na Bahia a 10 de junho de 1873, considerado um dos mais importantes do seu tempo no Brasil, e que foi também escritor e editor. Ingressou como aprendiz de tipógrafo nas oficinas do Jornal de Notícias em setembro de 1887, foi paginador da Gazeta de Notícias em 1896, paginador e administrador de A Bahia até junho de 1898, chapista nas oficinas da Tipografia Baiana e de Vicente de Oliveira Botas, onde aprendeu a arte da litografia, paginador do Correio de Notícias em 1889, do Diário da Bahia em 1902, do Diário de Notícias em 1903, donde saiu para em 1905 abrir a Gazeta do Povo. Em 1907 criou, de parceria com António Josué Carvalho, a Oficina Xilo-tipográfica Arezio & Carvalho que fecharia em 1912 para dirigir a instalação da Imprensa Oficial do Estado de que foi depois administrador técnico, a partir de novembro de 1915. Foi membro de várias instituições profissionais e culturais, tendo ingressado na Associação Typographica Bahiana em 1902. Criou e foi o primeiro editor do Boletim Graphico entre 1916 e 1917. Pertenceu à direção do Liceu de Artes e Ofícios nas décadas de 1920 e 1930.
Escreveu cinco livros sobre a arte tipográfica. O primeiro, Serões typographicos foi publicado em 1905 e é uma colectânea dos artigos que escreveu entre 1902 e 1903 para a Revista da Associação Typographica Bahiana. O segundo livro saíu em 1907 e tem o título de Esboço typográfico, possuindo ilustrações do próprio Arthur Arezio da Fonseca, impressas com xilogravuras abertas em casca de cajazeira. Trata da história da imprensa e de vários temas afins com as Artes Gráficas. O terceiro livro, de 1916, impresso pela Imprensa Oficial do Estado, tem o título Machinas de compor e nele se descreve a evolução da composição mecânica e se alertam os compositores manuais para aprenderem a usar o novo equipamento de composição. A quarta obra do tipógrafo brasileiro chama-se Revisão de provas typographicas e saíu em 1925, tendo sido muito usado por todos quantos queriam abraçar a profissão de revisor. O último livro de Arthur Arezio é o Diccionario de termos graphicos, publicado pela Imprensa Oficial do Estado em 1936, na Bahia. É considerado o primeiro dicionário para artes gráficas em língua portuguesa, e o autor foi premiado em 1938, com o Prémio Caminhoá, por causa deste seu dicionário. Escreveu mais quatro livros inéditos segundo dados biográficos organizados por seu filho, não se sabendo onde param os originais. Esses livros são, de que existem três folhas do rascunho, O Formato dos Livros, de que existem três capítulos, Branco + Negro e Cálculos typographicos. Arthur Arezio da Fonseca faleceu em 16 de Julho de 1940.
Rui Canaveira, pesquisador português, membro da American Printing History Association e da Historical Printing Society de Londres, é autor dos livros História das Artes Gráficas, I, II e III volumes, Como Criar uma Empresa Gráfica e Transformadora do Papel, e. dentre outros, do Dicionário de Tipógrafos e Litógrafos Famosos, do qual retiramos o verbete acima, que está disponível nos arquivos do e-Grupo Cultura Letrada http://groups.google.com/group/cultura-letrada .
Pequena biografia de Rui Canaveira encontra-se no sítio do IPTS - Instituto Português de Tecnologias e Serigrafia http://www.iptshome.org .
Para se obter mais informações sobre a obra de Arthur Arezio, rara ou raro leitor, será necessário conhecer os trabalhos do jornalista e professor Luís Guilherme Pontes Tavares editor@alba.ba.gov.br , também nascido na Bahia, que a ela dedicou muitos anos de pesquisa, tendo publicado vários artigos e também sua tese de doutorado em História, defendida em 2000, na Universidade de São Paulo (USP), editada com o título Nome para compor em caixa alta: ARTHUR AREZIO DA FONSECA, ISBN 85-99366-01-7, na Coleção Cipriano Barata, pela Empresa Gráfica da Bahia, com apoio do Governo da Bahia e do Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia.
FONSECA, ARTHUR AREZIO da – Tipógrafo brasileiro nascido na Bahia a 10 de junho de 1873, considerado um dos mais importantes do seu tempo no Brasil, e que foi também escritor e editor. Ingressou como aprendiz de tipógrafo nas oficinas do Jornal de Notícias em setembro de 1887, foi paginador da Gazeta de Notícias em 1896, paginador e administrador de A Bahia até junho de 1898, chapista nas oficinas da Tipografia Baiana e de Vicente de Oliveira Botas, onde aprendeu a arte da litografia, paginador do Correio de Notícias em 1889, do Diário da Bahia em 1902, do Diário de Notícias em 1903, donde saiu para em 1905 abrir a Gazeta do Povo. Em 1907 criou, de parceria com António Josué Carvalho, a Oficina Xilo-tipográfica Arezio & Carvalho que fecharia em 1912 para dirigir a instalação da Imprensa Oficial do Estado de que foi depois administrador técnico, a partir de novembro de 1915. Foi membro de várias instituições profissionais e culturais, tendo ingressado na Associação Typographica Bahiana em 1902. Criou e foi o primeiro editor do Boletim Graphico entre 1916 e 1917. Pertenceu à direção do Liceu de Artes e Ofícios nas décadas de 1920 e 1930.
Escreveu cinco livros sobre a arte tipográfica. O primeiro, Serões typographicos foi publicado em 1905 e é uma colectânea dos artigos que escreveu entre 1902 e 1903 para a Revista da Associação Typographica Bahiana. O segundo livro saíu em 1907 e tem o título de Esboço typográfico, possuindo ilustrações do próprio Arthur Arezio da Fonseca, impressas com xilogravuras abertas em casca de cajazeira. Trata da história da imprensa e de vários temas afins com as Artes Gráficas. O terceiro livro, de 1916, impresso pela Imprensa Oficial do Estado, tem o título Machinas de compor e nele se descreve a evolução da composição mecânica e se alertam os compositores manuais para aprenderem a usar o novo equipamento de composição. A quarta obra do tipógrafo brasileiro chama-se Revisão de provas typographicas e saíu em 1925, tendo sido muito usado por todos quantos queriam abraçar a profissão de revisor. O último livro de Arthur Arezio é o Diccionario de termos graphicos, publicado pela Imprensa Oficial do Estado em 1936, na Bahia. É considerado o primeiro dicionário para artes gráficas em língua portuguesa, e o autor foi premiado em 1938, com o Prémio Caminhoá, por causa deste seu dicionário. Escreveu mais quatro livros inéditos segundo dados biográficos organizados por seu filho, não se sabendo onde param os originais. Esses livros são, de que existem três folhas do rascunho, O Formato dos Livros, de que existem três capítulos, Branco + Negro e Cálculos typographicos. Arthur Arezio da Fonseca faleceu em 16 de Julho de 1940.
Rui Canaveira, pesquisador português, membro da American Printing History Association e da Historical Printing Society de Londres, é autor dos livros História das Artes Gráficas, I, II e III volumes, Como Criar uma Empresa Gráfica e Transformadora do Papel, e. dentre outros, do Dicionário de Tipógrafos e Litógrafos Famosos, do qual retiramos o verbete acima, que está disponível nos arquivos do e-Grupo Cultura Letrada http://groups.google.com/group/cultura-letrada .
Pequena biografia de Rui Canaveira encontra-se no sítio do IPTS - Instituto Português de Tecnologias e Serigrafia http://www.iptshome.org .
Para se obter mais informações sobre a obra de Arthur Arezio, rara ou raro leitor, será necessário conhecer os trabalhos do jornalista e professor Luís Guilherme Pontes Tavares editor@alba.ba.gov.br , também nascido na Bahia, que a ela dedicou muitos anos de pesquisa, tendo publicado vários artigos e também sua tese de doutorado em História, defendida em 2000, na Universidade de São Paulo (USP), editada com o título Nome para compor em caixa alta: ARTHUR AREZIO DA FONSECA, ISBN 85-99366-01-7, na Coleção Cipriano Barata, pela Empresa Gráfica da Bahia, com apoio do Governo da Bahia e do Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia.
domingo, 30 de setembro de 2007
Aníbal Bragança: Felisberto de Carvalho, educador niteroiense na memória nacional
Ladeando este neoblogueiro, após a entrega da Medalha, Maria Inês de Carvalho, bisneta, e Maria Carneiro de Carvalho, casada com Emmanuel de Carvalho, neto de Felisberto de Carvalho, à esquerda; à direita, Cícero Nascimento, livreiro, e o Vereador André Diniz, atual secretário municipal de Cultura, de Niterói. Foto de Jadson Martins.Conforme o previsto, rara e raro leitor, no dia 20/09/2007, realizou-se a solenidade na Câmara Municipal de Niterói de entrega da Medalha Professor Felisberto de Carvalho a este neoblogueiro, por iniciativa do vereador André Diniz, atual secretário municipal de Cultura.
O clima de alegria e fraternidade, mais que o solene, marcou o evento, para o que concorreram as presenças, físicas e mesmo virtuais, de amigas e amigos que generosamente atenderam ao convite para compartilhar comigo de mais um ato de congraçamento entre o indivíduo e a sua cidade de eleição, Niterói, que, como o Brasil, acolhe de braços abertos os que chegam para trabalhar, conviver e servir. Obrigado a todos, mas de uma forma especial, à família de Felisberto de Carvalho que honrou a todos nós com sua presença.
Acesse o álbum de fotografias para ver ou rever alguns dos momentos e algumas das pessoas que marcaram a solenidade:
Do texto-base da palestra "Felisberto de Carvalho, educador niteroiense na memória nacional", recortamos este trecho:
Sobre a memória nacional dos livros de Felisberto de Carvalho:
Uma busca preliminar de reconhecimento do estado atual das pesquisas nessa área, permitiu-nos ter uma idéia da importância que tiveram os livros de leitura de Felisberto na formação de várias gerações em diferentes espaços, rurais e urbanos, da sociedade brasileira, nas últimas décadas do século XIX até às primeiras décadas do século XX, especialmente através dos registros feitos em livros de memórias, romances e poesias. Outros dados, como o do número de edições e tiragens, assim como a documentação arquivística, registros de pedidos e compras de livros etc., permitem ter-se uma idéia da circulação dos livros.
No livro de memórias do advogado e presidente (em 1991) da Academia Mineira de Letras, O Menino da Mata e seu cão Piloto, Vivaldi Moreira, afirma que Felisberto de Carvalho,
“mestre extraordinário da infância e da juventude”, (...) “espalhou em seus livros tudo que havia de alma, coração, sabedoria e ciência. Seus trabalhos desvirginaram nossa inteligência, ensinaram-nos de verdade. A mocidade de várias gerações de tudo a ele”.
A pesquisadora Francisca Maciel confirma que, junto com O Primeiro Livro de Leitura de Abílio César Borges e o de Hilário Ribeiro, os livros de Felisberto de Carvalho “fizeram parte da trajetória escolar de várias gerações de mineiros”. Afirma que “as primeiras edições datam, provavelmente, do final do século XIX e esses livros continuaram a ser editados até meados do século XX”.
Uma busca preliminar de reconhecimento do estado atual das pesquisas nessa área, permitiu-nos ter uma idéia da importância que tiveram os livros de leitura de Felisberto na formação de várias gerações em diferentes espaços, rurais e urbanos, da sociedade brasileira, nas últimas décadas do século XIX até às primeiras décadas do século XX, especialmente através dos registros feitos em livros de memórias, romances e poesias. Outros dados, como o do número de edições e tiragens, assim como a documentação arquivística, registros de pedidos e compras de livros etc., permitem ter-se uma idéia da circulação dos livros.
No livro de memórias do advogado e presidente (em 1991) da Academia Mineira de Letras, O Menino da Mata e seu cão Piloto, Vivaldi Moreira, afirma que Felisberto de Carvalho,
“mestre extraordinário da infância e da juventude”, (...) “espalhou em seus livros tudo que havia de alma, coração, sabedoria e ciência. Seus trabalhos desvirginaram nossa inteligência, ensinaram-nos de verdade. A mocidade de várias gerações de tudo a ele”.
A pesquisadora Francisca Maciel confirma que, junto com O Primeiro Livro de Leitura de Abílio César Borges e o de Hilário Ribeiro, os livros de Felisberto de Carvalho “fizeram parte da trajetória escolar de várias gerações de mineiros”. Afirma que “as primeiras edições datam, provavelmente, do final do século XIX e esses livros continuaram a ser editados até meados do século XX”.
Para ler o texto integral - AB: Felisberto de Carvalho, educador niteroiense na memória nacional - acesse o Arquivo do e-Grupo Cultura Letrada, clicando aqui:
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Conhece Felisberto de Carvalho?




Reprodução das capas de volumes da série Meu Livro de Leitura pertencentes ao acervo FA do Núlceo de Pesquisa sobre Livro e História Editorial no Brasil - LIHED/UFF, e a reprodução da foto do Prof. Felisberto de Carvalho, extraída do livro de Lacerda Nogueira, A mais antiga Escola Normal do Brasil (1835-1935), Niterói, 1938.
Gilberto Freyre, em sua obra Ordem e Progresso, 2 v., publicada pela José Olympio, em 1959, na qual apresenta o "processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal do Brasil sob o regime de trabalho livre", na transição da Monarquia para a República, afirma que os livros de Felisberto de Carvalho foram "verdadeiramente nacionais, na época em apreço, como livros escolares ou didáticos concorrendo de modo nada desprezível para a unidade brasileira de sentimento" (p. 191).
Gilberto Freyre, em sua obra Ordem e Progresso, 2 v., publicada pela José Olympio, em 1959, na qual apresenta o "processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal do Brasil sob o regime de trabalho livre", na transição da Monarquia para a República, afirma que os livros de Felisberto de Carvalho foram "verdadeiramente nacionais, na época em apreço, como livros escolares ou didáticos concorrendo de modo nada desprezível para a unidade brasileira de sentimento" (p. 191).
Luís Antônio Pimentel, no livro Eles nasceram em Niterói, incluído na Enciclopédia de Niterói, vol. 1 de suas Obras Reunidas, organizadas por este neoblogueiro, edição da Niterói Livros, de 2004, no verbete de Felisberto de Carvalho, afirma que "seus livros foram adotados em todo o Brasil durante decênios" e que "em 1950, ano de centenário de seu nascimento, todo o país, principalmente a imprensa, comemorou o acontecimento, exaltando as virtudes do mestre de tantas gerações" (p. 76).
Felisberto de Carvalho nasceu em Niterói, na Rua São Lourenço, em 9 de agosto de 1850, e faleceu no Rio de Janeiro em 18 de outubro de 1898. Foi jornalista, músico, professor e autor de livros didáticos que deixaram marcas na memória nacional.
Seu nome identifica, além de uma Escola Estadual em Niterói, uma honraria criada pela Câmara Municipal que distingue nomes que atuam na área educacional. Este neoblogueiro foi distinguido com a Medalha Professor Felisberto de Carvalho, por proposta do Vereador André Diniz, e a estará recebendo no próximo dia 20, quinta-feira, às 18 h., no Plenário Brígido Tinoco. daquela Câmara, na Av. Amaral Peixoto, 625, Niterói, com a presença dos amigos e a entrada franca. Na oportunidade fará breve palestra sobre o patrono da Medalha.
Saiba um pouco mais da trajetória deste neoblogueiro lendo a biografia publicado por Luís Antônio Pimentel no jornal A Tribuna, de 22 de agosto de 2007. Acesse o Arquivo do Grupo Cultura Letrada http://groups.google.com/group/cultura-letrada .
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Marialva Barbosa lança seu novo livro no Rio de Janeiro
A historiadora Marialva Barbosa, professora titular do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFF, portanto colega deste neoblogueiro, que a ela dedica grande apreço e amizade, irá lançar seu novo livro, História Cultural da Imprensa - Brasil, 1900-2000, publicado pela Mauad Editora, na Livraria Travessa, de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572), na próxima terça-feira, dia 18, a partir de 19:30.Estaremos lá e convidamos os raros e raras leitoras deste blog que se interessam pelo tema a aproveitarem a oportunidade para terem o seu exemplar com dedicatória da autora, o que é um privilégio.
O livro divide-se em 9 capítulos: Tecnologias do novo século (1900-1910); Entre tragédias e sensações: o jornalismo dos anos 1920; Vestígios memoráveis: construindo identidade e história (1920-1930); Imprensa e Estado Novo: o público como "massa" (1930-1940); Literatura como vestígio do tempo: a imprensa e o olhar dos literatos (1900-1950); "Cinqüenta anos em cinco": consolidando o mito da modernização (1950-1960); Novos atores em cena: a imprensa nos anos 1960; Cenários dos anos 1970-80: crise do Correio da Manhã e o novo sensacionalismo; Calidoscópio de mudanças (1980-2000).
No prefácio, José Marques de Melo, professor emérito da Universidade de São Paulo, afirma: "Não tenho nenhuma dúvida em situar História Cultural da Imprensa, magnificamente escrito pela professora Marialva Barbosa, no mesmo patamar ocupado pela vanguarda nacional da História da Mídia. Sua instigante, deliciosa e sedutora História da Imprensa cobre todo o século XX, perfilando como narrativa de fôlego sobre a modernização da nossa mídia impressa".
Oferecidos aos leitores, por artes do destino e dos editores, de maneira concomitante, o livro de Marialva Barbosa e o de Richard Romancini e Cláudia Lago oferecem ao estudante e ao estudioso da imprensa brasileira diferentes olhares e perspectivas bem singulares sobre sua história, cuja bibliografia sai assim muito enriquecida.
Mais uma vez, é certeiro repetir que a coruja de Minerva levanta vôo ao anoitecer.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
De Romancini e Lago, saiu a História do Jornalismo no Brasil!
Segundo os autores, Richard Romancini e Cláudia Lago, ambos doutores em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, pesquisadores da área e professores universitários em S. Paulo, o livro procura “integrar o processo histórico mais amplo às atividades que digam respeito ao jornalismo, mostrando suas inter-relações com o quadro sociopolítico, mas sem ter a pretensão de produzir uma ‘história do Brasil” e sim, “uma história do jornalismo no país, estruturada ao redor, principalmente, do jornal impresso”.
Pelos laços de afeição acadêmica e de grande apreço pessoal que me une aos dois, especialmente ao Richard, de quem conheço de muitos anos a seriedade nos trabalhos que desenvolve, aceitei o honroso convite para escrever um prefácio para o livro. É esse texto que ofereço aos raros e raras leitoras deste blog, no qual mais que da obra falo das condições atuais das práticas de leitura e de acesso ao livro no Brasil. Entretanto, posso assegurar que vale a pena correr à livraria mais próxima, física ou no virtual, e pedir já o seu exemplar.
Prefácio:
Uma das dificuldades que enfrenta o professor universitário brasileiro, em muitas áreas, é a falta de uma bibliografia introdutória, cuja leitura possa ser útil aos alunos, oferecendo-lhes um panorama geral e sintético dos conhecimentos acumulados na disciplina que vai cursar, e que, assim, possa facilitar e complementar o trabalho docente.
As novas tecnologias de informação e comunicação, especialmente a Internet, têm trazido aos alunos, e a todos, fácil acesso, ainda que desordenado, a todo tipo de conhecimento. Acrescenta-se ainda a notável tecnologia xerográfica, que permite copiar rapidamente, a baixo custo e com qualidade, excertos e obras completas, a partir de um livro impresso ou mesmo de outras cópias. Tais recursos técnicos foram criando novas práticas de pesquisa que levam ao decréscimo acentuado do uso de livros impressos, em geral, com evidentes prejuízos para editores, livreiros e autores, mas, também, pelo menos nas condições atuais, para a formação do pesquisador.
A leitura de livros exige condições psíquicas e ambientais cada vez mais difíceis de se conseguir na contemporaneidade, especialmente nas metrópoles, o que a tem tornado uma prática pouco atraente para muitos jovens, habituados a formas mais dinâmicas e interativas de acesso a conhecimentos.
Considerando ainda que, relativamente, os livros se tornaram, em geral, mais caros nos últimos anos, diante da redução das tiragens das edições, por um lado, e, por outro, pela diminuição da renda das famílias brasileiras das camadas médias, decorrente de contínuas políticas públicas de concentração de renda, tudo resulta em que o hábito de freqüentar livrarias e adquirir livros, é cada vez menor. Nas universidades o que vemos, como prática mais comum, é a reprodução xerográfica de textos ou capítulos de livros indicados pelos professores, quase sempre com sua conivência e, mesmo, estímulo.
Pelos laços de afeição acadêmica e de grande apreço pessoal que me une aos dois, especialmente ao Richard, de quem conheço de muitos anos a seriedade nos trabalhos que desenvolve, aceitei o honroso convite para escrever um prefácio para o livro. É esse texto que ofereço aos raros e raras leitoras deste blog, no qual mais que da obra falo das condições atuais das práticas de leitura e de acesso ao livro no Brasil. Entretanto, posso assegurar que vale a pena correr à livraria mais próxima, física ou no virtual, e pedir já o seu exemplar.
Prefácio:
Uma das dificuldades que enfrenta o professor universitário brasileiro, em muitas áreas, é a falta de uma bibliografia introdutória, cuja leitura possa ser útil aos alunos, oferecendo-lhes um panorama geral e sintético dos conhecimentos acumulados na disciplina que vai cursar, e que, assim, possa facilitar e complementar o trabalho docente.
As novas tecnologias de informação e comunicação, especialmente a Internet, têm trazido aos alunos, e a todos, fácil acesso, ainda que desordenado, a todo tipo de conhecimento. Acrescenta-se ainda a notável tecnologia xerográfica, que permite copiar rapidamente, a baixo custo e com qualidade, excertos e obras completas, a partir de um livro impresso ou mesmo de outras cópias. Tais recursos técnicos foram criando novas práticas de pesquisa que levam ao decréscimo acentuado do uso de livros impressos, em geral, com evidentes prejuízos para editores, livreiros e autores, mas, também, pelo menos nas condições atuais, para a formação do pesquisador.
A leitura de livros exige condições psíquicas e ambientais cada vez mais difíceis de se conseguir na contemporaneidade, especialmente nas metrópoles, o que a tem tornado uma prática pouco atraente para muitos jovens, habituados a formas mais dinâmicas e interativas de acesso a conhecimentos.
Considerando ainda que, relativamente, os livros se tornaram, em geral, mais caros nos últimos anos, diante da redução das tiragens das edições, por um lado, e, por outro, pela diminuição da renda das famílias brasileiras das camadas médias, decorrente de contínuas políticas públicas de concentração de renda, tudo resulta em que o hábito de freqüentar livrarias e adquirir livros, é cada vez menor. Nas universidades o que vemos, como prática mais comum, é a reprodução xerográfica de textos ou capítulos de livros indicados pelos professores, quase sempre com sua conivência e, mesmo, estímulo.
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Leia o texto integral do prefácio de Aníbal Bragança ao livro História do Jornalismo no Brasil nos Arquivos do e-grupo Cultura Letrada, clicando abaixo:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
Leia o texto integral do prefácio de Aníbal Bragança ao livro História do Jornalismo no Brasil nos Arquivos do e-grupo Cultura Letrada, clicando abaixo:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Auto-epitáfio de um editor, Benjamin Franklin
Aqui jaz, alimento para vermes,
O corpo de
B. Franklin,
Editor,
Tal como capa de alfarrábio
De páginas devastadas,
Despojada de letras e adornos.
Mas a obra não foi totalmente perdida:
Como ele acreditava, mais uma vez ressurgirá,
Em nova e aperfeiçoada edição,
Corrigida e ampliada,
Pelo autor.
Nascido em 6 de janeiro de 1706.
Morto em 17____ .
O corpo de
B. Franklin,
Editor,
Tal como capa de alfarrábio
De páginas devastadas,
Despojada de letras e adornos.
Mas a obra não foi totalmente perdida:
Como ele acreditava, mais uma vez ressurgirá,
Em nova e aperfeiçoada edição,
Corrigida e ampliada,
Pelo autor.
Nascido em 6 de janeiro de 1706.
Morto em 17____ .
[Em 1728]
Segundo o apresentador do belo volume, Como escolher amantes, em pequeno formato e capa dura, os textos de Benjamin Franklin selecionados para o livro “são uma pequena amostra desse encanto e humor, o vulgar e o refinado” que caracterizam a obra do autor, produzida “desde quando era um jovem de dezesseis anos até chegar à casa dos oitenta”, e são uma oportunidade para o leitor dar uma rápida piscadela diante do retrato de Franklin (na nota de cem dólares), que o poderá surpreender com um “sorriso zombeteiro”.
Em 1748, aos 42 anos de idade, Benjamin decidiu que era rico o bastante para se aposentar como editor, mas [antes], quando tinha 22 anos e tentava iniciar a vida na Filadélfia, ele redigiu um ‘Auto-epitáfio de um editor’ (p. 107). Segundo Wilson, “era apenas uma contribuição para uma competição em que os membros do clube que ele fundara redigiram epitáfios sério-cômicos para si próprios”. Mas Franklin o incluiu em sua autobiografia, publicada 50 anos depois.
In Como escolher amantes e outros escritos. Apresentação biográfica de R. Jackson Wilson. S. Paulo: EdUnesp, 2006.
Em 1748, aos 42 anos de idade, Benjamin decidiu que era rico o bastante para se aposentar como editor, mas [antes], quando tinha 22 anos e tentava iniciar a vida na Filadélfia, ele redigiu um ‘Auto-epitáfio de um editor’ (p. 107). Segundo Wilson, “era apenas uma contribuição para uma competição em que os membros do clube que ele fundara redigiram epitáfios sério-cômicos para si próprios”. Mas Franklin o incluiu em sua autobiografia, publicada 50 anos depois.
In Como escolher amantes e outros escritos. Apresentação biográfica de R. Jackson Wilson. S. Paulo: EdUnesp, 2006.
Marcadores:
Benjamin Franklin; editor; epitáfio.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Para Leer el XXI, Por el mejoramiento humano
Mais uma razão para ir conhecer a bela Ilha, com seus próprios olhos, críticos ou encantados:
Congreso Internacional Lectura 2007:
Para Leer el XXI, Por el mejoramiento humano
II Taller Internacional IBBY Para los niños trabajamos.
Ciudad de La Habana, Cuba, del 23 al 27 de octubre
Informações (em breve serão atualizadas):
www.congresolectura2007.com
Presidenta Comité Organizador: Emilia Gallego Alfonso
Congreso Internacional Lectura 2007:
Para Leer el XXI, Por el mejoramiento humano
II Taller Internacional IBBY Para los niños trabajamos.
Ciudad de La Habana, Cuba, del 23 al 27 de octubre
Informações (em breve serão atualizadas):
www.congresolectura2007.com
Presidenta Comité Organizador: Emilia Gallego Alfonso
Marcadores:
Leitura; IBBY; Congresso de Leitura; Cuba
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Luís Antônio Pimentel, o haicai e o filósofo na Bienal do Livro e outras notas
Roberto Kahlmeyer-Mertens, professor de filosofia, escreveu o livro Verdade-Metafísica-Poesia, um ensaio de filosofia sobre os haicais de Luís Antônio Pimentel, que, editado pela Nitpress, será lançado na Bienal do Livro, no dia 22 de setembro próximo (veja abaixo a programação parcial da Ilha "Letras de Niterói"). Nesse mesmo volume está incluída uma entrevista concedida por Pimentel ao autor, da qual podemos oferecer a você alguns excertos, como este:
K-M: O senhor é apontado como um dos responsáveis pela recepção do gênero haicai no Brasil, ao lado de Olga Savary, Helena Kolody e, mesmo, o Guilherme de Almeida, um pouco antes. Como foi seu primeiro contato com a poesia haicai?
LAP: Eu gostaria de registrar isso, pois há uma imprecisão aí. Alguns dizem que a primeira notícia que se tem do haicai no Brasil é dada no livro Miçangas de Afrânio Peixoto. Bom, tenho o livro e vou trazer para você ver... nem de longe se fala de haicai, tampouco de poesia japonesa. A primeira vez que tive contato com haicai eu tinha 14 ou 15 anos, foi na primeira edição em língua portuguesa de O tesouro da juventude. Se você tiver chance de consultar esta edição verá lá haicais traduzidos por Manuel Bandeira, mas todos com “pé quebrado”... Ali, Bandeira mostrava o haicai mas não explicava o que era, apenas apresentava e não havia um estudo sobre ele. Daí, quando fui para o Japão, com meus vinte e cinco anos (dez anos depois daquele primeiro contato) tive a sorte de conhecer um grande poeta japonês que tinha estado no Brasil com o pai, que era Chargé d’affaires. (Na época em que nosso país ainda não tinha representante diplomático, esse cargo seria o de um “encarregado de negócios”, como se fosse um Cônsul). Seu nome era Horiguchi Daigako (que significa “Grande escola”, “Universidade” em japonês) e, conversando, ele me mostrou, explicou o que era o haicai. Eu disse que não saberia fazer haicais, pois as palavras japonesas eram pequenas, quase monossilábicas como as do chinês. Daí, ele interessado em me ensinar, disse: “ ―Pimentel, como você tem coragem de me dizer isso?! Veja só na minha língua a palavra eu: watakushi (4 sílabas); a palavra. você: wanatá (3 sílabas). É uma língua em que existe sinônimo para pronomes, e pronomes de tratamento cada um para um caso específico. Então, não me venha falar em dificuldade”. Foi com ele que eu aprendi um pouco sobre a história do haicai, suas normas... foi com ele que eu soube que havia os mestres do haicai e com ele conheci a obra de Bashô. (Eu algum dia ainda vou escrever a biografia do Bashô, com os detalhes da vida dele que foi um sujeito extraordinário).
Para ler mais alguns excertos deste "Diálogo com Pimentel", acesse:
http://groups.google.com.br/group/luis-antonio-pimentel?hl=pt-BR
Convidamos você, rara ou raro leitor, a visitar a Ilha "Letras de Niterói", que pela primeira vez se formará na XIII Bienal do Livro, de 13 a 23 de setembro, no Riocentro, e a participar de suas atividades:
Programação parcial:
Sábado, 15 de setembro:
10/12h:
Lançamento do livro Fluminenses - Antologia contemporânea, volume 1, uma co-edição da Nitpress com a Academia Fluminense de Letras e com o Cenáculo Fluminense de História e
Letras.
Mesa-redonda: Literatura fluminense contemporânea, com Edmo Lutterbach, Márcia Pessanha e Carlos Mônaco.
Sábado, 22 de setembro:
10-12h:
Lançamento do livro Verdade-Metafísica-Poesia - Um ensaio de filosofia a partir dos haicais de Luís Antônio Pimentel, de Roberto Kahlmeyer-Mertens, edição da Nitpress;
Mesa-redonda: Haicais de Luís Antônio Pimentel, com Roberto Kahlmeyer-Mertens, Aníbal Bragança, Marco Lucchesi e o próprio Luís Antônio Pimentel.
12:10 – Autógrafos de Minidicionário anticonvencional, de Sandro Pereira Rebel
13:00 – Autógrafos de A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil, organizado por Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos, edição da Imprensa Oficial/RJ.
Mais informações:
http://nitpress.tripod.com/
http://www.culturaniteroi.com.br/
http://www.bienaldolivro.com.br/
K-M: O senhor é apontado como um dos responsáveis pela recepção do gênero haicai no Brasil, ao lado de Olga Savary, Helena Kolody e, mesmo, o Guilherme de Almeida, um pouco antes. Como foi seu primeiro contato com a poesia haicai?
LAP: Eu gostaria de registrar isso, pois há uma imprecisão aí. Alguns dizem que a primeira notícia que se tem do haicai no Brasil é dada no livro Miçangas de Afrânio Peixoto. Bom, tenho o livro e vou trazer para você ver... nem de longe se fala de haicai, tampouco de poesia japonesa. A primeira vez que tive contato com haicai eu tinha 14 ou 15 anos, foi na primeira edição em língua portuguesa de O tesouro da juventude. Se você tiver chance de consultar esta edição verá lá haicais traduzidos por Manuel Bandeira, mas todos com “pé quebrado”... Ali, Bandeira mostrava o haicai mas não explicava o que era, apenas apresentava e não havia um estudo sobre ele. Daí, quando fui para o Japão, com meus vinte e cinco anos (dez anos depois daquele primeiro contato) tive a sorte de conhecer um grande poeta japonês que tinha estado no Brasil com o pai, que era Chargé d’affaires. (Na época em que nosso país ainda não tinha representante diplomático, esse cargo seria o de um “encarregado de negócios”, como se fosse um Cônsul). Seu nome era Horiguchi Daigako (que significa “Grande escola”, “Universidade” em japonês) e, conversando, ele me mostrou, explicou o que era o haicai. Eu disse que não saberia fazer haicais, pois as palavras japonesas eram pequenas, quase monossilábicas como as do chinês. Daí, ele interessado em me ensinar, disse: “ ―Pimentel, como você tem coragem de me dizer isso?! Veja só na minha língua a palavra eu: watakushi (4 sílabas); a palavra. você: wanatá (3 sílabas). É uma língua em que existe sinônimo para pronomes, e pronomes de tratamento cada um para um caso específico. Então, não me venha falar em dificuldade”. Foi com ele que eu aprendi um pouco sobre a história do haicai, suas normas... foi com ele que eu soube que havia os mestres do haicai e com ele conheci a obra de Bashô. (Eu algum dia ainda vou escrever a biografia do Bashô, com os detalhes da vida dele que foi um sujeito extraordinário).
Para ler mais alguns excertos deste "Diálogo com Pimentel", acesse:
http://groups.google.com.br/group/luis-antonio-pimentel?hl=pt-BR
Convidamos você, rara ou raro leitor, a visitar a Ilha "Letras de Niterói", que pela primeira vez se formará na XIII Bienal do Livro, de 13 a 23 de setembro, no Riocentro, e a participar de suas atividades:
Programação parcial:
Sábado, 15 de setembro:
10/12h:
Lançamento do livro Fluminenses - Antologia contemporânea, volume 1, uma co-edição da Nitpress com a Academia Fluminense de Letras e com o Cenáculo Fluminense de História e
Letras.
Mesa-redonda: Literatura fluminense contemporânea, com Edmo Lutterbach, Márcia Pessanha e Carlos Mônaco.
Sábado, 22 de setembro:
10-12h:
Lançamento do livro Verdade-Metafísica-Poesia - Um ensaio de filosofia a partir dos haicais de Luís Antônio Pimentel, de Roberto Kahlmeyer-Mertens, edição da Nitpress;
Mesa-redonda: Haicais de Luís Antônio Pimentel, com Roberto Kahlmeyer-Mertens, Aníbal Bragança, Marco Lucchesi e o próprio Luís Antônio Pimentel.
12:10 – Autógrafos de Minidicionário anticonvencional, de Sandro Pereira Rebel
13:00 – Autógrafos de A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil, organizado por Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos, edição da Imprensa Oficial/RJ.
Mais informações:
http://nitpress.tripod.com/
http://www.culturaniteroi.com.br/
http://www.bienaldolivro.com.br/
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Mário de Andrade, Manuel Bandeira e a Pasárgada
S. Paulo, 27-XII-29
Manú,
bom-dia. Outro dia principiou me inquietando a sorte que você deu pro seu livro novo de poesia. (...) Que fim levou? Desistiu por agora?
Comigo sucedeu uma coisa engraçada, faz uns dois meses. Passei a limpo os contos do “Belazarte”, levei pro impressor, combinei preço, tudo, dei ordem pra se imprimir. Cheguei em casa me bateu uma tal descoragem de publicar livro agora! É estúpido a gente estar imaginando em literatura numa época destas em que nem se sabe o Brasil em que irá dar. Crise, inda por cima, e a gente criando “luxo”. Achei que era besteira publicar e no dia seguinte retirei os originais da tipografia. Tem momentos porém em que me volta vontade de publicar já a coisa. Isto vai numa palhaçada tamanha que o milhor é a gente não se importar mesmo, ir embora pra Passárgada! (...)
*
S. Paulo, 25-V-30.
Manú,
Recebi o seu livro hoje e foi um alegrão. (...) Fiquei infinitamente grato a você pela lembrança de mandar dois exemplares. Uma das minhas atuais derivações da sexualidade é a bibliofilia, e exemplar com dedicatória, de sujeito de valor, guardo sem cortar, como mandam as manias de agora.
E, por voltar ao seu livro, uma coisa quero desde logo dizer: você teve a força de conseguir finalmente o que mais desejou na sua poesia, e isso deve ser infinitamente agradavel prum artista, imagino...
Atingiu um depuramento que me parece impossível ser mais. Seu livro é alma e alma só. Não posso me resolver a chamar isso de poesia. Mas nomes e concepções estéticas não tem importância nenhuma, diante da verdade e me parece absolutamente certo que jamais você foi tão exclusivamente você como no lirismo absoluto de Libertinagem.
Um grande abraço por essa vitória.
Quanto a mandar o livro pra expor nas livrarias, está claro que estou inteiramente ás ordens. (...)
**
Vou-me embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
(do livro Libertinagem)
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na casa que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
*
"Biografia de Pasárgada"
Manuel Bandeira
Quando eu tinha os meus quinze anos e traduzia na classe de grego do Pedro II a Ciropedia fiquei encantado com esse nome de uma cidadezinha fundada por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia, para lá passar os verões. A minha imaginação de adolescente começou a trabalhar e eu vi Pasárgada e vivi durante alguns anos em Pasárgada.
Mais de vinte anos depois, num momento de profundo cafard e desânimo, saltou-me do subsconsciente este grito de evasão: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez o poema saiu quase ao correr da pena. Se há belezas em “Vou-me embora pra Pasárgada”, elas não passam de acidentes. Não construí o poema, ele construiu-se em mim nos recessos do subconsciente, utilizando as reminiscências da infância – as história que Rosa, a minha ama-seca mulata, me contava, o sonho jamais realizado de uma bicicleta etc. O quase inválido que eu era ainda por volta de 1926 imaginava em Pasárgada o exercício de todas as atividades que a doença me impedia.
“E como eu farei ginástica... tomarei banhos de mar!” A esse aspecto Pasárgada é “toda a vida que podia ter sido e que não foi”.
Mário de Andrade. Cartas a Manuel Bandeira. Prefácio e notas de Manuel Bandeira, Rio de Janeiro: Tecnoprint (Edições de Ouro), 1967, p. 293 e 301-305.
Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa. 2a. ed. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967 (Comemorativa do 80º aniversário do poeta), p. 31, 264-265. O livro Libertinagem, com poemas escritos entre 1924 e 1930, foi publicado, em 1930, em edição de 500 exemplares, custeada pelo poeta. Ocupa as páginas 237-266 do belo e pequeno volume da Aguilar, em papel tipo arroz. É acompanhado, nesta edição, de uma “nota preliminar” de Mário de Andrade,
Estes excertos, rara ou raro leitor, apontam para as dificuldades de publicação de dois livros, Contos de Belazarte, de Mário, e Libertinagem, de Bandeira, que se tornaram clássicos da literatura brasileira modernista. E também as incertezas que, na época, cercaram os seus autores quanto ao futuro de suas obras. A faceta de bibliófilo de Mário de Andrade é aqui apenas vislumbrada. Voltaremos a ela.
*
Em 1975, um livreiro de Niterói, então com 30 anos, recém-separado, com 3 filhas, tendo ficado nu (como o personagem de Encontro Marcado, de Fernando Sabino), resolveu, com muita determinação e nenhum dinheiro, criar uma nova livraria, a primeira de Icaraí
(obrigado, Bernardo Ferreiro e aos amigos que a ajudaram a construir, desinteressadamente).
Seu nome ficou na história das livrarias brasileiras e da vida cultural de Niterói. Este neoblogueiro, o livreiro, vivendo o sonho de Manuel, deu-lhe o nome Pasárgada... e lá foi muito feliz, enquanto ela durou. 13 anos depois fechou as portas. Os sonhos não morrem.
Você, rara ou raro leitor, conheceu Pasárgada? Qual?
Manú,
bom-dia. Outro dia principiou me inquietando a sorte que você deu pro seu livro novo de poesia. (...) Que fim levou? Desistiu por agora?
Comigo sucedeu uma coisa engraçada, faz uns dois meses. Passei a limpo os contos do “Belazarte”, levei pro impressor, combinei preço, tudo, dei ordem pra se imprimir. Cheguei em casa me bateu uma tal descoragem de publicar livro agora! É estúpido a gente estar imaginando em literatura numa época destas em que nem se sabe o Brasil em que irá dar. Crise, inda por cima, e a gente criando “luxo”. Achei que era besteira publicar e no dia seguinte retirei os originais da tipografia. Tem momentos porém em que me volta vontade de publicar já a coisa. Isto vai numa palhaçada tamanha que o milhor é a gente não se importar mesmo, ir embora pra Passárgada! (...)
*
S. Paulo, 25-V-30.
Manú,
Recebi o seu livro hoje e foi um alegrão. (...) Fiquei infinitamente grato a você pela lembrança de mandar dois exemplares. Uma das minhas atuais derivações da sexualidade é a bibliofilia, e exemplar com dedicatória, de sujeito de valor, guardo sem cortar, como mandam as manias de agora.
E, por voltar ao seu livro, uma coisa quero desde logo dizer: você teve a força de conseguir finalmente o que mais desejou na sua poesia, e isso deve ser infinitamente agradavel prum artista, imagino...
Atingiu um depuramento que me parece impossível ser mais. Seu livro é alma e alma só. Não posso me resolver a chamar isso de poesia. Mas nomes e concepções estéticas não tem importância nenhuma, diante da verdade e me parece absolutamente certo que jamais você foi tão exclusivamente você como no lirismo absoluto de Libertinagem.
Um grande abraço por essa vitória.
Quanto a mandar o livro pra expor nas livrarias, está claro que estou inteiramente ás ordens. (...)
**
Vou-me embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
(do livro Libertinagem)
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na casa que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
*
"Biografia de Pasárgada"
Manuel Bandeira
Quando eu tinha os meus quinze anos e traduzia na classe de grego do Pedro II a Ciropedia fiquei encantado com esse nome de uma cidadezinha fundada por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia, para lá passar os verões. A minha imaginação de adolescente começou a trabalhar e eu vi Pasárgada e vivi durante alguns anos em Pasárgada.
Mais de vinte anos depois, num momento de profundo cafard e desânimo, saltou-me do subsconsciente este grito de evasão: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez o poema saiu quase ao correr da pena. Se há belezas em “Vou-me embora pra Pasárgada”, elas não passam de acidentes. Não construí o poema, ele construiu-se em mim nos recessos do subconsciente, utilizando as reminiscências da infância – as história que Rosa, a minha ama-seca mulata, me contava, o sonho jamais realizado de uma bicicleta etc. O quase inválido que eu era ainda por volta de 1926 imaginava em Pasárgada o exercício de todas as atividades que a doença me impedia.
“E como eu farei ginástica... tomarei banhos de mar!” A esse aspecto Pasárgada é “toda a vida que podia ter sido e que não foi”.
Mário de Andrade. Cartas a Manuel Bandeira. Prefácio e notas de Manuel Bandeira, Rio de Janeiro: Tecnoprint (Edições de Ouro), 1967, p. 293 e 301-305.
Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa. 2a. ed. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967 (Comemorativa do 80º aniversário do poeta), p. 31, 264-265. O livro Libertinagem, com poemas escritos entre 1924 e 1930, foi publicado, em 1930, em edição de 500 exemplares, custeada pelo poeta. Ocupa as páginas 237-266 do belo e pequeno volume da Aguilar, em papel tipo arroz. É acompanhado, nesta edição, de uma “nota preliminar” de Mário de Andrade,
Estes excertos, rara ou raro leitor, apontam para as dificuldades de publicação de dois livros, Contos de Belazarte, de Mário, e Libertinagem, de Bandeira, que se tornaram clássicos da literatura brasileira modernista. E também as incertezas que, na época, cercaram os seus autores quanto ao futuro de suas obras. A faceta de bibliófilo de Mário de Andrade é aqui apenas vislumbrada. Voltaremos a ela.
*
Em 1975, um livreiro de Niterói, então com 30 anos, recém-separado, com 3 filhas, tendo ficado nu (como o personagem de Encontro Marcado, de Fernando Sabino), resolveu, com muita determinação e nenhum dinheiro, criar uma nova livraria, a primeira de Icaraí
(obrigado, Bernardo Ferreiro e aos amigos que a ajudaram a construir, desinteressadamente).
Seu nome ficou na história das livrarias brasileiras e da vida cultural de Niterói. Este neoblogueiro, o livreiro, vivendo o sonho de Manuel, deu-lhe o nome Pasárgada... e lá foi muito feliz, enquanto ela durou. 13 anos depois fechou as portas. Os sonhos não morrem.
Você, rara ou raro leitor, conheceu Pasárgada? Qual?
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
1ª Antologia Alma de Poeta, organizada por Luiz Fernando Prôa
Em comemoração aos 7 anos do sítio virtual Alma de Poeta.
Para participar, acesse o linque abaixo, conheça as regras e saiba quais são os poetas já confirmados.
http://www.almadepoeta.com/antologiaalmadepoeta.htm
Aproveite, rara ou raro leitor, para conhecer todos os poetas que vivem no sítio de Luiz Fernando Prôa, mas não deixem de fazer uma visita especial aos Poetas Imortais.
Para participar, acesse o linque abaixo, conheça as regras e saiba quais são os poetas já confirmados.
http://www.almadepoeta.com/antologiaalmadepoeta.htm
Aproveite, rara ou raro leitor, para conhecer todos os poetas que vivem no sítio de Luiz Fernando Prôa, mas não deixem de fazer uma visita especial aos Poetas Imortais.
Quais são as 7 maravilhas do Rio?
Outro concurso sobre 7 maravilhas! Depois da eleição do Cristo Redentor como uma das 7 novas maravilhas do mundo, fica-se animado! Este agora é para escolher as maravilhas do Estado do Rio. Já houve uma pré-seleção e foram escolhidas 30 (confesso que é pouco entre tantas que por aqui há) para que sejam indicadas as 7 por votação direta. Dentre as selecionadas estão 2 não tão óbvias, mas que, por razões do coração (existem, sim) achamos que merecem estar entre as 7 finalistas. Uma é de Niterói (adivinhem!), outra é o Real Gabinete Português de Leitura, uma instituição que tem prestado inestimáveis serviços à cultura letrada luso-brasileira, cuja sede tem uma arquitetura notável. Uma das mais belas bibliotecas da lusofonia, ao lado da Joanina, da Universidade de Coimbra, e da nossa Biblioteca Nacional.
Vote no sítio virtual http://www.7maravilhasdorio.com.br/ .
Vote no sítio virtual http://www.7maravilhasdorio.com.br/ .
Marcadores:
Real Gabinete; 7 maravilhas do Rio; Niterói
Mensagem a Pessoa, de Gabriela Mello Barbosa
Não sei precisar quando,
mas garanto que fui eu – engano teu! –
que tais versos escrevi.
Queres a prova, dou-te uma página
em branco (foi-me arrancado do regaço
cada filho que pari)
Felicita-me que alguém,
em outras terras, tenha,
destes versos,
se feito autor.
Que, em algum ponto,
duas almas se assemelhem tanto!,
gêmeas na alegria e na dor
Perdôo-te, Pessoa, portanto,
por teres tomado os meus versos para ti
(não é de hoje que te venho perdoando)
por assinares o que nunca escrevi.
Poema inédito em livro.
Muitas vezes lemos como se nossos fossem, de tão afins, textos que outros escreveram. Textos que muitas vezes gostaríamos de ter escrito. Isso ocorre freqüentemente quando lemos autores geniais, que captam a alma do mundo, como Fernando Pessoa, na nossa língua (e em qualquer) um dos maiores. Mas expressar isso com a beleza e complexidade que tem este Mensagem a Pessoa é privilégio de poetas! E você, rara ou raro leitor, tem algum poema inédito que aborde temas de autoria, intertextualidade e leitura para compartilhar conosco?
mas garanto que fui eu – engano teu! –
que tais versos escrevi.
Queres a prova, dou-te uma página
em branco (foi-me arrancado do regaço
cada filho que pari)
Felicita-me que alguém,
em outras terras, tenha,
destes versos,
se feito autor.
Que, em algum ponto,
duas almas se assemelhem tanto!,
gêmeas na alegria e na dor
Perdôo-te, Pessoa, portanto,
por teres tomado os meus versos para ti
(não é de hoje que te venho perdoando)
por assinares o que nunca escrevi.
Poema inédito em livro.
Muitas vezes lemos como se nossos fossem, de tão afins, textos que outros escreveram. Textos que muitas vezes gostaríamos de ter escrito. Isso ocorre freqüentemente quando lemos autores geniais, que captam a alma do mundo, como Fernando Pessoa, na nossa língua (e em qualquer) um dos maiores. Mas expressar isso com a beleza e complexidade que tem este Mensagem a Pessoa é privilégio de poetas! E você, rara ou raro leitor, tem algum poema inédito que aborde temas de autoria, intertextualidade e leitura para compartilhar conosco?
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Minidicionário anticonvencional, de Sandro Pereira Rebel
Achado – para o literato, uma idéia brilhante e incomum.
Adeus – o prefácio de um livro chamado saudade.
Beletrista – um intelectual de fraque, cartola e bengala.
Biblioteca – um repositório de cultura, muito apreciado por intelectuais, traças e cupins.
Capitular – render-se aos poucos, isto é, por capítulos.
Coloquial – a fala mais afinada com a voz do povo.
Comentário – o blá-blá-blá refinado.
Exceção – a filha enjeitada da regra.
Exegese – a arte de decifrar as ambigüidades dos textos.
Gramática – conjunto de regras em cujas exceções procuramos enquadrar os nossos erros.
Hermética – na poesia, a idéia que se tem de descobrir ou adivinhar.
Hermeneuta – o especialista em escarafunchar os buracos das leis.
Lápide – a última pedra dos nossos caminhos.
Lápis – a caneta das primeiras letras.
Leitor – você.
Livreiro – o comerciante que vende o que não tem preço: o saber.
Metáfora – dizer uma mesma coisa usando palavras que significam outra.
Mímica – a fala que não sai da boca.
Monologar – conversar consigo mesmo ou com uma platéia muda.
Monotonia – o canto da goteira.
Neologismo – a reciclagem da língua.
Neto – o filho em reedição atualizada e melhorada.
Novela – o novelo que leva meses para ser desenrolado.
Opinião – a verdade de cada um.
Palavra – o cativeiro do escritor.
Palco – lugar onde a vida vira peça de teatro.
Parênteses – os biombos das palavras.
Pesquisa – o plágio amplificado e institucionalizado.
Poeta – o pastor dos sonhos próprios e alheios.
Polígrafo – o escritor que joga nas onze.
Posteridade – o futuro do futuro.
Póstuma – a obra que cheira a formol.
Prefácio – a apresentação de um trabalho, feita por um amigo do autor.
Prolixo – quem se deixa atropelar por suas próprias palavras.
Reticências – uma forma de os tímidos, os indecisos e os maliciosos se expressarem.
Sábio – quem sabe que nunca sabe o bastante para não precisar saber mais.
Sapiência – o sabor do saber.
Sebo – livraria onde o livro, quanto mais velho for, mais novidade será.
Sofisma – uma construção bonita assentada em areia movediça.
Trova – a foto 3 x 4 da poesia.
Ze – a letra que fecha o trabalho dos dicionaristas.
Estas são algumas das definições pinçadas do Minidicionário anticonvencional, de Sandro Pereira Rebel, editado pela Nitpress, em 2006 http://nitpress.tripod.com . Sobre a obra, de 150 p., em formato 18 x 12 cm., afirma Luís Antônio Pimentel, na orelha do livro: “Não se trata, como diz o povão, de um livro para ‘ensinar padre-nosso ao vigário’. Muito pelo contrário: trata de definir, explicar, por formas as mais variadas, o significado oculto, malicioso e até mesmo humorístico de certos vocábulos”. O próprio autor, na apresentação, é cuidadoso sobre a originalidade de suas definições: “pensamos que pensamos, mas, na verdade, não pensamos, e sim, isto sim, apenas pensamos e repensamos pensamentos muitas vezes já pensados e repensados por outros. Essa ressalva cabe também, e sob medida, em relação a tudo de que se compõe este livro”. Que, rara leitora ou leitor, como se pode ver pela breve amostra acima, é inteligente e se lê com prazer, com muitas paradas para refletir, outras tantas para sorrir.
Adeus – o prefácio de um livro chamado saudade.
Beletrista – um intelectual de fraque, cartola e bengala.
Biblioteca – um repositório de cultura, muito apreciado por intelectuais, traças e cupins.
Capitular – render-se aos poucos, isto é, por capítulos.
Coloquial – a fala mais afinada com a voz do povo.
Comentário – o blá-blá-blá refinado.
Exceção – a filha enjeitada da regra.
Exegese – a arte de decifrar as ambigüidades dos textos.
Gramática – conjunto de regras em cujas exceções procuramos enquadrar os nossos erros.
Hermética – na poesia, a idéia que se tem de descobrir ou adivinhar.
Hermeneuta – o especialista em escarafunchar os buracos das leis.
Lápide – a última pedra dos nossos caminhos.
Lápis – a caneta das primeiras letras.
Leitor – você.
Livreiro – o comerciante que vende o que não tem preço: o saber.
Metáfora – dizer uma mesma coisa usando palavras que significam outra.
Mímica – a fala que não sai da boca.
Monologar – conversar consigo mesmo ou com uma platéia muda.
Monotonia – o canto da goteira.
Neologismo – a reciclagem da língua.
Neto – o filho em reedição atualizada e melhorada.
Novela – o novelo que leva meses para ser desenrolado.
Opinião – a verdade de cada um.
Palavra – o cativeiro do escritor.
Palco – lugar onde a vida vira peça de teatro.
Parênteses – os biombos das palavras.
Pesquisa – o plágio amplificado e institucionalizado.
Poeta – o pastor dos sonhos próprios e alheios.
Polígrafo – o escritor que joga nas onze.
Posteridade – o futuro do futuro.
Póstuma – a obra que cheira a formol.
Prefácio – a apresentação de um trabalho, feita por um amigo do autor.
Prolixo – quem se deixa atropelar por suas próprias palavras.
Reticências – uma forma de os tímidos, os indecisos e os maliciosos se expressarem.
Sábio – quem sabe que nunca sabe o bastante para não precisar saber mais.
Sapiência – o sabor do saber.
Sebo – livraria onde o livro, quanto mais velho for, mais novidade será.
Sofisma – uma construção bonita assentada em areia movediça.
Trova – a foto 3 x 4 da poesia.
Ze – a letra que fecha o trabalho dos dicionaristas.
Estas são algumas das definições pinçadas do Minidicionário anticonvencional, de Sandro Pereira Rebel, editado pela Nitpress, em 2006 http://nitpress.tripod.com . Sobre a obra, de 150 p., em formato 18 x 12 cm., afirma Luís Antônio Pimentel, na orelha do livro: “Não se trata, como diz o povão, de um livro para ‘ensinar padre-nosso ao vigário’. Muito pelo contrário: trata de definir, explicar, por formas as mais variadas, o significado oculto, malicioso e até mesmo humorístico de certos vocábulos”. O próprio autor, na apresentação, é cuidadoso sobre a originalidade de suas definições: “pensamos que pensamos, mas, na verdade, não pensamos, e sim, isto sim, apenas pensamos e repensamos pensamentos muitas vezes já pensados e repensados por outros. Essa ressalva cabe também, e sob medida, em relação a tudo de que se compõe este livro”. Que, rara leitora ou leitor, como se pode ver pela breve amostra acima, é inteligente e se lê com prazer, com muitas paradas para refletir, outras tantas para sorrir.
domingo, 22 de julho de 2007
Livros, de Caetano Veloso
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos ama-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Doma-los, cultiva-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lança-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
In Livro, Edição PolyGram, 1997. Para saber mais: www.caetanoveloso.com.br
Caetano é certamente um dos mais intelectualizados dos compositores populares brasileiros, ao lado de Chico Buarque e Gilberto Gil (para falar só dos mais famosos). Autor de livros, é, podemos perceber pelo poema acima, alguém que reflete sobre eles como leitor e bibliófilo. E se pudermos ler suas palavras como testemunho pessoal, é alguém que, jovem, percebeu os livros – em uma casa e numa cidade quase sem eles – “como a radiação de um corpo negro apontando pra a expansão do Universo”.
Os últimos versos da terceira estrofe nos lembram Walter Benjamin, quando afirmou que os escritores fazem livros “porque estão insatisfeitos com os livros que poderiam comprar e que não lhes agradam” (em “Desempacotando minha biblioteca”, inscrito aqui no blog, em postagem abaixo). Mas, ao contrário da hipótese de Caetano, certamente não para “encher de vãs palavras muitas páginas e de mais confusão as prateleiras”!
Você, rara ou raro leitor, vê mais que vãs palavras nesta canção do Caetano?
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos ama-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Doma-los, cultiva-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lança-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
In Livro, Edição PolyGram, 1997. Para saber mais: www.caetanoveloso.com.br
Caetano é certamente um dos mais intelectualizados dos compositores populares brasileiros, ao lado de Chico Buarque e Gilberto Gil (para falar só dos mais famosos). Autor de livros, é, podemos perceber pelo poema acima, alguém que reflete sobre eles como leitor e bibliófilo. E se pudermos ler suas palavras como testemunho pessoal, é alguém que, jovem, percebeu os livros – em uma casa e numa cidade quase sem eles – “como a radiação de um corpo negro apontando pra a expansão do Universo”.
Os últimos versos da terceira estrofe nos lembram Walter Benjamin, quando afirmou que os escritores fazem livros “porque estão insatisfeitos com os livros que poderiam comprar e que não lhes agradam” (em “Desempacotando minha biblioteca”, inscrito aqui no blog, em postagem abaixo). Mas, ao contrário da hipótese de Caetano, certamente não para “encher de vãs palavras muitas páginas e de mais confusão as prateleiras”!
Você, rara ou raro leitor, vê mais que vãs palavras nesta canção do Caetano?
sexta-feira, 20 de julho de 2007
As difíceis condições para vencer na vida literária, por George Orwell (1903-1950)
O relógio bateu duas e meia. No pequeno escritório nos fundos da livraria do Sr. McKechnie, Gordon – Gordon Comstock, último membro da família Comstock, de 29 anos e já um tanto envelhecido – reclinava-se sobre a mesa, abrindo e fechando com o polegar a tampa de um pacote de cigarros Player’s Weights.
(...)
Gordon afastou-se da porta, voltando às prateleiras de livros. Nelas, à esquerda de quem sai da livraria, ficavam os livros novos e quase novos - uma mancha colorida, para atrair os olhos de quem olhasse pela porta de vidro. Suas lombadas finas e limpas tinham o ar de oferecer-se das prateleiras. Pareciam estar dizendo: "Compre-me! Compre-me!". (...)
Gordon afastou os olhos dos "encalhes". Traziam-lhe más recordações. O único e maldito livrinho que ele havia publicado, há dois anos, vendera exatamente 153 exemplares, e "encalhara"; mesmo como "encalhe", não havia conseguido vender nada. (...)
Os livros que estavam à sua frente eram de prosa, uma miscelânea. Sofriam uma classificação qualitativa, para cima e para baixo. À altura dos olhos estavam os livros em bom estado e caros, que iam ficando mais gastos e baratos à medida que as prateleiras subiam ou desciam. Em todas as livrarias uma selvagem luta darwiniana na qual as obras dos autores vivos ficam ao nível dos olhos, e as dos mortos sobem ou descem – baixa à Geena ou ascendem ao trono, mas sempre distantes de qualquer posição em que sejam percebidos.
Nas prateleiras de baixo, os “clássicos”, os monstros extintos da era vitoriana, apodreciam em paz. Scott, Carlyle, Meredith, Ruskin, Peter, Stevenson – mal se podiam ler os nomes nas suas lombadas maltratadas. Nas prateleiras do alto, quase que fora da vista, dormiam as dulçurosas biografias dos duques. Abaixo delas, ainda vendáveis e portanto ao alcance da mão, estava a literatura “religiosa” – todas as seitas e todos os credos, amontoados indiscriminadamente. O mundo do além, pelo autor de Fui tocado por mãos espirituais. A vida de Cristo, de Dean Farrar, Jesus, o primeiro rotariano. O mais recente livro da propaganda católico-romana do padre Hilaire Chestnut. Religião vendia sempre, desde que fosse bastante piegas.
Abaixo, exatamente ao nível dos olhos estavam os livros contemporâneos. O último de Pristley. Atraentes livrinhos de “médiuns” reeditados. “Humor” estimulante de Herbert, Knox e Milne. Alguns volumes eruditos também. Um ou dois romances de Hemingway e Virginia Woolf. Biografias simplificadas, num pseudo-estilo de Strachey. Livros pretensiosos e refinados sobre pintores consagrados e poetas consagrados, pelas jovens cavalgaduras que deslizam com tanta graça de Eton para Cambridge e de Cambridge para as revistas literárias.
Seu olhar cansado percorreu a parede de livros. Odiava-os todos, novos e velhos, eruditos e populares, pretensiosos e joviais. A simples vista deles fazia-o sentir a sua esterilidade. Ali estava, um “escritor”, supostamente, e não podia nem mesmo “escrever”. Não era apenas uma questão de não encontrar editor, mas sim de não ter produzido nada, ou quase nada. E todo aquele lixo amontoado nas estantes – bem, pelo menos existia, era uma espécie de realização.
(...)
Mas eram os livros pretensiosos, “cultos”, que lhe despertavam mais ódio. Livros de crítica, de belas-letras. O tipo de coisa que as jovens cavalgaduras endinheiradas de Cambridge escrevem quase que dormindo – e que Gordon também poderia ter escrito, se tivesse um pouco mais de dinheiro. Dinheiro e cultura! Num país como a Inglaterra era tão impossível ser culto como ingressar no Cavalry Club. (...)
Dinheiro para ter a educação certa, dinheiro para amigos influentes, dinheiro para ter ócio e tranqüilidade de espírito, dinheiro para viagens à Itália. O dinheiro escreve livros, o dinheiro os vende. Não me dê probidade, Senhor, dê-me dinheiro, apenas dinheiro. (...)
Excerto de Moinhos de vento, tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, p. 7-14.
Muitos escritores que alcançaram notoriedade e reconhecimento de leitores e da crítica, como Orwell passaram por uma experiência profissional em livrarias, editoras ou tipografias, estas especialmente de periódicos, em geral como revisores. Podem ser incluídos nessa lista Balzac, Hermann Hesse e Machado de Assis.
Este livro de Orwell, publicado inicialmente em 1936, pode ter algo de autobiográfico e expressar os anos de aprendizado e revolta de sua juventude, onde a experiência de livreiro em um sebo tinha um sabor amargo, diante do patrão, dos leitores frívolos e autores medíocres... até que, finalmente, recebe um cheque da Californian Review, “a revista americana para onde, semanas ou meses atrás, mandara um poema, em desespero”.
Antes de ser publicado pela Nova Fronteira, a obra havia sido publicada no Brasil pela editora paulista Hemus, com o título Mantenha o sistema. Nenhuma das edições alcançou grande êxito entre nós e creio mesmo que poucos freqüentadores ou livreiros que trabalharam ou trabalham em sebos já o chegou a ler. É um livro amargo de um autor que viria a publicar anos depois obras que o iriam imortalizar, A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949), pouco antes de falecer, em 1950, na miséria. Certamente livros que enriqueceram seus herdeiros.
Acredito, rara ou raro leitor, que Moinhos de vento, um título bem cervantino na tradução de Waltensir Dutra, seja um livro que tocará à sensibilidade de todos os que aspiram a ou mesmo já conseguiram um lugar ao sol no universo da vida literária. Quem sabe o encontrará num sebo e será atendida por escritor em formação?
Conheça mais:
Tudo de George Orwell: http://www.duplipensar.net/george-orwell/index.html
"Orwell o homem incômodo", de Matinas Suzuki Jr., FSP: Página de "Arquivos" de:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
(...)
Gordon afastou-se da porta, voltando às prateleiras de livros. Nelas, à esquerda de quem sai da livraria, ficavam os livros novos e quase novos - uma mancha colorida, para atrair os olhos de quem olhasse pela porta de vidro. Suas lombadas finas e limpas tinham o ar de oferecer-se das prateleiras. Pareciam estar dizendo: "Compre-me! Compre-me!". (...)
Gordon afastou os olhos dos "encalhes". Traziam-lhe más recordações. O único e maldito livrinho que ele havia publicado, há dois anos, vendera exatamente 153 exemplares, e "encalhara"; mesmo como "encalhe", não havia conseguido vender nada. (...)
Os livros que estavam à sua frente eram de prosa, uma miscelânea. Sofriam uma classificação qualitativa, para cima e para baixo. À altura dos olhos estavam os livros em bom estado e caros, que iam ficando mais gastos e baratos à medida que as prateleiras subiam ou desciam. Em todas as livrarias uma selvagem luta darwiniana na qual as obras dos autores vivos ficam ao nível dos olhos, e as dos mortos sobem ou descem – baixa à Geena ou ascendem ao trono, mas sempre distantes de qualquer posição em que sejam percebidos.
Nas prateleiras de baixo, os “clássicos”, os monstros extintos da era vitoriana, apodreciam em paz. Scott, Carlyle, Meredith, Ruskin, Peter, Stevenson – mal se podiam ler os nomes nas suas lombadas maltratadas. Nas prateleiras do alto, quase que fora da vista, dormiam as dulçurosas biografias dos duques. Abaixo delas, ainda vendáveis e portanto ao alcance da mão, estava a literatura “religiosa” – todas as seitas e todos os credos, amontoados indiscriminadamente. O mundo do além, pelo autor de Fui tocado por mãos espirituais. A vida de Cristo, de Dean Farrar, Jesus, o primeiro rotariano. O mais recente livro da propaganda católico-romana do padre Hilaire Chestnut. Religião vendia sempre, desde que fosse bastante piegas.
Abaixo, exatamente ao nível dos olhos estavam os livros contemporâneos. O último de Pristley. Atraentes livrinhos de “médiuns” reeditados. “Humor” estimulante de Herbert, Knox e Milne. Alguns volumes eruditos também. Um ou dois romances de Hemingway e Virginia Woolf. Biografias simplificadas, num pseudo-estilo de Strachey. Livros pretensiosos e refinados sobre pintores consagrados e poetas consagrados, pelas jovens cavalgaduras que deslizam com tanta graça de Eton para Cambridge e de Cambridge para as revistas literárias.
Seu olhar cansado percorreu a parede de livros. Odiava-os todos, novos e velhos, eruditos e populares, pretensiosos e joviais. A simples vista deles fazia-o sentir a sua esterilidade. Ali estava, um “escritor”, supostamente, e não podia nem mesmo “escrever”. Não era apenas uma questão de não encontrar editor, mas sim de não ter produzido nada, ou quase nada. E todo aquele lixo amontoado nas estantes – bem, pelo menos existia, era uma espécie de realização.
(...)
Mas eram os livros pretensiosos, “cultos”, que lhe despertavam mais ódio. Livros de crítica, de belas-letras. O tipo de coisa que as jovens cavalgaduras endinheiradas de Cambridge escrevem quase que dormindo – e que Gordon também poderia ter escrito, se tivesse um pouco mais de dinheiro. Dinheiro e cultura! Num país como a Inglaterra era tão impossível ser culto como ingressar no Cavalry Club. (...)
Dinheiro para ter a educação certa, dinheiro para amigos influentes, dinheiro para ter ócio e tranqüilidade de espírito, dinheiro para viagens à Itália. O dinheiro escreve livros, o dinheiro os vende. Não me dê probidade, Senhor, dê-me dinheiro, apenas dinheiro. (...)
Excerto de Moinhos de vento, tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, p. 7-14.
Muitos escritores que alcançaram notoriedade e reconhecimento de leitores e da crítica, como Orwell passaram por uma experiência profissional em livrarias, editoras ou tipografias, estas especialmente de periódicos, em geral como revisores. Podem ser incluídos nessa lista Balzac, Hermann Hesse e Machado de Assis.
Este livro de Orwell, publicado inicialmente em 1936, pode ter algo de autobiográfico e expressar os anos de aprendizado e revolta de sua juventude, onde a experiência de livreiro em um sebo tinha um sabor amargo, diante do patrão, dos leitores frívolos e autores medíocres... até que, finalmente, recebe um cheque da Californian Review, “a revista americana para onde, semanas ou meses atrás, mandara um poema, em desespero”.
Antes de ser publicado pela Nova Fronteira, a obra havia sido publicada no Brasil pela editora paulista Hemus, com o título Mantenha o sistema. Nenhuma das edições alcançou grande êxito entre nós e creio mesmo que poucos freqüentadores ou livreiros que trabalharam ou trabalham em sebos já o chegou a ler. É um livro amargo de um autor que viria a publicar anos depois obras que o iriam imortalizar, A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949), pouco antes de falecer, em 1950, na miséria. Certamente livros que enriqueceram seus herdeiros.
Acredito, rara ou raro leitor, que Moinhos de vento, um título bem cervantino na tradução de Waltensir Dutra, seja um livro que tocará à sensibilidade de todos os que aspiram a ou mesmo já conseguiram um lugar ao sol no universo da vida literária. Quem sabe o encontrará num sebo e será atendida por escritor em formação?
Conheça mais:
Tudo de George Orwell: http://www.duplipensar.net/george-orwell/index.html
"Orwell o homem incômodo", de Matinas Suzuki Jr., FSP: Página de "Arquivos" de:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
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George Orwell; vida literária; sebos; livrarias.
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Carlos Drummond de Andrade (31/10/1902-17/08/1987)
Soneto da buquinagem
Buquinemos, amiga, neste sebo.
A vela, ao se apagar, é sebo apenas,
e quero a meia-luz. Amo as serenas
Angras do mar dos livros, onde bebo
– álcool mais absoluto – alheias penas
consoladas na estrofe, e calmo, e gebo,
tiro da baixa estante sete avenas
em sete obras que pago e que recebo.
Amiga, buquinemos, pois é morta
Inês de antigos sonhos, e conforta
no tempo de papel tramar de novo
nosso papel , velino, e nosso povo
é Lucrécio e Villon, velhos autores,
aos novos poetas muito superiores.
In Viola de bolso, novamente encordoada. Rio: José Olympio, 1955, p. 27.
Nobre Rua São José
A rua é ainda egrégia e simpática. Tudo se vem fazendo por transforma-la em ponto de estacionamento de automóveis, mas a sombra de Ruy Barbosa, a de João Ribeiro, de poetas antigos, sábios, professores, bibliófilos, estudantes, gente rica e gente pobre, com amor à leitura, que por lá buquinou durante anos e anos, parece freqüenta-la ao jeito das sombras: discretamente, na memória dos que gostam de evocar, na saudade de alguns sobreviventes da velha geração de caixeiros, um pouco na poeira das estantes, que as estantes veneráveis não devem ser luzidias. Há também, esparsas, memórias de leiloeiros e antiquários.
Os “sebos” foram rareando, freqüentadores assíduos se despediram para o Caju e o São João Batista, a cidade ensaio novos hábitos, ou simplesmente perdeu velhos e não teve jeito de adquirir outros. Onde reinava o velho Quaresma e depois o velho Matos, há hoje latas de comestíveis. A “Principal”, a “Acadêmica”, o J. Leite saíram da paisagem, emigrando ou desvanecendo-se. Um lado inteiro da rua desapareceu, e foi como se arrancassem metade do tronco a um corpo vivo. Mas, no outro meio-feio, o sobrada da velha Briguiet se mantém fiel a seu destino de casa de livros. Com outro nome e outros ocupantes, o espírito literário não desertou aquelas paragens. Um menino, por assim dizer crescido na Rua São José, ali está hoje, homem feito, e a este não possível demolir nem convencer de que deve negociar em política, importações ou apartamentos. Carlos Ribeiro mantém e revigora, quase sozinho, o espírito da gloriosa Rua São José, que é uma universidade a seu modo: junto às pilhas de livros, sabedores de coisas filosofam ou pontificam. Mocinhas supõem comprar romances, quando na realidade estão se provendo de noções da eterna e tenebrosa ciência de amar; (...) não flatam nem as presses universitaires, pois a rua edita desde manuais de macumba até estudos eruditos; e há sempre uma idéia, um projeto, um traço intelectual no ar, um traço que não quer perder-se e reage contra a burrificação geral da vida carioca.
Mas essa rua é também uma praia, aonde vão dar os volumes de bibliotecas que naufragaram. Vêm de mistura os mestres do pensamento e aquelas tímidas obrinhas de principiantes, que o destinatário nem chegou a abrir. O livreiro recolhe esses destroços e os reanima, pondo-os de novo em circulação. (...)
O grande poeta estrangeiro oferece seu cântico ao grande poeta nacional e este, de alma doadora por natureza, o passa a um terceiro poeta, que, premido pela dura circunstância (e quem ainda não desfez ou pensou em desfazer sua biblioteca, num dia negro?) o lança à correnteza da Rua São José, onde um quarto poeta o resgata – por quanto tempo? Assim a poesia circula como um facho levado por mãos que a prezam, e alguma coisa, no abismo, se salvará.
In Fala, amendoeira, Rio: José Olympio, 1957, p. 37-40.
O sebo
(...)
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa esse visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é gente, na cidade das letras, e, como gente, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento , pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto... mas, pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tira-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida: operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. (...)
A inenarrável promiscuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstoi e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz... Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, conta o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.
In O poder ultra-jovem e mais 79 textos em prosa e verso. 2a. ed. Col. Sagarana, n° 96, Rio: José Olympio, 1973, p. 127-8
Carlos Drummond de Andrade deixou-nos em sua obra testemunhos de sua relação com as leituras, os livros e as livrarias. Estes são apenas alguns deles que escolhemos para lembrar a você, raro ou rara leitora, que estamos quase fazendo vinte anos sem sua belíssima presença, discreta, generosa e genial. E que, rara ou raro leitor há de concordar comigo, sua obra continua com todo o poder de encantamento, contrariando um dos aforismos que publicou no livro O avesso das coisas ao dizer que, como os homens, as obras literárias minguam com o tempo.
Viva Drummond, para sempre! Ler e reler Drummond... que tal ir à sua estante, à livraria ou sebo mais próximo e resgatar, com sua leitura, algumas de suas páginas imortais?
Buquinemos, amiga, neste sebo.
A vela, ao se apagar, é sebo apenas,
e quero a meia-luz. Amo as serenas
Angras do mar dos livros, onde bebo
– álcool mais absoluto – alheias penas
consoladas na estrofe, e calmo, e gebo,
tiro da baixa estante sete avenas
em sete obras que pago e que recebo.
Amiga, buquinemos, pois é morta
Inês de antigos sonhos, e conforta
no tempo de papel tramar de novo
nosso papel , velino, e nosso povo
é Lucrécio e Villon, velhos autores,
aos novos poetas muito superiores.
In Viola de bolso, novamente encordoada. Rio: José Olympio, 1955, p. 27.
Nobre Rua São José
A rua é ainda egrégia e simpática. Tudo se vem fazendo por transforma-la em ponto de estacionamento de automóveis, mas a sombra de Ruy Barbosa, a de João Ribeiro, de poetas antigos, sábios, professores, bibliófilos, estudantes, gente rica e gente pobre, com amor à leitura, que por lá buquinou durante anos e anos, parece freqüenta-la ao jeito das sombras: discretamente, na memória dos que gostam de evocar, na saudade de alguns sobreviventes da velha geração de caixeiros, um pouco na poeira das estantes, que as estantes veneráveis não devem ser luzidias. Há também, esparsas, memórias de leiloeiros e antiquários.
Os “sebos” foram rareando, freqüentadores assíduos se despediram para o Caju e o São João Batista, a cidade ensaio novos hábitos, ou simplesmente perdeu velhos e não teve jeito de adquirir outros. Onde reinava o velho Quaresma e depois o velho Matos, há hoje latas de comestíveis. A “Principal”, a “Acadêmica”, o J. Leite saíram da paisagem, emigrando ou desvanecendo-se. Um lado inteiro da rua desapareceu, e foi como se arrancassem metade do tronco a um corpo vivo. Mas, no outro meio-feio, o sobrada da velha Briguiet se mantém fiel a seu destino de casa de livros. Com outro nome e outros ocupantes, o espírito literário não desertou aquelas paragens. Um menino, por assim dizer crescido na Rua São José, ali está hoje, homem feito, e a este não possível demolir nem convencer de que deve negociar em política, importações ou apartamentos. Carlos Ribeiro mantém e revigora, quase sozinho, o espírito da gloriosa Rua São José, que é uma universidade a seu modo: junto às pilhas de livros, sabedores de coisas filosofam ou pontificam. Mocinhas supõem comprar romances, quando na realidade estão se provendo de noções da eterna e tenebrosa ciência de amar; (...) não flatam nem as presses universitaires, pois a rua edita desde manuais de macumba até estudos eruditos; e há sempre uma idéia, um projeto, um traço intelectual no ar, um traço que não quer perder-se e reage contra a burrificação geral da vida carioca.
Mas essa rua é também uma praia, aonde vão dar os volumes de bibliotecas que naufragaram. Vêm de mistura os mestres do pensamento e aquelas tímidas obrinhas de principiantes, que o destinatário nem chegou a abrir. O livreiro recolhe esses destroços e os reanima, pondo-os de novo em circulação. (...)
O grande poeta estrangeiro oferece seu cântico ao grande poeta nacional e este, de alma doadora por natureza, o passa a um terceiro poeta, que, premido pela dura circunstância (e quem ainda não desfez ou pensou em desfazer sua biblioteca, num dia negro?) o lança à correnteza da Rua São José, onde um quarto poeta o resgata – por quanto tempo? Assim a poesia circula como um facho levado por mãos que a prezam, e alguma coisa, no abismo, se salvará.
In Fala, amendoeira, Rio: José Olympio, 1957, p. 37-40.
O sebo
(...)
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa esse visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é gente, na cidade das letras, e, como gente, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento , pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto... mas, pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tira-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida: operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. (...)
A inenarrável promiscuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstoi e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz... Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, conta o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.
In O poder ultra-jovem e mais 79 textos em prosa e verso. 2a. ed. Col. Sagarana, n° 96, Rio: José Olympio, 1973, p. 127-8
Carlos Drummond de Andrade deixou-nos em sua obra testemunhos de sua relação com as leituras, os livros e as livrarias. Estes são apenas alguns deles que escolhemos para lembrar a você, raro ou rara leitora, que estamos quase fazendo vinte anos sem sua belíssima presença, discreta, generosa e genial. E que, rara ou raro leitor há de concordar comigo, sua obra continua com todo o poder de encantamento, contrariando um dos aforismos que publicou no livro O avesso das coisas ao dizer que, como os homens, as obras literárias minguam com o tempo.
Viva Drummond, para sempre! Ler e reler Drummond... que tal ir à sua estante, à livraria ou sebo mais próximo e resgatar, com sua leitura, algumas de suas páginas imortais?
Walter Benjamin (15/7/1892-27/9/1940), 115 anos.
Excertos de Desempacotando minha biblioteca. Um discurso sobre o colecionador.
Estou desempacotando minha biblioteca. Sim, estou. Os livros, portanto, ainda não estão nas estantes; o suave tédio da ordem ainda não os envolve. Tampouco posso passar ao longo de suas fileiras para, na presença de ouvintes amigos, revista-los. Nada disso vocês têm que temer. Ao contrário, devo pedir-lhes que se transfiram comigo para a desordem de caixotes abertos à força, para o ar cheio de pó de madeira, para o chão coberto de papéis rasgados, por entre as pilhas de volumes trazidos de novo à luz do dia após uma escuridão de dois anos
justamente, a fim de, desde o início, compartilhar comigo um pouco da disposição de espírito – certamente não elegíaca , mas, antes, tensa – que estes livros despertam no autêntico colecionar. Pois quem lhes fala é um deles, e, no fundo está falando de si. (...)
Tenho a intenção de dar uma idéia sobre o relacionamento de um colecionador com os seus pertences, uma idéia sobre a arte de colecionar mais do que sobre a coleção em si. É inteiramente arbitrário que eu faço isso baseando-me na observação das diversas maneiras de adquirir livros. Este processo ou qualquer outro é apenas um dique contra a maré de água viva de recordações que chega rolando na direção de todo colecionador ocupado com o que é seu. De fato, toda paixão confina com um caos, mas a de colecionar com o das lembranças. (...)
Assim, a existência do colecionador é uma tensão dialética entre os pólos da ordem e da desordem.
Naturalmente, sua existência está sujeita a muitas outras coisas: a uma relação muito misteriosa com a propriedade sobre a qual algumas palavras ainda devem ser ditas mais tarde; (...)
Para ele não só livros, mas também seus exemplares têm seu destino. E, neste sentido, o destino mais importante de todo exemplar é o encontro com ele, o colecionador, com sua própria coleção. E não estou exagerando: para o colecionador autêntico a aquisição de um livro velho representa o seu renascimento. E justamente neste ponto se acha o elemento pueril que, no colecionador, se interpenetra com elemento senil. (...)
De todas as formas de obter livros, escrevê-los é considerada a mais louvável. (...)
Quantas coisas não retornam à memória uma vez nos tenhamos aproximado das montanhas de caixas para delas extrair os livro para a luz do dia, ou melhor, da noite. (...)
Saibam que tenho plena consciência de quanto essa revelação que faço do mundo mental contido no ato de colecionar vai reforçar para muitos de vocês a convicção de que essa paixão é coisa do passado e a desconfiança contra o tipo humano do colecionador.
(...)
Bem-aventurado o colecionador! (,,,)
In Rua de mão única (Obras escolhidas II). São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 227-35.
Walter Benjamin tem sido uma referência, tanto pessoal quanto teórica, deste neoblogueiro, e foi sem dúvida o principal inspirador de um trabalho de pesquisa sobre os clientes dos sebos, feito em colaboração com colegas, durante o curso de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo. Foi concluído em 15.7.1992, quando o filósofo completaria 100 anos de nascimento e a ele foi dedicado.
Você poderá acessar esse trabalho, “O consumidor de livros de segunda mão – Perfil do cliente dos sebos”, no endereço virtual do Escritório do Livro, aliás um espaço rico de conteúdo para nossos raros leitores:
http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/perfil%20sebo.pdf
O texto “Desempacotando minha biblioteca” foi provavelmente escrito em 1936, na casa do amigo Bertolt Brecht, exilado na Dinamarca, onde Benjamin se hospedou, quando ambos fugiam da perseguição nazista. Um de seus maiores estudiosos brasileiros, Flávio Kothe, no entanto, afirma que o texto é de 1931.
Creio ser um dos mais belos depoimentos sobre o amor aos livros que já se escreveu e por isso o escolhemos para marcar a data de seu nascimento. Vale a pena correr à livraria ou à biblioteca e ler o texto inteiro. Aliás, diga-se, Rua de mão única é um livro que Benjamin nos legou e que, por existir ao nosso alcance, nos faz sentir privilegiados leitores.
Para saber mais, na rede, visite: http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
Estou desempacotando minha biblioteca. Sim, estou. Os livros, portanto, ainda não estão nas estantes; o suave tédio da ordem ainda não os envolve. Tampouco posso passar ao longo de suas fileiras para, na presença de ouvintes amigos, revista-los. Nada disso vocês têm que temer. Ao contrário, devo pedir-lhes que se transfiram comigo para a desordem de caixotes abertos à força, para o ar cheio de pó de madeira, para o chão coberto de papéis rasgados, por entre as pilhas de volumes trazidos de novo à luz do dia após uma escuridão de dois anos
justamente, a fim de, desde o início, compartilhar comigo um pouco da disposição de espírito – certamente não elegíaca , mas, antes, tensa – que estes livros despertam no autêntico colecionar. Pois quem lhes fala é um deles, e, no fundo está falando de si. (...)
Tenho a intenção de dar uma idéia sobre o relacionamento de um colecionador com os seus pertences, uma idéia sobre a arte de colecionar mais do que sobre a coleção em si. É inteiramente arbitrário que eu faço isso baseando-me na observação das diversas maneiras de adquirir livros. Este processo ou qualquer outro é apenas um dique contra a maré de água viva de recordações que chega rolando na direção de todo colecionador ocupado com o que é seu. De fato, toda paixão confina com um caos, mas a de colecionar com o das lembranças. (...)
Assim, a existência do colecionador é uma tensão dialética entre os pólos da ordem e da desordem.
Naturalmente, sua existência está sujeita a muitas outras coisas: a uma relação muito misteriosa com a propriedade sobre a qual algumas palavras ainda devem ser ditas mais tarde; (...)
Para ele não só livros, mas também seus exemplares têm seu destino. E, neste sentido, o destino mais importante de todo exemplar é o encontro com ele, o colecionador, com sua própria coleção. E não estou exagerando: para o colecionador autêntico a aquisição de um livro velho representa o seu renascimento. E justamente neste ponto se acha o elemento pueril que, no colecionador, se interpenetra com elemento senil. (...)
De todas as formas de obter livros, escrevê-los é considerada a mais louvável. (...)
Quantas coisas não retornam à memória uma vez nos tenhamos aproximado das montanhas de caixas para delas extrair os livro para a luz do dia, ou melhor, da noite. (...)
Saibam que tenho plena consciência de quanto essa revelação que faço do mundo mental contido no ato de colecionar vai reforçar para muitos de vocês a convicção de que essa paixão é coisa do passado e a desconfiança contra o tipo humano do colecionador.
(...)
Bem-aventurado o colecionador! (,,,)
In Rua de mão única (Obras escolhidas II). São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 227-35.
Walter Benjamin tem sido uma referência, tanto pessoal quanto teórica, deste neoblogueiro, e foi sem dúvida o principal inspirador de um trabalho de pesquisa sobre os clientes dos sebos, feito em colaboração com colegas, durante o curso de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo. Foi concluído em 15.7.1992, quando o filósofo completaria 100 anos de nascimento e a ele foi dedicado.
Você poderá acessar esse trabalho, “O consumidor de livros de segunda mão – Perfil do cliente dos sebos”, no endereço virtual do Escritório do Livro, aliás um espaço rico de conteúdo para nossos raros leitores:
http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/perfil%20sebo.pdf
O texto “Desempacotando minha biblioteca” foi provavelmente escrito em 1936, na casa do amigo Bertolt Brecht, exilado na Dinamarca, onde Benjamin se hospedou, quando ambos fugiam da perseguição nazista. Um de seus maiores estudiosos brasileiros, Flávio Kothe, no entanto, afirma que o texto é de 1931.
Creio ser um dos mais belos depoimentos sobre o amor aos livros que já se escreveu e por isso o escolhemos para marcar a data de seu nascimento. Vale a pena correr à livraria ou à biblioteca e ler o texto inteiro. Aliás, diga-se, Rua de mão única é um livro que Benjamin nos legou e que, por existir ao nosso alcance, nos faz sentir privilegiados leitores.
Para saber mais, na rede, visite: http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
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Walter Benjamin
quinta-feira, 12 de julho de 2007
O futuro do livro, segundo Walter Benjamin, em 1926
Nosso tempo está como que em contraposição frontal à Renascença, e especialmente em contraste com a conjuntura em que foi inventada a arte da imprensa. Casualidade ou não, o surgimento desta na Alemanha ocorre na época em que o livro, no sentido eminente do vocábulo, o Livro dos Livros na tradução da Bíblia por Lutero, torna-se um bem do domínio público. Agora tudo indica que o livro, nessa forma tradicional, encaminha-se para o seu fim.
(...)
Fica, assim, patente a atualidade da descoberta, daquilo que Mallarmé, monadicamente, no mais íntimo recesso de seu estúdio, porém em preestabelecida harmonia com todos os eventos decisivos do seu tempo na economia e na técnica, deu à publicidade.
A escrita, que tinha encontrado asilo no livro impresso, para onde carreara o seu destino autônomo, viu-se inexoravelmente lançada à rua, arrastada pelos reclames, submetida à brutal heteronomia do caos econômico. Eis o árduo currículo escolar de sua nova forma.
Se ao longo dos séculos, pouco a pouco, ela se foi deixando deitar ao chão, da ereta inscrição ao oblíquio manuscrito jazendo na escrivaninha, até finalmente acamar-se no livro impresso, ei-la agora que se reergue lentamente do solo. O jornal quase necessariamente é lido na vertical – em posição de sentido – e não na horizontal; filme e anúncio impõem à escrita a plena ditadura da verticalidade.
E antes que um contemporâneo chegue a abrir um livro, terá desabado sobre os seus olhos um turbilhão tão denso de letras móveis, coloridas, litigantes, que as chances de seu adentramento no arcaico estilo do livro já estarão reduzidas a um mínimo. Nuvens de letras-gafanhotos, que já hoje obscurecem o sol do suposto espírito aos habitantes das metrópoles, tornar-se-ão cada vez mais espessas, com a sucessão dos anos. Outras demandas do mundo dos negócios assumem o comando.
(...)
Mas está fora de qualquer dúvida – e isto não é imprevisível –, que o desenvolvimento da escrita não vai ficar ad infinitum vinculado às pretensões poderosas de um movimento caótico na ciência e na economia. Antes, chega o momento em que quantidade se transforma em qualidade, e a escrita, avançando cada vez mais fundo no domínio gráfico de sua nova e excêntrica figuralidade, conquista de súbito os seus adequados valores objetais.
Nesta escrita icônica, os poetas que, como nos primórdios, antes de mais nada e sobretudo, serão expertos da grafia, somente poderão colaborar se explorarem os domínios onde (sem muita celeuma) se perfaz sua construção: os do diagrama estatístico e técnico.
Com a fundação de uma escrita de trânsito universal, os poetas renovarão sua autoridade na vida dos povos e assumirão um papel em comparação com o qual todas as aspirações de rejuvenescimento da retórica parecerão dessuetos devaneios góticos.
Trechos de “Revisor de livros juramentado”, tradução de Haroldo de Campos e Flávio Kothe, em “Uma profecia de Walter Benjamin”, no livro Mallarmé, de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, S. Paulo: Perspectiva, 3a. ed., 1991, p. 193-4. Este texto está também, com outra tradução, em Walter Benjamin, Obras escolhidas II – Rua de mão única, da Brasiliense, de S. Paulo, 1987.
Muito se tem escrito e discutido sobre o fim do livro, especialmente desde a publicação de A galáxia de Gutenberg (1962), de Marshall McLuhan, tanto que, por seu sucesso, este acabou “pagando o pato” de ser tido como o seu profeta, sem nunca efetivamente o ter apontado, como fez tão claramente Benjamin, no texto acima.
Se tiver interesse, rara ou raro leitor, em avançar neste tema, leia nas boas casas do ramo (tanto livrarias quanto bibliotecas o podem ser) o breve texto deste blogueiro “O pretérito do futuro do livro”, publicado no livro Cultura letrada no Brasil, p. 487-98, organizado por Márcia Abreu e Nelson Schapochnik, de 2005, editado pela Mercado de Letras & Associação de Leitura do Brasil, Campinas (SP).
A maior clarividência, nos parece, deste “Revisor de livros juramentado”, escrito em 1926, além da perda da hegemonia do livro na sua "forma tradicional", está em apontar os marcos temporais da cultura moderna, definida pelo impresso, e fazer um traçado da história da escrita e de seus gestos. Antes da tela do computador, com sua verticalidade e letras coloridas e cambiantes, já Benjamin anteviu esta possibilidade através da observação do cinema e das letras dos letreiros de néon nas ruas.
Como se percebe também em outros textos, a lucidez da percepção das mudanças culturais, ao contrário do que ocorreu com outros filósofos, não fez de Benjamin um pessimista em relação ao futuro: ao fim, aponta para possibilidades poéticas que a nova forma da escrita descortinará. Será que já antecipava, na época, além do que reivindicam os concretistas para a forma gráfica do poema, para o “ressurgimento”, com a Internet, da escrita poética?
(...)
Fica, assim, patente a atualidade da descoberta, daquilo que Mallarmé, monadicamente, no mais íntimo recesso de seu estúdio, porém em preestabelecida harmonia com todos os eventos decisivos do seu tempo na economia e na técnica, deu à publicidade.
A escrita, que tinha encontrado asilo no livro impresso, para onde carreara o seu destino autônomo, viu-se inexoravelmente lançada à rua, arrastada pelos reclames, submetida à brutal heteronomia do caos econômico. Eis o árduo currículo escolar de sua nova forma.
Se ao longo dos séculos, pouco a pouco, ela se foi deixando deitar ao chão, da ereta inscrição ao oblíquio manuscrito jazendo na escrivaninha, até finalmente acamar-se no livro impresso, ei-la agora que se reergue lentamente do solo. O jornal quase necessariamente é lido na vertical – em posição de sentido – e não na horizontal; filme e anúncio impõem à escrita a plena ditadura da verticalidade.
E antes que um contemporâneo chegue a abrir um livro, terá desabado sobre os seus olhos um turbilhão tão denso de letras móveis, coloridas, litigantes, que as chances de seu adentramento no arcaico estilo do livro já estarão reduzidas a um mínimo. Nuvens de letras-gafanhotos, que já hoje obscurecem o sol do suposto espírito aos habitantes das metrópoles, tornar-se-ão cada vez mais espessas, com a sucessão dos anos. Outras demandas do mundo dos negócios assumem o comando.
(...)
Mas está fora de qualquer dúvida – e isto não é imprevisível –, que o desenvolvimento da escrita não vai ficar ad infinitum vinculado às pretensões poderosas de um movimento caótico na ciência e na economia. Antes, chega o momento em que quantidade se transforma em qualidade, e a escrita, avançando cada vez mais fundo no domínio gráfico de sua nova e excêntrica figuralidade, conquista de súbito os seus adequados valores objetais.
Nesta escrita icônica, os poetas que, como nos primórdios, antes de mais nada e sobretudo, serão expertos da grafia, somente poderão colaborar se explorarem os domínios onde (sem muita celeuma) se perfaz sua construção: os do diagrama estatístico e técnico.
Com a fundação de uma escrita de trânsito universal, os poetas renovarão sua autoridade na vida dos povos e assumirão um papel em comparação com o qual todas as aspirações de rejuvenescimento da retórica parecerão dessuetos devaneios góticos.
Trechos de “Revisor de livros juramentado”, tradução de Haroldo de Campos e Flávio Kothe, em “Uma profecia de Walter Benjamin”, no livro Mallarmé, de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, S. Paulo: Perspectiva, 3a. ed., 1991, p. 193-4. Este texto está também, com outra tradução, em Walter Benjamin, Obras escolhidas II – Rua de mão única, da Brasiliense, de S. Paulo, 1987.
Muito se tem escrito e discutido sobre o fim do livro, especialmente desde a publicação de A galáxia de Gutenberg (1962), de Marshall McLuhan, tanto que, por seu sucesso, este acabou “pagando o pato” de ser tido como o seu profeta, sem nunca efetivamente o ter apontado, como fez tão claramente Benjamin, no texto acima.
Se tiver interesse, rara ou raro leitor, em avançar neste tema, leia nas boas casas do ramo (tanto livrarias quanto bibliotecas o podem ser) o breve texto deste blogueiro “O pretérito do futuro do livro”, publicado no livro Cultura letrada no Brasil, p. 487-98, organizado por Márcia Abreu e Nelson Schapochnik, de 2005, editado pela Mercado de Letras & Associação de Leitura do Brasil, Campinas (SP).
A maior clarividência, nos parece, deste “Revisor de livros juramentado”, escrito em 1926, além da perda da hegemonia do livro na sua "forma tradicional", está em apontar os marcos temporais da cultura moderna, definida pelo impresso, e fazer um traçado da história da escrita e de seus gestos. Antes da tela do computador, com sua verticalidade e letras coloridas e cambiantes, já Benjamin anteviu esta possibilidade através da observação do cinema e das letras dos letreiros de néon nas ruas.
Como se percebe também em outros textos, a lucidez da percepção das mudanças culturais, ao contrário do que ocorreu com outros filósofos, não fez de Benjamin um pessimista em relação ao futuro: ao fim, aponta para possibilidades poéticas que a nova forma da escrita descortinará. Será que já antecipava, na época, além do que reivindicam os concretistas para a forma gráfica do poema, para o “ressurgimento”, com a Internet, da escrita poética?
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Revista Tema Livre, v. 12: entrevista concedida a Fábio Ferreira
A Tema Livre (revista virtual de História) está completando 5 anos na rede, sob a direção de Fábio Ferreira, um jovem historiador com grande dedicação à área. O número 12, além de artigos assinados por Carlos Barros, Ana Paula Pereira Costa, Silmei Sant’Ana Petiz, Cristiano Cruz Alves, Neide Almeida Fiori e Eduardo Búrigo de Carvalho e pelo próprio Fábio, traz entrevistas com Heloísa Paulo e Luís Reis Torgal, historiadores vinculados ao CEIS-20 da Universidade de Coimbra (Portugal), e também uma longa entrevista concedida por este neoblogueiro ao seu editor, que se caracteriza por uma informalidade que só as entrevistas gravadas “ao vivo” admitem e uma extensão que só o mundo virtual propicia. Nela abordam-se temas relacionados à trajetória profissional do entrevistado, que podem ter algum interesse para alguns dos raros e raras leitoras deste espaço.
Foram tratados temas como a criação e o funcionamento do Lihed – Núcleo de Pesquisa sobre Livro e História Editorial no Brasil (da Universidade Federal Fluminense), as pesquisas sobre a história da Livraria Francisco Alves Editora e o seu acervo documental, o I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial (2004) e o II Seminário (2008), as comemorações do bi-centenário da implantação definitiva da tipografia no Brasil, o livro e o mercado editorial brasileiro, a crise de leitura do impresso, a atuação do entrevistado como livreiro-editor e como pesquisador da história cultural da cidade de Niterói e da cultura letrada brasileira.
Acesse este e os números anteriores da revista em http://www.revistatemalivre.com/
Foram tratados temas como a criação e o funcionamento do Lihed – Núcleo de Pesquisa sobre Livro e História Editorial no Brasil (da Universidade Federal Fluminense), as pesquisas sobre a história da Livraria Francisco Alves Editora e o seu acervo documental, o I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial (2004) e o II Seminário (2008), as comemorações do bi-centenário da implantação definitiva da tipografia no Brasil, o livro e o mercado editorial brasileiro, a crise de leitura do impresso, a atuação do entrevistado como livreiro-editor e como pesquisador da história cultural da cidade de Niterói e da cultura letrada brasileira.
Acesse este e os números anteriores da revista em http://www.revistatemalivre.com/
domingo, 8 de julho de 2007
Sobre direitos autorais e a xerox, de McLuhan
O “direito de autor” – como o conhecemos hoje, [e] o esforço intelectual individual ligado ao livro como um produto econômico – eram praticamente desconhecidos antes do advento da tecnologia da imprensa.
Os estudiosos medievais eram indiferentes quanto à identidade precisa dos “livros” que estudavam. Em compensação, raramente assinavam mesmo aquilo que era claramente seu. Eles eram uma humilde organização de serviço. A busca de textos era, com freqüência, uma tarefa muito aborrecida e demorada.
Muitos textos curtos eram transmitidos em volumes de conteúdo variado, como as anotações que se fazem num livro de recortes, e, nesse processo de transmissão, a autoria freqüentemente se perdia.
A invenção da imprensa eliminou o anonimato, fomentando idéias de fama literária e o hábito de considerar o esforço intelectual como propriedade privada.
A multiplicação mecânica do mesmo texto criou um público – o público leitor.
A cultura emergente, orientada para o consumo, tornou-se preocupada com os rótulos de autenticidade e proteção contra o roubo e a pirataria.
A idéia de “copyright”, direito de reprodução – “o direito exclusivo de reproduzir, publicar e vender o conteúdo e a forma de um trabalho artístico ou literário” – nascia então.
A xerografia – o caça-mente de qualquer um – é o arauto dos tempos de publicação instantânea. Qualquer pessoa hoje pode tornar-se autor e editor.
Procure quaisquer livros de quaisquer matérias e faça seu livro, sob medida. Basta fazer um xerox do capítulo de um, um capítulo de outro – furto instantâneo!
À medida que novas tecnologias entram em uso, as pessoas ficam cada vez menos convencidas da importância da auto-expressão. O esforço de grupo substitui o esforço individual.
Um duplicador, artifício duplicador
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Um duplicador, artifício duplicador
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Um duplicador, artifício duplicador
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Trazemos este texto do canadense Herbert Marshall McLuhan, considerado por uns o “profeta” da Comunicação, por outros um charlatão, por outros, ainda, um agudíssimo observador das transformações da sociedade moderna, em trânsito para a pós-modernidade, o que ele relacionou com a criação das “novas tecnologias” (caso deste neoblogueiro), para que você, rara ou raro leitor, conheça um dos registros provocadores que fez sobre o tema dos direitos autorais, já nos anos 1960, antes da Internet, mas já prevenindo o que a tecnologia da Xerox iria trazer de novas possibilidades (e de vícios) para os leitores e de riscos aos interesses econômicos de editores e autores.
O texto é do belo e instigante livro de McLuhan, feito em parceria com Quentin Fiore, O meio são as massa-gens (p. 150-1), ora esgotado, mas encontrável nos sebos (consulte, p.ex., www.estantevirtual.com.br), traduzido por Ivan Pedro de Martins, que também fez o prefácio, e editado entre nós pela Record, na década de 1970 (sem data de publicação no livro).
Que seria de nossos alunos universitários, sem a xerox, com os baixíssimos investimentos feitos pelos diferentes e sucessivos governos nas bibliotecas universitárias?
Que seria dos governos se não existisse a xerox para saciar nos alunos a (já diminuta) vontade de leitura de textos impressos, e eles então pressionariam por mais verbas, sempre tão magras, para equipar e atualizar as bibliotecas?
A tecnologia da xerox é um mal menor? Ou maior? Tudo é complexo e você, rara ou raro leitor, poderá fazer seu comentário sobre o tema, mais candente hoje que quando o canadense escreveu sobre ele. Ou não?
Os estudiosos medievais eram indiferentes quanto à identidade precisa dos “livros” que estudavam. Em compensação, raramente assinavam mesmo aquilo que era claramente seu. Eles eram uma humilde organização de serviço. A busca de textos era, com freqüência, uma tarefa muito aborrecida e demorada.
Muitos textos curtos eram transmitidos em volumes de conteúdo variado, como as anotações que se fazem num livro de recortes, e, nesse processo de transmissão, a autoria freqüentemente se perdia.
A invenção da imprensa eliminou o anonimato, fomentando idéias de fama literária e o hábito de considerar o esforço intelectual como propriedade privada.
A multiplicação mecânica do mesmo texto criou um público – o público leitor.
A cultura emergente, orientada para o consumo, tornou-se preocupada com os rótulos de autenticidade e proteção contra o roubo e a pirataria.
A idéia de “copyright”, direito de reprodução – “o direito exclusivo de reproduzir, publicar e vender o conteúdo e a forma de um trabalho artístico ou literário” – nascia então.
A xerografia – o caça-mente de qualquer um – é o arauto dos tempos de publicação instantânea. Qualquer pessoa hoje pode tornar-se autor e editor.
Procure quaisquer livros de quaisquer matérias e faça seu livro, sob medida. Basta fazer um xerox do capítulo de um, um capítulo de outro – furto instantâneo!
À medida que novas tecnologias entram em uso, as pessoas ficam cada vez menos convencidas da importância da auto-expressão. O esforço de grupo substitui o esforço individual.
Um duplicador, artifício duplicador
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Um duplicador, artifício duplicador
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Um duplicador, artifício duplicador
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Trazemos este texto do canadense Herbert Marshall McLuhan, considerado por uns o “profeta” da Comunicação, por outros um charlatão, por outros, ainda, um agudíssimo observador das transformações da sociedade moderna, em trânsito para a pós-modernidade, o que ele relacionou com a criação das “novas tecnologias” (caso deste neoblogueiro), para que você, rara ou raro leitor, conheça um dos registros provocadores que fez sobre o tema dos direitos autorais, já nos anos 1960, antes da Internet, mas já prevenindo o que a tecnologia da Xerox iria trazer de novas possibilidades (e de vícios) para os leitores e de riscos aos interesses econômicos de editores e autores.
O texto é do belo e instigante livro de McLuhan, feito em parceria com Quentin Fiore, O meio são as massa-gens (p. 150-1), ora esgotado, mas encontrável nos sebos (consulte, p.ex., www.estantevirtual.com.br), traduzido por Ivan Pedro de Martins, que também fez o prefácio, e editado entre nós pela Record, na década de 1970 (sem data de publicação no livro).
Que seria de nossos alunos universitários, sem a xerox, com os baixíssimos investimentos feitos pelos diferentes e sucessivos governos nas bibliotecas universitárias?
Que seria dos governos se não existisse a xerox para saciar nos alunos a (já diminuta) vontade de leitura de textos impressos, e eles então pressionariam por mais verbas, sempre tão magras, para equipar e atualizar as bibliotecas?
A tecnologia da xerox é um mal menor? Ou maior? Tudo é complexo e você, rara ou raro leitor, poderá fazer seu comentário sobre o tema, mais candente hoje que quando o canadense escreveu sobre ele. Ou não?
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Emerson: Goethe, o escritor
(...)
A natureza exige um narrador. Todos os fenômenos preocupam-se em escrever a sua história. O planeta, o calhau, são seguidos de sua sombra. O penedo, rolando, deixa as suas arranhaduras sobre a montanha; o rio, o seu leito no solo; o animal, seus ossos no estrato; o feto e a folha, seu modesto epitáfio na hulha. A gota que cai, esculpe-se na areia ou na pedra. Nenhum pé calca a neve, ou percorre o solo, sem que imprima, em caracteres mais ou menos duráveis, uma descrição da sua marcha.
Cada ato do homem inscreve-se nas memórias dos seus companheiros, nos seus próprios costumes e sobre o seu próprio rosto. O ar está cheio de sons, o céu, de sinais, a terra não é senão memorando e assinaturas, e cada coisa está coberta de alusões, que falam aos inteligentes.
(...)
No homem, a memória é uma espécie de espelho que, tendo recebido a imagem dos objetos que o rodeiam é tocado de um sopro de vida, e os dispõe numa nova ordem. Os fatos passados não permanecem aí inertes, porém uns se apagam, e outros brilham de tal sorte que, subitamente, vemos um novo quadro, composto de ações memoráveis.
O homem coopera. Aprecia comunicar, e o que tem para dizer carrega como um peso sobre o coração até que dele se liberte. Contudo, além do prazer universal da conversação, alguns homens nascem em quem o poder para essa segunda criação se exalta e sublima. São os homens nascidos para escrever.
(...)
O pensador é o homem dos séculos, mas é necessário também que ele deseje como os outros homens estar em bons termos com os seus contemporâneos. Para as pessoas superficiais existe, porém, certo ridículo de que são vítimas os literatos ou letrados, que não é de nenhuma importância, a menos que o letrado lhe dê atenção.
Neste país, a força da conversação e da opinião pública, recomenda o homem prático, e a porção sólida da comunidade é nomeada em todos os círculos com um respeito significativo.
(...)
Contudo o escritor não ocupa, de modo nenhum, posição preponderante entre nós. Atribuo-lhe a culpa. Um livro passa por um livro. Houve tempo em que o escritor era uma pessoa sagrada, escrevia Bíblias, os primeiros hinos, os códigos, as epopéias, os cantos trágicos, os versos sibilinos, os oráculos da Caldéia, as sentenças da Lacônia, gravadas nos muros dos templos. Cada palavra era verdadeira e despertava as nações para uma vida nova. Escrevia sem ligeireza, e sem escolha. Cada palavra estava gravada diante dos seus olhos, sobre a face da terra e do céu, e o sol e as estrelas não eram senão letras do mesmo sentido.
Como pode, porém, um homem ser honrado, quando não se honra a si mesmo, quando se perde no vulgo, quando não é mais o legislador, mas sim o caluniador, curvando-se à opinião inconstante dum público ignorante e versátil; quando lhe é preciso apoiar como um advogado trêfego qualquer mau governo, ou que lhe é preciso vociferar todo um longo ano, na oposição, ou escrever crítica convencional, ou compor romances dissolutos, ou, em todo caso, escrever sem idéia, e sem recorrer, dia e noite, às fontes de inspiração.
Pode-se fornecer alguma refutação a essas questões percorrendo a lista dos gênios literários da nossa época. Entre eles, não se oferece a nenhum espírito nome mais instrutivo que o de Goethe, para representar os deveres e os poderes do letrado ou escritor.
(...)
Trecho (p. 211s) de Homens representativos, de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), lançado em Londres (1849) e em Boston (1850) e que se tornou um clássico do pensamento americano. São pequenas biografias de alguns homens notáveis, Platão, Swedenborg, Montaigne, Shakespeare, Napoleão e, finalmente, Goethe, o escritor, autor de Os sofrimentos do jovem Werther, Os anos de aprendizado de Wilhem Meister, Fausto e outras obras-primas da literatura alemã.
Num tempo em que ficamos órfãos de referências que nos possam orientar e inspirar, diante das tormentas e vicissitudes do contemporâneo, mesmo com todo o seu idealismo, uma obra como esta talvez seja uma proveitosa leitura para nossas reflexões e práticas. O que acha rara ou raro leitor? Será nostalgia deste neoblogueiro?
A edição, de 1967, é da também saudosa Coleção Clássicos de Bolso, da Edições de Ouro, um projeto que está merecendo a atenção dos pesquisadores de nossa história editorial, pelo excelente serviço que prestou à cultura brasileira. A tradução, prefácio e notas são de Alfredo Gomes.
A natureza exige um narrador. Todos os fenômenos preocupam-se em escrever a sua história. O planeta, o calhau, são seguidos de sua sombra. O penedo, rolando, deixa as suas arranhaduras sobre a montanha; o rio, o seu leito no solo; o animal, seus ossos no estrato; o feto e a folha, seu modesto epitáfio na hulha. A gota que cai, esculpe-se na areia ou na pedra. Nenhum pé calca a neve, ou percorre o solo, sem que imprima, em caracteres mais ou menos duráveis, uma descrição da sua marcha.
Cada ato do homem inscreve-se nas memórias dos seus companheiros, nos seus próprios costumes e sobre o seu próprio rosto. O ar está cheio de sons, o céu, de sinais, a terra não é senão memorando e assinaturas, e cada coisa está coberta de alusões, que falam aos inteligentes.
(...)
No homem, a memória é uma espécie de espelho que, tendo recebido a imagem dos objetos que o rodeiam é tocado de um sopro de vida, e os dispõe numa nova ordem. Os fatos passados não permanecem aí inertes, porém uns se apagam, e outros brilham de tal sorte que, subitamente, vemos um novo quadro, composto de ações memoráveis.
O homem coopera. Aprecia comunicar, e o que tem para dizer carrega como um peso sobre o coração até que dele se liberte. Contudo, além do prazer universal da conversação, alguns homens nascem em quem o poder para essa segunda criação se exalta e sublima. São os homens nascidos para escrever.
(...)
O pensador é o homem dos séculos, mas é necessário também que ele deseje como os outros homens estar em bons termos com os seus contemporâneos. Para as pessoas superficiais existe, porém, certo ridículo de que são vítimas os literatos ou letrados, que não é de nenhuma importância, a menos que o letrado lhe dê atenção.
Neste país, a força da conversação e da opinião pública, recomenda o homem prático, e a porção sólida da comunidade é nomeada em todos os círculos com um respeito significativo.
(...)
Contudo o escritor não ocupa, de modo nenhum, posição preponderante entre nós. Atribuo-lhe a culpa. Um livro passa por um livro. Houve tempo em que o escritor era uma pessoa sagrada, escrevia Bíblias, os primeiros hinos, os códigos, as epopéias, os cantos trágicos, os versos sibilinos, os oráculos da Caldéia, as sentenças da Lacônia, gravadas nos muros dos templos. Cada palavra era verdadeira e despertava as nações para uma vida nova. Escrevia sem ligeireza, e sem escolha. Cada palavra estava gravada diante dos seus olhos, sobre a face da terra e do céu, e o sol e as estrelas não eram senão letras do mesmo sentido.
Como pode, porém, um homem ser honrado, quando não se honra a si mesmo, quando se perde no vulgo, quando não é mais o legislador, mas sim o caluniador, curvando-se à opinião inconstante dum público ignorante e versátil; quando lhe é preciso apoiar como um advogado trêfego qualquer mau governo, ou que lhe é preciso vociferar todo um longo ano, na oposição, ou escrever crítica convencional, ou compor romances dissolutos, ou, em todo caso, escrever sem idéia, e sem recorrer, dia e noite, às fontes de inspiração.
Pode-se fornecer alguma refutação a essas questões percorrendo a lista dos gênios literários da nossa época. Entre eles, não se oferece a nenhum espírito nome mais instrutivo que o de Goethe, para representar os deveres e os poderes do letrado ou escritor.
(...)
Trecho (p. 211s) de Homens representativos, de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), lançado em Londres (1849) e em Boston (1850) e que se tornou um clássico do pensamento americano. São pequenas biografias de alguns homens notáveis, Platão, Swedenborg, Montaigne, Shakespeare, Napoleão e, finalmente, Goethe, o escritor, autor de Os sofrimentos do jovem Werther, Os anos de aprendizado de Wilhem Meister, Fausto e outras obras-primas da literatura alemã.
Num tempo em que ficamos órfãos de referências que nos possam orientar e inspirar, diante das tormentas e vicissitudes do contemporâneo, mesmo com todo o seu idealismo, uma obra como esta talvez seja uma proveitosa leitura para nossas reflexões e práticas. O que acha rara ou raro leitor? Será nostalgia deste neoblogueiro?
A edição, de 1967, é da também saudosa Coleção Clássicos de Bolso, da Edições de Ouro, um projeto que está merecendo a atenção dos pesquisadores de nossa história editorial, pelo excelente serviço que prestou à cultura brasileira. A tradução, prefácio e notas são de Alfredo Gomes.
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