sexta-feira, 20 de julho de 2007

As difíceis condições para vencer na vida literária, por George Orwell (1903-1950)

O relógio bateu duas e meia. No pequeno escritório nos fundos da livraria do Sr. McKechnie, Gordon – Gordon Comstock, último membro da família Comstock, de 29 anos e já um tanto envelhecido – reclinava-se sobre a mesa, abrindo e fechando com o polegar a tampa de um pacote de cigarros Player’s Weights.
(...)

Gordon afastou-se da porta, voltando às prateleiras de livros. Nelas, à esquerda de quem sai da livraria, ficavam os livros novos e quase novos - uma mancha colorida, para atrair os olhos de quem olhasse pela porta de vidro. Suas lombadas finas e limpas tinham o ar de oferecer-se das prateleiras. Pareciam estar dizendo: "Compre-me! Compre-me!". (...)

Gordon afastou os olhos dos "encalhes". Traziam-lhe más recordações. O único e maldito livrinho que ele havia publicado, há dois anos, vendera exatamente 153 exemplares, e "encalhara"; mesmo como "encalhe", não havia conseguido vender nada. (...)

Os livros que estavam à sua frente eram de prosa, uma miscelânea. Sofriam uma classificação qualitativa, para cima e para baixo. À altura dos olhos estavam os livros em bom estado e caros, que iam ficando mais gastos e baratos à medida que as prateleiras subiam ou desciam. Em todas as livrarias uma selvagem luta darwiniana na qual as obras dos autores vivos ficam ao nível dos olhos, e as dos mortos sobem ou descem – baixa à Geena ou ascendem ao trono, mas sempre distantes de qualquer posição em que sejam percebidos.

Nas prateleiras de baixo, os “clássicos”, os monstros extintos da era vitoriana, apodreciam em paz. Scott, Carlyle, Meredith, Ruskin, Peter, Stevenson – mal se podiam ler os nomes nas suas lombadas maltratadas. Nas prateleiras do alto, quase que fora da vista, dormiam as dulçurosas biografias dos duques. Abaixo delas, ainda vendáveis e portanto ao alcance da mão, estava a literatura “religiosa” – todas as seitas e todos os credos, amontoados indiscriminadamente. O mundo do além, pelo autor de Fui tocado por mãos espirituais. A vida de Cristo, de Dean Farrar, Jesus, o primeiro rotariano. O mais recente livro da propaganda católico-romana do padre Hilaire Chestnut. Religião vendia sempre, desde que fosse bastante piegas.

Abaixo, exatamente ao nível dos olhos estavam os livros contemporâneos. O último de Pristley. Atraentes livrinhos de “médiuns” reeditados. “Humor” estimulante de Herbert, Knox e Milne. Alguns volumes eruditos também. Um ou dois romances de Hemingway e Virginia Woolf. Biografias simplificadas, num pseudo-estilo de Strachey. Livros pretensiosos e refinados sobre pintores consagrados e poetas consagrados, pelas jovens cavalgaduras que deslizam com tanta graça de Eton para Cambridge e de Cambridge para as revistas literárias.

Seu olhar cansado percorreu a parede de livros. Odiava-os todos, novos e velhos, eruditos e populares, pretensiosos e joviais. A simples vista deles fazia-o sentir a sua esterilidade. Ali estava, um “escritor”, supostamente, e não podia nem mesmo “escrever”. Não era apenas uma questão de não encontrar editor, mas sim de não ter produzido nada, ou quase nada. E todo aquele lixo amontoado nas estantes – bem, pelo menos existia, era uma espécie de realização.
(...)


Mas eram os livros pretensiosos, “cultos”, que lhe despertavam mais ódio. Livros de crítica, de belas-letras. O tipo de coisa que as jovens cavalgaduras endinheiradas de Cambridge escrevem quase que dormindo – e que Gordon também poderia ter escrito, se tivesse um pouco mais de dinheiro. Dinheiro e cultura! Num país como a Inglaterra era tão impossível ser culto como ingressar no Cavalry Club. (...)

Dinheiro para ter a educação certa, dinheiro para amigos influentes, dinheiro para ter ócio e tranqüilidade de espírito, dinheiro para viagens à Itália. O dinheiro escreve livros, o dinheiro os vende. Não me dê probidade, Senhor, dê-me dinheiro, apenas dinheiro. (...)


Excerto de Moinhos de vento, tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, p. 7-14.

Muitos escritores que alcançaram notoriedade e reconhecimento de leitores e da crítica, como Orwell passaram por uma experiência profissional em livrarias, editoras ou tipografias, estas especialmente de periódicos, em geral como revisores. Podem ser incluídos nessa lista Balzac, Hermann Hesse e Machado de Assis.

Este livro de Orwell, publicado inicialmente em 1936, pode ter algo de autobiográfico e expressar os anos de aprendizado e revolta de sua juventude, onde a experiência de livreiro em um sebo tinha um sabor amargo, diante do patrão, dos leitores frívolos e autores medíocres... até que, finalmente, recebe um cheque da Californian Review, “a revista americana para onde, semanas ou meses atrás, mandara um poema, em desespero”.

Antes de ser publicado pela Nova Fronteira, a obra havia sido publicada no Brasil pela editora paulista Hemus, com o título Mantenha o sistema. Nenhuma das edições alcançou grande êxito entre nós e creio mesmo que poucos freqüentadores ou livreiros que trabalharam ou trabalham em sebos já o chegou a ler. É um livro amargo de um autor que viria a publicar anos depois obras que o iriam imortalizar, A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949), pouco antes de falecer, em 1950, na miséria. Certamente livros que enriqueceram seus herdeiros.

Acredito, rara ou raro leitor, que Moinhos de vento, um título bem cervantino na tradução de Waltensir Dutra, seja um livro que tocará à sensibilidade de todos os que aspiram a ou mesmo já conseguiram um lugar ao sol no universo da vida literária. Quem sabe o encontrará num sebo e será atendida por escritor em formação?

Conheça mais:
Tudo de George Orwell: http://www.duplipensar.net/george-orwell/index.html
"Orwell o homem incômodo", de Matinas Suzuki Jr., FSP: Página de "Arquivos" de:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada

Um comentário:

Gi disse...

Oi! Procurei sobre Orwell no Google e encontrei seu blog. Também li a história de Comstock e gostei muito, é difícil encontrá-la....
abraço