segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Alcione Fernandes Baptista, adeus!

Conheci Alcione, estudante, freqüentadora da Livraria Encontro, depois, Diálogo, formando com Wagner Neves da Rocha e José Jeremias de Oliveira Filho, o trio de jovens intelectuais, formandos na área de Ciências Sociais, na UFF e na UFRJ, em 1966/1967. Eram os maiores compradores de livros da então recém-fundada livraria e certamente os maiores leitores dessa geração.

Alcione se destacava também por sua coragem cívica. Morando perto da livraria, percebeu logo quando esta reabriu após ter sido saqueada e fechada pós-AI-5. Foi a primeira a entrar e prestar solidariedade. Nem todos tiveram essa atitude, receando comprometer-se numa época de medos e ameaças.

Desde esse tempo Alcione esteve no bom combate. Escreveu a tese "O povo capturado na apreensão do Brasil. Uma releitura dos estudos brasileiros de folclore: 1945-1964", defendida na Universidade Federal Fluminense em 1986, que infelizmente não foi ainda publicada, embora suas qualidades sejam sempre louvadas.

Pequena mostra do perfil intelectual e do lugar social ocupado por Alcione se pode perceber no texto do discurso que fez em homenagem ao artista plástico Miguel Coelho, quando este foi homenageado na Câmara Municipal de Niterói, em 2002, do qual extraímos este excerto:

(...)
As reuniões da casa de Dr. Paulo eram realizadas nas noites de sexta-feira. Nos acontecimentos especiais ou quando recebiam visitas ilustres, transferiam-nas para as tardes de sábado. Houve o impacto da visita de Dona Célia Guevara, mãe de Che Guevara, no momento decisivo da Revolução Cubana.
Estiveram em casa de Dr. Paulo artista do porte de Frank Schaeffer e do casal de pintores franceses Roger e Júlia van Roger. Gente da expressão de Newton Rezende e Iberê Camargo.
O crítico literário Agripino Griecco deixava o Jardim do Méier e marcava presença na Quinze de Novembro. Achilles, Ruy, Magro e Miltinho, via CPC da UNE, criavam o MPB-4. E lá cantavam o “Subdesenvolvido”, onde diziam que os papagaios – que deslumbraram a frota de Cabral em 1500 – haviam se transformado em frangos das “Casas da Banha”, rede de supermercados da época.
Lou, poderosíssima jornalista da efervescente “Última Hora” – um espaço enorme em sua coluna diária – levava equipes da TV-Rio para a cobertura dos eventos. E Luís Antônio Pimentel, como sempre, fotografava tudo.
Participaram daquele movimento: Affonso Celso Nogueira Monteiro, Marta e Geraldo Reis, Alcinda e Geir Campos, as duas Marias Jacinthas – tia e sobrinha, Lou e Jacy Pacheco, Luís Antônio Pimentel, Renata e Dr. Aldo Rossi – com suas filhas Dália, Adriana e Lia Mônica, Maria Felisberta obviamente, Dayse Lemos, Irene Galindo e Dr. Alberto Hammerli – pais da bailarina Áurea e da profissional de saúde Ilara, o professor Tasso Moura, Lígia Lemme e Wilson Menezes, Jacy Pereira Lima – o Jacy Barbudo, Elza Sauerbronn, o médico Irun Santana, Irene e Rubem Guawer Wanderley, ela vereadora e ele engenheiro construtor. Com a diáspora da tragédia de 1964, foram residir na Bolívia.
Tive oportunidade de ir uma única vez à casa de Dr. Paulo. Eu era forasteira, adventícia, recém-chegada a Niterói. Fui na companhia do engenheiro Roberto Botelho Salles, filho do médico campista Dr. Walter Salles e de Dona Jacy, pessoas que Affonsinho conheceu muito. Enfim, expressões libertárias da cidade de Campos.
Pouco retive da reunião a que compareci: a primeira vez que vi o nosso pintor. Miguel era de uma visibilidade imensa, parecia personagem central do movimento da casa de Dr. Paulo.
Aproveito a oportunidade para fazer um agradecimento. Cheguei aqui em 1962 e posso dizer que entrei pela porta da esquerda. Tive sorte e olhos para ver. Na primeira hora, conheci Roberto e Affonsinho. Roberto me apresentou a Pimentel que, por sua vez, me apresentou à cidade e consolidou minha paixão por Niterói.
Conheci Lou, então destacada jornalista na imprensa do Rio, simpática, delicada, afável. E prima de Noel Rosa. Sem ter sido sua aluna, fui interlocutora privilegiada da teatróloga Maria Jacintha, o que me enchia de orgulho. Muito mais tarde, aproximei-me de Maria Felisberta. Nunca me filiei ao PCB. Ninguém acredita, porque assimilei suas formas de pensamento e militância.
Só que o “Mundo Livre” venceu o “Império do Mal”. Nos marcos da Guerra Fria, caiu a longa noite de 1964, a maior decepção de minha vida.
Miguel não perdeu a capacidade de instigar. O crítico Walmir Ayala promoveu uma exposição em Ipanema, com doze pintores. Cada um deveria expressar a sua concepção de Cristo. Miguel se inspirou no atleta Paulo César Lima que, aderindo à onda black-power de rebeldia dos negros norte-americanos fora apedrejado na Zona Sul, por estar com carro da moda e namorada loura.
Pintou uma tela agressiva, em que Paulo César ocupava o lugar de Cristo na cruz. A censura proibiu sua entrada na galeria. Viu o famoso Guima e outros artistas retirarem seus quadros e a exposição se realizou na calçada. A tela foi adquirida pela senhora Georgete Tauil Rodrigues que, com sua sensibilidade, captou o significado do episódio, naqueles anos de chumbo.

Foi na Livraria Diálogo, de Aníbal Bragança, Carlos Alberto Jorge e Renato – a primeira livraria de envergadura de Niterói – na rua Visconde de Moraes, que, em 1966, conversei com Miguel. Tempo da passeata dos Cem Mil. Miguel ilustrou o livro “O Menino de Belém”, do poeta César Araújo, movido pela morte do estudante paraense Edson Luís, no restaurante “Calabouço”, da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. E expunha na “Diálogo” no exato momento do Ato Institucional n° 5, em dezembro de 1968. Como ocorreu com todos os espaços da inteligência, lacraram a livraria e prenderam Aníbal. Os quadros foram retidos, inclusive a “Bandinha de Música”, tela preferida de Ludmila, ainda muito pequena.
(...)

Para ler o texto completo, acesse os "Arquivos" do e-Grupo Cultura Letrada:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada

Alcione acaba de nos deixar órfãos de sua presença e sua amizade. Seu corpo está sendo velado e será enterrado amanhã, dia 9 de outubro, no Cemitério Parque da Colina, em Niterói, às 12h. Deixa-nos uma presença indelével, na vida política e cultural da cidade, e na memória: uma guerreira doce e fraterna combatendo ao lado dos que sonharam (e sonham?) com um mundo melhor.

5 comentários:

Wilton Chaves disse...

Olá!
Caro Aníbal li o seu interessante post de modo consternado. Não conheci a brilhante intelectual, de nome conheci o antropólogo Wagner Neves, sua tese defendida no PPGAS na década de 70, sob orientação do niteroiense Roberto Augusto da Matta e artigos sobre religião na Revista Vozes na mesma década. Se não falha a memória José Jeremias passou pelo IFCS.Foi oportuna a inscrição da Livraria Encontro na descrição das arbitrariedades da ditadura que se instalou em nosso país contra a livraria e o seu livreiro. É um tempo que deve ser registrado para a história do livro e das livrarias em nosso estado.Acho muito importante relatos dessa natureza. Um grande abraço.

Aníbal Bragança disse...

Caro Wilton,
O antropólogo Wagner Neves da Rocha aposentou-se da UFF, onde lecionou durante muitos anos, mas continua um leitor assíduo. Estava na despedida, sempre amigo de Alcione. José Jeremias passou pelo IFCS e foi para a USP fazer pós-graduação e acabou entrando para a família uspiana. Passou a professor, chegando a presidir a importante ADUSP, a combativa associação de docentes da USP. Especializou-se em epistemologia e sociologia da ciência, tendo inclusive dirigido uma coleção dessa subárea na Francisco Alves. Continua ativo em S. Paulo.
A despedida a Alcione reuniu, além da família, muitos amigos, inclusive companheiros de juventude, dentre eles vários intelectuais, e nos emocionou.
Obrigado pelo seu comentário, sempre interessante e enriquecedor.
O Cícero está contente com a possibilidade de nos reunirmos. Espero que isso não demore.
Um abraço,
Aníbal

Ceci Constant disse...

Caro Anibal.
Sòmente hoje,pude conhecer este espaço de interação cultural e espero poder utilisa-lo muitas vezes.Parabens pela iniciativa.
Muitas vezes fui frequentadora assidua ,pesquisando obras interessantes tt da Dialogo quanto da Passargada,locais-refugios para o nosso saber.Presto aqui uma homenagem à Alcione.
Alcione foi uma combatente em busca da justiça,alem de amiga e solidaria.Esteve presente ao meu casamento com meu querido Jacy Barbudo,bem como no momento dificil de sua morte.Adorava um chorinho e sempre muito alegre,soube compartilhar e apreciar os amigos e a vida,Amanhã faz uma semana de sua partida.Lembremo-nos com saudades. Ceci Lohmann

Aníbal Bragança disse...

Cara Ceci,
é uma alegria que você visite e freqüente este espaço dedicado às "gentes do livro" e aos que o amam, como você e nossa querida Alcione.
Você lembrou que amanhã, 3a. feira, faz uma semana que a perdemos. E, seguindo o ritual cristão, haverá amanhã missa de 7º dia em sua memória, na Igreja de S. Francisco (nova, embaixo), no bairro de S. Francisco (no seu bairro!), em Niterói, às 19h.
Estarei lá, vivenciando o luto da perda da amiga junto a outros amigos dela.
Um fraterno abraço,
Aníbal
Um

Aníbal Bragança disse...

Sugerimos a você, rara ou raro leitor, que desejar saber mais sobre a querida figura humana Alcione Fernandes Baptista que visite o blog de Esther Lúcio Bittencourt http://www.porcaeparafuso.blogspot.com/, onde há uma foto excelente e a transcrição do texto de Lou Pacheco publicado no jornal Lig, de Niterói.
Excelente.