terça-feira, 29 de maio de 2007

A tardia tipografia brasileira, aos olhos do cronista da época



O Brasil até ao feliz dia 13 de maio de 1808 não conhecia o que era tipografia; foi necessário que a brilhante face do Príncipe Regente Nosso Senhor, bem como o refulgente sol, viesse vivificar este país, não só quanto à sua agricultura, comércio e indústria, mas também quanto às artes, e ciências, dissipando as trevas da ignorância, cujas negras, e medonhas nuvens cobriam todo o Brasil, e interceptavam as luzes da sabedoria. Assim, por decreto datado deste mesmo dia dos seus felizes anos, Sua Alteza Real foi servido mandar que se estabelecesse nesta Corte a Impressão Régia, para nela se imprimirem exclusivamente toda a legislação, e papéis diplomáticos, que emanarem de qualquer repartição do real serviço, e também todas, e quaisquer obras, concedendo a faculdade aos seus administradores para admitirem aprendizes de compositor, impressor, batedor, abridor, e demais ofícios que lhe sejam pertencentes. Este máximo benefício, que Sua Alteza Real outorgou ao Rio de Janeiro, é bem de esperar que se comunique à Bahia, e também às capitais das principais províncias do Brasil, visto o sistema liberal que o mesmo augusto senhor tem adotado a favor dos seus vassalos desta parte dos seus domínios, e que se imprimam na América Portuguesa obras muito interessantes, que, ou já compostas, jazem na poeira do esquecimento, e do desprezo, ou que para o futuro se hajam de compor, facilitados os meios de se darem à luz pelo prelo.

Luiz Gonçalves dos Santos (Padre Perereca). Memórias para servir à História do Reino do Brasil, S. Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1981 [1825], tomo I, p. 207. Capa de Cláudio Martins.

Foi assim que a implantação definitiva da tipografia no Brasil foi vista pelo cronista joanino, o presbítero da Irmandade de São Pedro conhecido como Padre Perereca (1767-1844) que legou à posteridade suas alentadas memórias, cujos originais, de próprio punho, se encontram no acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB). Em que pese o tom de louvor ao Príncipe Regente, suas memórias são consideradas pelos editores como “o mais exato e minudente informe do Brasil de 1808 a 1821”.

Raro leitor e rara leitora, penso que nos cabe refletir sobre o tom iluminista do narrador numa época em que o Império Português se debatia entre um incipiente liberalismo (a serviço da Inglaterra) e a sobrevivência dos traços característicos do Antigo Regime. Na realidade, na vida e na história, nada é simples, nem facilmente classificável. A discutir, com certeza, no(s) evento(s) que marcarão os 200 anos da chegada ao Brasil da Família Real, que nos permitiu, finalmente, ter aqui de forma definitiva a chamada escrita mecânica ou arte negra.

2 comentários:

Vasco Rosa disse...

Sem dúvida, caro Aníbal. O bicentenário vai ser uma ocasião excepcional. Abraço, Vasco

Anônimo disse...

Anibal, estou metido a escrever um conto meio ficção, meio realidade sobre a chegada dos prelos e tipos móveis ao Rio de Janeiro. A gente raramente se esbarra em Niterói. Perdi o contato que embora raro, ao acaso, sempre me foi prazeroso. Abraços Euclides Duque. e-mail eucliduque@hotmail.com