sábado, 5 de maio de 2007

O que é "contexto desfavorável"?, de Paulo Coelho

Tenho uma grande admiração por Roberto Carlos - recentemente, um dos mais importantes programas da BBC Radio me perguntou a lista de cinco discos que eu levaria para uma ilha deserta, e incluí um dos seus. E, apesar dos problemas normais decorrentes de uma relação profissional, tenho um grande respeito pela editora Planeta, que publica minhas obras no Brasil e em vários países de língua espanhola.

Dito isso, é com grande tristeza que leio nos jornais que, na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo, os advogados do cantor Roberto Carlos e da editora Planeta fizeram um acordo que prevê a interrupção definitiva da produção e comercialização da biografia não-autorizada "Roberto Carlos em Detalhes", do jornalista e historiador Paulo Cesar Araújo. O editor diz um disparate para salvar a honra, o cantor não diz nada e o autor fica proibido de dar declarações a respeito. E estamos conversados.

(...)
Diz o velho ditado: "Quem está no fogo é para se queimar". Eu acrescento: Quem está no fogo é para ajudar a fogueira a brilhar mais ainda. Não adianta o meu editor declarar que fez o acordo "porque o contexto era desfavorável". Ele precisa vir a público explicar qual é esse contexto - ou seja, se estamos falando de calúnia. Neste caso, tem meu apoio integral, pois calúnia é sinônimo de infâmia. Mas, caso contrário, está colaborando para que comece a se criar um sério precedente - a volta da censura.

Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da "invasão de privacidade" já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0205200708.htm (acessível a assinantes da Folha de S. Paulo e/ou do UOL. O artigo foi publicado no dia 2 de maio de 2007)

Paulo Coelho e Roberto Carlos são duas das maiores expressões da cultura brasileira – isso mesmo! – e tenho grande admiração por ambos. E, mais, me encantam e emocionam várias das músicas de nosso Rei, ainda hoje. E isso começou com “E que tudo mais vá para o inferno”, em idos de 1960! E também afirmo ser leitor, muito atento e interessado, das crônicas publicadas nos jornais por nosso maior sucesso literário de todos os tempos, no país e fora dele. Nunca li um livro de Paulo Coelho e sei que é necessário ampliar o conceito de literatura para incluir aí sua obra, mas admiro sua trajetória, seu jeito de ser e sua postura diante do sucesso. Dito isso, repito-o, acho que tem razão Paulo Coelho em propor à discussão o que se passou no caso da proibição da circulação da biografia de Roberto Carlos, que também não li, porque não tive curiosidade nem tempo para isso. Mas o que interessa, no caso, é o que levou a obra de um historiador feita, ao que tudo indica, com grande empenho e seriedade, ser proibida de circular, a serem queimados os exemplares disponíveis! Isso cheira mal.

Sabemos que tudo é complexo e que não dá pra ver as coisas apenas em branco e preto, mas fazer "acordo" para a proibição de livros é grave. Que lhe parece, raro ou rara leitora?

Um comentário:

Beto disse...

Oi Aníbal!

Antes de mais nada quero parabeniza-lo pelo excelente espaço de discussão que é o seu blog. Sobre o acordo da editora Planeta com o cantor Roberto Carlos, tenho a impressão que a primeira não queria, de forma alguma, perder dinheiro para aceitar uma proposta dessa. O livro é visto como uma fonte para obtenção de capital ao invés de um lugar de conhecimento, debate. E pelo que li a respeito, a biografia não manchava nem denegria a imagem do Rei, que pelo visto, com hábitos e manias cada vez mais esquisitas. Uma pena.