sábado, 15 de março de 2008

Manuel Segalá, poeta, artista gráfico, editor-impressor








Gravura, capa e edição de Manuel Segalá do livro Da profissão do poeta, de Geir Campos, Editora Civilização Brasileira, 1956; Capa e edição de Manuel Segalá do livro Poemas, de Vladímir Maiacovski, coleção Maldoror, edição Philobiblion/Editora Civilização Brasileira, 1956; ilustração de Manuel Segalá no livro Cadernos de João, de Aníbal Machado, Editora José Olympio, 1957.
Manuel, dito Manolo, Segalá, poeta e gráfico espanhol (Barcelona, 1917-Rio de Janeiro, 1958). Bacharel em filosofia e letras, cursos superiores de Belas-Artes em Barcelona, Paris e Roma, publicou os volumes de poesia Le voz en el aire, Romance a la maja desnuda, Elegias, Oración a Cristo en la Cruz e Corcel de sombra. Teve forte atuação na imprensa escrita e falada em Barcelona e, depois do término da guerra civil espanhola, no exterior (França, Itália, Uruguai, Argentina). No Brasil, viveu seus quatro últimos anos, havendo-se notabilizado por seus exemplares de bibliofilia, inclusive por sua editorial Philobiblion, pela qual publicou textos, com xilogravura suas, de Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Geir Campos, García Lorca, Kafka, Raul de Leoni, Aníbal Machado, Cecília Meireles, Gabriela Mistral etc., ademais de A sereia (revista de poesia nos. 1, 2, 3 e 4). Foi também notável capista, ademais de haver-se dedicado à pintura e à escultura.
Conforme verbete na Grande Enciclopédia Delta-Larousse, Rio de Janeiro: Delta, v. 13, 1971, p. 6229.


"Morreu Segalá"
Aníbal M. Machado

A Manuel Segalá teria faltado (inadvertência? abusiva confiança?) a percepção do limite além do qual o nosso sol deixa de tansfundir energia vitalizante e começa a despedir raios mortíferos. Pois o verão dos trópicos armou-lhe uma cilada. E na leva de fevereiro último, dentre os muitos que sacrificou na rua, retirou da sua modesta oficina gráfica, e para sempre, da vida este poeta e artista catalão – homem universal pela experiência de muitas terrras, de muitas ruas e bares do mundo, brasileiro por amor de uma companheira a quem se unira, e fino mestre de artes gráficas pela devoção com que fez de “A Verônica” – a prensa manual com que desembarcou no Brasil – menos um instrumento de lucro material do que uma fonte de prazer. Artista-gravador, Segalá esmerava-se na construção estética do livro, e só concebia o livro como imagem exterior do seu contexto, em consonância com a sua natureza e espírito. Este o sentido com que valorizou a coleção Maldoror, da Editora Civilização Brasileira, e algumas edições avulsas, de sua livre preferência.

Morreu sem se anunciar, sem dar sinais de que lhe estava próximo o fim. Passada a surpresa de seu desaparecimento, sentimos o quanto essa figura se singularizou por traços com que, via de regra, ninguém se impõe à primeira vista no meio novo que elege para viver. Era despido de maneiras espalhafatosas e de expansões retóricas. De uma irreverência temperada de humour. Mas nos olhos ressaltados e tristes, no seu talhe de toureiro e na máscara de contemplativo – algo se exprimia que era um misto de revolta, docura e gosto de viver. Com as próprias mãos ilustrou, imprimiu e distribuiu de graça A Sereia, um caderninho que (leia-se agora no imperfeito do indicativo) “não pretende, não espera nem pede nada. Quer apenas falar um pouco de poesia”.

Não chegaram a dez os números prometidos, porque o poeta morreu antes da hora, como antes da hora morrem sempre aqueles que amam a vida e de quem se pode esperar mais em benefício da vida.

Em Segalá o espírito libertário sustentado pela amizade dos poetas livres de seu e de outros países não se revestia de asperezas sarcásticas, senão de segura confiança na vitória final dos homens contra a estupidez e a opressão. A atração do humano diluiu-lhe em poesia a vocação racial “a favor do contra”, traço heróico de seu povo. E em vez de bombas, a sua “Verônica” produziu sereias. Mais interessado em enquadrar com bom gosto e beleza a poesia dos outros, esqueceu a própria. E num dia de desesperadora canícula, triste dia para os seus amigos, para a poesia e para as artes gráficas – esqueceu-se também de viver.

Originalmente publicado em Para Todos, Rio de Janeiro, março de 1958, p. 9, in A arte de viver e outras artes. Rio de Janeiro: Graphia, 1994, p. 270-271.

Um comentário:

Henrique Chaudon disse...

Amigo Aníbal:
Ainda uma vez, obrigado por suas postagens.
Henrique.