quinta-feira, 6 de março de 2008

Camilo Pessanha (Coimbra, 07/09/1867 – Macau, 01/03/1926)


San Gabriel
(no quarto centenário do descobrimento da Índia)


I

Inútil! Calmaria. Já colheram
As velas. As bandeiras sossegaram
Que tão altas nos topes tremularam...
Gaivotas que a voar desfaleceram.

Para quê remar mais? Emudeceram!
Velhos ritmos que as ondas embalaram.
Que cilada que os ventos nos armaram!
A que foi que tão longe nos trouxeram?

San Gabriel, arcanjo tutelar,
Vem outra vez abençoar o mar,
Asas de cisne e o vasto saio azul...

À prova vem! À conquista final!
Freme de luz! Em álgido cristal, irreal,
Fulgente, argenteo Cruzeiro do Sul...


II

Vem conduzir as naus, as caravelas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um torrão de estrelas.

Outra vez vamos! Côncavas as velas,
Cuja brancura, rútila de dia,
O luar dulcifica, e anestesia
O nosso olhar, que nos doía ao vê-las.

Proas ao Sul! Ao Além! À nebulosa
Que do horizonte vapora, luminosa
E a noite lactescendo, onde, quietas,

As velhas almas lugem namoradas...
– Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas.



Viola chinesa
(a Wenceslau de Moraes)


Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que o meu coração se prenda
Na lengalenda fastidiosa...

Sem que o meu coração atenda,
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da vida morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Dormita... porém não repousa
O canto, sem que ele o compreenda,
Faz que as asitas distenda
Numa vibração dolorosa,

Ao longo da viola morosa...


[sem título]
A João Vasco
(Na ceia da noite de despedida para uma longa separação)

A boémia não morreu.
Eis-nos com os cabelos brancos;
E, todavia, os barrancos
Do seu destino, e do meu,

Se nos quebraram as pernas,
As asas não as partiram,
Em que altos sonhos deliram
As nossas almas eternas.

Depois de tantos baldões,
Devera ter-se ido a fé:
Temos tido pontapé
Das mais caras ilusões...

E não morre a mocidade!
Após enganos, enganos...
Pois só daqui a cem anos
Choraremos de saudade?

In A poesia de Camilo Pessanha. Edição crítica de Carlos Morais José e Rui Cascais. Macau ; Coimbra: Instituto Internacional de Macau ; Câmara Municipal de Coimbra, 2004.
Meus agradecimentos ao amigo Wagner Neves da Rocha e às sras. Maria José Miranda, chefe da Divisão de Biblioteca e Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Coimbra e Lídia Cunha, coordenadora da secretaria geral do Instituto Internacional de Macau pela oportunidade que, cada qual a seu jeito, criaram para que conhecesse um pouquito mais da poesia de Camilo Pessanha.

Um comentário:

HF disse...

Excelente texto.
Camilo Pessanha passou grande parte da sua vida em Macau, que é uma terra maravilhosa.
Helder Fráguas