quinta-feira, 7 de junho de 2007

Imprensa Régia ou Impressão Régia?


Ao aproximarem-se as comemorações dos 200 anos da instalação da primeira editora permanente no Brasil, vale trazer à discussão o seu nome. Muitas vezes vemos, até mesmo entre colegas pesquisadores, a referência a Imprensa Régia enquanto algumas vezes a indicação é Impressão Régia. Isso confunde o leitor. Qual terá sido o primeiro nome da Imprensa Nacional?

O decreto da sua criação (acima, clique na imagem para ampliar) está publicado, em fac-símile, no livro de Paulo Berger, A tipografia no Rio de Janeiro – Impressores bibliográficos, 1808-1900, editado pela Cia. Industrial de Papel Pirahy, em 1984, na p. VIII, e tem o seguinte texto:

Tendo-Me constado, que os Prélos, que se achão nesta Capital, erão os destinados para a Secretaria de Estado dos Negocios Estrangeiros, e da Guerra, e Attendendo á necessidade, que ha da Officina de Impressão nestes Meus Estados: Sou servido, que a Caza, onde elles se estabelecêrão, sirva interinamente de Impressão Regia [grifo meu], onde se imprimão exclusivamente toda a Legislação, e Papeis Diplomáticos, que emanarem de qualquer Repartição do Meu Real Serviço; e se possão imprimir todas, e quaesquer outras Obras; ficando interinamente pertencendo o seu governo, e administração á mesma Secretaria. Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Do Meu Conselho de Estado, Ministro, e Secretario de Estado dos Negócios Estrangeiros, e da Guerra o tenha assim entendido, e procurara dar ao emprego da Officina a maior extensão, e lhe dará todas as Instrucções, e Ordens necessarias, e participará a este respeito a todas as Estações o que mais convier ao Meu Real Serviço. Palacio do Rio de Janeiro em treze de Maio de mil oitocentos e oito.

Com a Rubrica do PRINCIPE REGENTE, N. S.
Regist.
Na Impressão Regia.

No mesmo dia foi publicada pela Impressão Régia a sua primeira edição, um número do que poderíamos chamar um tipo de “diário oficial”, cuja página de rosto está também reproduzida em fac-símile no mesmo livro (p. IX):

Relação dos Despachos Publicados na Corte pelo expediente da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, e da Guerra no Faustissimo dia dos Annos de S. A. R. o PRINCIPE REGENTE N. S. E de todos os mais, que se tem expedido pela mesma Secretaria desde a feliz chegada de S. A. R. aos Estados do Brazil até o dito dia.

Dignos de nota, de passagem, para posterior retomada: o mesmo ministro Rodrigo de Souza Coutinho responsável direto pela criação da Impressão Régia do Rio de Janeiro foi o patrono das atividades editoriais do Frei José Mariano da Conceição Veloso, grande naturalista brasileiro e também notável editor, em Lisboa, inclusive na criação da Oficina Literária do Arco do Cego (1799-1801), que entendemos ser, de fato, a primeira editora brasileira de grande relevo, em que pese ter sido criada em Lisboa. A voltar a essas questões. A primeira tipografia criada no Brasil, como sabemos, foi a tipografia instalada em 1747, pelo editor António Isidoro da Fonseca, que teve curtíssima existência.

Voltando à questão inicial: a editora foi criada como IMPRESSÃO RÉGIA.

A historiadora Lúcia Bastos Pereira das Neves, da UERJ, autora do verbete “Impressão Régia” do Dicionário do Brasil Imperial, organizado por Ronaldo Vainfas, publicado em 2002 pela Objetiva, do Rio de Janeiro, registra que em 1818 o nome da Impressão Régia mudou para Typographia Real, depois para Typographia Régia (em 1820) e Typographia Nacional (em 1821). Após a Independência seu nome passou a ser Typographia Nacional e Imperial (1826) e ainda Typographia Nacional, de 1830 até 1885. A partir desta data seu nome passou a ser o que mantém até hoje: Imprensa Nacional.

Assim, que razão poderá ter o uso tão comum do nome inexistente de Imprensa Régia? Arrisco dizer que pode ser um anacronismo: o nome atual adaptado ao período do Príncipe Regente e (a seguir) rei D. João VI. Será isso?

Algum dia, rara ou raro leitor, já se defrontou com esta questão referente ao nome da primeira editora permanente no Brasil, que ano que vem irá completar seu bi-centenário de existência? Pensa, como eu, que está na hora de identificá-la sempre pelo seu verdadeiro nome? Faça seu comentário.

6 comentários:

Rosa Amanda Strausz disse...

Aníbal, venho sempre aqui e raramente comento. Mas hoje não queria deixar de dizer que o "Ler" está cada dia melhor. Parabéns pelo ótimo trabalho.
forte abraço da Rosa

Aníbal Bragança disse...

Cara Rosa,
mesmo sem nos falarmos, há tanto tempo, você continua sendo uma pessoa especial pra mim.
Admiro seu trabalho e fico contente com seu sucesso crescente como escritora.
Vindo de você este comentário tem um valor muito grande e é um estímulo para melhorar sempre.
O Doce de Letra é um exemplo. http://www.docedeletra.com.br/
Um fraterno abraço, extensivo ao amigo Davi.
Aníbal

Juliana Gesuelli Meirelles disse...

Oi, Aníbal!!

Mil perdões pela demora na resposta! Minha vida está uma correria só. Mas fico muito feliz que podemos trocar boas impressões! Olha só: o livro está sendo vendido no próprio ARQUIVO NACIONAL. Ficarei muito feliz se vc o comentar comigo... Qto ao congresso da UFF, infelizmente não irei. Vou dar uma palestra na semana de jornalismo daqui da PUC. Mas vou em breve ao Rio e daí podemos nos encontrar!

Me envie de novo seu e-mil, por favor. Sem querer o apaguei... desculpa!!

P.S: Onde vc conseguiu a imagem do decreto de 13 de maio? Estou precisando dela...


Aguardo notícias!!!!
Um abraço e bom final de semana

Juliana

Fábio Ghuoth disse...

Boa noite, Aníbal.
O seu texto sobre a Impressão Régia foi uma verdadeira "mão na roda" para mim. Mas peço que você me ajude em algumas questões: você pode postar a capa ou folha de rosto da obra "Relação dos Despachos [...]" de 1808? Está muito difícil achar ao menos uma imagem. Outras dúvidas referem-se ao que afirma Hallewell em seu livro "O Livro no Brasil", que são:
1. Na p.110 ele chama a "Relação dos Despachos [...]" de "folheto de 27 páginas [...]", mas o que ele quer dizer com folheto?
2. Na p.111 o autor afirma que dois meses depois o decreto foi emendado para que a Impressão Régia auxiliasse na expansão da educação pública. É verdade essa afirmação?
Por favor, aguardo seu retorno.
Parabéns pelo blog. Grata, Soênia.

alfredops1943 disse...

Na verdade é uma pergunta. Há quem diga que dona Maria I, de Portugal, mandou destruir os prelos existentes no Brasil-colônia.

Eu gostaria de saber se isso foi verdade.

Agradeço desde já.

Alfredo Pereira dos Santos ( alfredops1943@gmail.com )

Aníbal Bragança disse...

Alfredo, a única tipografia instalada no Brasil, antes da vinda da família real, foi a de António Isidoro da Fonseca, editor lisboeta, que montou seu prelo no Rio de Janeiro, em 1747. Ele não tinha autorização das autoridades competentes e foi proibido de funcionar. Teve que ser desmontado e levado de volta para a metrópole, junto com o tipógrafo. Houve uma proibição de se montarem na colônia manufaturas, por decisão da política económica da época.