domingo, 16 de novembro de 2008

Jean-Paul Sartre, As Palavras: [Como aprendi a ler]

Foto - BBC: http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/149_sartre/



(...)
Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio de livros. No gabinete de meu avô, havia-os por toda parte; era proibido espaná-los, exceto uma vez por ano antes do reinício das aulas em outubro. Eu ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas: em pé ou inclinadas, apertadas como tijolos nas prateleiras da biblioteca ou nobremente espacejadas em aléias de menires, eu sentia que a prosperidade de nossa família dependia delas. Elas se pareciam todas; eu folgava num minúsculo santuário, circundado de monumentos atarracados, antigos, que me haviam visto nascer, que me veriam morrer e cuja permanência me garantia um futuro tão calmo como o passado. Eu os tocava às escondidas para honrar minhas mãos com sua poeira, mas não sabia bem o que fazer com eles e assistia todos os dias a cerimônias cujo sentido me escapava: meu avô – tão canhestro, habitualmente, que minha mãe lhe abotoava as luvas – manejava esses objetos culturais com destreza de oficiante. Eu o vi milhares de vezes levantar-se com ar ausente, contornar a mesa, atravessar o aposento com duas pernadas, apanhar um volume sem hesitar, sem se dar o tempo de escolher, folheá-lo, enquanto voltava à poltrona, com um movimento combinado do polegar e do índice, e depois, tão logo sentado, abri-lo com um golpe seco “na página certa”, fazendo-o estalar como um sapato. (...)

Meu avô nunca soubera fazer contas: pródigo por desleixo, generoso por ostentação, acabou por cair, muito mais tarde, nessa doença dos octogenários, que é a avareza, efeito da impotência e do medo de morrer. Naquela época, ela se prenunciava apenas numa estranha desconfiança: quando recebia, por ordem postal, o montante de seus direitos autorais, erguia os braços para o céu gritando que lhe estavam cortando a garganta, ou então entrava no aposento de minha avó e declarava sombriamente: “Meu editor me assalta como numa floresta”. Eu descobria, estupefato, a exploração do homem pelo homem. Sem essa abominação, felizmente circunscrita, o mundo, no entanto, apresentar-se-ia bem-feito: os patrões davam segundo suas capacidades aos operários segundo seus méritos. Por que era preciso que os editores, esses vampiros, o descompusessem, bebendo o sangue de meu pobre avô? Meu respeito cresceu por aquele santo homem cujo devotamento não obtinha recompensa: fui preparado desde cedo a tratar o magistério como um sacerdócio e a literatura como uma paixão.

Eu ainda não sabia ler, mas já era bastante esnobe para exigir os meus livros. Meu avô foi ao patife de seu editor e conseguiu de presente Os Contos do poeta Maurice Bouchor, narrativas extraídas do folclore e adaptadas ao gosto da infância por um homem que conservava, dizia ele, olhos de criança. Eu quis começar na mesma hora as cerimônias de apropriação. Peguei os dois volumezinhos, cheirei-os, apalpei-os, abri-os negligentemente na “página certa”, fazendo-os estalar. Debalde: eu não tinha a sensação de possuí-los. Tentei sem maior êxito tratá-los como bonecas, acalentá-los, beijá-los, surrá-los. Quase em lágrimas, acabei por depô-los sobre os joelhos de minha mãe. Ela levantou os olhos de seu trabalho: “O que queres que eu te leia, querido? As Fadas?” Perguntei, incrédulo: “As Fadas estão aí dentro?” A história me era familiar: minha mãe contava-a com freqüência, quando me levava, interrompendo-se para me friccionar com água-de-colônia, para apanhar debaixo da banheira o sabão que lhe escorregara das mãos, e eu ouvia distraidamente o relato bem conhecido; (...)

Ao cabo de um instante, compreendi: era o livro que falava. Dele saíam frases que me causavam medo: eram verdadeiras centopéias, formigavam de sílabas e letras, estiravam seus ditongos, faziam vibrar as consoantes duplas: cantantes, nasais, entrecortadas de pausas e suspiros, ricas em palavras desconhecidas, encantavam-se por si próprias e com seus meandros, sem se preocupar comigo: às vezes desapareciam antes que eu pudesse compreendê-las, outras vezes eu compreendia de antemão e elas continuavam a rolar nobremente para o seu fim sem me conceder a graça de uma vírgula.

Seguramente, o discurso não me era destinado. Quanto à história, endomingara-se: o lenhador, a lenhadora e suas filhas, a fada, todas essas criaturinhas, nossos semelhantes, tinham adquirido majestade, falava-se de seus farrapos com magnificência; as palavras largavam a sua cor sobre as coisas, transformando as ações em ritos e os acontecimentos em cerimônias.

Alguém se pôs a fazer perguntas: o editor de meu avô, especializado na publicação de obras escolares, não perdia ocasião de exercitar a jovem inteligência de seus leitores. Pareceu-me que uma criança era interrogada: no lugar do lenhador, o que faria: Qual das duas irmãs preferia? Por quê? Aprovava o castigo de Babette? Mas essa criança era absolutamente eu, e fiquei com medo de responder. Respondi, no entanto: minha débil voz perdeu-se e senti tornar-me outro. Anne-Marie, também, era outra, com seu ar de cega superlúcida; parecia-me que eu era filho de todas as mães, que ela era a mãe de todos os filhos. Quando parou de ler, retomei-lhe vivamente os livros e saí com eles debaixo do braço sem dizer-lhe obrigado.

Com o tempo senti prazer naquele deflagrador que me arrancava de mim mesmo: Maurice Bouchor se debruçava sobre a infância com a solicitude universal que os chefes de seção dedicam aos clientes dos grandes magazines; isso me lisonjeava. Aos relatos improvisados passei a preferir os relatos pré-fabricados; tornei-me sensível à sucessão rigorosa das palavras: a cada leitura voltavam, sempre as mesmas e na mesma ordem, eu as esperava. (...)

Apossei-me de um livro intitulado Tribulações de um Chinês na China [de Júlio Verne] e o transportei para um quarto de despejo; aí, empoleirado sobre uma cama de armar, fiz de conta que estava lendo: seguia com os olhos as linhas negras sem saltar uma única e me contava uma história em voz alta, tomando o cuidado de pronunciar todas as sílabas.

Surpreenderam-me – ou melhor, fiz com que me surpreendessem –, gritaram admirados e decidiram que era tempo de me ensinar o alfabeto. Fui zeloso como um catecúmeno: ia a ponto de dar a mim mesmo aulas particulares: eu montava na minha cama de armar com o Sem Família de Hector Malot, que conhecia de cor e, em parte recitando, em parte decifrando, percorri-lhe todas as páginas, uma após outra: quando a última foi virada, eu sabia ler.
(...)


Jean-Paul Sartre. As palavras. Tradução de J. Guinsburg. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, 6ª. edição, p. 30-36.

A iniciação na cultura letrada de Sartre, um dos escritores franceses e filósofos mais importantes do século XX, está narrada detalhadamente em sua obra As Palavras [Les mots], publicada em 1964, mesmo ano em que recusa o Prêmio Nobel. Ele teve o privilégio de nascer em casa de leitores, com um avô escritor, o que lhe despertou precocemente o desejo de ler e o fez ter consciência da relação conflituosa (pouco rara) entre autores e editores.

Podemos pensar que as experiências de leitura são importantes para a formação de futuros escritores, como neste e no texto de Fernando Sabino, o autor imortal de Encontro Marcado, que, permita-me confessar, rara leitora, foi um dos livros marcantes na trajetória deste leitor lacunar.

E você, raro leitor, como se iniciou nas letras?

Para saber mais sobre Jean-Paul Sartre, inicie com:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Sartre

3 comentários:

Anônimo disse...

Boa noite,
Gostaria de lhe dizer que adorei o seu blog. Sou amante dos livros, não por ser bibliotecária, mas creio que por ter tido a sorte de crescer entre os livros de meu pai e de ter iniciado minha incursão no mundo das letras pelo gênio de Monteiro Lobato. Atualmente estou fazendo Especialização em Formação de Leitores.
Um grande abraço,
Lílian (Curitiba)

Adriano Rodrigues disse...

Boa noite,
ver-se com a leitura desse texto o quão importante é a leitura e o processo de iniciação a leitura para todos nos, não importando jovem ou adulto. Temos que tomar consciência que isso é o que pode nos tornar mais humanos e intelectuais.

Parabéns pelo blog.

De deu leitor,

Adriano

suely - itaipu disse...

Li, no mês de setembro/2016, o livro de Sartre "As Palavras". Gostei muito. Pretendo ler outros.

SUELY - leitora (Itaipu/Niterói)