domingo, 3 de agosto de 2008

Graham Greene, Sebos

Não sei como Freud os teria interpretado, mas por mais de trinta anos os meus melhores sonhos têm sido com os sebos: sebos antes desconhecidos para mim, ou sebos familiares, os quais estou visitando novamente. São estes últimos, os familiares, que certamente não existiram nunca: cheguei com relutância a esta conclusão. Tenho lembranças nítidas de um sebo não distante da Gare du Nord, em Paris, no fim de um comprida rua que sobe um morro, uma loja funda, com prateleiras altas (tive de usar uma escada para chegar ao alto delas).

Em duas ocasiões, pelo menos, vasculhei essas prateleiras (foi ali que eu sonhei que comprava a tradução de Funny Hill por Apollinaire), mas quando a guerra acabou, procurei esse sebo em vão. É claro, a loja poderia ter desaparecido, mas nem mesmo a rua existia. E havia uma outra loja, em Londres, que surgia com freqüência nos meus sonhos; lembro-me claramente de sua fachada, mas não do seu interior. Ficava em algum ponto da região por trás de Charlotte Street, antes de se chegar a Euston Road. Nunca entrei nesse sebo. Sempre acordava desses sonhos com um sentimento de felicidade e expectativa.

Durante vários períodos de minha vida mantive um diário dos meus sonhos, e as minhas anotações para este ano (1972) mostram, nos sete primeiros meses, seis sonhos com sebos. Curiosamente, pela primeira vez não foi um sonho agradável, talvez porque a companhia amada, com quem eu costumava percorrer as livrarias, e com quem comecei a organizar, logo depois da guerra, uma coleção de romances policiais vitorianos, tivesse morrido em fins de 1971.

Assim, nos sonhos deste ano, um velho livro sobre estradas de ferro, que eu estava planejando oferecer ao meu amigo John Sutro como presente de Natal (ele havia fundado o Clube Ferroviário em Oxford), quando eu o retirava da prateleira, tinha perdido metade da capa: até mesmo os velhos exemplares com capa vermelha, da coleção Nelson (tão inexplicavelmente criticados por George Orwell, mas que adoro ter quando as primeiras edições são demasiado caras) acabavam sendo, todos eles, exemplares mutilados. Nada, em todos esses sonhos, parece ter qualidade suficientemente boa para ser comprado.

As recordações de meu amigo David Low como livreiro estimularam os meus pensamentos para que vagassem, não só em relação aos sonhos, mas também às pequenas aventuras e amizades de cinqüenta anos de freqüência às livrarias. (Aos dezessete anos, comecei a freqüentar Charing Cross Road, onde hoje, infelizmente, poucas vezes me dou ao trabalho de ir).

Os vendedores de livros usados estão entre os mais cordiais e mais excêntricos que já conheci. Se eu não fosse escritor, essa teria sido a profissão que eu teria maior prazer em exercer.

Há o cheiro de mofo dos livros, e há a sensação de caça ao tesouro. Por isso prefiro as livrarias mal organizadas, onde a Topografia está misturada com a Astronomia, e a Teologia com a Geologia, e montes de livros não identificados enchem a escada para uma sala com a indicação de viagem, que bem pode conter um dos meus Conan Doyles favoritos, O Mundo Perdido, ou A Tragédia do Korosko. (...)

Para entrar de maneira adequada nesse mundo mágico do acaso e da aventura, é preciso ser um colecionador ou, então, um livreiro. Eu teria preferido ser livreiro, mas perdi a oportunidade durante a guerra. (...) Cole, que na época era um “procurador” de livros para terceiros (...) levou-me certa vez para conhecer seu quarto, e lembro-me dos livros velhos empilhados por toda parte, até mesmo debaixo da cama, e concordamos que, se sobrevivêssemos ambos à guerra, abriríamos um livraria juntos. Fui para a África Ocidental com um emprego diferente, e perdemos contato. Eu havia perdido a minha única oportunidade vir a ser proprietário de um sebo.

Tornar-se colecionador é mais fácil. Não importa o que se coleciona, o importante é começar. É a excitação da caça, as personagens que encontramos, os amigos que fazemos. Quando eu era adolescente, tinha a minha primeira sensação de colecionador ao comprar livros sobre a exploração da Antártida – o Ártico não me interessava. (...)

Continuo colecionado romances policiais vitorianos: muitos deles encontrei na década de 1940 na livraria Foyle’s, a meia coroa cada, muito embora John Carter tivesse dez anos antes, produzido seu famoso catálogo Scribner’s, que deveria ter despertado o interesse de colecionadores por toda parte.

Para o colecionador, o valor de uma coleção está menos em sua importância do que na excitação da caça, e aos estranhos lugares a que ela por vezes leva. Muito recentemente, com meu irmão Hugh, cuja coleção de romances policiais vai desde a época vitoriana até 1914, de modo que geralmente saíamos os dois à caça, eu fui, debaixo de uma chuva torrencial, aos subúrbios de Leeds, uma área decadente, que poderia ter sido parte de um documentário de Grierson sobre a depressão.

A livraria que procurávamos tinha sido incluída num catálogo sério, mas nele acreditávamos cada vez menos, quanto mais nos molhávamos, entre fábricas abandonadas. Mas quando chegamos, era fora de dúvida que a livraria tinha existido, pois havia uma tabuleta com os dizeres “...vraria” sobre uma porta fora do lugar, todas as janelas estavam quebradas e o chão estava misteriosamente cheio de livros infantis e sapatos, sapatos bons, além disso. (...) Cenas como esta, e a descoberta de novos bares e de cervejas que não conhecíamos, são algumas das recompensas do rato de livraria. (...)

Gostaria que David Low tivesse incluído um obituário das mortes causadas por bombas ou pelas novas construções. Desapareceu, por exemplo, o sebo que eu amava em Westbourne Grove, e desapareceu a pequena livraria no ponto triangular em frente à estaça de King’s Cross, onde comprei The Adventures e The Memories of Sherlock Holmes, em suas primeiras edições, pelo então preço exorbitante de cinco libras. É esse o lado triste da caça aos livros, pois é maior o número de livrarias que fecham do que de livrarias que abrem. (...)


Graham Greene, Introdução a With All Faults, de David Low, 1973, in Reflexões, Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 278-282.


Este texto, raro leitor, mostra obviamente as aproximações possíveis das funções do escritor com as experiências do leitor e do livreiro. Aqui a alternativa não se coloca entre o ser escritor ou ser leitor, mas entre ser escritor ou ser livreiro. O mundo do livro é cheio de veias e vielas que ligam todos os seus personagens e seus agentes. O mundo dos sebos é talvez ainda mais rico, pelo que envolve de ambiente de caça, colecionismo, generosidade e cupidez, bem explorados nos romances policiais de John Dunning, editados aqui pela Cia. das Letras, em especial no Edições perigosas. Se quiser conhecer outro tipo de abordagem, mais acadêmico, recomendo que leia o trabalho O consumidor de livros de segunda mão. Perfil do cliente dos sebos, disponível em http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/anibal.html .

Graham Greene é um de meus escritores preferidos. Dentre outros, seu Coração da matéria tocou-me profundamente. Li-o em edição da hoje extinta Gráfica Record, cujos exemplares se podem encontrar no Estante Virtual até por 5 reais!

É pena que o interesse pela obra de Greene tenha decaído, especialmente após seu falecimento em 1991. Outro livro seu inesquecível é O poder e a glória, ambientado na revolução mexicana, que li numa tradução de Mário Quintana publicada pela Globo, de 1959.

A releitura deste texto de Greene me trouxe à memória, com alegria, o filme “Nunca te vi... sempre te amei”, baseado no livro de Helene Hanff, 84 Charing Cross Road, editado no Brasil pela Casa Maria & LTC, em 1988, sobre a relação entre a jovem escritora (Anne Bancroft) e um livreiro (Anthony Hopkins) cuja loja se situava na famosa rua citada por Greene.

Se gosta de livros, especialmente, de edições antigas, rara leitora, certamente gostará de ver este belo filme. Pegue-o numa videolocadora e aproveite.

Para saber mais sobre Graham Greene e talvez se animar a ler suas obras:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Graham_Greene
http://en.wikipedia.org/wiki/Graham_Greene (em inglês)

2 comentários:

Henrique Chaudon disse...

Caro Aníbal:
Obrigado por mais essa matéria tão interessante. A dica do filme é excelente; eu o assisti e li o livro há algum tempo.
Alguns dos livros que me são mais caros eu os encontrei em sebos.
Vivam os sebos, e seus obstinados proprietários!
Abraço.

André Quirino disse...

Ao lado de Graham Greene, Flannery O’Connor, Paul Claudel e Walker Percy, o francês Georges Bernanos figura entre os grandes escritores cristãos do século XX, ao ponto de o grande teólogo alemão Hans Urs von Balthasar ter-lhe dedicado um livro inteiro. Sua obra tem sido publicada no Brasil pela É Realizações Editora, e agora sua passagem pelo país é narrada ao público local. O estudo de Sébastien Lapaque “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)” acaba de ser publicado, trazendo à luz a visita de Bernanos a várias cidade do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sua estadia no sítio Cruz das Almas, sua revolta contra a mediocridade dos intelectuais e a ascensão do totalitarismo, sua amizade com pensadores brasileiros e a visita que Stefan Zweig lhe fez à véspera de se suicidar.

Matérias na Folha de S. Paulo a propósito do lançamento do livro: http://goo.gl/O8iFve e http://goo.gl/ymS4lL
Para ler algumas páginas de “Sob o Sol do Exílio”: http://goo.gl/6hAEOM

Confira também:
Diálogos das Carmelitas: http://goo.gl/Yy3ir3
Joana, Relapsa e Santa: http://goo.gl/CAzTTk
Um Sonho Ruim: http://goo.gl/Kd091z
Diário de um Pároco de Aldeia: http://goo.gl/ISErLc
Sob o Sol de Satã: http://goo.gl/qo18Uu
Nova História de Mouchette: http://goo.gl/BjXsgm

ANDRÉ GOMES QUIRINO
mkt1@erealizacoes.com.br
(11) 5572-5363 (r. 230)