Que pensemos em Joubert como num escritor que nos é próximo, mais próximo do que os grandes nomes literários de que foi contemporâneo, não é apenas à obscuridade, aliás distinta, em que viveu, morreu e em seguida sobreviveu, que o ficamos a dever.
Não basta ser em vida um nome frouxamente iluminado para cintilar, como esperava Stendhal, um ou dois séculos mais tarde. Nem sequer basta a uma grande obra ser grande e manter-se firmemente à distância, para que a posteridade, um dia reconhecedora, a restitua ao brilho do dia.
É possível que a humanidade um dia conheça tudo, os seres, as verdades e os mundos, mas haverá sempre um obra de arte (talvez a arte na sua totalidade) que escapa a este conhecimento universal.
Esse o privilégio da actividade artística: o que ela produz, frequentemente até um deus o deve ignorar.
A verdade é que muitas obras se esgotam prematuramente por serem demasiado admiradas. Essa grande fogueira da glória com que os escritores e os artistas, à medida que envelhecem, se regozijam, e que lança as últimas chamas por ocasião da sua morte, queima neles uma substância que doravante faltará a sua obra.
O jovem Valéry procurava em todos os livros célebres o erro que os torna conhecidos: juízo de aristocrata. Mas muitas vezes tem-se a impressão de que a morte vai trazer finalmente silêncio e calma à obra abandonada a si própria.
Em vida, até o escritor mais desprendido e mais negligente luta pelos seus livros. Vive, é quando basta; mantém-se por detrás deles, através dessa vida que lhe resta e que lhes dá de presente. Mas a sua morte, ainda que passe despercebida, restaura o segredo e encerra de novo o pensamento.
Irá este, ao ficar só, desdobrar-se ou estreitar-se, desfazer-se ou realizar-se, encontrar-se ou ficar em falta perante si próprio? E ficará ele alguma vez só? Nem o esquecimento recompensa sempre aqueles que parecem tê-lo merecido pelo dom de grande discrição que possuíram.
Joubert teve esse dom. Nunca escreveu um livro. Apenas se preparou para escrever um, procurando com determinação, as condições justas que lhe permitiram escrevê-lo. Depois, até esse desígnio ele esqueceu.
Mais precisamente, o que Joubert procurava, essa nascente da escrita, esse espaço onde escrever, essa luz a circunscrever no espaço, exigiu dele, afirmou nele disposições que o tornaram impróprio para todo o trabalho literário comum ou o levaram a desviar-se dele.
Foi, por isso, um dos primeiros escritores inteiramente modernos, preferindo o centro à esfera, sacrificando os resultados à descoberta das suas condições e escrevendo, não para acrescentar um livro a outro livro, mas para se tornar senhor do ponto de onde lhe parecia que saíam todos os livros e que, uma vez encontrado, o dispensaria de os escrever.
(...)
Por que é que Joubert não escreve livros? Desde muito cedo, só presta atenção e interesse ao que se escreve e ao facto de escrever. Jovem, está muito próximo de Diderot; um pouco mais tarde, de Restif de la Bretonne, ambos literatos de quantidade. Os anos de maturidade quase não lhe trazem outros amigos que não sejam escritores célebres, através dos quais a sua vida se liga à literatura e que, além disso, conhecendo os seus talentos consumados de pensamento e de forma, o empurram suavemente para fora do silêncio.
Finalmente, ele não é de modo nenhum um homem a quem as dificuldades de expressão paralisem: as suas cartas, numerosas, extensas, são escritas com essa aptidão para escrever que é como que o dom do seu século e à qual ele alia cambiantes de espírito e ornatos de frase que o mostram sempre feliz por falar e feliz em palavras.
Contudo, este homem extremamente capaz e que quase todos os dias tem ao seu lado um caderno onde escreve, não publica nada e não deixa nada para ser publicado. (...)
Joubert, apesar de aparentemente só redigir reflexões deveras abstractas, não duvida, autor sem livro e escritor sem escrito, de que já se encontra na pura dependência da arte. “Aqui, estou fora das coisas civis e na pura região da Arte”. (...)
In Maurice Blanchot. O livro por vir. Trad. de Maria Regina Louro. Lisboa: Relógio d’Água, 1984, p. 59-65. Recentemente foi lançada um edição brasileira deste livro nada fácil, pela Martins Fontes, certamente com uma tradução melhor.
Este fragmento, retirado de “A questão literária”, segunda parte da obra O livro por vir, do ensaísta e crítico francês Blanchot, pretende propor um diálogo com o texto de Gilberto Freyre aqui publicado. Tão distantes, ambos trataram do tema do escritor sem livros, da efemeridade/imortalidade da obra literária. Isso lhe diz algo, raro leitor?
Para saber mais:
Sobre Maurice Blanchot (1907-2003):
http://www.mauriceblanchot.net/blog/ (em francês) e
“A conversa infinita: a palavra plural – Maurice Blanchot”, por Ademir Demarchi, em
http://www.storm-magazine.com/arquivo/ArtigosDez_Jan/Artes/a_jan2002_1b.htm#A%20Palavra%20Plural
De Joseph Joubert (1754-1824): leia alguns pensamentos, a começar por este:
“A política tira a metade do espírito, a metade do bom senso, três quartos da bondade e certamente todo o repouso e a felicidade", em:
http://pt.wikiquote.org/wiki/Joseph_Joubert
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quarta-feira, 16 de julho de 2008
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Autores sem livros, por Gilberto Freyre
Serão sempre os “autores que não têm livros” do tipo daquele fixado a traços de caricatura pelo Sr. Oscar Lopes? Creio que não. A psicologia do autor sem livros é mais complexa do que imagina o Sr. Oscar Lopes no seu fácil filosofar de cronista. É como a psicologia da solteirona.
Quase não há solteirona que não nos possa contar histórias de casamentos e propostas desprezadas. Também os talentos inéditos o são sempre por vontade própria, por soberano desdém à publicidade. Editores que os adulassem, estes não faltaram.
E por serem tantas as solteironas que desprezaram, quando moças, propostas de casamento, e tantos os talentos inéditos por indiferença a toda espécie de sedução editorial, nós nos habituamos a duvidar de que realmente existiam, neste mundo de Deus, autores sem livros que de fato acharam na vida um editor, mesmo medíocre, que lhes fizesse a corte.
Mas o certo é que existem no mundo dessas esquisitices: solteironas que desprezaram milionários e talentos que desprezaram editores.
Há talentos que nasceram para comunicar-se a raros; para influir sobre o ânimo e a sensibilidade de raros. São como as solteironas, as raras solteironas que o são por terem nascido para desposar príncipes; e morrem donzelas porque não lhes apareceu na vida nem sombra de príncipe.
Apareceram-lhes milionários; apareceram-lhes bacharéis em Direito, caixeiros-viajantes, médicos – dezenas deles; elas porém não transigiram com o seu ideal de príncipe; e a transigir com um ideal tão bonito preferiram a donzelice. Semelhantemente há autores inéditos que o são porque os prelos e os públicos que se lhes oferecem não correspondem a certo ideal alto e puro que desenvolveram.
São casos talvez patológicos, o desses talentos e o dessas solteironas; mas existem.
A grande promessa de crítico que foi em Portugal Moniz Barreto desapareceu sem deixar livros – apenas um tênue fascículo; Luís Garrido morreu igualmente autor sem livros; na Inglaterra foram autores sem livros Collins e Addison; entre nós, Carlos de Laet e Afonso Arinos sempre se conservaram arredios do prelo que faz livros e do público que os lê: quase autores sem livros.
Entretanto Afonso Arinos não era nenhum maninho: apenas preferiu ao contacto com o público o contacto com a inteligência dum grupo que o soubesse compreender. E na vida mental do Brasil Arinos foi realidade mais viva e mais criadora que o Sr. Coelho Neto – autor de tantas dezenas de livros.
Rara é a solteirona que de fato recusou a propota de casamento, do milionário ou do caixeiro-viajante ou do bacharel em Direito que um dia se apresentou em sua casa, bonito como um herói de fita de cinema; raro é o talento que de fato se esquivou à sedução do livro pela estranha volúpia da fidelidade a um ideal que não se atinge nunca na vida. Mas esses esquisitões existem.
O livro publicado – que é para o autor, não de todo cretino, o livro publicado, no fim de dois ou três anos, senão a triste caricatura do que devia ter sido? E às vezes é como se fosse um enorme rabo de papel amarrado à inteligência.
De modo que o livro que verdadeiramente satisfaz e delicia o puro artista ou o pensador é o que ele deixa ficar nas primeiras provas tipgráficas da criação mental, nas dobras dos miolos, em estado plástico para ir sendo corrigido, atualizado, recriado de acordo com as conquistas de sua experiência íntima.
Só quando o autor encontra um público capaz de o acompanhar nesse processo de recriação, vale a pena escrever livros. Nesse caso o público é que completa o autor e serve de sexo oposto ao seu espírito.
(1924)
In Gilberto Freyre, Retalhos de jornais velhos, 2a. ed., rev. e aumentada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.
Gilberto Freyre, rara leitora, cada vez nos surpreende em sua antevisão do que só muito tempo depois se tornaria lugar comum, como o que afirma no último parágrafo deste artigo de jornal, publicado originalmente em 1924: a consciência de que é o leitor que completa o autor na recriação do sentido do texto que este publicou.
No mais, este texto bem humorado tem sentido hoje como um comentário sobre o panorama editorial que se apresentava aos autores no Brasil antes de 1930: seriam certamente tão raras as oportunidades de publicação para a maioria dos autores que alguns desses (quase todos) se acomodavam na situação “confortável” de se manterem inéditos, supostamente por opção.
Hoje, como vemos acontecer neste blog e em milhões de outros, com ou sem livros, todos se querem publicar, mesmo se tornando seus próprios editores, indo direto em busca do raro leitor. É isso, mas que tudo fica breve e muita vezes superficial, lá isso fica. É o preço da pressa.
Quase não há solteirona que não nos possa contar histórias de casamentos e propostas desprezadas. Também os talentos inéditos o são sempre por vontade própria, por soberano desdém à publicidade. Editores que os adulassem, estes não faltaram.
E por serem tantas as solteironas que desprezaram, quando moças, propostas de casamento, e tantos os talentos inéditos por indiferença a toda espécie de sedução editorial, nós nos habituamos a duvidar de que realmente existiam, neste mundo de Deus, autores sem livros que de fato acharam na vida um editor, mesmo medíocre, que lhes fizesse a corte.
Mas o certo é que existem no mundo dessas esquisitices: solteironas que desprezaram milionários e talentos que desprezaram editores.
Há talentos que nasceram para comunicar-se a raros; para influir sobre o ânimo e a sensibilidade de raros. São como as solteironas, as raras solteironas que o são por terem nascido para desposar príncipes; e morrem donzelas porque não lhes apareceu na vida nem sombra de príncipe.
Apareceram-lhes milionários; apareceram-lhes bacharéis em Direito, caixeiros-viajantes, médicos – dezenas deles; elas porém não transigiram com o seu ideal de príncipe; e a transigir com um ideal tão bonito preferiram a donzelice. Semelhantemente há autores inéditos que o são porque os prelos e os públicos que se lhes oferecem não correspondem a certo ideal alto e puro que desenvolveram.
São casos talvez patológicos, o desses talentos e o dessas solteironas; mas existem.
A grande promessa de crítico que foi em Portugal Moniz Barreto desapareceu sem deixar livros – apenas um tênue fascículo; Luís Garrido morreu igualmente autor sem livros; na Inglaterra foram autores sem livros Collins e Addison; entre nós, Carlos de Laet e Afonso Arinos sempre se conservaram arredios do prelo que faz livros e do público que os lê: quase autores sem livros.
Entretanto Afonso Arinos não era nenhum maninho: apenas preferiu ao contacto com o público o contacto com a inteligência dum grupo que o soubesse compreender. E na vida mental do Brasil Arinos foi realidade mais viva e mais criadora que o Sr. Coelho Neto – autor de tantas dezenas de livros.
Rara é a solteirona que de fato recusou a propota de casamento, do milionário ou do caixeiro-viajante ou do bacharel em Direito que um dia se apresentou em sua casa, bonito como um herói de fita de cinema; raro é o talento que de fato se esquivou à sedução do livro pela estranha volúpia da fidelidade a um ideal que não se atinge nunca na vida. Mas esses esquisitões existem.
O livro publicado – que é para o autor, não de todo cretino, o livro publicado, no fim de dois ou três anos, senão a triste caricatura do que devia ter sido? E às vezes é como se fosse um enorme rabo de papel amarrado à inteligência.
De modo que o livro que verdadeiramente satisfaz e delicia o puro artista ou o pensador é o que ele deixa ficar nas primeiras provas tipgráficas da criação mental, nas dobras dos miolos, em estado plástico para ir sendo corrigido, atualizado, recriado de acordo com as conquistas de sua experiência íntima.
Só quando o autor encontra um público capaz de o acompanhar nesse processo de recriação, vale a pena escrever livros. Nesse caso o público é que completa o autor e serve de sexo oposto ao seu espírito.
(1924)
In Gilberto Freyre, Retalhos de jornais velhos, 2a. ed., rev. e aumentada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.
Gilberto Freyre, rara leitora, cada vez nos surpreende em sua antevisão do que só muito tempo depois se tornaria lugar comum, como o que afirma no último parágrafo deste artigo de jornal, publicado originalmente em 1924: a consciência de que é o leitor que completa o autor na recriação do sentido do texto que este publicou.
No mais, este texto bem humorado tem sentido hoje como um comentário sobre o panorama editorial que se apresentava aos autores no Brasil antes de 1930: seriam certamente tão raras as oportunidades de publicação para a maioria dos autores que alguns desses (quase todos) se acomodavam na situação “confortável” de se manterem inéditos, supostamente por opção.
Hoje, como vemos acontecer neste blog e em milhões de outros, com ou sem livros, todos se querem publicar, mesmo se tornando seus próprios editores, indo direto em busca do raro leitor. É isso, mas que tudo fica breve e muita vezes superficial, lá isso fica. É o preço da pressa.
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