Para lembrar o aniversário da Revolução dos Cravos que, em 25 de abril de 1974, libertou Portugal da ditadura salazarista, propomos a você, rara ou raro leitor, a leitura destes poemas de Luís Veiga Leitão, nascido em Moimenta da Beira (Portugal) a 27 de maio de 1912. Estes versos se referem ao período em que o autor esteve encarcerado como preso político. Incomunicabilidade
Caneta, lápis, papel
e lâmina de ponta de lua
um autômato do bolso me tirava...
Depois a minha mão ficou nua
da vestimenta que usava.
Mas deram-me uma tinta preta
(nuvem negra dum fogo posto)
e meteram-me no tinteiro...
Na tinta, afogo as mãos, o rosto,
o meu corpo inteiro:
A força, o canto, a voz que encerra,
ninguém, ninguém pode afogar
– como as raízes da terra
e o fundo do mar.
Carta
Lanço as palavras ao papel
como pescador calmo
lança os barcos ao rio.
Só no fundo, no fundo inviolado,
contraio e espalmo
as minhas mãos, mãos de afogado
morrendo à sede.
– Meu amor estou bem –
Quanto te escrevo,
ponho os olhos no teu retrato
pendurado nos ferros da minha cama
para que as palavras tenham o sabor exacto
de quem me ouve,
de quem me fala,
de quem me chama.
– Meu amor estou bem –
Ontem vi a Primavera
numa flor cortada dos jardins.
Hoje, tenho nos ombros uma pedra
e um punhal nos rins.
– Meu amor estou bem –
Se a morte vier, querida amiga,
à minha beira, sem ninguém,
hei-de pedir-lhe que te diga:
– Meu amor estou bem –
A uma bicicleta desenhada na cela
Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.
Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...
Bem haja a mão que te criou!
Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.
In Latitude, 1950, com poemas da prisão, incluído em Obra completa, organizada por Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, publicada em bela edição, ilustrada com desenhos do autor, por Campo das Letras, Porto, Portugal, em 1997. A edição de 1950 teve sua circulação proibida então em Portugal.
Em 1967 Luís Veiga Leitão transferiu-se para o Brasil, talvez, principalmente, para que o filho Luís não fosse convocado à guerra colonial. Após viver alguns anos em Niterói – onde chegou a participar das atividades da Livraria Diálogo – retornou a Portugal no calor da hora do retorno à democracia. Anos depois, quando estava no Brasil para lançamento de sua antologia poética Biografia pétrea, publicada pela Thesaurus www.thesaurus.com.br , de Victor Alegria, faleceu subitamente (em 9 de outubro de 1987) na cidade fluminense que o acolheu e onde fez muitos amigos, como o signatário destas linhas.
Caneta, lápis, papel
e lâmina de ponta de lua
um autômato do bolso me tirava...
Depois a minha mão ficou nua
da vestimenta que usava.
Mas deram-me uma tinta preta
(nuvem negra dum fogo posto)
e meteram-me no tinteiro...
Na tinta, afogo as mãos, o rosto,
o meu corpo inteiro:
A força, o canto, a voz que encerra,
ninguém, ninguém pode afogar
– como as raízes da terra
e o fundo do mar.
Carta
Lanço as palavras ao papel
como pescador calmo
lança os barcos ao rio.
Só no fundo, no fundo inviolado,
contraio e espalmo
as minhas mãos, mãos de afogado
morrendo à sede.
– Meu amor estou bem –
Quanto te escrevo,
ponho os olhos no teu retrato
pendurado nos ferros da minha cama
para que as palavras tenham o sabor exacto
de quem me ouve,
de quem me fala,
de quem me chama.
– Meu amor estou bem –
Ontem vi a Primavera
numa flor cortada dos jardins.
Hoje, tenho nos ombros uma pedra
e um punhal nos rins.
– Meu amor estou bem –
Se a morte vier, querida amiga,
à minha beira, sem ninguém,
hei-de pedir-lhe que te diga:
– Meu amor estou bem –
A uma bicicleta desenhada na cela
Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.
Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...
Bem haja a mão que te criou!
Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.
In Latitude, 1950, com poemas da prisão, incluído em Obra completa, organizada por Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, publicada em bela edição, ilustrada com desenhos do autor, por Campo das Letras, Porto, Portugal, em 1997. A edição de 1950 teve sua circulação proibida então em Portugal.
Em 1967 Luís Veiga Leitão transferiu-se para o Brasil, talvez, principalmente, para que o filho Luís não fosse convocado à guerra colonial. Após viver alguns anos em Niterói – onde chegou a participar das atividades da Livraria Diálogo – retornou a Portugal no calor da hora do retorno à democracia. Anos depois, quando estava no Brasil para lançamento de sua antologia poética Biografia pétrea, publicada pela Thesaurus www.thesaurus.com.br , de Victor Alegria, faleceu subitamente (em 9 de outubro de 1987) na cidade fluminense que o acolheu e onde fez muitos amigos, como o signatário destas linhas.