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terça-feira, 19 de junho de 2007

Guilherme Figueiredo, a leitura e a arte dramática

(...)
Xântias:
Então, qual a técnica de aprender a escrever?

Dioniso:
Ler.

Xântias:
Não é, então, escrevendo que se aprende a escrever?

Dioniso:
Não. É lendo. Vejo bem que você se assusta, e percebo porque. No mundo de imagens em que nossos olhos se atolam – a fotografia, a ilustração, o cinema, a história em quadrinhos, a televisão – ler palavras se torna cada vez mais enfadonho para a grande massa contempladora de histórias e ouvintes de rádio.

Os livros são grossos, cada página tem mais de duzentas palavras, mais de mil caracteres. É preciso conhecer a relação das palavras entre si, os seus múltiplos significados, o que o autor escondeu por detrás deles. É preciso transformar aquele aranzel de letras em cenas, cores, formas, sentimentos, sons, figuras, dentro da imaginação. É preciso resignar-se ao único prazer simultâneo à leitura, o fumo.

É preciso percorrer assim centenas de páginas, volta-las atrás para o requinte de reler, suspende-las para esmiuçar o dicionário, retoma-las quando a vida nos arranca de chofre de dentro delas.

Quem lia antes do advento de Edison, lia à luz do candeeiro e da vela. E eram tremendos leitores! Veja o quanto teve de ler Montaigne para escrever os Essais, e Dante para compor a Commedia, e Cervantes para gerar o Quijote... E Shakespeare, apesar de Ben Jonson dizer dele que conhecia little Latin and less Greek, quanto teve de mergulhar nos novelistas italianos através do Palace of Pleasure, nos seus contemporâneos de teatro, em Plutarco, em cronistas como Raphael Holinshed, em Chaucer, em tradutores ingleses...

Quem lê hoje assim, com todo o consumo de eletricidade em vez da chama na ponta dum pavio? Ler torna-se cada vez menos atual.

E no entanto, se você vai lidar com palavras, tem que conhece-las. São o seu instrumento de trabalho, como o torno do oleiro, a bigorna do ferreiro. Se você quer escrever, não tem outro remédio senão ler.
(...)


In Guilherme Figueiredo, Xântias. Oito diálogos sobre a criação dramática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957, p. 31-33.


Apesar de ter sido publicado já há meio século, este livro do dramaturgo brasileiro, que viria a ter um irmão general na presidência do Brasil, não perdeu a atualidade, ao contrário. A obra, que se inspira num episódio da peça As rãs, de Aristófanes, quando Dioniso, acompanhado do escravo Xântias, desce ao inferno para “buscar os grandes poetas dramáticos da Grécia que, desaparecidos, fazem falta a Atenas”, e vai com ele dialogando sobre a arte teatral, certamente poderá ser lido com proveito não só pelos aprendizes da arte dramática como por qualquer um aspirante a escritor ou que simplesmente deseje conhecer mais sobre a arte da escritura. Entre seus diálogos estão: Por que escrever?; Ler; Escrever; Sobre o estilo e outros.

Guilherme Figueiredo (13/2/1915-24/5/1997) escreveu peças de grande sucesso como Um deus dormiu lá em casa (1949), A raposa e as uvas (1953), e o Tratado geral dos chatos (humor), um best-seller, além de poesia, romances e memórias.

Para saber mais:
Enciclopédia Itaú Cultural - Teatro
http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_biografia&cd_verbete=755