quinta-feira, 5 de julho de 2007
Olavo Bilac e uma profissão de fé
(...)
Mais que esse vulto extraordinário,
Que assombra a vista,
Seduz-me um leve relicário
De fino artista.
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto-relevo
Faz de uma flor.
Imito-o e, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre; desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
E que o lavor do verso, acaso,
Por tão sutil,
Possa o lavor lembrar de um vaso
De Becerril.
E horas sem conta passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.
Porque o escrever – tanta perícia,
Tanta requer,
Que ofício tal... nem há notícia
De outro qualquer.
(...)
A um poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício.
Porque a beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Língua portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho.
Os poemas foram transcritos do pequeno volume Olavo Bilac, o segundo da extensa coleção Nossos Clássicos, da Agir - uma grande iniciativa editorial para oferecer maior acessibilidade a textos de escritores brasileiros e portugueses consagrados (o primeiro volume é dedicado a Fernando Pessoa), coordenada por Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena. O volume que nos serviu é de autoria de Alceu Amoroso Lima, em sua 7ª edição, de 1980. Procure-o em sua próxima visita a uma livraria ou sebo e delicie-se com uma boa recolha de uma obra que, sendo expressão de seu tempo, o é também da riqueza de nossa língua e da sua melhor poesia.
Em 3 de março pp começamos a lançar ao mar nesta rede que, ao contrário da do pescador, liberta e amplia os peixes, estes despretensiosos apontamentos sobre o ler e o escrever. Hoje alcançamos a centésima postagem! Atrevemo-nos a dizer que agora vai se tornando possível atribuir valor qualitativo mais que quantitativo ao adjetivo “raro” que ajuntamos quando nos dirigimos ao nosso leitor e leitora. Isso já poderia justificar as horas ou minutos arrancados do escasso tempo, nosso e seu, rara leitora. Os retornos, as trocas, os comentários, muitas vezes mais ricos que as sementes lançadas, estimulam a continuidade deste exercício que é, em grande parte, homenagem à língua portuguesa, o que levou à escolha (para este centenário) de escritos de Olavo Bilac (1865-1918), cuja obra poética é dela belíssima expressão e permanente culto.
terça-feira, 3 de julho de 2007
Uma breve coordenação interina no Proler, Aníbal Bragança
Esse Programa foi criado por decreto do nefasto governo Collor, em 13 de maio de 1992, graças ao movimento de alguns intelectuais e professores, durante a gestão do poeta Affonso Romano de Sant’Anna na presidência da Fundação Biblioteca Nacional, a quem caberia a sua direção.
De certa forma o Proler, afirmamos nós, deveria atuar no vácuo deixado pela liquidação do Instituto Nacional do Livro – INL, que tantos serviços prestou (e alguns desserviços também) à cultura letrada no Brasil desde que foi criado, em 1937, até 1990. Sua agonia final começou em 1987, quando o então presidente José Sarney, tendo como ministro da Cultura o honrado e brilhante economista Celso Furtado, o desqualificara, incorporando-o, e também a Biblioteca Nacional, à então recém-criada Fundação Nacional Pró-Leitura. Esta, que não chegou a efetivamente a consolidar-se, foi liquidada pela lei collorida n° 8.029, de 12.04.90, de triste memória, sendo suas atribuições transferidas para a Biblioteca Nacional.
(...)
Leia a íntegra do “depoimento” (e muito mais) em:
LINHA MESTRA - Revista Virtual Ano I, nº 03, julho/agosto 2007, editada pela
ALB – Associação de Leitura do Brasil
http://www.alb.com.br/pag_revista.asp
A leveza na literatura, segundo Italo Calvino
Quando iniciei minha atividade literária, o dever de representar nossa época era um imperativo categórico para todo jovem escritor. Cheio de boa vontade, buscava identificar-me com a impiedosa energia que move a história de nosso século, mergulhando em seus acontecimentos coletivos e individuais. Buscava alcançar uma sintonia entre o espetáculo movimentado do mundo, ora dramático ora grotesco, e o ritmo interior picaresco e aventuroso que me levava a escrever.
Logo me dei conta de que entre os fatos da vida, que deviam ser minha matéria-prima, e um estilo que eu desejava ágil, impetuoso, cortante, havia uma diferença que eu tinha cada vez mais dificuldade em superar. Talvez que só então estivesse descobrindo o pesadume, a inércia, a opacidade do mundo – qualidades que se aderem logo à escrita, quando não encontramos um meio de fugir a elas.
Às vezes, o mundo inteiro me parecia transformado em pedra: mais ou menos avançada segundo as pessoas e os lugares, essa lenta petrificação, não poupava nenhum aspecto da vida. Como se ninguém pudesse escapar ao olhar inexorável da Medusa.
O único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas. Perseu, que não volta jamais o olhar para a face da Górgona, mas apenas para a imagem que vê refletida em seu escudo de bronze. Eis que Perseu vem ao meu socorro até mesmo agora, quando já me sentia capturar pela mordaça de pedra – como acontece toda vez que tento uma evocação histórico-autobiográfica.
Melhor deixar que meu discurso se elabore com as imagens da mitologia. Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento, e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho.
Sou tentado de repente a encontrar nesse mito uma alegoria da relação do poeta com o mundo, uma lição do processo de continuar escrevendo.
(...)
Ítalo Calvino, “Leveza”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, Cia. das Letras, S. Paulo, 1990, p. 15-6.
O trecho acima foi retirado do início do texto da conferência sobre Leveza que Calvino preparou para apresentar nas suas Lições Americanas, que nunca chegou a proferir. Convidado pela Universidade de Harvard, em 1984, para oferecer um ciclo de seis conferências, faleceu em 1985, em Siena, na Itália. Deixou prontos os textos de cinco: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade. A que seria a última, Consistência, Calvino havia deixado para preparar em Harvard. Ficou o legado literário de uma dos maiores escritores do século XX, uma referência nos caminhos da literatura do terceiro milênio.
A escrita, o livro e a tipografia, de Cecília S. Schmidt
“A escrita, o livro, a tipografia – três invenções sublimes do engenho humano, completando-se maravilhosamente. Ao descobrir a primeira, o Homem achou mais um processo de transmitir o pensamento, com vantagens sobre o som e o gesto, únicos meios de que até então dispusera. Depois, quando formou o livro, reunindo nele a sabedoria vinda de geração em geração, a história do seu povo ou da sua alma – criou o maior instrumento do progresso humano. Finalmente, com a tipografia, o frágil receptáculo de idéias tornou-se, pela sua rápida e fácil multiplicação, praticamente indestrutível”.
O volume inaugura a seção – Os Inventos Sensacionais – da "Enciclopédia Popular" da "Pequena Biblioteca de Iniciação Cultural", dirigida por A. Vieira d’Areia, que o traduziu do alemão.
Sobre a autora nada conseguimos descobrir. A edição, de 151 páginas, foi feita pela Agência Editorial Brasileira, de José Rodrigues Júnior, Editor, sendo composta e impressa na Tipografia Americana, da Rua da Horta Seca, 50, em Lisboa. A bibliografia indicada, que soma 37 itens, tem apenas 3 em francês, todos os demais são em alemão.
O interessante nessa edição é sua data, 1945. Sim, houve um tempo em que se oferecia em uma Enciclopédia Popular uma singela e boa História do Livro!
O clássico O aparecimento do livro (L’Apparition du livre), de Lucien Febvre e Henry-Jean Martin, só seria dado à luz em 1958, inaugurando na tradição francesa a disciplina acadêmica de estudos da História do Livro. Seria publicado em português somente em 1992, em co- edição Editora da UNESP com a Hucitec, traduzido por Fulvia M. L. Moretto e Guacira Marcondes Machado.
Você, rara ou raro leitor, sabe algo mais para nos dizer sobre essa edição pioneira? E sobre a essa autora?
sábado, 23 de junho de 2007
Geir Campos e “A roda da fortuna”, de Wilson Martins
O crítico, autor de uma das melhores obras de história do livro, da imprensa e da biblioteca publicadas em português, A palavra escrita, editada inicialmente pela Anhembi, em 1957, e após longo tempo fora das livrarias, reeditada, revista e atualizada, pela Editora Ática (com apoio da Fundação Biblioteca Nacional), e da História da inteligência brasileira, obra monumental em 7 volumes, Editora Cultrix (1976-1979), destaca em seu texto o que chama de “capítulo reivindicativo” de Israel Pedrosa, “A latência poética de Geir Campos (1924-1999)” (p. 117-177), para afirmar que o poeta “consagrado em vida pela crítica” está hoje “condenado ao silêncio”, com o “mesmo destino” do poeta Ribeiro Couto; segundo ele, Geir “por ser visto como esquerdista” e Couto “por ser visto como direitista”. Para Wilson Martins, a “roda da fortuna” segue “os critérios de julgamento na feira literária, nos quais a intenção polêmica, quando não caluniosa, toma o lugar dos vereditos objetivos e desinteressados.”
O belo ensaio de Israel Pedrosa continua o resgate da obra do poeta capixaba iniciada com a organização da Antologia Poética de Geir Campos (2003), editada também pela Léo Christiano, aprofundando e alargando a trilha aberta pelo livro A profissão do poeta & Carta ao livreiros do Brasil, lançado no ano anterior, organizado por Maria Lizete dos Santos e este neoblogueiro.
Sobre o tema da "roda da fortuna", um poema (do livro Metanáutica, in Antologia poética de Geir Campos, p. 261):
Questões de tempo
Quem perguntará por mim
quando a última passar
com seu facão?
Que mulher grave desfalecerá
vendo apagados meus olhos
na multidão?
Que homem de bem guardará
o adeus meu
seco na palma da mão?
Quem lembrará minha voz
coral ausente
em qualquer canção?
Quem se pagará a herança
inteira ou em pedaços
do meu indivisível coração?
E a quem a flor
de raiz em mim
fará os acenos do não?
Conheça mais de e sobre Geir Campos (e também de outros poetas) no excelente espaço virtual, criado por Luiz Fernando Proa, "Alma de Poeta":
http://www.almadepoeta.com/biblioteca/geircampos.htm
E nos diga, rara ou raro leitor, se se inclui, como Israel Pedrosa e nós, entre aqueles que perguntam por Geir e sua herança poética.
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Galáxia de Gutenberg, no Primeira Fonte
Gutenberg era um artesão de ligas metálicas que, com muito engenho e arte, além de pertinácia e empréstimos de financistas da época, conseguiu chegar à invenção da tipografia, então chamada escrita mecânica (feita sem o concurso da mão), recentemente, considerada a invenção mais influente dos últimos mil anos da história da Humanidade.
Para Herbert Marshall McLuhan a tecnologia da imprensa foi a base para a construção do mundo moderno. O título deste espaço é homenagem ao irreverente, iluminado e inovador comunicólogo canadense falecido no último dia do ano 1980, aos 69 anos.
Leia mais:
http://primeirafonte.com/index.php?option=com_content&task=archivecategory&id=48&Itemid=62
Manuel de Barros, O poeta, Pretexto e Palavras... e ainda o “processo de criação”.

Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria 13 anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.
In Ensaios fotográficos, Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 47
Pretexto
O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma amiga em 1852. Li nas Cartas exemplares, organizadas por Duda Machado. Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc. etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora.
In O livro sobre nada, Rio de Janeiro: Record, 3a. ed., 1997, p. 7.
Palavras
Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar de debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que a palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar de debaixo de mim o lugar, eu desaprumei. Ali só havia um grilo com a sua flauta de couro. O grilo feridava o silêncio. Os moradores do lugar se queixavam do grilo. Veio uma palavra e retirou o grilo da flauta. Agora eu pergunto: quem desestruturou a linguagem? Fui eu ou foram as palavras? E o lugar que retiraram de debaixo de mim? Não era para terem retirado a mim de lugar? Foram as palavras pois que desestruturam a linguagem. E não eu.
In Ensaios fotográficos, Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 57.
Qual é seu processo de criação?
Como quem lava no tanque dando porrada nas palavras. A escuma que restou no ralo vai ser boa para o começo. Depois é ir imitando os camaleões sendo pedra sendo lata sendo lesma. As palavras de nascer adubam-se de nós. Então no meio da coisa pode saltar uma clave ou um rato. Daí a gente tem que trabalhar. O horizonte fica longe que nem se vê. Um horizonte pardo como os curdos. Também faz parte desse processo desarrumar a cartilha. Seduz-me reaprender a errar a língua. Eis um ledo obcídio meu.
In Gramática expositiva do chão, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990, p. 314.
Esta seleção de textos de Manuel de Barros, que fiz com a Lizete, minha mulher, foi (quase) sem nenhum sentido além do puro prazer de ler... e escrever pra você, rara ou raro leitor.
Depois, se puder, vá direto aos livros. Tem lá muito mais.
A leitura e suas práticas no Brasil, por Gilberto Amado (em 1918)
Um livro! Uma campanha! Mas onde foi parar o teu juízo?
Em primeiro lugar, parece que esqueceste que o Brasil é um vasto país da América do Sul em cuja população existem ainda de oitenta e cinco a noventa por cento de analfabetos. Dos restantes quinze por cento que se supõe saber ler, pois não temos nenhuma estatística, demos cinco por cento para o interior e fiquemos com dez para as capitais, inclusive o Rio e S. Paulo. Espalham-se de Manaus a Porto Alegre, mantendo entre si um nexo afrouxado pela distância e pela falta de comunicações.
(...)
Considerando agora que destes dez por cento da população que vive nas capitais, dois terços não lêem senão jornais: são caixeiros, pequenos empregados, auxiliares, homens de vista curta, cuja atividade mental não transcende da estreiteza habitual das suas tarefas quotidianas, vemos que não resta senão um terço, que se compõe de funcionários públicos, jornalistas, políticos, advogados, médicos, engenheiros, comerciantes, agricultores, homens de negócios, o que se chama enfim as classes dirigentes do país, a minoria que governa ou, para falar mais pernosticamente – a elite.
Nessa elite é que se devem encontrar as centenas ou milhares de pessoas que lêem livros. Devo dizer-te que em geral lêem pedaços de livros, e de livros que os interessam, livros de a-propósito.
O deputado, por exemplo, tem que escrever na comissão de que faz parte na Câmara um parecer sobre o Crédito Agrícola. Vai à livraria e encomenda todos os livros que sobre o assunto já foram publicados na Bélgica, na França, ou traduzidos do alemão e do inglês.
Estende-os numa grande mesa e começa o trabalho. Quinze dias depois está pronto. Nele são citados quatrocentos e trinta e dois autores, segundo as indicações dos quatro volumes principais. O deputado recebe as felicitações dos colegas e os aplausos da imprensa, depois de lido o parecer, que é publicado com o retrato do autor em todo o país. Fecha depois os livros, coloca-os em bonitas estantes expostas ao olhar dos amigos e nunca mais os abre.
(...)
Leitura, atividade intelectual como a desse deputado que tomei para exemplo, é a da maioria da pequena parte da população que lê. É assim que faz toda a gente na pressão de uma tarefa imediata a cumprir, no desempenho angustioso de um propósito inadiável, leitura rápida, sumária, expedida.
E fora desta, os lazeres multiplicados da vida mortificante num clima exaustivo não lhes deixam tempo senão para jornais, livros leves, romances policiais, assuntos de aplicação fácil que não tomem a atenção toda. Uma obra de idéias dizendo com os problemas morais ou sociais que interessam à humanidade contemporânea, poderia atrair quando muito cinco leitores sinceros em todo o Brasil, (...)
Campanhas aqui, meu amigo, num meio destes, com tão poucas letras, por intermédio de livros, estás a ver que é impossível empreendê-las. (...)
Se uma empresa pudesse ser feita no Brasil pela palavra falada ou escrita o flagelo das secas não mais existiria no Ceará.
In “Dos homens chamados “práticos” e a sua influência no Brasil” (1918), Gilberto Amado, Grão de areia e estudos brasileiros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948, Col. Obras de Gilberto Amado, vol. II, p. 132-135.
Trazemos a você, rara ou raro leitor, este registro sobre como era vista a situação da leitura e de suas práticas em nosso país, na chamada República Velha, a partir do olhar de um dos intelectuais brasileiros mais respeitados em seu tempo.
Passaram-se quase nove décadas. Houve mudanças – a maior talvez tenha sido a ampliação da escolarização da infância que reduziu bastante os índices de analfabetismo absoluto ou então o número de assessores parlamentares para poupar os deputados de preparem eles próprios seus pareceres – e permanências, como a formação de bibliografias e a leitura a-propósito, esta agora certamente feita com muito mais intensidade e cada vez menos nos livros e mais na Internet.
E a seca no Ceará, claro.
O que pensa disso? Faça o seu comentário.
Gilberto Amado (7/5/1887-27/8/1969) foi jornalista, professor, político, diplomata e escritor. Em 1915, foi eleito deputado federal por Sergipe. Nos últimos anos da República Velha, exerceu mandato no Senado, até encerrar-se a sua carreira política com a Revolução de 1930. Em 1934, iniciou sua carreira na diplomacia. Eleito em 3 de outubro de 1963 para a Academia Brasileira de Letras.
Mais informações:
http://www.academia.org.br/
terça-feira, 19 de junho de 2007
Guilherme Figueiredo, a leitura e a arte dramática
Xântias:
Então, qual a técnica de aprender a escrever?
Dioniso:
Ler.
Xântias:
Não é, então, escrevendo que se aprende a escrever?
Dioniso:
Não. É lendo. Vejo bem que você se assusta, e percebo porque. No mundo de imagens em que nossos olhos se atolam – a fotografia, a ilustração, o cinema, a história em quadrinhos, a televisão – ler palavras se torna cada vez mais enfadonho para a grande massa contempladora de histórias e ouvintes de rádio.
Os livros são grossos, cada página tem mais de duzentas palavras, mais de mil caracteres. É preciso conhecer a relação das palavras entre si, os seus múltiplos significados, o que o autor escondeu por detrás deles. É preciso transformar aquele aranzel de letras em cenas, cores, formas, sentimentos, sons, figuras, dentro da imaginação. É preciso resignar-se ao único prazer simultâneo à leitura, o fumo.
É preciso percorrer assim centenas de páginas, volta-las atrás para o requinte de reler, suspende-las para esmiuçar o dicionário, retoma-las quando a vida nos arranca de chofre de dentro delas.
Quem lia antes do advento de Edison, lia à luz do candeeiro e da vela. E eram tremendos leitores! Veja o quanto teve de ler Montaigne para escrever os Essais, e Dante para compor a Commedia, e Cervantes para gerar o Quijote... E Shakespeare, apesar de Ben Jonson dizer dele que conhecia little Latin and less Greek, quanto teve de mergulhar nos novelistas italianos através do Palace of Pleasure, nos seus contemporâneos de teatro, em Plutarco, em cronistas como Raphael Holinshed, em Chaucer, em tradutores ingleses...
Quem lê hoje assim, com todo o consumo de eletricidade em vez da chama na ponta dum pavio? Ler torna-se cada vez menos atual.
E no entanto, se você vai lidar com palavras, tem que conhece-las. São o seu instrumento de trabalho, como o torno do oleiro, a bigorna do ferreiro. Se você quer escrever, não tem outro remédio senão ler.
(...)
In Guilherme Figueiredo, Xântias. Oito diálogos sobre a criação dramática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957, p. 31-33.
Apesar de ter sido publicado já há meio século, este livro do dramaturgo brasileiro, que viria a ter um irmão general na presidência do Brasil, não perdeu a atualidade, ao contrário. A obra, que se inspira num episódio da peça As rãs, de Aristófanes, quando Dioniso, acompanhado do escravo Xântias, desce ao inferno para “buscar os grandes poetas dramáticos da Grécia que, desaparecidos, fazem falta a Atenas”, e vai com ele dialogando sobre a arte teatral, certamente poderá ser lido com proveito não só pelos aprendizes da arte dramática como por qualquer um aspirante a escritor ou que simplesmente deseje conhecer mais sobre a arte da escritura. Entre seus diálogos estão: Por que escrever?; Ler; Escrever; Sobre o estilo e outros.
Guilherme Figueiredo (13/2/1915-24/5/1997) escreveu peças de grande sucesso como Um deus dormiu lá em casa (1949), A raposa e as uvas (1953), e o Tratado geral dos chatos (humor), um best-seller, além de poesia, romances e memórias.
Para saber mais:
Enciclopédia Itaú Cultural - Teatro
http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_biografia&cd_verbete=755
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Dedicatória, Mário Quintana
Quem foi que disse que eu escrevo para o bas-fond?
Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia.
Eu escrevo para o João Cara de Pão.
Para você, que está com este jornal na mão...
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia,
O resto não passa de crônica policial – social – política.
E os jornais sempre proclamam que “a situação é crítica”!
Mas eu escrevo é para o João e a Maria.
Que quase sempre estão em situação crítica!
E por isso as minhas palavras são quotidianas como o pão nosso de cada dia.
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão.
In A cor do invisível, Globo, 1989, p. 26.
Para quem se escreve é uma questão fundamental para qualquer escriba. Até, rara ou raro leitor, para este blogueiro neófito. Feliz foi o Mário Quintana que encontrou um belo caminho,,, fazendo felizes os seus leitores.
domingo, 17 de junho de 2007
Grupo Mônaco de Cultura faz 50 anos

Esse foi o marco inicial de um grupo que se constituiu festiva e informalmente em torno dos livreiros, de origem italiana, Silvestre Mônaco e Emílio Petraglia, fundadores da Livraria Ideal, em Niterói, Rio de Janeiro, e que ontem, sábado, 16 de junho, sob a atual direção do filho de Silvestre, Carlos Mônaco, completou 50 anos de contínuas atividades.
O primeiro “presidente” do Grupo, que redigiu a ata de fundação, o advogado, jornalista e poeta Sávio Soares de Sousa, relembrou sua história em bela palestra, e a seguir autografou seu último livro O canibal arrependido, editado por Paulo Roberto Cecchetti.
Com a presença do atual “presidente”, Luís Antônio Pimentel, poeta, jornalista e “enciclopédia viva da cidade”, foi relembrado também o economista e poeta Juvenille Pereira, que sucedeu a Sávio em 1975, quando o Grupo passou a se chamar Grupo Mônaco de Cultura, e que se manteve na “presidência” até falecer, em 1978, quando foi sucedido pelo “presidente” atual.
As comemorações, que mereceram inclusive um livreto de 16 páginas, produzido por Márcia Queiroz Erthal (projeto gráfico) e Luiz Augusto Erthal (direção editorial), com apresentação de Márcia Pessanha, editado pela NitPress, com toda a programação e a crônica “Começou assim...”, de Sávio Soares de Souza, vão estender-se. Em 29 de junho será inaugurada na Biblioteca Estadual de Niterói a “Exposição Fotográfica e Registros Jornalísticos”, com o acervo de Carlos Mônaco, referentes aos 50 anos de atividades do grupo, quando Sávio Soares de Sousa proferirá palestra sobre "O Grupo Mônaco e sua importância no movimento cultural de Niterói". O evento conta com apoio de Glória Blauth (diretora da Biblioteca) e do Cenáculo Fluminense de História e Letras e tem como organizadoras Márcia Pessanha, Liane Arêas, Edel Costa e Lúcia Motta.
A trajetória do imigrante Silvestre Mônaco, de engraxate a livreiro, foi o fio condutor da construção da obra Livraria Ideal, do cordel à bibliofilia, da lavra deste neoblogueiro, editada por Pasárgada e EdUFF, em 1999, com capa e projeto gráfico de Cassiana Rangel, atualmente esgotado, mas que está em processo de reedição pela Edusp. O texto reproduzido acima está na p. 145.
sábado, 16 de junho de 2007
Serviço: Dicas e sugestões
Palestra no Rio de Janeiro, 29 de junho, 9:30
Roger Chartier: O que é um autor científico?
(em espanhol)
Auditório do Observatório Nacional
Inscrições: michele@mast.br
Visite o novo jornal
Primeira Fonte
http://www.primeirafonte.com/
Destaque para a matéria “A droga do amor é um barato”,
de Ana Laura Diniz e Esther Lúcio Bittencourt (você entenderá por que)
Conheça mais:
1. Visite o sítio virtual do
Museu da Língua Portuguesa Estação da Luz
http://www.estacaodaluz.org.br/
E, logo que possa, faça uma visita “real”. É extraordinário.
2. A história do livro escolar no Brasil. Visite o
Banco de Dados LIVRES
e tenha acesso à produção das diversas disciplinas escolares brasileiras desde o século XIX até hoje e muito mais.
http://paje.fe.usp.br/estrutura/livres/index.htm
Coordenação: Circe Maria Fernandes Bittencourt (FE/USP)
3. Visite o sítio Amigos do Livro e participe da enquête:
Escolha um livro de autor brasileiro "inesquecível"
http://www.amigosdolivro.com.br/home.php
4. Visite o sítio e blog:
Liter & Art
http://www.litereart.org.br/
http://litereartbrasil.blogspot.com/
Cultura, arte e uma agenda bem atualizada
5. Visite o blog do fotógrafo Sérgio Guida
Grafia in foto
Niterói (e o interior fluminense) captados com rara beleza
http://grafiainfoto.blogspot.com/
6. Acompanhe as atualizações do
Blog do Galeno
http://www.blogdogaleno.com.br/
O universo brasileiro do livro e da leitura
7. Acesse o blog e conheça a proposta da
Alfagrama Ediciones (Argentina)
http://alfagrama.blogspot.com/2007/04/historia-del-libro.html
Um espaço virtual (em castelhano) que navega pelo universo do livro com grande riqueza de informações e que tem uma proposta para autores.
E você, rara leitora, tem alguma sugestão ou dica para repassar?
quarta-feira, 13 de junho de 2007
“Sem livros não há instrução”, Frei Veloso


Miguel Faria, no estudo que dedica à importância das imagens nas edições do Arco do Cego, destaca (p. 120) que “a preocupação de fazer chegar ao maior número possível de leitores uma informação acessível e prática é visível nos comentários de Veloso”, quando cita a crítica deste ao “ócio literário” de autores cujas obras “jamais servirão para o conhecimento dos camponezes, como desconhecedores da linguagem em que são escriptas e apenas para algum rico proprietário”, o que fez com que se tenha dedicado tanto à tradução de obras “para que nada falte a estes homens úteis, que habitão os campos, e sustentão as Cidades”.
A bela edição Flora Fluminensis – Estudos preliminares, publicada, também em 1999, pelo Centro de Memória e Documentação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Governo do Estado do Rio de Janeiro, com apoio da FINEP e da Fundação Vitae, conta com estudos de Frei Thomaz Burgmeier, Haroldo C. de Lima e Darcy Damasceno, além das apresentações institucionais de André Corrêa, secretário de Estado, e Eduardo Portella, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, mas nela se destacam as reproduções das imagens da Flora Fluminensis - a obra maior do naturalista Frei Veloso - arrematadas em leilão da biblioteca dos Marqueses de Castelo Melhor, em 1879, e que foram incorporadas ao fundo precioso da Biblioteca Nacional, do Brasil.
No estudo “Frei José Mariano da Conceição Vellozo, naturalista e editor” o crítico Darcy Damasceno afirma (p. 25) que “há na atividade editorial de Frei Vellozo certa manifestação de incipiente sentimento nativista, que se percebe não só na titulação do enciclopédico O Fazendeiro do Brazil, mas, também, nas dedicatórias, introduções ou advertências dos vários volumes.”
Entendemos ser a Casa Literária Arco do Cego, vamos repetir, a primeira editora brasileira, em que pese estar sediada em Lisboa, e sobre isso certamente voltaremos a escrever, rara ou raro leitor que nos tem honrado com suas visitas e leituras.
sábado, 9 de junho de 2007
Noite de encantamento e arte com Israel Pedrosa
O Museu do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, teve uma belíssima reunião de artistas, intelectuais, professores, militares e estudantes em torno da figura de um de nossos artistas mais queridos e de mais relevo na arte contemporânea brasileira, Israel Pedrosa, na ocasião do lançamento de seu livro Na contramão dos preconceitos estéticos da era dos extremos, comemorativo de seu 80º aniversário.O dia 31 de maio de 2007 certamente ficará na memória do Museu como um dia especial, assim como o será para todos os que compuseram o enorme grupo de amigos e admiradores do artista que ali se reuniram para ouvir a palestra de Israel Pedrosa, as leituras de Luzia de Maria e Katia Bretas, e receber seus autógrafos, como o da foto, dedicado ao astrônomo e poeta Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Imprensa Régia ou Impressão Régia?

Ao aproximarem-se as comemorações dos 200 anos da instalação da primeira editora permanente no Brasil, vale trazer à discussão o seu nome. Muitas vezes vemos, até mesmo entre colegas pesquisadores, a referência a Imprensa Régia enquanto algumas vezes a indicação é Impressão Régia. Isso confunde o leitor. Qual terá sido o primeiro nome da Imprensa Nacional?
O decreto da sua criação (acima, clique na imagem para ampliar) está publicado, em fac-símile, no livro de Paulo Berger, A tipografia no Rio de Janeiro – Impressores bibliográficos, 1808-1900, editado pela Cia. Industrial de Papel Pirahy, em 1984, na p. VIII, e tem o seguinte texto:
Tendo-Me constado, que os Prélos, que se achão nesta Capital, erão os destinados para a Secretaria de Estado dos Negocios Estrangeiros, e da Guerra, e Attendendo á necessidade, que ha da Officina de Impressão nestes Meus Estados: Sou servido, que a Caza, onde elles se estabelecêrão, sirva interinamente de Impressão Regia [grifo meu], onde se imprimão exclusivamente toda a Legislação, e Papeis Diplomáticos, que emanarem de qualquer Repartição do Meu Real Serviço; e se possão imprimir todas, e quaesquer outras Obras; ficando interinamente pertencendo o seu governo, e administração á mesma Secretaria. Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Do Meu Conselho de Estado, Ministro, e Secretario de Estado dos Negócios Estrangeiros, e da Guerra o tenha assim entendido, e procurara dar ao emprego da Officina a maior extensão, e lhe dará todas as Instrucções, e Ordens necessarias, e participará a este respeito a todas as Estações o que mais convier ao Meu Real Serviço. Palacio do Rio de Janeiro em treze de Maio de mil oitocentos e oito.
Com a Rubrica do PRINCIPE REGENTE, N. S.
Regist.
Na Impressão Regia.
No mesmo dia foi publicada pela Impressão Régia a sua primeira edição, um número do que poderíamos chamar um tipo de “diário oficial”, cuja página de rosto está também reproduzida em fac-símile no mesmo livro (p. IX):
Relação dos Despachos Publicados na Corte pelo expediente da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, e da Guerra no Faustissimo dia dos Annos de S. A. R. o PRINCIPE REGENTE N. S. E de todos os mais, que se tem expedido pela mesma Secretaria desde a feliz chegada de S. A. R. aos Estados do Brazil até o dito dia.
Dignos de nota, de passagem, para posterior retomada: o mesmo ministro Rodrigo de Souza Coutinho responsável direto pela criação da Impressão Régia do Rio de Janeiro foi o patrono das atividades editoriais do Frei José Mariano da Conceição Veloso, grande naturalista brasileiro e também notável editor, em Lisboa, inclusive na criação da Oficina Literária do Arco do Cego (1799-1801), que entendemos ser, de fato, a primeira editora brasileira de grande relevo, em que pese ter sido criada em Lisboa. A voltar a essas questões. A primeira tipografia criada no Brasil, como sabemos, foi a tipografia instalada em 1747, pelo editor António Isidoro da Fonseca, que teve curtíssima existência.
Voltando à questão inicial: a editora foi criada como IMPRESSÃO RÉGIA.
A historiadora Lúcia Bastos Pereira das Neves, da UERJ, autora do verbete “Impressão Régia” do Dicionário do Brasil Imperial, organizado por Ronaldo Vainfas, publicado em 2002 pela Objetiva, do Rio de Janeiro, registra que em 1818 o nome da Impressão Régia mudou para Typographia Real, depois para Typographia Régia (em 1820) e Typographia Nacional (em 1821). Após a Independência seu nome passou a ser Typographia Nacional e Imperial (1826) e ainda Typographia Nacional, de 1830 até 1885. A partir desta data seu nome passou a ser o que mantém até hoje: Imprensa Nacional.
Assim, que razão poderá ter o uso tão comum do nome inexistente de Imprensa Régia? Arrisco dizer que pode ser um anacronismo: o nome atual adaptado ao período do Príncipe Regente e (a seguir) rei D. João VI. Será isso?
Algum dia, rara ou raro leitor, já se defrontou com esta questão referente ao nome da primeira editora permanente no Brasil, que ano que vem irá completar seu bi-centenário de existência? Pensa, como eu, que está na hora de identificá-la sempre pelo seu verdadeiro nome? Faça seu comentário.
domingo, 3 de junho de 2007
A liberdade, o livro e a leitura, Fernando Pessoa
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro pra ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha quer não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.
Em 16/3/1935. Publicado in Seara Nova, n.º 526, de 11-09-1937, incluído no livro Poesias, de Fernando Pessoa, "Cancioneiro" (a concluir a informação).
Este poema, rara ou raro leitor, já tantas vezes citado e inserido na "rede", me veio de novo à lembrança após a postagem do texto de A arte dos ociosos, de Hermann Hesse, abaixo. Pareceu-me haver um parentesco nesses textos de dois dos maiores escritores do século XX. Ambos cultivadores do amor à natureza, ao silêncio, à simplicidade. Do real à representação e desta à vida e à representação, num constante ir e vir, abrindo horizontes, aguçando sensibilidades e criando uma obra imortal.
sábado, 2 de junho de 2007
A leitura em A Arte dos Ociosos, Hermann Hesse
1. Certo dia fui apanhar, movido por um vago pressentimento, na biblioteca, as edições completas, em alemão, de As mil e uma noites e das Viagens de Sajed Batthal [épico persa medieval] e me enfronhei na leitura dessas obras, descobrindo, depois de um breve satisfação inicial e de um dia de leitura, que ambas eram enfadonhas.
2. Pensando sobre as causas dessa frustração, percebi, finalmente, que esses livros só podem ser lidos com prazer quando estamos deitados ou, pelo menos, sentados no chão. No Ocidente, a cadeira de espaldar vertical tira-lhes todo o efeito. Ao mesmo tempo pude, pela primeira vez, entender a perspectiva completamente modificada do espaço e dos objetos que se observa a partir da posição deitada ou acocorada.
3. Em breve descobri que o efeito do ambiente oriental era duas vezes mais poderoso quando, deixando a leitura, me tornava ouvinte (embora o narrador, neste caso, tivesse de se deitar ou acocorar).
4. A leitura, por mim daí por diante racionalmente praticada, deu-me um sentimento de resignação, de ouvinte, e em breve a condição de poder ficar, também sem a leitura, durante horas imóvel e dedicar minha atenção a objetos aparentemente sem importância (aerodinâmica do vôo dos mosquitos, rítmica das partículas de pó sob o efeito da luz solar, metódica das ondas luminosas etc.).
Com isso desenvolveu-se em mim uma crescente admiração pela pluralidade dos acontecimentos e um total, tranqüilizante olvido de meu ser, ponto de partida para que eu conseguisse habituar-me a um benéfico far niente, que nunca me entediou.
Trata-se, contudo, apenas de um começo. Outros irão escolher outros caminhos para, durante algumas horas, do estado consciente mergulhar no auto-esquecimento, tão necessário para um artista e tão difícil de ser alcançado.
Se minha experiência puder seduzir um eventual mestre do lazer, no Ocidente, a me explicar o seu sistema, ter-se-ia cumprido o meu mais acalentado desejo.
In A arte dos ociosos, tradução de Paul Schenetzer e Mathilde Latja, Rio de Janeiro, Record, s/d, p. 12-3. ISBN 85-1-008409-2
Este breve trecho do livro que Herman Hesse [2/7/1877-9/8/1962] apresentou [em 1932] como uma reunião de “artigos ocasionais – alegres, imaginosos e, às vezes, ligeiramente humorísticos – escritos intencionalmente na linguagem coloquial folhetinesca”, remete-nos à importância do estudo das práticas sociais de leitura e, mais ainda, à permanência das características das criações da cultura oral mesmo após serem transcritas para texto e difundidas em culturas letradas. E, por fim, mas não menos importante, para algo que temos, muitos de nós, rara ou raro leitor, esquecido, voluntária ou involuntariamente: a importância do cultivo do ócio para a criação artística e para o bem-viver. O que pensa você sobre isso?
Mais informações sobre o admirável escritor Prêmio Nobel de Literatura de 1946: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermann_Hesse
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Recepção Literária - I Concurso Literário FINEP
Rodrigo Moraes Lima de Araújo Costa
O escritor famoso a descobriu, perdida; mas, distraído, a perdeu.
Enamorado de quantas outras palavras, encantado com astros, pessoas,
histórias, quimeras, sensações, relações, reflexões... ou silêncio,
ela escapa, sem que ele erija um altar em seu nome. (Desleixo?)
Mas não eu!
Armo-me de todos os sentidos, isolado de distrações e sentimentos.
Não vivo, nem sinto; só a busco:
apenas a palavra perfeita me basta!
Ei-la, onde ainda não a posso ver; mas a pressinto.
Ouço-a em meu peito: esguia, pulsante, vibrante, indecifrável... e cálida.
Sem sons ou fonemas ela existe, ela fala, ela cria, ela é.
No silêncio, com tudo rima, em tudo serve, a tudo atende.
Do que se veste? O que traduz? Como se diz?
Ela vive... sopra... transforma... desperta.
Seu ventre expia.. parametriza... dogmatiza... revela.
Eu a cerco... envolvo... seduzo... reduzo... adorno... conquisto.
E, suserano das letras, eu a submeto, aprisiono, paraliso, domino...
Mas a palavra que consome, corrói, expurga, plenifica, purifica, significa
simplesmente se despe e
nua se esvai,
travestida de qualquer palavra,
retornando ao mar
infinito
onde o verdadeiro poeta banha os pés.
E eu, aturdido,
(me) calo para ouvir a vida.
Acaba de vir à luz o livro Recepção Literária, editado pela Finep, com os textos premiados no I Concurso Literário Finep, nascido de um projeto de difusão da leitura de textos em domínio público, prosa e poesia, em forma de um volante distribuído nas recepções da empresa pública, promovido pela Biblioteca FINEP. O concurso interno abriu espaço para que os funcionários da empresa, dedicada ao desenvolvimento científico e tecnológico do país, pudessem expressar-se também em suas experiências com a arte da literatura. O volume ora editado evidencia que profissionais de áreas consideradas “duras” são também sensíveis na expressão artística da palavra, em prosa e verso. A este neoblogueiro coube a honraria de participar da comissão julgadora, ao lado do poeta Reinaldo Valinho Alvarez e de Tatiana Batista Alves, doutoranda em Literatura na UFF. E ainda de escrever o texto “Construindo pontes, ligando culturas”(*) para a apresentação do livro que será em breve lançado em tarde de autógrafos na sede da empresa, no Rio de Janeiro. A todos os premiados, além do Rodrigo, acima [1º lugar, em Poesia], Marcos Antonio da Cruz Barros (premiado em poesia e prosa), Evaldo Ferreira Cabral, André Chamun Calazans e Hermes Guimarães Honorato (poesia), Arthur Patitucci Filho, Rodrigo Moraes Lima de Araújo Costa (também com dupla premiação), Márcio Augusto Vicente de Carvalho e Luiz Eurípedes Ottoni de Menezes (prosa), e aos responsáveis pelo projeto e pela edição do livro, os merecidos aplausos, com os votos de que as sementes lançadas caiam em solo fértil e voltem a florescer.
(*) Para ler o texto acesse os arquivos do Grupo Cultura Letrada
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
ou diretamente aqui:
http://cultura-letrada.googlegroups.com/web/AB%20Apresenta%C3%A7%C3%A3o%20livro%20RECEP%C3%87%C3%83O%20LITER%C3%81RIA.pdf?gda=HqZBd3YAAACB61dDGjlvGiMjtw72o6fOmIeOIKBTET88AtDHcmkTI2G1qiJ7UbTIup-M2XPURDQ52RuWIVfN0Sxf2oGrkD5DjmPoGZNPrR3eJAGMKVPWhjmANpBJaYSx28ePdBl4L2yhqSHdTzzQ4o5QIEypP1y16oL5607V6aiT0M1fRAknYQ
quarta-feira, 30 de maio de 2007
As gentes do livro, Lisboa, século XVIII
Dando continuidade a um belo projeto editorial da Biblioteca Nacional, de Portugal, acaba de ser lançada a obra As Gentes do Livro - Lisboa, Século XVIII, organizada por Diogo Ramada Curto (que faz o prefácio), Manuela D. Domingos, Dulce Figueiredo e Paula Gonçalves, com capa de Henrique Cayatte Design, em volume de 719 p.O livro é mais um resultado do projeto de pesquisa "Guia de fontes bibliográficas e arquivístas para a história do livro em Portugal", realizado em parceria da Biblioteca Nacional com a Universidade Nova de Lisboa, que recentemente também deu à luz o volume Bibliografia da história do livro em Portugal: séculos XV a XIX, e, antes, a Livreiros de Setecentos, este uma coletânea de trabalhos realizados ou coordenados pela admirável investigadora Manuela D. Domingos, em seu sério e dedicado labor, em longos anos, na própria BN, ao levantamento e organização de fontes e ao seu estudo em prol do desenvolvimento da área em Portugal.
As Gentes do Livro, que é fundamentalmente um guia, divide-se em quatro partes: Personagens & ofícios, Os portugueses nas fontes, Os estrangeiros na fontes, e Coletânea Documental, composta de Registos Notariais de Lisboa, Registo Geral de Testamento e Intendência Geral da Polícia. Esta parte, sem dúvida, já em si torna-se uma fonte indispensável a qualquer pesquisador que de agora em diante realize trabalhos na área, quer em Portugal, quer no Brasil. Isto porque as "gentes do livro" do século XVIII, em Portugal, já incluem agentes que atuam ou pretendem atuar, indireta ou diretamente na América Portuguesa, como o editor-impressor António Isidoro da Fonseca que em 1747 instalou a primeira tipografia no Brasil e que desgraçadamente, pelas circunstâncias políticas e econômicas da época, teve seu projeto abortado pelo poder metropolitano.
Mais informações: http://www.bn.pt/livraria/estudos/gentes-livro.html
terça-feira, 29 de maio de 2007
A tardia tipografia brasileira, aos olhos do cronista da época

O Brasil até ao feliz dia 13 de maio de 1808 não conhecia o que era tipografia; foi necessário que a brilhante face do Príncipe Regente Nosso Senhor, bem como o refulgente sol, viesse vivificar este país, não só quanto à sua agricultura, comércio e indústria, mas também quanto às artes, e ciências, dissipando as trevas da ignorância, cujas negras, e medonhas nuvens cobriam todo o Brasil, e interceptavam as luzes da sabedoria. Assim, por decreto datado deste mesmo dia dos seus felizes anos, Sua Alteza Real foi servido mandar que se estabelecesse nesta Corte a Impressão Régia, para nela se imprimirem exclusivamente toda a legislação, e papéis diplomáticos, que emanarem de qualquer repartição do real serviço, e também todas, e quaisquer obras, concedendo a faculdade aos seus administradores para admitirem aprendizes de compositor, impressor, batedor, abridor, e demais ofícios que lhe sejam pertencentes. Este máximo benefício, que Sua Alteza Real outorgou ao Rio de Janeiro, é bem de esperar que se comunique à Bahia, e também às capitais das principais províncias do Brasil, visto o sistema liberal que o mesmo augusto senhor tem adotado a favor dos seus vassalos desta parte dos seus domínios, e que se imprimam na América Portuguesa obras muito interessantes, que, ou já compostas, jazem na poeira do esquecimento, e do desprezo, ou que para o futuro se hajam de compor, facilitados os meios de se darem à luz pelo prelo.
Luiz Gonçalves dos Santos (Padre Perereca). Memórias para servir à História do Reino do Brasil, S. Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1981 [1825], tomo I, p. 207. Capa de Cláudio Martins.
Foi assim que a implantação definitiva da tipografia no Brasil foi vista pelo cronista joanino, o presbítero da Irmandade de São Pedro conhecido como Padre Perereca (1767-1844) que legou à posteridade suas alentadas memórias, cujos originais, de próprio punho, se encontram no acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB). Em que pese o tom de louvor ao Príncipe Regente, suas memórias são consideradas pelos editores como “o mais exato e minudente informe do Brasil de 1808 a 1821”.
Raro leitor e rara leitora, penso que nos cabe refletir sobre o tom iluminista do narrador numa época em que o Império Português se debatia entre um incipiente liberalismo (a serviço da Inglaterra) e a sobrevivência dos traços característicos do Antigo Regime. Na realidade, na vida e na história, nada é simples, nem facilmente classificável. A discutir, com certeza, no(s) evento(s) que marcarão os 200 anos da chegada ao Brasil da Família Real, que nos permitiu, finalmente, ter aqui de forma definitiva a chamada escrita mecânica ou arte negra.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Geir Campos, poeta, contista, tradutor e editor


Leio livros
sobre a cidade
antiga
e penso
nas cidades do meu tempo:
todas iguais
ou muito parecidas
com seus mercados
e suas lojas
vendendo as mesmas
mercadorias...
será isso
o que se denomina
“liberalismo”
ou será, antes,
o “socialismo”?
Igualdade!
Liberdade!
Fraternidade?
Pois sim!
Haikai
Olha os olhos do afogado!
Deve haver coisas terríveis
no fundo do mar.
Alba
Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste – o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.
Geir Campos não foi apenas um artesão da palavra e um operário do canto. Além de autor de uma obra literária que certamente permanecerá, esteve presente em todas as frentes de ação pelo fortalecimento do livro como um veículo privilegiado para tocar a sensibilidade do ser humano e para alcançar a transformação da sociedade brasileira.
Os poemas de Geir Campos e o trecho acima (do depoimento “Geir Campos e o mundo do livro”), deste blogueiro, são partes do livro A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil, organizado por Maria Lizete dos Santos e Aníbal Bragança, editado 2002, graças ao programa de Adroaldo Peixoto Garani, enquanto presidente da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, de publicar obras de interesse para a cultura fluminense.
Os livreiros, tradutores, editores e autores certamente terão grande proveito com a leitura deste pequeno volume, assim como todos os que apreciam boa literatura nacional. Procure-o, rara ou raro leitor, no seu livreiro ou na biblioteca mais próxima e deleite-se.
terça-feira, 22 de maio de 2007
Lançamento da Tupigrafia 7 no Rio de Janeiro
A revista brasileira de tipografia, cuja publicação se iniciou no ano 2000, já foi lançada em São Paulo no fim do mês de março deste ano. Na sétima edição há artigos de Lia Monica Rossi (form. Esdi 1972) e José Marconi de Souza, e de Rico Lins (form. Esdi 1976). Algumas imagens da Tupigrafia 7 podem ser vistas no site:
www.flickr.com/photos/tupigrafia/sets/72157600003028316.
Além do lançamento, serão realizadas uma exposição sobre a Tupigrafia na Galeria da UniverCidade, e a aula "O conceito de qualidade de uma fonte digital (idéia, desenho e produção)", ministrada por Cláudio Rocha.
A mostra ficará aberta entre os dias 18 e 30 de maio, das 9h00 às 22h00. A aula ocorrerá no dia 26 de maio, das 12h00 às 14h00. Os interessados na aula devem se inscrever pessoalmente no IAV (Instituto de Artes Visuais), na unidade Ipanema. A taxa de inscrição é R$ 25,00. O campus Ipanema fica na Av. Epitácio Pessoa, 1664 (Ipanema).
Mais informações no site: www.tupigrafia.com.br.
Agradecemos a Lia Mônica Rossi a notícia/o convite que repassamos a você, rara ou raro leitor.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
XXX Congresso Intercom - Participação com trabalhos
Aos interessados lembramos que devem consultar o sítio virtual da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - Intercom - para obter as demais informações necessárias www.intercom.org.br .
Outros espaços virtuais de interesse:
INTERCOM Núcleo Produção Editorial
http://groups.google.com/group/intercom-nucleo-producao-editorial
Cultura Letrada
http://groups.google.com/group/cultura-letrada
domingo, 20 de maio de 2007
O cobrador, de Rubem Fonseca e Rubens Gerchman

A edição é de 351 exemplares numerados, assinados pelo autor e pelo ilustrador, em formato 30,0 cm x 29,5 cm, com 105 p., impressos em máquina tipográfica manual e encadernados em papel artesanal. Cada volume é protegido por uma caixa em cartão com o selo da Confraria.
Os contos que compõem o volume, selecionados pelo próprio autor, são: A Força Humana, Encontro no Amazonas, Feliz Ano Novo e Balão Fantasma, além de O cobrador. O livro mantém ou até mesmo supera o excelente nível de qualidade gráfico-editorial que tem caracterizado os trabalhos da Confraria presidida por José Salles Neto.
Além disso, é de se destacar nesta edição os nomes dos dois artistas reunidos pela relevância que têm, respectivamente, na literatura e nas artes plásticas brasileiras.
Mais informações: conbiblibr@yahoo.com.br Tel. 55-61-3435-2598
sábado, 19 de maio de 2007
Real Gabinete Português de Leitura, de José Carlos de Vasconcelos
sento-me e sinto a língua portuguesa.
Em tudo está presente: ar, chão, mesa,
estantes severas, sabores antigos
a mar e a sol, incrivelmente vivos.
Incrivelmente novos. Portuguesa
língua de Vieira, Eça, Camilo,
de Machado, Pessoa, Drummond, Rosa,
Amado. Fruto da mãe natureza
Que em todo seu esplendor se reveza
Em livros e madeira preciosa.
Oh! Silente, secreta, catedral,
feita de palavras incandescentes
de tantos povos e de tantas gentes:
palavras do Brasil e Portugal,
Camões de mãos dados com Tiradentes.
E ao meio-dia, quando a voz dos sinos
da igreja de São Francisco se alia
à vozearia da multidão
naquelas ruas, ruelas e praças,
e entra casa dentro, uma e outra vez,
doze vezes direta ao coração
- também os sinos falam português.
A língua portuguesa, o maior laço que une as culturas portuguesa e brasileira, é homenageada neste poema do jornalista e escritor lusitano, José Carlos de Vasconcelos, diretor do tradicional e bom Jornal de Letras, Artes e Idéias, publicado em Lisboa. O poema expressa de forma muito sensível o ambiente que cerca o leitor no salão central do Real Gabinete, no Rio de Janeiro, uma experiência que nos devemos oferecer sempre, privilégio da cultura letrada na Cidade Maravilhosa.
Fonte: Marcador de livros distribuído pela diretoria do Real Gabinete na solenidade comemorativa do seu 170º aniversário.
Para saber mais, visite:
José Carlos de Vasconcelos:
http://www.jornalistas.online.pt/noticia.asp?id=417&idCanal=406
Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro:
http://www.realgabinete.com.br/
Jornal de Letras, Artes e Ideias – Portugal:
http://visao.clix.pt/default.asp?CpContentId=333360
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Granada la bella, de Angel Ganivet


Sabedlo, pues, pedagogos de tres al cuarto, propagandistas de la instrucción gratuita obligatoria: Jeremias de la estadística, que os sofocáis cuando veis en ella que el cincuenta por ciento de los españoles no saben leer ni escribir y pretendéis infundirles conocimientos artifíciales por medio de caprichosos sistemas: el único papel decoroso que España ha representado en la política de Europa en lo que va de siglo no lo habéis representado vosotros o vuestros precursores, sino que lo ha representado ese pueblo ignorante que un artista tan ignorante y genial como él, Goya, ha simbolizado en el cuadro El Dos de Mayo, en aquel hombre o fiera que, con los brazos abiertos, el pecho salido, desafiando con los ojos, ruge delante de las balas que le asesinan.
(p. 60s)
Registramos, ainda que quase toda a obra publicada de Angel Ganivet foi lançada entre 1896 e 1898, ano em que o autor se suicidou, aos 33 anos de idade. Segundo se afirma em nota editorial , por loucura, e talvez, por amor.
A edição de Granada la bella que utilizamos, tem o formato de 8cmx6cm, em papel-bíblia, com 25 ilustrações e 303 p., e foi publicada pela Aguilar, de Madrid, na coleção Crisol, v. 18, para ser distribuída como “felicitación de Navidad y Año Nuevo a todos nuestros amigos”, em 1962.
Outras informações sobre Angel Ganivet e sua obra:
terça-feira, 15 de maio de 2007
Um centenário: Agostinho da Silva (Porto, 13/2/1906-Lisboa, 3/4/1994)


Ao ensejo do centenário de nascimento o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro publicou, tendo como editor o seu próprio presidente, Antônio Gomes da Costa, um número especial da revista Convergência Lusíada, v. 23, 447 p., com ensaios sobre a obra de Agostinho da Silva, de autores portugueses e brasileiros, além de textos do próprio pensador.
Este lançamento, feito na ocasião das comemorações dos 170 anos da fundação do Real Gabinete, soma-se à edição feita em 2006 por Victor Alegria, da Thesaurus, de Brasília, de volume do próprio Agostinho da Silva, Reflexões, aforismos, paradoxos, em cuja apresentação Constança Marcondes Cesar, professora titular da PUC de Campinas, afirma ser “um conjunto de aforismos, nos quais, aparentemente sem plano pré-fixado, o autor mostra um resumo de seu pensamento”.
Mais informações:
http://www.realgabinete.com.br/
http://www.thesaurus.com.br/produto.asp?produto=1016
http://www.agostinhodasilva.pt/
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Linha Mestra – Revista digital – Já disponível o número 2
Índice:
CAPA: "Menino Lendo" - Samuel John Peploe (1871-1935), Escócia
EDITORIAL - A importância de Chartier, Conselho Editorial
RETINAS - As retinas (im)pertinentes de Bakunin
ENTREVISTA - Estação da Leitura, Maria Afonsina Ferreira Matos
DEPOIMENTO - O CELIJ de Presidente Purdente, Renata Junqueira de Souza
IMAGEM - Leitura na retina de Michelangelo
POEMA - Prova de Francês, Maria do Rosário Mortatti
CONTO - Receita, Ana Elisa Ribeiro
ARTIGO 1 - Reflexões sobre a inserção na cultura digital, Daniela Perri Bandeira de Albuquerque
ARTIGO 2 - Notas de estudo: a história cultural e as possibilidades de pesquisa leitura, Carlos Humberto Alves Corrêa
LANÇAMENTO - Não-violência em educação, Jean Marie Muller
Mais uma excelente contribuição da ALB www.alb.com.br .
Vale a pena conferir: http://www.alb.com.br/pag_revista.asp
sábado, 12 de maio de 2007
Novo livro de Israel Pedrosa: greve na Cultura altera o lançamento


Foram mantidas a palestra do autor e a leitura de textos do livro por Kátia Bretas e Luzia de Maria.
A obra reúne trabalhos diversos que vão do campo das artes plásticas até Monteiro Lobato e Geir Campos, mostrando as intervenções do autor nas questões estéticas de nosso tempo, além de breves estudos sobre artistas contemporâneos, alguns, seus companheiros de viagem na cultura brasileira.
Esta será uma rara oportunidade de ver e ouvir Israel Pedrosa que, com seus 81 anos, se vem mantendo quase recluso em seu belo atelier em Icaraí, onde desenvolve intenso e monumental trabalho de pintura e escritura para seu livro Dez aulas magistrais, no qual estuda profundamente a vida e a obra de dez grandes nomes da arte ocidental, desde Leonardo Da Vinci, de forma original e surpreendente.
Mais informações: leochristiano@openlink.com.br e (21) 2234-8594 / 2568-1979
sexta-feira, 11 de maio de 2007
170º aniversário do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro
Mais informações: www.realgabinete.com.br
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Sobre Tito Pompônio Ático, editor de Cícero (106 a.C-43 a.C)
Aquel hábil agricultor era al mismo tiempo un negociante sagaz que se ocupaba con suerte en todo género de comercios. Era muy diestro en sacar beneficios no sólo de las locuras ajenas, lo que es bastante común, sino de sus placeres; y su talento consistía en enriquecerse con lo que otros se arruinan. Se sabe, por ejemplo, que le gustaban mucho los libros buenos: ésta era entonces, como hoy, una manía costosa; él supo hacer de ella un manantial de excelentes beneficios. Había reunido en su casa un gran número de copistas hábiles a quienes instruía él mismo; después de hacer que trabajaran para él, y cuando sus deseos estaban satisfechos, los obligaba a trabajar para los demás, y vendía muy caro al público aquellas copias. De esta manera fue un verdadero editor para Cicerón, y como las obras de su amigo se vendían mucho, sucedió que aquella amistad, tan llena de encantos para su corazón, no fue inútil para su fortuna. En rigor, este comercio podía hacerse público. No estaba prohibido a un amante de las letras hacerse librero; (...)
O excerto acima é da obra de Gaston Boissier (1823-1908), Ciceron y sus amigos, editada em versão castelhana de Antonio Salazar, pela El Ateneo, em 1944, em que se refere aos trabalhos de editor empreendidos por Ático em sua estadia grega.
A atividade editorial antes da invenção da tipografia é uma questão controvertida. Para alguns (dentre eles se inclui este escriba) somente se pode chamar de editor, verdadeiramente, àqueles que, além de dar à luz os livros feitos a partir dos originais dos autores, também os publicam, isto é, os colocam ao alcance de um público anônimo, o que só foi possível a partir do Renascimento. Entretanto, a experiência de Ático, inclusive porque fazia cópias para vender e ganhar dinheiro, poderá ser incluída nessa categoria, mesmo em se tratando de cópias manuscritas de autores latinos para os poucos leitores e bibliófilos da Ática de então.
O que acha, rara ou raro leitor?
Sobre as invenções humanas, de Francis Bacon (1561-1626)
Digne-se o homem considerar a diferença infinita que se observa na maneira de viver entre os habitantes das partes mais civilizadas da Europa e os da região mais selvagem, mais bárbara do Novo Mundo; considerando bem esta diferença, sentiremos mais do que nunca que, se podemos dizer com certeza que tal homem é como um Deus com relação a outro, não é apenas por causa da ajuda que ele proporciona alguma vez aos seus semelhantes e dos benefícios que derrama sobre eles, senão também por causa das situações.
Porém, qual é a verdadeira causa que estabelece tão prodigiosa diferença? Não é certamente o clima, nem o solo, nem a constituição física, senão as artes, somente as artes, os conhecimentos.
Também é benéfico pousar o pensamento um instante sobre a sua força, sobre a surpreendente influência e conseqüências infinitas de certas invenções; o exemplo mais palpável e maravilhoso dessa influência, reside em três coisas desconhecidas para os antigos, que viram a luz humilde e silenciosamente: a imprensa, a pólvora e a bússola.
Estes três inventos modificaram a face do globo terrestre produzindo três grandes revoluções: a primeira nas letras, a segunda na arte militar e a terceira na navegação, revoluções que deram origem a infinidade de variações de toda espécie e cujo efeito foi tal que não há império, seita nem astro que pareça ter tido ascendente, que haja exercido influência tão grande sobre as coisas humanas.
(...)
Excerto de Novum organum - Interpretação da natureza e predomínio do homem [1620], de Francis Bacon, trad. de L. A. Fischer, Brasília Editora, s/d., p. 136-7, Biblioteca de Cultura Clássica, . Foi feita atualização ortográfica.
A obra integral está disponível na rede: http://ich.ufpel.edu.br/economia/professores/nelson/metodecon/novum_organum.pdf
Informações sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon_(fil%C3%B3sofo)
*
O registro do século XVII sobre as invenções que tiveram maiores repercussões sobre a história da humanidade até então, feito por um do mais importantes filósofos modernos, coloca a tipografia como a responsável pela grande revolução no campo das letras. Muito viria ainda a acontecer para confirmar o acerto da percepção de Francis Bacon.
Nós, que vivemos numa situação cultural em contraste com a da invenção de Gutenberg (a ver em Walter Benjamin), não devemos menosprezar sua importância.
O que acha você, rara ou raro leitor?
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Serviço: Direitos autorais e o futuro do livro
O futuro dos livros com o impacto da internet
Novidades da web suscitam ampla discussão sobre propriedade intelectual
John Lanchester, do The Guardian
http://www.estadao.com.br/arteelazer/letras/noticias/2007/mai/06/89.htm
domingo, 6 de maio de 2007
Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura 2006, sobre sua prática da escritura
Pamuk: Certamente vejo-me mais como artesão do que como artista. É claro, a criatividade e inspiração têm um papel. A verdadeira literatura é mais do que apenas uma história que alguém contou. Deve dar ao leitor a essência do mundo em um nível moral, filosófico e emocional. Eu tentei desenvolver essa verdade interior em todos os meus trabalhos. Mas sem a paciência e a habilidade de um artesão, até mesmo o maior talento é desperdiçado.
Spiegel: Quando o senhor é mais criativo?
Pamuk: Sou uma pessoa altamente disciplinada. Me levanto às 7h todo dia e, ainda de pijamas, sento-me à escrivaninha onde meus fichários e minha caneta tinteiro estão prontos para serem usados. Tento escrever duas páginas por dia. Alguns dias, estou tão ansioso para ler o trabalho do dia anterior, trabalhar nele e dar prosseguimento que prefiro beber um café frio a fazer um novo. Sentar ali, ler e reescrever são minhas atividades favoritas.
In Dieter Bednarz e Annette Grossbongard. “Entrevista com Orhan Pamuk – ‘Ninguém me leva ao exílio", em 03/05/2007, na revista alemã Der Spiegel.
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2007/05/03/ult2682u445.jhtm (acessível a assinantes da Folha de S. Paulo e/ou do UOL).
Ferit Orhan Pamuk nasceu em Istambul (Turquia), a 7 de junho de 1952, no seio de uma família rica, estudou engenharia, arquitetura e jornalismo, fora do país. A partir de 1974, passou a dedicar-se à literatura. É considerado o maior romancista turco da atualidade, com obras traduzidas em mais de trinta idiomas. Livros editados no Brasil, pela Cia. das Letras: Meu nome é vermelho, Neve, Istambul - memória e cidade.
Surpreende-nos, rara ou raro leitor, que um escritor atual mantenha sua prática de escritura com caneta tinteiro! E faz-nos pensar no que é ser escritor o seu artesanato que tem como meta escrever duas páginas ao dia. Como isso pode nos ensinar sobre o escrever bem e a paciência, disciplina e perseverança que tal prática exige. Um exemplo a considerar.