Os livros não existem para tornar mais dependentes ainda pessoas já de si tão dependentes. Muito menos existem eles para dar a homens de si inaptos para viver uma mera ilusão ou sucedâneo de vida. Ao contrário. Os livros só têm valor quando nos estimulam a viver, quando servem à vida e lhe são úteis. Desperdiçada toda hora de leitura da qual não resulte para o leitor uma centelha de energia, uma impressão de rejuvenescimento, um sopro do novidade e de viço.
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Ler sem pensar, ler distraidamente, é como passear por entre belas paisagens com os olhos vendados. Tampouco devemos ler para esquecer-nos a nós e à nossa vida cotidiana, mas, ao contrário, para reassumirmos em nossas mãos firmes e da maneira mais consciente e madura a nossa própria existência. (...)
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Sempre nos conforta a alma o livro antigo que a nós se dirige com sua voz vinda de tão longe. Podemos ouvi-la ou não. E se, de repente, certas palavras ou expressões mais percucientes nos atingem de cheio com o seu brilho, não as recebemos como de um livro de hoje, escrito por este ou aquele autor. Ao contrário, acolhemo-las como de primeira mão, como um grito de gaivota ou um raio de sol.
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Podemos tranqüilamente deixar de ler muitos manuais, compêndios e históras da filosofia. Qualquer obra de um pensador original nos fornece coisa melhor, pois nos faz pensar em nós mesmos e nos educa e revigora a consciência.
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Quanto mais, ao longo do tempo, a necessidade que sente o povo de se divertir e de se instruir é satisfeita graças às novas invenções da técnica, tanto mais valor e autoridade ganham os livros. Não obstante todo o progresso atual, felizmente essas novas descobertas como, por exemplo, o rádio, o cinema etc., ainda não conseguiram retirar ao livro impresso as funções lhe são próprias.
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Ocorre com a leitura o mesmo que com qualquer outra espécie de prazer: este será sempre mais profundo e duradouro, quanto mais intimamente e com amor a ele nos entregamos.
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Segundo minha própria experiência, não há propósito melhor para as férias do que o de não ler uma só linha. E, depois, se a oportunidade for favorável, nada mais delicioso do que ser infiel àquele propósito e ler um livro realmente bom.
Hermann Hesse, “Leituras e livros”, in Para ler e pensar. 8a. ed. Rio de Janeiro: Record, s/d.
Passou-nos despercebido o dia de aniversário de nascimento de Hermann Hesse (2/7/1877-9/8/1962). Só hoje o registramos aqui, com esta seleção de seus pensamentos sobre livros e leituras, extraídos de Para ler e pensar, um volume que reúne aforismos extraídos de seus livros e cartas.
Hesse, alemão, é um dos mais admiráveis escritores da literatura ocidental, Prêmio Nobel em 1946, autor de clássicos modernos como os romances O lobo da estepe, Sidarta, Demian, O jogo das contas vidro, Narciso e Goldmund, dentre outros sucessos.
Que tal, rara leitora, um retorno a seus livros, hoje menos em voga do que nos anos de minha juventude (já se passou muito tempo...), mas sempre capaz de nos encantar e de nos fazer pensar, como ocorre com estas suas reflexões sobre livros e leituras?
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sábado, 5 de julho de 2008
sábado, 2 de junho de 2007
A leitura em A Arte dos Ociosos, Hermann Hesse
... Para que os possíveis artistas entre os leitores, em vez de se dedicarem metodicamente à prática do ócio, não se afastem decepcionados de mim, como de um charlatão, farei, a seguir, um resumo de minha primeira fase de aprendizado no templo dessa arte.
1. Certo dia fui apanhar, movido por um vago pressentimento, na biblioteca, as edições completas, em alemão, de As mil e uma noites e das Viagens de Sajed Batthal [épico persa medieval] e me enfronhei na leitura dessas obras, descobrindo, depois de um breve satisfação inicial e de um dia de leitura, que ambas eram enfadonhas.
2. Pensando sobre as causas dessa frustração, percebi, finalmente, que esses livros só podem ser lidos com prazer quando estamos deitados ou, pelo menos, sentados no chão. No Ocidente, a cadeira de espaldar vertical tira-lhes todo o efeito. Ao mesmo tempo pude, pela primeira vez, entender a perspectiva completamente modificada do espaço e dos objetos que se observa a partir da posição deitada ou acocorada.
3. Em breve descobri que o efeito do ambiente oriental era duas vezes mais poderoso quando, deixando a leitura, me tornava ouvinte (embora o narrador, neste caso, tivesse de se deitar ou acocorar).
4. A leitura, por mim daí por diante racionalmente praticada, deu-me um sentimento de resignação, de ouvinte, e em breve a condição de poder ficar, também sem a leitura, durante horas imóvel e dedicar minha atenção a objetos aparentemente sem importância (aerodinâmica do vôo dos mosquitos, rítmica das partículas de pó sob o efeito da luz solar, metódica das ondas luminosas etc.).
Com isso desenvolveu-se em mim uma crescente admiração pela pluralidade dos acontecimentos e um total, tranqüilizante olvido de meu ser, ponto de partida para que eu conseguisse habituar-me a um benéfico far niente, que nunca me entediou.
Trata-se, contudo, apenas de um começo. Outros irão escolher outros caminhos para, durante algumas horas, do estado consciente mergulhar no auto-esquecimento, tão necessário para um artista e tão difícil de ser alcançado.
Se minha experiência puder seduzir um eventual mestre do lazer, no Ocidente, a me explicar o seu sistema, ter-se-ia cumprido o meu mais acalentado desejo.
In A arte dos ociosos, tradução de Paul Schenetzer e Mathilde Latja, Rio de Janeiro, Record, s/d, p. 12-3. ISBN 85-1-008409-2
Este breve trecho do livro que Herman Hesse [2/7/1877-9/8/1962] apresentou [em 1932] como uma reunião de “artigos ocasionais – alegres, imaginosos e, às vezes, ligeiramente humorísticos – escritos intencionalmente na linguagem coloquial folhetinesca”, remete-nos à importância do estudo das práticas sociais de leitura e, mais ainda, à permanência das características das criações da cultura oral mesmo após serem transcritas para texto e difundidas em culturas letradas. E, por fim, mas não menos importante, para algo que temos, muitos de nós, rara ou raro leitor, esquecido, voluntária ou involuntariamente: a importância do cultivo do ócio para a criação artística e para o bem-viver. O que pensa você sobre isso?
Mais informações sobre o admirável escritor Prêmio Nobel de Literatura de 1946: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermann_Hesse
1. Certo dia fui apanhar, movido por um vago pressentimento, na biblioteca, as edições completas, em alemão, de As mil e uma noites e das Viagens de Sajed Batthal [épico persa medieval] e me enfronhei na leitura dessas obras, descobrindo, depois de um breve satisfação inicial e de um dia de leitura, que ambas eram enfadonhas.
2. Pensando sobre as causas dessa frustração, percebi, finalmente, que esses livros só podem ser lidos com prazer quando estamos deitados ou, pelo menos, sentados no chão. No Ocidente, a cadeira de espaldar vertical tira-lhes todo o efeito. Ao mesmo tempo pude, pela primeira vez, entender a perspectiva completamente modificada do espaço e dos objetos que se observa a partir da posição deitada ou acocorada.
3. Em breve descobri que o efeito do ambiente oriental era duas vezes mais poderoso quando, deixando a leitura, me tornava ouvinte (embora o narrador, neste caso, tivesse de se deitar ou acocorar).
4. A leitura, por mim daí por diante racionalmente praticada, deu-me um sentimento de resignação, de ouvinte, e em breve a condição de poder ficar, também sem a leitura, durante horas imóvel e dedicar minha atenção a objetos aparentemente sem importância (aerodinâmica do vôo dos mosquitos, rítmica das partículas de pó sob o efeito da luz solar, metódica das ondas luminosas etc.).
Com isso desenvolveu-se em mim uma crescente admiração pela pluralidade dos acontecimentos e um total, tranqüilizante olvido de meu ser, ponto de partida para que eu conseguisse habituar-me a um benéfico far niente, que nunca me entediou.
Trata-se, contudo, apenas de um começo. Outros irão escolher outros caminhos para, durante algumas horas, do estado consciente mergulhar no auto-esquecimento, tão necessário para um artista e tão difícil de ser alcançado.
Se minha experiência puder seduzir um eventual mestre do lazer, no Ocidente, a me explicar o seu sistema, ter-se-ia cumprido o meu mais acalentado desejo.
In A arte dos ociosos, tradução de Paul Schenetzer e Mathilde Latja, Rio de Janeiro, Record, s/d, p. 12-3. ISBN 85-1-008409-2
Este breve trecho do livro que Herman Hesse [2/7/1877-9/8/1962] apresentou [em 1932] como uma reunião de “artigos ocasionais – alegres, imaginosos e, às vezes, ligeiramente humorísticos – escritos intencionalmente na linguagem coloquial folhetinesca”, remete-nos à importância do estudo das práticas sociais de leitura e, mais ainda, à permanência das características das criações da cultura oral mesmo após serem transcritas para texto e difundidas em culturas letradas. E, por fim, mas não menos importante, para algo que temos, muitos de nós, rara ou raro leitor, esquecido, voluntária ou involuntariamente: a importância do cultivo do ócio para a criação artística e para o bem-viver. O que pensa você sobre isso?
Mais informações sobre o admirável escritor Prêmio Nobel de Literatura de 1946: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermann_Hesse
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