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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Meu encontro com o sino, Geir Campos



Das igrejas o que melhor recordo são meus contatos (não religiosos) com os sinos, por exemplo.

Havia então em Campos três igrejas mais ou menos próximas, no centro da cidade: duas na Praça de São Salvador, e uma na então Rua da Constituição. E era nos meses de novenas, principalmente, em maio sobretudo, que lá íamos, eu e outros meninos, tocar os sinos para a altissonante convocação dos fieis.

Não havia, em nosso gesto – mais para a brincadeira – a menor intenção sagrada. Em vez disso, o que havia era pura vocação lúdica: puxar as cordinhas dos sinos, dois ou três em cada torre, fazendo-os bimbalhar ao nosso gosto, ou afinal pendurar-nos à corda grossa do sino maior, levando-o a girar num redobro que, para nós, nada poderia ser de lúgubre ou melancólico.
(...)

Tudo isso estava já longe, arquivado na mais doce das lembranças, quando, numa véspera de Natal, minha irmã caçula chegou da rua e colocou em cima da mesa, onde a família acabava de almoçar, um pequeno sino de papelão, que lhe haviam dado de presente, recheado de bombons.

Fiquei olhando aquele sino de brinquedo, fazendo força para pensar em outra coisa; mas sem poder tirar dele a vista. Toda a infância me ocorreu, naquela contemplação contrafeita, a começar pelas subidas às torres das igrejas campistas; e dei por mim com uns versos forçando a saída, tentando-me com força e dar-lhes forma escrita.
(...)

Lutava eu contra a premência de escrever, contra uma espécie de necessidade orgânica; mas com vontade de não ceder, de largar o lápis e o papel, de esquecer aquilo. No mais, o tema seria banal; dali não poderia sair coisa que se aproveitasse. E eu assim resistia, sabotando descaradamente as Musas, coitadas; e elas teimavam, forçando-me a pegar o lápis e a anotar o que me viesse à cabeça, não importava a caligrafia, aliás horrível...

Com aqueles rabiscos, difíceis – mesmo para mim – de ler, saí para dar uma volta; andei mais de meia hora, à toa. Só o que eu não queria era voltar, para não recomeçar tudo aquilo de novo.

Três ou quatro horas mais tarde, quando eu já me considerava com a digestão completamente feita, retomei os papeis rabiscados e comecei a tentar organizar aqueles rabiscos; o que dele resultou foi o poema intitulado “O sino”, último de meu livro Arquipélago. É um dos poemas mais ‘sofridos’ que escrevi: sofrido fisicamente, organicamente sofrido.

Excerto de “Meu encontro com o sino”, in Bragança, Aníbal e Santos, Maria Lizete dos, org. A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil. Niterói: Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2002, p. 139-141. Para comprar: www.estantevirtual.com.br


Hoje, lembra-me Dora Sodré, Geir faria 86 anos. Deixou-nos uma belíssima obra, composta por livros de poesia (dentre outros, Metanáutica, 1970, e Tarefa, 1981), de contos, como O vestíbulo (2ª. ed., 1979), crônicas, peças de teatro, livros infanto-juvenis, teses, ensaios, traduções etc., que o fizeram um dos marcos da literatura brasileira do século XX. Seu ensaio “Carta aos livreiros do Brasil” (1960) continua sendo a melhor análise da situação então vivida no mercado editorial.

Este registro pretende ser uma homenagem ao escritor admirável, ao cidadão combativo, ao amigo terno, e a todos os seus leitores, a quem recomendamos a Antologia Poética, organizada por Israel Pedrosa, editada por Leo Christiano em 2003, que é quase sua obra poética completa. Acesse http://www.leochristiano.com.br/

Você, rara leitora, conhece a poesia de Geir Campos?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um bom Ano Novo!

Alba
Geir Campos

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste – o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.


in A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil, org. de Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos. Niterói: Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2001, p. 71.

Rara leitora, raro leitor, que a passagem para o Ano Novo seja de alegrias e paz, de amor e fraternidade. Que tenhamos a serenidade e a firmeza necessárias para construir uma vida cada vez melhor para nós e para todos que pudermos alcançar com nossos gestos, palavras e pensamentos. Feliz 2009!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Vinícius de Moraes: eterno, enquanto dure sua obra

Vinicius de Moraes com Geir Campos, Pablo Neruda e a esposa, Matilde Urrutia. Almoço em Paris, 1957. Foto do arquivo da família de Geir Campos, reproduzida do livro Livraria Ideal, do cordel à bibliofilia, 1999, deste blogueiro
O poeta

Olhos que recolhem
Só tristeza e adeus
Para que outros olhem
Com amor os seus.

Mãos que só despejam
Silêncios e dúvidas
Para que outras sejam
Das suas, viúvas.

Lábios que desdenham
Coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.

Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente.


Poética (I)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

New York, 1950

Ouça Vinícius recitando (parte d)este poema em
http://www.viniciusdemoraes.com.br/poetica.html


Poética (II)

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!

Rio, 1960


Bilhete a Baudelaire

Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
Na velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!

Los Angeles, 1947

Soneto a Pablo Neruda

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor – os dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor – o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!

Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960

Soneto a Vinicius
Pablo Neruda

Vinicius, como el animal herido
Vuelve a buscar su origen, su vertiente,
Este soneto que creí perdido
Vulve a tocar tu pecho transparente.

Durmió tal vez en un remido ruido
O se quemó em la luz del continente.
En Ouro Preto atravesó el olvido
Y despertó el cristal intransigente.

Así otra vez, hermano, há renacido
El soneto elevado y escondido.
Acepta en él la sal y alegría

Que nos lleva en la tierra, mano a mano
A celebrar lo divino y lo humano
Y a vivir de verdad la poesía.

Todos os poemas acima estão na obra de Vinícius de Moraes, Poesia completa e prosa, organizada por Afrânio Coutinho (com assistência do autor), editada pela Nova Aguilar, em 1968 e reeditada em 1974 e reimpressa em 1976 (de onde os retiramos).

Em 1967, a Livraria Diálogo, em Niterói, promoveu uma grande noite de autógrafos a que deu o nome de Noite da Sabiá, pois seria com os autores desta então nova editora criada por Fernando Sabino e Rubem Braga, que sucedia, de certa forma, à Editora do Autor. Esperávamos os autores da casa, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, Rubem Braga, Fernando Sabino e a grande atração na época, o cronista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), que estava fazendo o maior sucesso com o livro FEBEAPÁ (O Festival de Besteiras que Asssola o País), já em plena ditadura militar (mas antes do famigerado AI-5, que é de dezembro de 1968, como quase todos sabem).

Nesse dia falei ao telefone com Clarice (inesquecível para mim), pois havia confirmado e a estávamos esperando, quando disse que não viria mais. Rubem Braga, Fernando Sabino e Stanislaw vieram e a noite foi memorável. Stanislaw escreveu sobre ela uma crônica na Última Hora, onde afirmou (escrevo de memória) que não diria mais que “em Niterói urubu voa de costas!”, como dizia antes para gozar a cidade do outro lado da baía.

A ausência de Vinícius deixou todos, especialmente as jovens – aquelas para quem se cantava "Se você quer ser minha namorada...", para quem vendíamos (mais para os namorados as presentearem) Para uma menina com uma flor, Para viver um grande amor, Livro de Sonetos, além da Antologia Poética, “best-sellers”!, – tristemente decepcionados. Você, rara leitora, acaso esteve na Diálogo nessa noite?

Vinícius, a quem só vimos, de longe, em 1977, no histórico show com Tom Jobim, Toquinho e
Miúcha, no Canecão, foi presença muito marcante, poética, musical e existencial, na nossa geração.

A Vinícius de Moraes (19/10/1913-9/7/1980), que cultivava a beleza, com saudades, este singelo registro ao se completarem 28 anos de ausência. Que viva para sempre sua obra e, na nossa memória, também sua singular forma de vida.
Para saber mais, acesse:

Wikipédia em português:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vin%C3%ADcius_de_Moraes e

O sítio oficial do poeta, “Vinicius de Moraes”:
http://www.viniciusdemoraes.com.br/
onde, inclusive, pode ouvir trechos de seus discos e de seus poemas, ditos pelo próprio.

sábado, 24 de maio de 2008

Mais uma nota muito triste: faleceu Robero Freire, autor de Cléo e Daniel

Fui procurar, rara leitora, quando li, consternado, a notícia da morte de Roberto Freire, o meu exemplar de Cléo e Daniel. Queria retomar do texto alguma das emoções profundas que tive ao ler esse belo e triste livro. Encontrei o Coiote, cuja dedicatória me fez retornar aos anos 1970-1980, quando estivemos próximos: “Pro Aníbal, amigo e companheiro de minhas viagens, mais esta que tem jeito de ‘point of no return'. E o abração amigo do ... Niterói, 27/8/86”. Creio que ele aludia ao mergulho no romance, pois que, depois do Cléo e Daniel - um grande sucesso na edição Brasiliense, lembro da capa que eu mais gostava, preta com uma margarida num canto - se dedicou a ensaios e artigos que seriam as bases da somaterapia, a qual criou, segundo penso, a partir de Wilhelm Reich, da gestalt e do anarquismo.

Era, especialmente, um artista, múltiplo. Mas também um médico psicoterapeuta. Com sua coragem, sensibilidade e generosidade fez lançamentos, palestras e workshops na Pasárgada, na Sala Manuel Bandeira, em Niterói, e lá criou um grupo, o qual acompanhou e fez crescer, anarquicamente. Fui beneficiário, direta e indiretamente, desse belo trabalho.

Roberto Freire deixou uma forte presença em muitas áreas e em inúmeras pessoas. Além de discípulos, uma obra de transformação, talvez deslocada num mundo de hoje, onde interioridade e crítica não são cultivadas, a não ser por poucos.

Se não leu, rara leitora, tem mais um motivo de alegria por cultivar a leitura. Busque num sebo um dos livros de Roberto. E viaje com ele nas suas loucuras e iluminações. Sempre chegaremos dessa viagem menos duros, menos certos e mais ricos.

Roberto Freire morreu ontem, sexta-feira, dia 23, com 81 anos, em S. Paulo.

Como epígrafe do livro Coiote, Roberto Freire inseriu esta “mensagem”:


Poetas de amanhã
Walt Whitman
(de Folhas de Relva, tradução de Geir Campos)

Poetas de amanhã: arautos, músicos
cantores de amanhã!
Não é dia de eu me justificar
e dizer ao que vim;
mas vocês, de uma nova geração,
atlética, telúrica, nativa,
maior que qualquer outra conhecida antes
– levantem-se: pois têm de me justificar!

Eu faço apenas escrever
uma ou duas palavras
indicando o futuro!
faço tocar a roda para a frente
apenas um momento
a volto para a sombra
correndo.

Eu sou um homem que, vagando
a esmo, sem de todo parar,
casualmente passa a vista por vocês
e logo desvia o rosto,
deixando assim por conta de vocês
conceituá-lo e prová-lo,
a esperar de vocês
as coisas mais importantes.

Pergunto, raro leitor, quem serão esses poetas, hoje? Certamente estão por aí... onde?

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Tarefa..., de Artur da Távola (3.1.1936-9.5.2008)

E há que escrever, mesmo quando o desalento impera. Escrever é escrever. Falei claro? Se por um lado a gente chia pela obrigação de um artigo diário, por outro lado o processo criativo de um escritor só se engrandece na medida em que ele escreve, contra o cansaço, a depressão, a falta de tempo, a alegria, a esperança. A palavra é esta mesma: contra. Não que o escritor seja contra essas coisas citadas. Não! Escrever é lutar contra todos os estados de espírito pelos quais cada pessoa passa, nesse feixe um tanto esquizofrenizante de escilações temperamentais, ou humorais de que somos constituídos, eternos mutantes do nada, ou seja, de nós próprios.

Escrever é passar por cima de inspirações. É atropelar vacilações, conviver com dúvidas, medos e coragens existenciais. É cavalgar o próprio tédio. É tripular a esperança e a alegria sua e a dos outros tanto quanto as tristezas e os desencantos.

E é escrever. Escrever. Afiar a forma. Desafiar as palavras, excitar-lhes as sutilezas e os mil significados, investigar-lhes as latências. É dar socos na falta de assunto. É aprender a calar, falando e a falar, calando. É enfrentar ditadores, detratores, diz tratores, ou mil elogios. É aceitar – cigarra – que cada edição do jornal só dura 24 horas e o artigo acaba forrando gaiola de melro de mulher bonita e só.

(...)

Escrever é um ato de amor feito tarefa. Compensar. Reparar. Exorcizar o baú de culpas. Vestir de novo a farda do ginásio. Olhar para dentro, implacável. Revolver infâncias e redescobrir adolescências espantadas. E envelhecer do meio para o fim do artigo para renascer no seguinte. É ser bebê chorão e ousar sabedorias de ancião.

Escrever. Escrevinhar. Expor uma tela por dia, sabendo que não entenderão a pressa da feitura, a ânsia do fim, a cor mal colocada.

In Mevitevendo. Crônicas. Rio de Janeiro: Salamandra, 1977, p.

A morte, rara leitora, parece vírus solto que basta um vacilo e ela nos surpreende. Fatal. Vai nos empobrecendo quando ceifa os amigos ou aqueles que, sem o ser, são presença estimada em nossa vida, como Artur da Távola (Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros).

Um belo escritor, um ser humano de grande amplitude, um cronista sensível, político digno (raridade!), um jornalista combativo e atualmente o responsável por nos fazer ouvir, com prazer, a Rádio Roquete Pinto. Estudioso e amante da obra musical dos grandes clássicos, da bossa nova, um divulgador de experiências de beleza. Sua obra ficará. Sua vida será lembrada por muito tempo. Assim como a crônica acima, cujo destino poderia ser forrar gaiola de passarinho, foi para o livro de imenso sucesso e está aqui, diante de mim, registrando minha tristeza e saudade.


PS: Ontem – Dora, querida amiga, me lembrou – completaram-se 9 anos que Geir Campos se encantou. Vamos relembrar, reler, raro leitor:

Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
– do amargo e injusto e falso por mudar –
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

In Antologia poética, org. por Israel Pedrosa. Rio de Janeiro: Leo Christiano, 2003, p. 89-90.

Saiba mais sobre Geir Campos e sua obra literária. Acesse:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Geir_campos

Antes de nos despedirmos, rara leitora, permitamo-nos alegria: hoje à noite Jourdan Amóra, jornalista atuante há décadas em Niterói, com uma bela trajetória de lutas pela cidade, alma e corpo de dois jornais, A Tribuna e Jornal de Icaraí, irá comemorar seus 70 anos. Viva!

sábado, 23 de junho de 2007

Geir Campos e “A roda da fortuna”, de Wilson Martins

Hoje (23/6/2007), no caderno Idéias & Livros, p. 7, o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, traz a crítica de Wilson Martins, “A roda da fortuna”, com uma sugestiva ilustração de João Lampreia, em que é registrado o lançamento do livro Na contramão dos preconceitos estéticos da era dos extremos, de Israel Pedrosa, recentemente editado por Léo Christiano http://www.leochristiano.com.br/ .

O crítico, autor de uma das melhores obras de história do livro, da imprensa e da biblioteca publicadas em português, A palavra escrita, editada inicialmente pela Anhembi, em 1957, e após longo tempo fora das livrarias, reeditada, revista e atualizada, pela Editora Ática (com apoio da Fundação Biblioteca Nacional), e da História da inteligência brasileira, obra monumental em 7 volumes, Editora Cultrix (1976-1979), destaca em seu texto o que chama de “capítulo reivindicativo” de Israel Pedrosa, “A latência poética de Geir Campos (1924-1999)” (p. 117-177), para afirmar que o poeta “consagrado em vida pela crítica” está hoje “condenado ao silêncio”, com o “mesmo destino” do poeta Ribeiro Couto; segundo ele, Geir “por ser visto como esquerdista” e Couto “por ser visto como direitista”. Para Wilson Martins, a “roda da fortuna” segue “os critérios de julgamento na feira literária, nos quais a intenção polêmica, quando não caluniosa, toma o lugar dos vereditos objetivos e desinteressados.”

O belo ensaio de Israel Pedrosa continua o resgate da obra do poeta capixaba iniciada com a organização da Antologia Poética de Geir Campos (2003), editada também pela Léo Christiano, aprofundando e alargando a trilha aberta pelo livro A profissão do poeta & Carta ao livreiros do Brasil, lançado no ano anterior, organizado por Maria Lizete dos Santos e este neoblogueiro.

Sobre o tema da "roda da fortuna", um poema (do livro Metanáutica, in Antologia poética de Geir Campos, p. 261):

Questões de tempo

Quem perguntará por mim
quando a última passar
com seu facão?
Que mulher grave desfalecerá
vendo apagados meus olhos
na multidão?
Que homem de bem guardará
o adeus meu
seco na palma da mão?
Quem lembrará minha voz
coral ausente
em qualquer canção?
Quem se pagará a herança
inteira ou em pedaços
do meu indivisível coração?
E a quem a flor
de raiz em mim
fará os acenos do não?


Conheça mais de e sobre Geir Campos (e também de outros poetas) no excelente espaço virtual, criado por Luiz Fernando Proa, "Alma de Poeta":
http://www.almadepoeta.com/biblioteca/geircampos.htm

E nos diga, rara ou raro leitor, se se inclui, como Israel Pedrosa e nós, entre aqueles que perguntam por Geir e sua herança poética.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Geir Campos, poeta, contista, tradutor e editor



Cidades

Leio livros
sobre a cidade
antiga
e penso
nas cidades do meu tempo:
todas iguais
ou muito parecidas
com seus mercados
e suas lojas
vendendo as mesmas
mercadorias...
será isso
o que se denomina
“liberalismo”
ou será, antes,
o “socialismo”?
Igualdade!
Liberdade!
Fraternidade?
Pois sim!

Haikai
Olha os olhos do afogado!
Deve haver coisas terríveis
no fundo do mar.

Alba
Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste – o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.

Geir Campos não foi apenas um artesão da palavra e um operário do canto. Além de autor de uma obra literária que certamente permanecerá, esteve presente em todas as frentes de ação pelo fortalecimento do livro como um veículo privilegiado para tocar a sensibilidade do ser humano e para alcançar a transformação da sociedade brasileira.

Os poemas de Geir Campos e o trecho acima (do depoimento “Geir Campos e o mundo do livro”), deste blogueiro, são partes do livro A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil, organizado por Maria Lizete dos Santos e Aníbal Bragança, editado 2002, graças ao programa de Adroaldo Peixoto Garani, enquanto presidente da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, de publicar obras de interesse para a cultura fluminense.

Os livreiros, tradutores, editores e autores certamente terão grande proveito com a leitura deste pequeno volume, assim como todos os que apreciam boa literatura nacional. Procure-o, rara ou raro leitor, no seu livreiro ou na biblioteca mais próxima e deleite-se.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Alberto de Oliveira, 150 anos de nascimento

Para lembrar o grande poeta brasileiro nascido no dia 28 de abril de 1857, em Palmital de Saquarema (atual Saquarema)-RJ, e que faleceu em Niterói-RJ há 70 anos (19 de janeiro de 1937), oferecemos a você, rara e raro leitor, alguns de seus poemas.

Única

Estás a ler meu livro, e é bem que exprimas
Certo pesar... Nem uma vez, nem uma
O teu nome estas páginas perfuma!
E outros há por aí por títulos e rimas.

“Quem são essas que vêm de estranhos climas,
De idades mortas, da salgada espuma
Do mar, da Grécia, de teu sonho, em suma,
Que mais que a mim tens celebrado e estimas?”

Dirás. E o livro, se meu ser traslada,
Se o fiz de modo tal que me traduza,
Contas dará de quanto em si contém;

Saberá responder que és sempre amada,
Que nele estás, pois foste a sua musa,
E essas mulheres só de ti provêm.

Lendo os antigos

Vamos reler Teócrito, senhora,
Ou, se lhe apraz, de Teos o citaredo;
Olhe a verdura aqui deste arvoredo
À beira da água... E o sol que desce agora.

Lécio, o pastor, nesta colina mora,
Onde as cabras ordenha. Este silvedo
Guarda de Umbrano à flauta a voz canora,
Como este arbusto a Titiro o segredo.

Esta água... Olhe, porém, como é tão pura
Esta água! O chão de nítidas areias,
Plano, igualado, límpido fulgura;

E tão claro é o cristal que, abrindo o louro
Cabelo, em grupo trêmulas sereias
Se vêem lá em baixo neste fundo de ouro.


A um poeta

Não têm teus versos, agora
Que se foi teu claro dia,
O ímpeto, o fogo, a harmonia
De outrora.

A idéia, porém, mais pura,
A idéia aos poucos nascida
De observar a Dora e a vida,
Fulgura.

Assim, posto o sol, os rios
Não são mais como eram dantes;
Tornam-se, em vez de brilhantes,
Sombrios.

Mas da noite o céu, com os mundos
Acesos, na água a feri-los,
Torna-os mais, sobre tranqüilos,
Profundos...


De Notas de um veranista

7 de fevereiro
O meu último pensamento
Ontem, antes de adormecer,
Não foram nem podiam ser
Os morangos que nos serviu o hotel sempre avarento.

Não foram dessa guerra assombros
Que se contam descomunais;
Eu hoje dou a tudo de ombros,
Pouco me importam paz ou guerra, e não leio jornais.

O meu último pensamento,
Fique bem anotado aqui,
Foi ela, o meu doce tormento:
Vinte vezes disse o seu nome – Élena – e adormeci.

Lira quebrada

Tomando-a onde a deixei dependurada ao vento,
Sinto não ser mais esta a lira de outros dias,
Em que, somente a amor votado o pensamento,
Livre e acaso feliz, a descansar me ouvias.

Quebrada vem. Rouqueja apenas um lamento;
As rosas com que, ó Musa, inda há pouco a vestias,
Fanam-se nos festões, soltam-se em desalento,
Vão-se. Ironia ou dor crispa-lhe as cordas frias.

Mas inda assim lhe escuto um resquício de notas
Perpassar a gemer, corre-lhe as fibras rotas
O fantasma do som que a alma um dia lhe encheu:

Como de um velho sino o bronze espedaçado
Guarda em cada fragmento o fragmento de um brado,
O eco de um hino, a voz de um canto que morreu...

Esta recolha foi feita na seleção feita por Geir Campos no volume que preparou para a série Nossos Clássicos e ainda no livro Lírica, ambos abaixo referidos.

Da crítica, sobre Alberto de Oliveira:

“Houve quem visse nele um clássico. Outros, um romântico. A maioria – historiógrafos da Literatura – cataloga-o parnasiano, uma das três pessoas da famosíssima trindade: Bilac-Alberto-Raimundo.

Na figura do escritor como na obra pode-se encontrar parcelas de tudo isso. O homem era grande e sólido, vestia com apuro, postura e palavra de Mestre que, a partir de 1924, prestigiava o título de Príncipe dos Poetas Brasileiros. Este é, pela busca do belo e preocupação formal, classicizante; pela paixão e entusiasmo, contidos mas presentes, romântico; pela adesão à Idéia Nova, desde a primeira hora, e a plasticidade da obra que realizaria, parnasiano.”

Da apresentação de Xavier Placer em Lírica, de Alberto de Oliveira, seleção de Nilo Aparecida Pinto, Rio de Janeiro: S. José, 1971.

“O que o lia o poeta eram ‘os gongóricos e árcades portugueses dos séculos XVII e XVIII, em que era muito versado’, como depõe Manuel Bandeira (...). Embora na ocasião [das lutas pela causa abolicionista] não arredasse pé da sua chácara em Niterói, naturalmente o poeta tomou conhecimento da vitória republicana – pois foi com a ascensão de José Tomás da Porciúncula à presidência do Estado do Rio que ele se viu nomeado oficial de gabinete e, pouco depois, Diretor da Instrução Pública estadual, cargo que deixou em 1897 (...)

A única luta em que tomou parte Alberto de Oliveira foi a chamada “batalha do Parnaso”, tendo como trincheiras as colunas do Diário do Rio de Janeiro, com escaramuças versificadas contra o pieguismo dos últimos românticos; (...) E é A. de O. que esclarece: - ‘o que houve entre nós foi a reação contra o romantismo dos últimos tempos, descorado e flácido, o restabelecimento das boas normas de escrever versos, um protesto contra o enxovalho da língua, um esforço para mostrar, qual não se via, opulenta e nobre, uma cruzada em prol do bom gosto e em favor da arte’.”

Da apresentação de Geir Campos a Alberto de Oliveira, Poesia. Org. de Geir Campos, coleção Nossos Clássicos, v. 32, Agir, Rio de Janeiro, 1969, 2a. ed.