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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Italo Calvino: sobre publicações, escritores e leitores

Italo Calvino.
Foto reproduzida da 4a. capa de Se um viajante numa noite de inverno. Editora Nova Fronteira.

[diálogo ocorrido na editora:]
(...)

– Há uma linha que separa: de um lado os que fazem livros, de outro os que lêem. Quero continuar a fazer parte daqueles que lêem, e por isso presto muita atenção para me manter sempre deste lado da linha. Senão, o prazer desinteressado de ler já não existe, ou ao menos se transforma em alguma outra coisa, que não é o que eu quero.

É uma fronteira imprecisa, que tende a desaparecer: o mundo daqueles que têm relação profissional com os livros está cada vez mais povoado, e tende a se identificar com o mundo dos leitores.

Evidentemente os leitores também são cada vez mais numerosos, mas pode-se dizer que o número daqueles que utilizam os livros para produzir outros livros cresce definitivamente mais depressa que o número daqueles que gostam dos livros para ler.
(...)

Eu sou um leitor, só um leitor, não um autor (...).

– Ah, bem! Bravo, bravo, estou muito contente! (...) Isso me dá muito gosto. Verdadeiros leitores encontro-os cada vez menos.
(...)

Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Romance. Tradução de Margarida Salomão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 109-114. Há uma nova tradução para o português, editada pela Cia. das Letras.

No romance sobre autoria, leitura, escritura, editores, livros, livrarias, contrafações e outras experiências vividas no mundo contemporâneo da cultura do impresso, Se um viajante numa noite de inverno, rara leitora, certamente você encontrará outras contribuições de um verdadeiro mestre para sua reflexões sobre o tema “ser leitor e/ou escritor”, que foi referido aqui especialmente nestas últimas postagens, de Gilberto Freyre a Drummond, passando por Blanchot, e nas ricas contribuições até agora recebidas.

Aqui é explicitada a progressão geométrica do número de leitores que lêem para escrever, isto é, que praticam a leitura com intuitos pragmáticos ou utilitários, em relação ao número daqueles que o fazem descompromissadamente, por entretenimento, experiência estética ou simplesmente para ocupar de forma prazerosa o seu tempo de lazer, como o personagem citado, que luta para se manter um simples leitor.

O pequeno excerto do belo texto de Calvino pretende, além de ser um convite à leitura da obra, ser também modesta contribuição para um possível enriquecimento deste foro, ou esquina virtual, onde nos encontramos, sem café, vinho ou cerveja, o que, admitamos, é uma perda se o compararmos com as experiências da boêmia literária dos séculos pré-Internet. Mas não deixa de ser um lugar propiciador de encontros humanos em torno de uma espécie de enorme mesa.


Para saber mais
sobre Italo Calvino (Santiago de Las Vegas, Cuba, 15/10/1923)–Roma, Itália, 19.9.1985):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Italo_Calvino
http://en.wikipedia.org/wiki/Italo_Calvino (em inglês)

terça-feira, 3 de julho de 2007

A leveza na literatura, segundo Italo Calvino

(...)
Quando iniciei minha atividade literária, o dever de representar nossa época era um imperativo categórico para todo jovem escritor. Cheio de boa vontade, buscava identificar-me com a impiedosa energia que move a história de nosso século, mergulhando em seus acontecimentos coletivos e individuais. Buscava alcançar uma sintonia entre o espetáculo movimentado do mundo, ora dramático ora grotesco, e o ritmo interior picaresco e aventuroso que me levava a escrever.

Logo me dei conta de que entre os fatos da vida, que deviam ser minha matéria-prima, e um estilo que eu desejava ágil, impetuoso, cortante, havia uma diferença que eu tinha cada vez mais dificuldade em superar. Talvez que só então estivesse descobrindo o pesadume, a inércia, a opacidade do mundo – qualidades que se aderem logo à escrita, quando não encontramos um meio de fugir a elas.

Às vezes, o mundo inteiro me parecia transformado em pedra: mais ou menos avançada segundo as pessoas e os lugares, essa lenta petrificação, não poupava nenhum aspecto da vida. Como se ninguém pudesse escapar ao olhar inexorável da Medusa.

O único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas. Perseu, que não volta jamais o olhar para a face da Górgona, mas apenas para a imagem que vê refletida em seu escudo de bronze. Eis que Perseu vem ao meu socorro até mesmo agora, quando já me sentia capturar pela mordaça de pedra – como acontece toda vez que tento uma evocação histórico-autobiográfica.

Melhor deixar que meu discurso se elabore com as imagens da mitologia. Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento, e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho.

Sou tentado de repente a encontrar nesse mito uma alegoria da relação do poeta com o mundo, uma lição do processo de continuar escrevendo.

(...)

Ítalo Calvino, “Leveza”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, Cia. das Letras, S. Paulo, 1990, p. 15-6.

O trecho acima foi retirado do início do texto da conferência sobre Leveza que Calvino preparou para apresentar nas suas Lições Americanas, que nunca chegou a proferir. Convidado pela Universidade de Harvard, em 1984, para oferecer um ciclo de seis conferências, faleceu em 1985, em Siena, na Itália. Deixou prontos os textos de cinco: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade. A que seria a última, Consistência, Calvino havia deixado para preparar em Harvard. Ficou o legado literário de uma dos maiores escritores do século XX, uma referência nos caminhos da literatura do terceiro milênio.