As obras são a quintessência de um espírito; daí elas serem incomparavelmente mais ricas que o contato pessoal, mesmo quando se trata de um grande espírito, as obras acabam por substituí-lo na essência - e, inclusive, o superam largamente e o deixam para trás. Mesmo os escritos de um espírito medíocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e agradáveis, precisamente porque são sua quintessência, o resultado, o fruto de todos os seus pensamentos e estudos; - enquanto a convivência com ele não consegue nos satisfazer. Daí que possamos ler livros de pessoas cuja convivência não nos agradaria e, assim, uma alta cultura espiritual nos leva pouco a pouco a encontrar entretenimento quase exclusivamente com livros e não mais com as pessoas.
In Schopenhauer, Arthur. Sobre livros e leitura / Über lesen und bücher. Trad. de Philippe Humblé e Walter Carlos Costa. Porto Alegre (RS): Paraula, 1993.
Creio que todos os que já publicaram livros compreendem bem o que afirma o filósofo alemão. Na preparação de uma obra busca-se sempre excluir o que é secundário ou imperfeito, em uma luta para alcançar o melhor. Nesse sentido, a obra será sempre superior ao autor, porque ela reflete o melhor que ele tem a oferecer naquele momento. Já a vida não dá pra recortar. Mas não chegaríamos por isso à mesma conclusão de Schopenchauer. Esta a proposta de reflexão ou discussão que lhe propomos, rara leitora. Participe.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Italo Calvino: sobre publicações, escritores e leitores
Foto reproduzida da 4a. capa de Se um viajante numa noite de inverno. Editora Nova Fronteira.
[diálogo ocorrido na editora:]
(...)
– Há uma linha que separa: de um lado os que fazem livros, de outro os que lêem. Quero continuar a fazer parte daqueles que lêem, e por isso presto muita atenção para me manter sempre deste lado da linha. Senão, o prazer desinteressado de ler já não existe, ou ao menos se transforma em alguma outra coisa, que não é o que eu quero.
É uma fronteira imprecisa, que tende a desaparecer: o mundo daqueles que têm relação profissional com os livros está cada vez mais povoado, e tende a se identificar com o mundo dos leitores.
Evidentemente os leitores também são cada vez mais numerosos, mas pode-se dizer que o número daqueles que utilizam os livros para produzir outros livros cresce definitivamente mais depressa que o número daqueles que gostam dos livros para ler.
(...)
Eu sou um leitor, só um leitor, não um autor (...).
– Ah, bem! Bravo, bravo, estou muito contente! (...) Isso me dá muito gosto. Verdadeiros leitores encontro-os cada vez menos.
(...)
Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Romance. Tradução de Margarida Salomão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 109-114. Há uma nova tradução para o português, editada pela Cia. das Letras.
No romance sobre autoria, leitura, escritura, editores, livros, livrarias, contrafações e outras experiências vividas no mundo contemporâneo da cultura do impresso, Se um viajante numa noite de inverno, rara leitora, certamente você encontrará outras contribuições de um verdadeiro mestre para sua reflexões sobre o tema “ser leitor e/ou escritor”, que foi referido aqui especialmente nestas últimas postagens, de Gilberto Freyre a Drummond, passando por Blanchot, e nas ricas contribuições até agora recebidas.
Aqui é explicitada a progressão geométrica do número de leitores que lêem para escrever, isto é, que praticam a leitura com intuitos pragmáticos ou utilitários, em relação ao número daqueles que o fazem descompromissadamente, por entretenimento, experiência estética ou simplesmente para ocupar de forma prazerosa o seu tempo de lazer, como o personagem citado, que luta para se manter um simples leitor.
O pequeno excerto do belo texto de Calvino pretende, além de ser um convite à leitura da obra, ser também modesta contribuição para um possível enriquecimento deste foro, ou esquina virtual, onde nos encontramos, sem café, vinho ou cerveja, o que, admitamos, é uma perda se o compararmos com as experiências da boêmia literária dos séculos pré-Internet. Mas não deixa de ser um lugar propiciador de encontros humanos em torno de uma espécie de enorme mesa.
Para saber mais
sobre Italo Calvino (Santiago de Las Vegas, Cuba, 15/10/1923)–Roma, Itália, 19.9.1985):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Italo_Calvino
http://en.wikipedia.org/wiki/Italo_Calvino (em inglês)
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domingo, 15 de junho de 2008
Ler e escrever, segundo Peter Gay

(...)
É claro que ler, assim como escrever, é um ato que possui muitas dimensões. Se escrever um romance é um complexo compromisso entre as necessidades instintivas e defensivas do autor, sua fome de aplauso e sua paixão pela experimentação, a leitura pode gratificar um desejo de informação sobre a vida, de alívio da realidade, de momentos de excitação erótica ou de deleite com a forma e o humor.
Tanto no autor como no leitor reverberam as mesmas paixões humanas, e ambos abrigam as mesmas necessidades humanas, mas suas experiências particulares são muitas vezes bastante diferentes. O escritor pode não experimentar as paixões que excita. Quase sempre, ler é uma regressão semelhante a brincar – regressão porque desperta e reúne memórias, brincadeira porque o leitor sabe bem, mesmo quando está profundamente absorvido em sua história, que aquilo não é verdade e que sempre pode escapar a seu encantamento. Enquanto a mágica funciona, porém, a obra de ficção rememora (ou inventa, pungentemente) recordações infantis valiosas. O leitor torna a viver entre encontros edípicos e intimidades ainda anteriores, experimentando, por momentos de enlevo, a ilusão de uma felicidade que pode nunca ter conhecido.
O ato de ler ocupa todas as principais instituições da mente: prova o id ao simular a satisfação dos instintos, lisonjeia o ego com belezes formais, aplaca o superego ao incluir o leitor numa comunidade moral invisível em que é feita justiça aos maus e aos inocentes ou (o que satisfaria a mais perseguidora das consciências) em que o sofrimento assola a todos como parte da condição humana.
Os prazeres trazidos pelo leitura advêm do fato de ser uma atividade econômica, no sentido psicanalítico do termo: ela encerra, com um gasto de energia bem inferior ao que seria exigido pela ação na realidade, aventuras esplêndias e prazeres proibidos, e tudo com pouquíssimo risco para o consumidor.
(...)
In A paixão terna. A experiência burguesa, da Rainha Vitória a Freud, vol. 2. Trad. de Sérgio Flaksman. S. Paulo: Cia. das Letras, 1990, p. 144-5.
Rara leitora, este pequeno excerto de um grande livro faz parte do cap. III, “A obra de ficção”, em que Peter Gay (Berlim, 1923), historiador freudiano, analisa de modo muito percuciente e inovador as práticas de leitura e escrita no século XIX na Europa, e a importância que tiveram para os leitores as grandes obras de ficção, desde as mais refinadas, como as de Gógol, George Eliot, Balzac, Zola, Maupaussant, Eça de Queiroz, Turguêniev, Dickens, Flaubert, Machado de Assis, Tchackeray etc., até aquelas histórias simplesmente “agradáveis e amenas”.
É claro que ler, assim como escrever, é um ato que possui muitas dimensões. Se escrever um romance é um complexo compromisso entre as necessidades instintivas e defensivas do autor, sua fome de aplauso e sua paixão pela experimentação, a leitura pode gratificar um desejo de informação sobre a vida, de alívio da realidade, de momentos de excitação erótica ou de deleite com a forma e o humor.
Tanto no autor como no leitor reverberam as mesmas paixões humanas, e ambos abrigam as mesmas necessidades humanas, mas suas experiências particulares são muitas vezes bastante diferentes. O escritor pode não experimentar as paixões que excita. Quase sempre, ler é uma regressão semelhante a brincar – regressão porque desperta e reúne memórias, brincadeira porque o leitor sabe bem, mesmo quando está profundamente absorvido em sua história, que aquilo não é verdade e que sempre pode escapar a seu encantamento. Enquanto a mágica funciona, porém, a obra de ficção rememora (ou inventa, pungentemente) recordações infantis valiosas. O leitor torna a viver entre encontros edípicos e intimidades ainda anteriores, experimentando, por momentos de enlevo, a ilusão de uma felicidade que pode nunca ter conhecido.
O ato de ler ocupa todas as principais instituições da mente: prova o id ao simular a satisfação dos instintos, lisonjeia o ego com belezes formais, aplaca o superego ao incluir o leitor numa comunidade moral invisível em que é feita justiça aos maus e aos inocentes ou (o que satisfaria a mais perseguidora das consciências) em que o sofrimento assola a todos como parte da condição humana.
Os prazeres trazidos pelo leitura advêm do fato de ser uma atividade econômica, no sentido psicanalítico do termo: ela encerra, com um gasto de energia bem inferior ao que seria exigido pela ação na realidade, aventuras esplêndias e prazeres proibidos, e tudo com pouquíssimo risco para o consumidor.
(...)
In A paixão terna. A experiência burguesa, da Rainha Vitória a Freud, vol. 2. Trad. de Sérgio Flaksman. S. Paulo: Cia. das Letras, 1990, p. 144-5.
Rara leitora, este pequeno excerto de um grande livro faz parte do cap. III, “A obra de ficção”, em que Peter Gay (Berlim, 1923), historiador freudiano, analisa de modo muito percuciente e inovador as práticas de leitura e escrita no século XIX na Europa, e a importância que tiveram para os leitores as grandes obras de ficção, desde as mais refinadas, como as de Gógol, George Eliot, Balzac, Zola, Maupaussant, Eça de Queiroz, Turguêniev, Dickens, Flaubert, Machado de Assis, Tchackeray etc., até aquelas histórias simplesmente “agradáveis e amenas”.
Ler e escrever podem ser experiências das mais complexas, refinadas, criativas, agradáveis e enriquecedoras do ser humano. Viva o leitor! Viva o autor! Viva o tipógrafo, o artista gráfico, o encadernador, o editor, o livreiro, o distribuidor, a professora, os pais. De todos eles (e mais) depende o desabrochar dessa potencialidade no espírito dos homens e mulheres. Viva!
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