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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os autores e as suas obras, segundo Schopenhauer (1788-1860)

As obras são a quintessência de um espírito; daí elas serem incomparavelmente mais ricas que o contato pessoal, mesmo quando se trata de um grande espírito, as obras acabam por substituí-lo na essência - e, inclusive, o superam largamente e o deixam para trás. Mesmo os escritos de um espírito medíocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e agradáveis, precisamente porque são sua quintessência, o resultado, o fruto de todos os seus pensamentos e estudos; - enquanto a convivência com ele não consegue nos satisfazer. Daí que possamos ler livros de pessoas cuja convivência não nos agradaria e, assim, uma alta cultura espiritual nos leva pouco a pouco a encontrar entretenimento quase exclusivamente com livros e não mais com as pessoas.

In Schopenhauer, Arthur. Sobre livros e leitura / Über lesen und bücher. Trad. de Philippe Humblé e Walter Carlos Costa. Porto Alegre (RS): Paraula, 1993.

Creio que todos os que já publicaram livros compreendem bem o que afirma o filósofo alemão. Na preparação de uma obra busca-se sempre excluir o que é secundário ou imperfeito, em uma luta para alcançar o melhor. Nesse sentido, a obra será sempre superior ao autor, porque ela reflete o melhor que ele tem a oferecer naquele momento. Já a vida não dá pra recortar. Mas não chegaríamos por isso à mesma conclusão de Schopenchauer. Esta a proposta de reflexão ou discussão que lhe propomos, rara leitora. Participe. 

sábado, 23 de agosto de 2008

Herôdotos (c.484-c.425 a.C): Sobre escrita alfabética e livros

Os fenícios vindos com Cadmos [herói mítico grego associado à difusão da escrita alfabética], entre os quais estavam esses gefireus, introduziram numerosos conhecimentos entre os helenos quando se estabeleceram em seu território – entre outros o conhecimento do alfabeto, que os helenos, até onde vai o meu conhecimento, não possuíam anteriormente; de início esse alfabeto era o mesmo usado pelos fenícios; depois, com o passar do tempo, simultaneamente com a língua esses cadmeus mudaram também a forma das letras.

As regiões circunvizinhas eram habitadas em sua maior parte por helenos de raça iônia; eles adotaram os caracteres aprendidos dos fenícios e passaram a usá-los com ligeiras modificações, e usando-os eles os divulgaram, como era justo – pois os fenícios haviam sido os seus introdutores na Hélade – sob o nome de “fenícios”.

Da mesma forma, os iônios chamam os livros de diphteroi [de couro] por causa dos usos antigos, pois anteriormente, em decorrência da raridade do papiro para livros, eles usavam peles de cabra ou carneiro; ainda em minha época muitos bárbaros escrevem nessas peles.


In Herôdotos, História. Trad. do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Ed. UnB, 1985, p. 274.

Segundo Mário da Gama Kury, Herôdotos, é o autor da primeira obra em prosa da literatura grega preservada até nossos dias. Nasceu em Halicarnassos (hoje na Turquia), aproximadamente 484 a.C. Em 445, já estava em Atenas, onde teria lido sua obra História (ou parte dela), feita a partir dos conhecimentos adquiridos em suas pesquisas e viagens.

Herôdotos (aqui seguimos a grafia indicada por Kury, diferente da usual, Heródoto), é considerado o “pai da história”. Esta disciplina, desde sua origem, está associação a “busca, investigação, pesquisa”, sendo o historiador, do ponto de vista etimológico, “uma pessoa que se informa por si mesma da verdade, que viaja, que interroga, ao invés de limitar-se a transcrever dados à sua disposição e repetir genealogias, cronologias, lendas” (p. 9).

Destacamos aqui, rara leitora, este excerto da monumental obra de Herôdotos que fala da apropriação pelos gregos do alfabeto criado pelos fenícios, por se tratar certamente de um dos registros escritos mais recuados sobre esse fato (provavelmente ocorrido cerca de 4 séculos antes), que teria repercussão notável na nossa cultura, quando, através do latim, se tornou a base de todas as escritas européias e assim da cultura ocidental.

É interessante no trecho também a referência ao uso do papiro (egípcio) em seu tempo e ao uso do couro de pequenos animais para suporte da escrita de livros pelos “bárbaros”. Apesar do papiro continuar a ser usado ainda durante séculos, o uso do couro se disseminou, quando, mais tarde, em Pérgamo, pequeno reino helenizado (hoje na Turquia), notável por sua biblioteca que rivalizava com a de Alexandria, se criou uma técnica especial que o tornaria mais dócil para receber a escrita e fazer livros. Passou a ser chamado de pergaminho e foi o substituto do papiro quando este se tornou novamente raro. Utilizado durante toda a Idade Média, o pergaminho perdeu definitivamente espaço para o papel quando da invenção da tipografia por Gutenberg, no século XV.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Cecília Meireles, poemas

O principiante

Sua mão mal se movimenta,
custa a escorregar pela mesa,
caracol no jardim da ciência,
desenrolando letra a letra
a obscura linha do seu nome.

Ah, como é leve o átomo puro,
e ágil o equilíbrio do mundo,
e rápido, e célere, o curso
do céu, do destino de tudo!

Mas na terra o pálido aluno
devagar escreve o seu nome.

(Em Retrato natural, p. 355-6)


Jornal longe

Que faremos destes jornais, com telegramas, notícias,
anúncios, fotografias, opiniões...?

Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
e o sol empalidece suas letras infinitas.

Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.

De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
“Os jornais servem para fazer embrulhos.”

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.

(Em Mar Absoluto e outros poemas, p. 301)


Comunicação

Pequena lagartixa branca,
ó noiva brusca dos ladrilhos!
sobe à minha mesa, descansa,
debruça-te em meus calmos livros.

Ouve comigo a voz dos poetas
que agora não dizem mais nada,
– e diziam coisas tão belas! –
ó ídolo de cinza e prata!

Ó breve deusa de silêncio
que na face da noite corres
como a dor pelo pensamento,
– e sozinha miras e foges.

Pequena lagartixa – vinda
qara quê? – pousa em mim teus olhos.
Quero contemplar tua vida,
a repetição dos teus mortos.

Como os poetas que já cantaram,
e que já ninguém mais escuta,
eu sou também a sombra vaga
de alguma interminável música.

Pára em meu coração deserto!
Deixa que te ame, ó alheia, ó esquiva...
Sobre a torrente do universo,
nas pontes frágeis da poesia.

(Em Retrato natural, p. 335)

Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente – claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

(Em Vaga música, p. 183)

Hoje, rara leitora, senti falta de poesia no blog e em mim. Tenho pensado nalguns versos imortais de Cecília Meireles – eu não tinha este rosto de hoje – e busquei na belo volume da sua Obra poética, editada pela Nova Aguilar, de 1983, estes poemas que nos falam de escritura, leitura, livros e ternura. Passou. Espero que aprecie.

sábado, 28 de abril de 2007

Walter Benjamin, o pensador do século XX

Apresentamos a você, rara ou raro leitor, a primeira parte de um dos escritos breves de Walter Benjamin reunidos, sob o título “Proibido colar cartazes!”, no livro Rua de mão única, publicado originalmente em 1928, quando o autor tinha 36 anos. Acreditamos que sua leitura seja útil a todos os escritores e aos aspirantes a. O que acha? Faça seu comentário.
A segunda parte será aqui postada em breve, se a alguém fizer falta.

A técnica do escritor em treze teses

I. Quem tem a intenção de passar à redação de uma obra mais extensa procure seu bem-estar e permita-se, depois da tarefa concluída, tudo o que não prejudica a continuação.

II. Fale do realizado, se quiser; contudo, durante o decorrer do trabalho, não leia nada dele para outros. Toda satisfação que você se proporciona através disso bloqueia seu ritmo. Com a observância desse regime, o crescente desejo de comunicação acaba tornando-se motor do acabamento.

III. Nas circunstâncias de trabalho, procure escapar à mediania do cotidiano. Meia tranqüilidade, acompanhada de ruídos insípidos, degrada. Em contrapartida, o acompanhamento de um estudo musical ou de uma confusão de vozes pode tornar-se tão significativo para o trabalho quanto a perceptível quietude da noite. Se esta aguça o ouvido interior, aquele se torna a pedra de toque de uma dicção cuja própria plenitude sepulta em si os ruídos excêntricos.

IV. Evite utensílios quaisquer. A pedante fixação a certos papéis, penas, tintas, é de utilidade. Não luxo, mas abundância desses utensílios é indispensável.

V. Não deixe nenhum pensamento passar incógnito e mantenha seu caderno de notas tão rigorosamente quanto a autoridade constituída mantém o registro de estrangeiros.

VI. Torne sua pena esquiva à inspiração, e ela a atrairá com a força do ímã. Quanto mais refletidamente você retarda a redação de uma idéia que ocorre, mais maduramente desdobrada ela se oferecerá a você. A fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina.

In Rua de mão única. Obras escolhidas, v. 2. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. S. Paulo: Brasiliense, 1987, p. 30-31.
http://www.editorabrasiliense.com.br/

Imagem, fonte: www.culturgest.pt/actual/walter_benjamin.html

Sugerimos que corra à estante ou à livraria e se enriqueça convivendo com esta obra que se pode ler e, especialmente, reler sempre com proveito crescente.

PS1: O título que adotamos repete o do caderno Mais, Folha de São Paulo, 12/07/1992, comemorativo dos 100 anos do nascimento do filósofo, crítico e escritor.

PS2: Nosso trabalho coletivo O consumidor de livros de segunda mão: perfil do cliente dos sebos, acessível em
http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/perfil%20sebo.pdf , concluído nesse dia 12 de julho de 1992, foi também dedicado ao centenário de Walter Benjamin, como forma de homenageá-lo como bibliófilo e “descobridor” de cidades em busca de livrarias e, especialmente, como a grande referência que temos pessoalmente em nosso modesto percurso intelectual.