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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Comunicação, arte e cultura na cidade do Rio de Janeiro

Estarei, raro leitor, participando do Seminário Comunicação, arte e cultura na cidade do Rio de Janeiro, no próximo dia 25 de agosto, quarta-feira, conforme indicações acima. Participe.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Niterói, com as chuvas, mostra suas entranhas e sua ‘verdadeira face’

A cidade de Niterói, cuja propaganda oficial fazia crer que tinha se tornado uma cidade de bem-estar e qualidade de vida, com as chuvas que castigam a região metropolitana do Rio de Janeiro, mostrou-se por inteiro. As áreas marginais e a população pobre ou miserável, sempre esquecidas, passaram a primeiro plano. Suas carências e fragilidades, decorrentes do abandono e da exclusão a que foram condenadas pelos sucessivos poderes municipais, estaduais e federais, são expostas em rede nacional.


Vê-se também sua força, resistência e indignação diante da tragédia, anunciada e ignorada.

A indústria da construção civil e a especulação imobiliária têm estado no centro das políticas públicas na cidade, mostrando uma Cidade Sorriso maquiada para vender. Tomamos consciência, todos que amamos Niterói, que ela é também um retrato fiel do país. Vivemos em uma sociedade de abissal desigualdade, injusta, excludente, onde os poderes públicos se voltam primordialmente para aqueles que financiam suas milionárias campanhas e lhes dão sustentação na mídia e na opinião pública.



A calamidade está ainda em curso, mas ela já nos fez mais conscientes da vulnerabilidade e da força populares que existem na cidade. Que o poder da natureza desperte nossas elites e autoridades para suas responsabilidades e o cidadão comum para a solidariedade.


Você conhece Niterói, rara leitora? Está acompanhando o desenrolar da tragédia?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O admirável livreiro Albino Jordão, cego e surdo, nas Memórias da Rua do Ouvidor, de Joaquim Manuel de Macedo

Capítulo XIV:

No Brasil ninguém morre enquanto não morre deveras de moléstia física e desaparecendo na cova do cemitério. Só assim, com esses testemunhos de óbito; porque tem-se visto muita gente moralmente morta, que de um dia para outro reaparece viva, sem que se saiba como, nem porquê. No comércio isso já é trivial, e em política sediço.

(...)

Aquela casa nº 113, ainda do lado esquerdo, acanhada, estreita, mas de três pavimentos, cujo letreiro chamador de fregueses anuncia o Café de Londres, e excelente Restaurant, foi levantada no lugar onde se mostrava a antiga e pequena casa térrea de duas portas, que ainda em 1838 era loja de livros do Albino Jordão.

Lembro sempre dele! Lembro-me da sua modesta loja de livros novos e velhos, de obras encadernadas ou em brochura, que se vendiam ali a barato preço. Em meu tempo de estudante fui freguês do Albino Jordão, e entre outras obras, comprei-lhe as Memórias Históricas de Pizarro e as Memórias para Servir à história do Reino do Brasil, do Padre Luís de Gonçalves dos Santos, por alcunha – o Perereca –, as quais de tanto socorro me têm sido em estudos, como este que estou fazendo.

O Albino Jordão era, quando o conheci, homem já velho, vestindo sempre jaqueta, e desde muito cego e surdo. Contra a cegueira não tinha recurso, que não fossem a memória surpreendente e o tato explicavelmente aprimorado; contra a surdez, que não era completa, absoluta, socorria-se de famosa e tradicional buzina que o fazia ouvir o que os fregueses da loja procuravam.

Albino Jordão tinha dois ajudantes, meninos ou rapazes de quatorze a dezesseis anos, de instrução nula e de pouco zelo: quando eles, porém, não serviam de pronto a algum freguês e demoravam-se, procurando o livro pedido, o cego, levantava-se da sua cadeira, punha a buzina no ouvido, e ciente do que se pedia, ia sempre certeiro e sem nunca enganar-se, tomar o livro na estante e no lugar onde estava, ainda mesmo quando lhe era necessário subir por pequena escada portátil para ir buscá-lo.

Eram na verdade admiráveis a memória, o tato, e o tino que a cegueira apurava naquele velho cego; mas para que pudesse tanto, era só e exclusivamente ele o ordenador, e colocador dos livros nas estantes da sua loja.

Albino Jordão foi, como livreiro, contemporâneo dos notáveis e célebres livreiros Saturnino, João Pedro da Veiga e Evaristo Ferreira da Veiga, filhos do primeiro; mas em sua loja, que não podia rivalizar com a daqueles, vendia em geral obras já usadas, livros em segunda mão, e portanto baratíssimos, e se por isso deve ser tido em conta do primeiro alfarrabista da cidade do Rio de Janeiro, foi de tanto proveito para o público, e de tão sã consciência na sua indústria, que nunca lhe caberia o nome feio que os estudantes do Imperial Colégio de Pedro II deram ao vil belchior de livros velhos estabelecido na vizinhança daquele colégio da Rua de S. Joaquim, nome um pouco obsceno que a princípio se estendeu a todos os chamados hoje alfarrabistas.

A Rua do Ouvidor deve perpetuamente lembrar o seu Albino Jordão, o primeiro livreiro que teve, o precursor, ou antecessor dos Srs. Laemmert, Garnier, e ainda outros, o Albino Jordão, enfim, cuja buzina foi tão famosa, como a tesoura de Mme. Josephine e muito mais útil do que ela, se as minhas Ex.ªs. leitoras permitem que eu assim pense.

In Joaquim Manoel de Macedo, Memórias da Rua do Ouvidor [1878], Biografia, introdução e notas de M. Cavalcanti Proença. Ilustrações de Percy Lau. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1966, p. 165-166.

A pesquisa que desenvolve Gabriel Costa Labanca, mestrando em História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, sobre a história das Edições de Ouro, que tive a satisfação de ver adiantada no recente Exame de Qualificação, me fez nascer a vontade de compartilhar com você, rara leitora, esta obra de Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí, RJ, 1820-Rio de Janeiro, 1882) - o notável autor de A Moreninha -, editada na fase áurea dessa importante editora brasileira de livros de bolso. A obra é uma excelente fonte de nossa história cultural, inclusive em suas referências aos livreiros da rua mais importante de sua época.

Algum de nossos raros leitores certamente leu, por escolha espontânea ou por indicação de seu(sua) professor(a), pelo menos uma edição de bolso publicado pela Tecnoprint no selo Edições de Ouro. Verdade?

Torcemos pelo final do trabalho de Gabriel Labanca, com a segura orientação de Tânia Bessone, que certamente dará ótima contribuição para nossa história editorial.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Real Gabinete Português de Leitura, por Maria Teresa Horta


Tem uma extremada beleza
de madeira e livros
de memórias secretas e lisuras serenas

E um sumptuoso silêncio lírico
feito de versos, leituras e poemas
numa longa linhagem de achamento antigo

Na tessitura de enredo e chama acesa
onde de manso se esconde e desalinha
a urdidura da alma portuguesa

Tem uma rara beleza vinda do passado
que de tanto atravessar a linguagem
ali vai misturar ambos os lados

De Portugal, atado em nós de escrita
ao Brasil, recriando a musa ambígua
a partilhar para sempre a mesma língua.
Lisboa, 23 de agosto de 2008
Foto: INEPAC/RJ
É com este belo poema que a Comissão Organizadora do IV Colóquio do PPRLB – Relações Luso-brasileiras: "D. João VI e o Oitocentismo”, aberto ontem na sede do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, dá as boas-vindas aos seus participantes.
Esta é mais uma realização do Pólo de Pesquisas sobre Relações Luso-brasileiras, que tem à frente a professora Gilda Santos (UFRJ), com a participação de outros professores e pesquisadores de várias universidades brasileiras.

Para saber mais:
http://www.realgabinete.com.br/

terça-feira, 25 de março de 2008

Xavier Placer, 1916, encantou-se



Logo cedo Carlos Mônaco deu a notícia triste. Xavier Placer ficara livre dos sofrimentos terrenos que o acometiam há meses e, ontem, partira. Deixou-nos sua obra e a imagem de homem letrado, digno, avesso a badalações, sério. Deixou um romance inédito.

Membro das Academias Niteroiense e Fluminense de Letras. Foi professor universitário (Uni-Rio) e bibliotecário (Biblioteca Nacional). Dedicava-se à escritura e à leitura em sua bela casa de Pendotiba, onde vivia com a esposa, Da. Margarida.Ultimamente saía de casa por poucos motivos. Ir a livrarias, inclusive à Ideal, um deles.

Deixará vazio um lugar difícil de preencher na vida literária niteroiense. Sua obra e sua vida podem ser um farol para guiar vocações, neste tempo em que o homem letrado não é mais grande aspiração. Coisa para raros.

Rara leitora, convido-a a conhecer um naco da obra de Xavier Placer:


O geômetra



A Flávio & Celio (Moreira Placer)

1
Grande é a noite! Cabem nela
Nebulosas cabe o mar
Ecos coitos e aquela
Desrazão, a do sonhar
A mim, que o caos habitava
Mais me apraz a claridade:
Caçador, ao ombro a aljava
Avançar com agilidade
Colho de pronto evidências
Plurais. Porém as essências
Distingo-as em seu lugar
Colho palavras ao ouvido
Separo cada sentido
Oh volúpia de pensar!

In O geômetra. Niterói: Letras fluminenses, 1992, p. 9


Palavras

Voz, vocábulo, verbo – palavras! Palavras, criaturas vivas. Vivíssimas criaturas. Como as flores, os pássaros, os homens.

Palavras – umas toscas, obscuras, escravas nascidas para os humildes ofícios, dóceis a um gesto; outras, orgulhosas, esbeltas, sugestivas – jovens aloucadas que se esquivam quando lhes acenamos e vêm quando as quiséramos distantes... Aquelas têm o ar nostálgico do adeus, do aperto de mão nas despedidas; estas, a gravidade das sentenças – palavras dos lábios de Ariel, aladas palavras, e pragas de Calibã, com pés de chumbo.

E as que arrebataram ao arco-íris as mais belas tintas? Não se criaram no chão limoso das cavernas tantas outras? Odores esquisitos evolam-se das sílabas de algumas; algumas são cerradas, enxutas, solteironas.

Quantas são feitas de aurora e mel, em oposição a est’outras – negras, espessas, duras, de granito. Amoráveis palavras que têm o polimento dos seixos; e facetadas, espelhantes – cristais partindo-se ou risadas felizes – plásticas e móveis palavras, flamas batidas pelo vento – ardentes e inquietas. As que dizem demais e as que não dizem nada; as companheiras da solidão, dos altos pensamentos, das confissões patéticas. E as que gritam, que rugem e precipitam no céu ou levam ao abismo!
In O navegador solitário. Rio de Janeiro: Margem, 1956, p. 9-10.

Leia mais:
O último livro publicado de Xavier Placer, Poemas, pela Thesaurus Editora, de Brasília, Coleção Livro na Rua, v. 29, disponível para ler e baixar:
Acesse o sítio virtual de Antônio Miranda
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/xavier%20_placer.html

Leia também:

"Xavier Placer. Bibliotecário e escritor. Bibliografia publicada", organizada por Aníbal Bragança
"Literatura de cordel", artigo de Xavier Placer, do livro Imagens da Cidade, 1952.
In Arquivos do E-grupo Cultura Letrada, acesse:
http://groups.google.com/group/cultura-letrada/files
Veja outras fotos de Xavier Placer em:
Da fortuna crítica:

Sobre Xavier Placer, escreveu Otto Maria Carpeaux na apresentação do livro Imagens da cidade:

(...) Chegaram-me de Niterói os originais das Imagens da Cidade, obra de quem já é conhecido como poeta da ficção, tão poeta que não precisa ter receio de escrever em prosa.

Poeta, Xavier Placer é; mas certamente não é poeta no sentido vulgar da palavra. Não é um exaltado que vive em raptos de imaginação meio divina, meio maluca; tampouco uma cabeleira desesperada, candidato permanente ao suicídio. Não é romântico. Muitos menos é burguês disfarçado de romântico. É trabalhador consciencioso. Não improvisa. Não admite a eloqüência fácil. Escreve estilo depurado, dir-se-ia destilado, estilo de essências que mais esconde do que revela os sentimentos subjetivos. Se tem medo de alguma coisa, então será o medo de despir sua alma. Mas sabe revelar as almas das coisas e das casas; as almas das criaturas e das ruas; a alma da cidade.

Não acredito cometer uma indiscreção ao citar os dois poetas que o próprio autor das Imagens da Cidade considera como seus modelos: Aloysius Bertrand e Baudelaire, o Baudelaire do Spleen de Paris. São os criadores do poema em prosa. Mas não criaram o assunto. (...)

O Rio de Janeiro que existe dentro deste livro não é apenas a cidade maior e mais típica do Brasil; é a imagem fiel de todas as cidades brasileiras, sobretudo das provincianas e inclusive do Rio de Janeiro provinciano que já se foi. É, talvez, a imagem de todas as cidades provincianas do mundo cujo provincianismo está agonizando. (...)


Contudo, a poesia não admite as generalidades; uma suprema lei lhe manda ficar, sempre, concreta. Daí nosso autor não inventou uma cidade nas nuvens. Seu Rio de Janeiro existe. Até Niterói existe. Voltamos para a terra, ou antes, para as águas onipresentes desta nossa terra. A paisagem inconfundível das Imagens da Cidade é a baía de Guanabara.
(...)


Muitas vezes já repeti, para mim, essa confissão comovida. Hoje também, num domingo longe da Guanabara e das suas belezas tantas vezes cantadas com acentos tão falsos, digo aquelas palavras, de olhos fechados para ver, para ver as imagens da cidade. Nunca mais as esquecerei, enquanto esses olhos não se fecharem para sempre. Carioca como sou, não admitindo a independência de Niterói, anexei para a minha cidade o autor das Imagens da Cidade, meu amigo Xavier Placer. (...)