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domingo, 17 de junho de 2012
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Uma vida luminosa dedicada aos livros: José Mindlin (8/9/1914-28/2/2010)
Foto de Bruno Dorigatti/Lihed, 2004.
A notícia entristece seus familiares, amigos e também todos os que amam os livros. José Mindlin faleceu hoje. Deixa aberta uma vaga na Academia Brasileira de Letras e uma carreira exemplar, na qual sua relação amorosa com os livros foi um traço marcante, superando certamente os do advogado e empresário, bem sucedidos.
Cleber Teixeira, na apresentação que faz do autor de Memórias Esparsas de uma Biblioteca, publicado em 2004 pelo Escritório do Livro (Florianópolis-SC) em co-edição com a Imprensa Oficial (SP), lançado no Rio de Janeiro durante o I Seminário Brasileiro Livro e História Editorial (I Lihed), na Casa de Rui Barbosa (foto acima), afirma: ‘José Mindlin é, e será para sempre, uma referência, um ponto luminoso, um exemplo estimulante de interesse pelos livros, pelas artes gráficas, pelo documento histórico e literário; por tudo, enfim, que faz do leitor comum um bibliófilo’.
Amigo de Mindlin, editor da Noa-Noa, poeta, tradutor e também bibliófilo, Cleber Teixeira, inclui no seu texto algumas histórias de Mindlin e de outros bibliófilos e de suas relações afetivas com os livros, além de apresentar o livro em que seu amigo fala ‘da formação de sua biblioteca, fruto de uma paixão correspondida pelos livros, de um esforço bem sucedido de formação de uma acervo fabuloso, hoje privado mas que por iniciativa da família Mindlin deverá ocupar um prédio próprio no campus da USP’. Sobre esta iniciativa saiba mais em http://www.brasiliana.usp.br/bbm_historia
Além da obra citada, Mindlin publicou, dentre outros, José conta suas histórias/Grupo Verde, Edusc/Imprensa Oficial, 2000, No mundo dos livros, Agir, 2009, além de artigos e prefácios, sendo sua obra fundamental: Uma vida entre livros, Reencontros com o tempo, uma belíssima edição, publicada em 1997, em co-edição Edusp com Companhia das Letras. A Edusp publicou também José Mindlin, Editor, organizado por Tereza Kikuchi, também lançado no I Lihed em 2004, acompanhado de um DVD contendo uma entrevista concedida à mesma Tereza, ambos fontes importantes para se conhecer algumas das atividades de Mindlin em favor da cultura letrada brasileira.
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domingo, 17 de agosto de 2008
Nicolau Sevcenko, O vampiro de polpa ou confissões de um leitor compulsivo (conclusão)
(...)
Um travo persistente ficou, no entanto, da minha infância mergulhada nos livros. Todos os adultos costumavam se referir, com freqüência, a um diário que meu avô sempre trazia consigo e anotava sem parar. Explicavam que era uma espécie de caderno, com capa de couro preto e detalhes dourados. Procurei sem cessar esse livro misterioso, mas não o encontrava nunca.
Sondei os livros que ficaram de posse dos meus tios e tias., igualmente sem sucesso. O que em particular me excitava nessa busca era encontrar detalhes de uma vida cheia de experiências, as mais extraordinárias.
Nas suas atribuições militares, meu avô lutou na Primeira Guerra, na Revolução e na Guerra Civil. Por isso mesmo é que ele acabou desencadeando o destino sinistro e o exílio da nossa família.
Os detalhes de como isso tudo se deu eram obscuros e os adultos se recusavam terminantemente a evocar e relatar experiências que os marcaram com intensidade traumática. Como conseqüência, meu sentido de origem e minha própria identidade ficavam perturbadoramente turvados. Só o diário, e com ele as devidas explicações, é que poderia trazer paz ao meu espírito.
Aconteceu então, há três anos atrás, de falecer um vizinho nosso, o senhor Vitalin, membro da comunidade, que viera como refugiado com meu avô, de quem era amigo dileto. Ele também deixou uma grande coleção de livros como legado, de que a família queria se desfazer. O que me chamou a atenção e me deixou excitado. A agitação aumentou muito quando me falaram que ele costumava trocar livros com meu avô e, na verdade, havia ficado com boa parte da sua coleção. Uau! O coração bateu forte, será que...? Corri para lá.
Me puz a percorrer os livros com as mãos tremendo. O mesmo padrão da coleção do meu avô: livros antigos, encapados, várias origens, muitas línguas diferentes. Até que, sim, eureka!
Lá estava o diário, exatamente como havia sido descrito, todo anotado com a letrinha miúda e elegante, que eu identificava com a dos manuscritos de meu avô. Levei-o para casa, um enorme esforço de decifração e um desconsolo frustrante. Como havia estudando durante algum tempo num velho mosteiro ortodoxo, nas estepes geladas da Carélia e desejando com certeza garantir a privacidade de seu diário, ele escrevera suas notas em eslavônico antigo.
Essa era uma língua morta, usada apenas pela Igreja Ortodoxa, tornada literária pelos bispos Cirilo e Metódio no século 9º e praticamente abolida após a Revolução. O diário enfim existia, mas era ilegível. O que tornou ainda mais exasperante meu tormento.
Tanto amolei e insisti com o padre da nossa paróquia, até que ele conseguiu me localizar um ancião ainda capaz de ler naquela língua extinta. Ele me apresentou o senhor Gabril, a quem pedi a benção, beijei-lhe a mão e estendi o livro. Ajustando um grosso par de óculos com as mãos trêmulas, quase tanto quanto as minhas, ele examinou longamente o volume no mais absoluto silêncio.
Folheava e lia, para frente e para trás, demorando-se longamente com o dedo a correr sobre as páginas amareladas. Depois de horas, quando minha paciência já estava ensaiando um colapso, ele se pronunciou: “São livros!”
Confuso, perguntei o que ele queria dizer com aquilo. O senhor Gabril explicou então calmamente. “São comentários sobre livros sagrados, pensamentos sobre os mistérios da Igreja e da alma, tal como estabelecidos pelos mestre da Santa Fé Ortodoxa”.
Passada a decepção inicial, fui desde então adquirindo uma tranqüilidade há muito ansiada. Afinal, a orientação que meu avô dera ao curso de suas ações foi fruto de convicções adquiridas na prática persistente da leitura. Se eu quisesse conhecê-lo, deveria ser através de seus livros. Assim também minhas origens, minha identidade e meu destino, repousavam naquela tradição escrita que eu, na minha vida, ampliei, multipliquei e diversifiquei com meu próprio repertório de leituras.
O nexo com meus ancestrais ficou assim reestabelecido pela cadeia dos livros. Quando criança, eu usava os livros em pilhas para construir castelo. Agora eu sinto que moro dentro de suas páginas.
Nicolau Sevcenko, “O vampiro de polpa ou confissões de um leitor compulsivo”, in Livro Aberto, ano I, nº 1, S. Paulo, agosto 1996, p. 22-23.
[Leia a primeira parte do texto, neste blog, na postagem do dia 2/8/2008]
Raro leitor, Henrique Chaudon, poeta de Confissões a Baco, aqui está a segunda parte do artigo de Sevcenko, atendendo a seu interesse de leitura. Admiro muito o autor, um historiador brasileiro que tem oferecido excelentes contribuições bibliográficas ao país, como pesquisador da sua cultura. Quem sabe, em sua próxima visita à livraria, ao sebo ou à biblioteca, irá encontrar alguma de suas obras. Vale a pena conferir. Obrigado pela sua participação no blog, sempre enriquecedora.
Um travo persistente ficou, no entanto, da minha infância mergulhada nos livros. Todos os adultos costumavam se referir, com freqüência, a um diário que meu avô sempre trazia consigo e anotava sem parar. Explicavam que era uma espécie de caderno, com capa de couro preto e detalhes dourados. Procurei sem cessar esse livro misterioso, mas não o encontrava nunca.
Sondei os livros que ficaram de posse dos meus tios e tias., igualmente sem sucesso. O que em particular me excitava nessa busca era encontrar detalhes de uma vida cheia de experiências, as mais extraordinárias.
Nas suas atribuições militares, meu avô lutou na Primeira Guerra, na Revolução e na Guerra Civil. Por isso mesmo é que ele acabou desencadeando o destino sinistro e o exílio da nossa família.
Os detalhes de como isso tudo se deu eram obscuros e os adultos se recusavam terminantemente a evocar e relatar experiências que os marcaram com intensidade traumática. Como conseqüência, meu sentido de origem e minha própria identidade ficavam perturbadoramente turvados. Só o diário, e com ele as devidas explicações, é que poderia trazer paz ao meu espírito.
Aconteceu então, há três anos atrás, de falecer um vizinho nosso, o senhor Vitalin, membro da comunidade, que viera como refugiado com meu avô, de quem era amigo dileto. Ele também deixou uma grande coleção de livros como legado, de que a família queria se desfazer. O que me chamou a atenção e me deixou excitado. A agitação aumentou muito quando me falaram que ele costumava trocar livros com meu avô e, na verdade, havia ficado com boa parte da sua coleção. Uau! O coração bateu forte, será que...? Corri para lá.
Me puz a percorrer os livros com as mãos tremendo. O mesmo padrão da coleção do meu avô: livros antigos, encapados, várias origens, muitas línguas diferentes. Até que, sim, eureka!
Lá estava o diário, exatamente como havia sido descrito, todo anotado com a letrinha miúda e elegante, que eu identificava com a dos manuscritos de meu avô. Levei-o para casa, um enorme esforço de decifração e um desconsolo frustrante. Como havia estudando durante algum tempo num velho mosteiro ortodoxo, nas estepes geladas da Carélia e desejando com certeza garantir a privacidade de seu diário, ele escrevera suas notas em eslavônico antigo.
Essa era uma língua morta, usada apenas pela Igreja Ortodoxa, tornada literária pelos bispos Cirilo e Metódio no século 9º e praticamente abolida após a Revolução. O diário enfim existia, mas era ilegível. O que tornou ainda mais exasperante meu tormento.
Tanto amolei e insisti com o padre da nossa paróquia, até que ele conseguiu me localizar um ancião ainda capaz de ler naquela língua extinta. Ele me apresentou o senhor Gabril, a quem pedi a benção, beijei-lhe a mão e estendi o livro. Ajustando um grosso par de óculos com as mãos trêmulas, quase tanto quanto as minhas, ele examinou longamente o volume no mais absoluto silêncio.
Folheava e lia, para frente e para trás, demorando-se longamente com o dedo a correr sobre as páginas amareladas. Depois de horas, quando minha paciência já estava ensaiando um colapso, ele se pronunciou: “São livros!”
Confuso, perguntei o que ele queria dizer com aquilo. O senhor Gabril explicou então calmamente. “São comentários sobre livros sagrados, pensamentos sobre os mistérios da Igreja e da alma, tal como estabelecidos pelos mestre da Santa Fé Ortodoxa”.
Passada a decepção inicial, fui desde então adquirindo uma tranqüilidade há muito ansiada. Afinal, a orientação que meu avô dera ao curso de suas ações foi fruto de convicções adquiridas na prática persistente da leitura. Se eu quisesse conhecê-lo, deveria ser através de seus livros. Assim também minhas origens, minha identidade e meu destino, repousavam naquela tradição escrita que eu, na minha vida, ampliei, multipliquei e diversifiquei com meu próprio repertório de leituras.
O nexo com meus ancestrais ficou assim reestabelecido pela cadeia dos livros. Quando criança, eu usava os livros em pilhas para construir castelo. Agora eu sinto que moro dentro de suas páginas.
Nicolau Sevcenko, “O vampiro de polpa ou confissões de um leitor compulsivo”, in Livro Aberto, ano I, nº 1, S. Paulo, agosto 1996, p. 22-23.
[Leia a primeira parte do texto, neste blog, na postagem do dia 2/8/2008]
Raro leitor, Henrique Chaudon, poeta de Confissões a Baco, aqui está a segunda parte do artigo de Sevcenko, atendendo a seu interesse de leitura. Admiro muito o autor, um historiador brasileiro que tem oferecido excelentes contribuições bibliográficas ao país, como pesquisador da sua cultura. Quem sabe, em sua próxima visita à livraria, ao sebo ou à biblioteca, irá encontrar alguma de suas obras. Vale a pena conferir. Obrigado pela sua participação no blog, sempre enriquecedora.
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domingo, 3 de agosto de 2008
Graham Greene, Sebos
Não sei como Freud os teria interpretado, mas por mais de trinta anos os meus melhores sonhos têm sido com os sebos: sebos antes desconhecidos para mim, ou sebos familiares, os quais estou visitando novamente. São estes últimos, os familiares, que certamente não existiram nunca: cheguei com relutância a esta conclusão. Tenho lembranças nítidas de um sebo não distante da Gare du Nord, em Paris, no fim de um comprida rua que sobe um morro, uma loja funda, com prateleiras altas (tive de usar uma escada para chegar ao alto delas).
Em duas ocasiões, pelo menos, vasculhei essas prateleiras (foi ali que eu sonhei que comprava a tradução de Funny Hill por Apollinaire), mas quando a guerra acabou, procurei esse sebo em vão. É claro, a loja poderia ter desaparecido, mas nem mesmo a rua existia. E havia uma outra loja, em Londres, que surgia com freqüência nos meus sonhos; lembro-me claramente de sua fachada, mas não do seu interior. Ficava em algum ponto da região por trás de Charlotte Street, antes de se chegar a Euston Road. Nunca entrei nesse sebo. Sempre acordava desses sonhos com um sentimento de felicidade e expectativa.
Durante vários períodos de minha vida mantive um diário dos meus sonhos, e as minhas anotações para este ano (1972) mostram, nos sete primeiros meses, seis sonhos com sebos. Curiosamente, pela primeira vez não foi um sonho agradável, talvez porque a companhia amada, com quem eu costumava percorrer as livrarias, e com quem comecei a organizar, logo depois da guerra, uma coleção de romances policiais vitorianos, tivesse morrido em fins de 1971.
Assim, nos sonhos deste ano, um velho livro sobre estradas de ferro, que eu estava planejando oferecer ao meu amigo John Sutro como presente de Natal (ele havia fundado o Clube Ferroviário em Oxford), quando eu o retirava da prateleira, tinha perdido metade da capa: até mesmo os velhos exemplares com capa vermelha, da coleção Nelson (tão inexplicavelmente criticados por George Orwell, mas que adoro ter quando as primeiras edições são demasiado caras) acabavam sendo, todos eles, exemplares mutilados. Nada, em todos esses sonhos, parece ter qualidade suficientemente boa para ser comprado.
As recordações de meu amigo David Low como livreiro estimularam os meus pensamentos para que vagassem, não só em relação aos sonhos, mas também às pequenas aventuras e amizades de cinqüenta anos de freqüência às livrarias. (Aos dezessete anos, comecei a freqüentar Charing Cross Road, onde hoje, infelizmente, poucas vezes me dou ao trabalho de ir).
Os vendedores de livros usados estão entre os mais cordiais e mais excêntricos que já conheci. Se eu não fosse escritor, essa teria sido a profissão que eu teria maior prazer em exercer.
Há o cheiro de mofo dos livros, e há a sensação de caça ao tesouro. Por isso prefiro as livrarias mal organizadas, onde a Topografia está misturada com a Astronomia, e a Teologia com a Geologia, e montes de livros não identificados enchem a escada para uma sala com a indicação de viagem, que bem pode conter um dos meus Conan Doyles favoritos, O Mundo Perdido, ou A Tragédia do Korosko. (...)
Para entrar de maneira adequada nesse mundo mágico do acaso e da aventura, é preciso ser um colecionador ou, então, um livreiro. Eu teria preferido ser livreiro, mas perdi a oportunidade durante a guerra. (...) Cole, que na época era um “procurador” de livros para terceiros (...) levou-me certa vez para conhecer seu quarto, e lembro-me dos livros velhos empilhados por toda parte, até mesmo debaixo da cama, e concordamos que, se sobrevivêssemos ambos à guerra, abriríamos um livraria juntos. Fui para a África Ocidental com um emprego diferente, e perdemos contato. Eu havia perdido a minha única oportunidade vir a ser proprietário de um sebo.
Tornar-se colecionador é mais fácil. Não importa o que se coleciona, o importante é começar. É a excitação da caça, as personagens que encontramos, os amigos que fazemos. Quando eu era adolescente, tinha a minha primeira sensação de colecionador ao comprar livros sobre a exploração da Antártida – o Ártico não me interessava. (...)
Continuo colecionado romances policiais vitorianos: muitos deles encontrei na década de 1940 na livraria Foyle’s, a meia coroa cada, muito embora John Carter tivesse dez anos antes, produzido seu famoso catálogo Scribner’s, que deveria ter despertado o interesse de colecionadores por toda parte.
Para o colecionador, o valor de uma coleção está menos em sua importância do que na excitação da caça, e aos estranhos lugares a que ela por vezes leva. Muito recentemente, com meu irmão Hugh, cuja coleção de romances policiais vai desde a época vitoriana até 1914, de modo que geralmente saíamos os dois à caça, eu fui, debaixo de uma chuva torrencial, aos subúrbios de Leeds, uma área decadente, que poderia ter sido parte de um documentário de Grierson sobre a depressão.
A livraria que procurávamos tinha sido incluída num catálogo sério, mas nele acreditávamos cada vez menos, quanto mais nos molhávamos, entre fábricas abandonadas. Mas quando chegamos, era fora de dúvida que a livraria tinha existido, pois havia uma tabuleta com os dizeres “...vraria” sobre uma porta fora do lugar, todas as janelas estavam quebradas e o chão estava misteriosamente cheio de livros infantis e sapatos, sapatos bons, além disso. (...) Cenas como esta, e a descoberta de novos bares e de cervejas que não conhecíamos, são algumas das recompensas do rato de livraria. (...)
Gostaria que David Low tivesse incluído um obituário das mortes causadas por bombas ou pelas novas construções. Desapareceu, por exemplo, o sebo que eu amava em Westbourne Grove, e desapareceu a pequena livraria no ponto triangular em frente à estaça de King’s Cross, onde comprei The Adventures e The Memories of Sherlock Holmes, em suas primeiras edições, pelo então preço exorbitante de cinco libras. É esse o lado triste da caça aos livros, pois é maior o número de livrarias que fecham do que de livrarias que abrem. (...)
Graham Greene, Introdução a With All Faults, de David Low, 1973, in Reflexões, Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 278-282.
Este texto, raro leitor, mostra obviamente as aproximações possíveis das funções do escritor com as experiências do leitor e do livreiro. Aqui a alternativa não se coloca entre o ser escritor ou ser leitor, mas entre ser escritor ou ser livreiro. O mundo do livro é cheio de veias e vielas que ligam todos os seus personagens e seus agentes. O mundo dos sebos é talvez ainda mais rico, pelo que envolve de ambiente de caça, colecionismo, generosidade e cupidez, bem explorados nos romances policiais de John Dunning, editados aqui pela Cia. das Letras, em especial no Edições perigosas. Se quiser conhecer outro tipo de abordagem, mais acadêmico, recomendo que leia o trabalho O consumidor de livros de segunda mão. Perfil do cliente dos sebos, disponível em http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/anibal.html .
Graham Greene é um de meus escritores preferidos. Dentre outros, seu Coração da matéria tocou-me profundamente. Li-o em edição da hoje extinta Gráfica Record, cujos exemplares se podem encontrar no Estante Virtual até por 5 reais!
É pena que o interesse pela obra de Greene tenha decaído, especialmente após seu falecimento em 1991. Outro livro seu inesquecível é O poder e a glória, ambientado na revolução mexicana, que li numa tradução de Mário Quintana publicada pela Globo, de 1959.
A releitura deste texto de Greene me trouxe à memória, com alegria, o filme “Nunca te vi... sempre te amei”, baseado no livro de Helene Hanff, 84 Charing Cross Road, editado no Brasil pela Casa Maria & LTC, em 1988, sobre a relação entre a jovem escritora (Anne Bancroft) e um livreiro (Anthony Hopkins) cuja loja se situava na famosa rua citada por Greene.
Se gosta de livros, especialmente, de edições antigas, rara leitora, certamente gostará de ver este belo filme. Pegue-o numa videolocadora e aproveite.
Para saber mais sobre Graham Greene e talvez se animar a ler suas obras:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Graham_Greene
http://en.wikipedia.org/wiki/Graham_Greene (em inglês)
Em duas ocasiões, pelo menos, vasculhei essas prateleiras (foi ali que eu sonhei que comprava a tradução de Funny Hill por Apollinaire), mas quando a guerra acabou, procurei esse sebo em vão. É claro, a loja poderia ter desaparecido, mas nem mesmo a rua existia. E havia uma outra loja, em Londres, que surgia com freqüência nos meus sonhos; lembro-me claramente de sua fachada, mas não do seu interior. Ficava em algum ponto da região por trás de Charlotte Street, antes de se chegar a Euston Road. Nunca entrei nesse sebo. Sempre acordava desses sonhos com um sentimento de felicidade e expectativa.
Durante vários períodos de minha vida mantive um diário dos meus sonhos, e as minhas anotações para este ano (1972) mostram, nos sete primeiros meses, seis sonhos com sebos. Curiosamente, pela primeira vez não foi um sonho agradável, talvez porque a companhia amada, com quem eu costumava percorrer as livrarias, e com quem comecei a organizar, logo depois da guerra, uma coleção de romances policiais vitorianos, tivesse morrido em fins de 1971.
Assim, nos sonhos deste ano, um velho livro sobre estradas de ferro, que eu estava planejando oferecer ao meu amigo John Sutro como presente de Natal (ele havia fundado o Clube Ferroviário em Oxford), quando eu o retirava da prateleira, tinha perdido metade da capa: até mesmo os velhos exemplares com capa vermelha, da coleção Nelson (tão inexplicavelmente criticados por George Orwell, mas que adoro ter quando as primeiras edições são demasiado caras) acabavam sendo, todos eles, exemplares mutilados. Nada, em todos esses sonhos, parece ter qualidade suficientemente boa para ser comprado.
As recordações de meu amigo David Low como livreiro estimularam os meus pensamentos para que vagassem, não só em relação aos sonhos, mas também às pequenas aventuras e amizades de cinqüenta anos de freqüência às livrarias. (Aos dezessete anos, comecei a freqüentar Charing Cross Road, onde hoje, infelizmente, poucas vezes me dou ao trabalho de ir).
Os vendedores de livros usados estão entre os mais cordiais e mais excêntricos que já conheci. Se eu não fosse escritor, essa teria sido a profissão que eu teria maior prazer em exercer.
Há o cheiro de mofo dos livros, e há a sensação de caça ao tesouro. Por isso prefiro as livrarias mal organizadas, onde a Topografia está misturada com a Astronomia, e a Teologia com a Geologia, e montes de livros não identificados enchem a escada para uma sala com a indicação de viagem, que bem pode conter um dos meus Conan Doyles favoritos, O Mundo Perdido, ou A Tragédia do Korosko. (...)
Para entrar de maneira adequada nesse mundo mágico do acaso e da aventura, é preciso ser um colecionador ou, então, um livreiro. Eu teria preferido ser livreiro, mas perdi a oportunidade durante a guerra. (...) Cole, que na época era um “procurador” de livros para terceiros (...) levou-me certa vez para conhecer seu quarto, e lembro-me dos livros velhos empilhados por toda parte, até mesmo debaixo da cama, e concordamos que, se sobrevivêssemos ambos à guerra, abriríamos um livraria juntos. Fui para a África Ocidental com um emprego diferente, e perdemos contato. Eu havia perdido a minha única oportunidade vir a ser proprietário de um sebo.
Tornar-se colecionador é mais fácil. Não importa o que se coleciona, o importante é começar. É a excitação da caça, as personagens que encontramos, os amigos que fazemos. Quando eu era adolescente, tinha a minha primeira sensação de colecionador ao comprar livros sobre a exploração da Antártida – o Ártico não me interessava. (...)
Continuo colecionado romances policiais vitorianos: muitos deles encontrei na década de 1940 na livraria Foyle’s, a meia coroa cada, muito embora John Carter tivesse dez anos antes, produzido seu famoso catálogo Scribner’s, que deveria ter despertado o interesse de colecionadores por toda parte.
Para o colecionador, o valor de uma coleção está menos em sua importância do que na excitação da caça, e aos estranhos lugares a que ela por vezes leva. Muito recentemente, com meu irmão Hugh, cuja coleção de romances policiais vai desde a época vitoriana até 1914, de modo que geralmente saíamos os dois à caça, eu fui, debaixo de uma chuva torrencial, aos subúrbios de Leeds, uma área decadente, que poderia ter sido parte de um documentário de Grierson sobre a depressão.
A livraria que procurávamos tinha sido incluída num catálogo sério, mas nele acreditávamos cada vez menos, quanto mais nos molhávamos, entre fábricas abandonadas. Mas quando chegamos, era fora de dúvida que a livraria tinha existido, pois havia uma tabuleta com os dizeres “...vraria” sobre uma porta fora do lugar, todas as janelas estavam quebradas e o chão estava misteriosamente cheio de livros infantis e sapatos, sapatos bons, além disso. (...) Cenas como esta, e a descoberta de novos bares e de cervejas que não conhecíamos, são algumas das recompensas do rato de livraria. (...)
Gostaria que David Low tivesse incluído um obituário das mortes causadas por bombas ou pelas novas construções. Desapareceu, por exemplo, o sebo que eu amava em Westbourne Grove, e desapareceu a pequena livraria no ponto triangular em frente à estaça de King’s Cross, onde comprei The Adventures e The Memories of Sherlock Holmes, em suas primeiras edições, pelo então preço exorbitante de cinco libras. É esse o lado triste da caça aos livros, pois é maior o número de livrarias que fecham do que de livrarias que abrem. (...)
Graham Greene, Introdução a With All Faults, de David Low, 1973, in Reflexões, Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 278-282.
Este texto, raro leitor, mostra obviamente as aproximações possíveis das funções do escritor com as experiências do leitor e do livreiro. Aqui a alternativa não se coloca entre o ser escritor ou ser leitor, mas entre ser escritor ou ser livreiro. O mundo do livro é cheio de veias e vielas que ligam todos os seus personagens e seus agentes. O mundo dos sebos é talvez ainda mais rico, pelo que envolve de ambiente de caça, colecionismo, generosidade e cupidez, bem explorados nos romances policiais de John Dunning, editados aqui pela Cia. das Letras, em especial no Edições perigosas. Se quiser conhecer outro tipo de abordagem, mais acadêmico, recomendo que leia o trabalho O consumidor de livros de segunda mão. Perfil do cliente dos sebos, disponível em http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/anibal.html .
Graham Greene é um de meus escritores preferidos. Dentre outros, seu Coração da matéria tocou-me profundamente. Li-o em edição da hoje extinta Gráfica Record, cujos exemplares se podem encontrar no Estante Virtual até por 5 reais!
É pena que o interesse pela obra de Greene tenha decaído, especialmente após seu falecimento em 1991. Outro livro seu inesquecível é O poder e a glória, ambientado na revolução mexicana, que li numa tradução de Mário Quintana publicada pela Globo, de 1959.
A releitura deste texto de Greene me trouxe à memória, com alegria, o filme “Nunca te vi... sempre te amei”, baseado no livro de Helene Hanff, 84 Charing Cross Road, editado no Brasil pela Casa Maria & LTC, em 1988, sobre a relação entre a jovem escritora (Anne Bancroft) e um livreiro (Anthony Hopkins) cuja loja se situava na famosa rua citada por Greene.
Se gosta de livros, especialmente, de edições antigas, rara leitora, certamente gostará de ver este belo filme. Pegue-o numa videolocadora e aproveite.
Para saber mais sobre Graham Greene e talvez se animar a ler suas obras:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Graham_Greene
http://en.wikipedia.org/wiki/Graham_Greene (em inglês)
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sábado, 2 de agosto de 2008
Nicolau Sevcenko, O vampiro de polpa ou confissões de um leitor compulsivo
Eu praticamente nasci no meio dos livros. Desde que me lembro, a vista que se descortinava à frente do meu berço era a de uma estante repleta. Meu avô tinha uma grande coleção de livros, muitos antigos, alguns modernos, quase todos com encadernação costurada e capa dura. Eles compunham uma grnde coleção, que foi se dispersando à medida que seus seis filhos se casavam, levando cada qual um lote de herança. Havia livros nas estantes, em baús e empilhados no porão da casa. Eu e meu irmão costumávamos brincar com eles, construindo castelos e fortes, que acabavam desmoronando no meio das batalhas.
Uma das minhas avós tinha uma outra coleção gigantesca, que se manteve completa por mais tempo e com a qual eu pude conviver em gozo de maior intimidade. Tanto esses como os do meu avô eram livros estranhos, em várias línguas e caracteres exóticos: russos, alemães, ingleses, lituanos, estonianos, poloneses, franceses, italianos, finlandeses, suecos, americanos, cadadenses, argentinos, brasileiros.
Formavam um repertório geográfico que indicava a trajetória errática da minha família de refugiados, morando um pouco em cada canto do mundo e fugindo cada vez que a história, em versões de tragéida, ameçava chegar-lhes outra vez aos calcanhares, ou melhor, aos pescoços. Sempre que partiam, arrastavam seus baús cheios de livros, a cada viagem mais numerosos.
De forma que, seja por força do hábito, pela atração da curiosidade ou por compulsão atávica, acabei desenvolvendo uma fixação descontrolada pelos livros. Não é que eu não consiga dormir sem antes ler, eu não durmo se não houver a imagem de uma estante cheia na minha frente. Em hotéis, uso o truque de pregar um pôster de estante de livros diante da cama.
Leio na sala, na cozinha, no banheiro. Não desgrudo do livro durante as três referições, enquanto escovo os dentes ou quando paro o carro num farol. Me tornei professor não porque li muitos livros, na verdade optei pela profissão sabendo que ela me forçaria a ler mais ainda. Detesto telefone, campainha ou passarinho porque me interrompem a leitura. Meu melhor presente foi quando meu amigo Roney me deu um livro todo plastificado – para que eu pudesse ler no chuveiro.
Não que a leitura seja um prazer! Todo mundo sabe a concentração desgastante e exaustiva que ela exige, proporcionando quanto muito uma satisfação oblíqua, que não contempla jamais as solicitações do corpo. A gratificação dos livros provém sobretudo de um expansão da imaginação e da experiência preciosa de se sentir aprendendo a manejar com autonomia os recursos da linguagem e do pensamento. O que ademais nos liberta das constrições das doutrinas e das idéias feitas, e não é pouco.
É essa sensação extra de liberdade, crescimento e autoconfiança que os livros transmitem, acrescentando cada nova geração com o melhor das experiências das anteriores e difundindo entre os leitores a coesão afetiva de compartilhar um fundo comum de sabedoria, respeito e generosidade.
É por isso, acredito eu, que os livros tendem a se tornar aditivos. A cada um que você lê, deseja outros e mais outros, sempre em doses crescentes em quantidade, concentração e duração do efeito.
Nesse sentido, o livro é, literalmente, uma droga. Benigna contudo, nos melhores casos. Daí a injustiça de se identificar os leitores obsessivos com ratos de biblioteca ou com corujas togadas.
Nem roedores nem rapinantes, os leitores compulsivos ficariam melhor retratados como vampiros de polpa, o que lhes reconheceria um resíduo de humanidade, ainda que sufocada pela maldição que os monstrifica e força a viver no pó e nas trevas, sob um pálido foco de luz. Mas cuidado! Como sua mordida contamina, transmitindo o mal, em caso de ele se aproximar, não hesite em afugentá-lo mostrando dois controles remotos sobrepostos em forma de cruz.
(...)
In revista Livro Aberto, S. Paulo: Editora Cone Sul, ano 1, nº 1, agosto/setembro de 1996, p. 22-23.
Dando continuidade à vã pretensão de resgatar textos importantes que ficaram “depositados” em impressos hoje pouco acessíveis, divulgamos hoje parte deste texto publicado no primeiro número da revista editada por José de Mello Junior, dedicada à 14ª Bienal Internacional do Livro, realizada em S. Paulo, de 13 a 25 de agosto de 1996. A revista, extinta depois de alguns excelentes números, deixou saudade.
A Bienal, entretanto, continua firme e terá sua 20ª edição nos próximos dias 14 a 24 deste mês, agora no Pavilhão de Exposições do Anhembi, na mesma São Paulo, cidade que a viu nascer. A realização é da Câmara Brasileira do Livro www.cbl.org.br.
Saiba mais:
www.bienaldolivrosp.com.br
Ao trazer à circulação, agora no mundo virtual, este excerto de Nicolau Sevcenko, o que pode ser, creio, considerado um presente para o nosso raro leitor, também o registro é motivado pelo apreço que merece o historiador paulista, professor titular da Universidade de São Paulo, cuja obra é, por todos os sentidos, admirável. Certamento seu livro Literatura como missão. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República, centrado na análise da obra e do tempo de Euclydes da Cunha e de Lima Barreto terá sido um dos mais inteligentes e bem escritos livros que tive o privilégio de ler nos últimos anos, ainda na primeira edição, da Brasiliense, de 1983. Sevcenko publicou outros livros, dos quais se devem destacar Orfeu Extático na Metrópole, 1992, Corrida para o século XXI, 2001, História da Vida Privada no Brasil, vol. 3, do qual foi co-organizador. Todos pela Cia. das Letras, que reeditou também o Literatura como missão.
Você, raro leitor, o que acha de ter acesso à segunda parte do texto acima?
Uma das minhas avós tinha uma outra coleção gigantesca, que se manteve completa por mais tempo e com a qual eu pude conviver em gozo de maior intimidade. Tanto esses como os do meu avô eram livros estranhos, em várias línguas e caracteres exóticos: russos, alemães, ingleses, lituanos, estonianos, poloneses, franceses, italianos, finlandeses, suecos, americanos, cadadenses, argentinos, brasileiros.
Formavam um repertório geográfico que indicava a trajetória errática da minha família de refugiados, morando um pouco em cada canto do mundo e fugindo cada vez que a história, em versões de tragéida, ameçava chegar-lhes outra vez aos calcanhares, ou melhor, aos pescoços. Sempre que partiam, arrastavam seus baús cheios de livros, a cada viagem mais numerosos.
De forma que, seja por força do hábito, pela atração da curiosidade ou por compulsão atávica, acabei desenvolvendo uma fixação descontrolada pelos livros. Não é que eu não consiga dormir sem antes ler, eu não durmo se não houver a imagem de uma estante cheia na minha frente. Em hotéis, uso o truque de pregar um pôster de estante de livros diante da cama.
Leio na sala, na cozinha, no banheiro. Não desgrudo do livro durante as três referições, enquanto escovo os dentes ou quando paro o carro num farol. Me tornei professor não porque li muitos livros, na verdade optei pela profissão sabendo que ela me forçaria a ler mais ainda. Detesto telefone, campainha ou passarinho porque me interrompem a leitura. Meu melhor presente foi quando meu amigo Roney me deu um livro todo plastificado – para que eu pudesse ler no chuveiro.
Não que a leitura seja um prazer! Todo mundo sabe a concentração desgastante e exaustiva que ela exige, proporcionando quanto muito uma satisfação oblíqua, que não contempla jamais as solicitações do corpo. A gratificação dos livros provém sobretudo de um expansão da imaginação e da experiência preciosa de se sentir aprendendo a manejar com autonomia os recursos da linguagem e do pensamento. O que ademais nos liberta das constrições das doutrinas e das idéias feitas, e não é pouco.
É essa sensação extra de liberdade, crescimento e autoconfiança que os livros transmitem, acrescentando cada nova geração com o melhor das experiências das anteriores e difundindo entre os leitores a coesão afetiva de compartilhar um fundo comum de sabedoria, respeito e generosidade.
É por isso, acredito eu, que os livros tendem a se tornar aditivos. A cada um que você lê, deseja outros e mais outros, sempre em doses crescentes em quantidade, concentração e duração do efeito.
Nesse sentido, o livro é, literalmente, uma droga. Benigna contudo, nos melhores casos. Daí a injustiça de se identificar os leitores obsessivos com ratos de biblioteca ou com corujas togadas.
Nem roedores nem rapinantes, os leitores compulsivos ficariam melhor retratados como vampiros de polpa, o que lhes reconheceria um resíduo de humanidade, ainda que sufocada pela maldição que os monstrifica e força a viver no pó e nas trevas, sob um pálido foco de luz. Mas cuidado! Como sua mordida contamina, transmitindo o mal, em caso de ele se aproximar, não hesite em afugentá-lo mostrando dois controles remotos sobrepostos em forma de cruz.
(...)
In revista Livro Aberto, S. Paulo: Editora Cone Sul, ano 1, nº 1, agosto/setembro de 1996, p. 22-23.
Dando continuidade à vã pretensão de resgatar textos importantes que ficaram “depositados” em impressos hoje pouco acessíveis, divulgamos hoje parte deste texto publicado no primeiro número da revista editada por José de Mello Junior, dedicada à 14ª Bienal Internacional do Livro, realizada em S. Paulo, de 13 a 25 de agosto de 1996. A revista, extinta depois de alguns excelentes números, deixou saudade.
A Bienal, entretanto, continua firme e terá sua 20ª edição nos próximos dias 14 a 24 deste mês, agora no Pavilhão de Exposições do Anhembi, na mesma São Paulo, cidade que a viu nascer. A realização é da Câmara Brasileira do Livro www.cbl.org.br.
Saiba mais:
www.bienaldolivrosp.com.br
Ao trazer à circulação, agora no mundo virtual, este excerto de Nicolau Sevcenko, o que pode ser, creio, considerado um presente para o nosso raro leitor, também o registro é motivado pelo apreço que merece o historiador paulista, professor titular da Universidade de São Paulo, cuja obra é, por todos os sentidos, admirável. Certamento seu livro Literatura como missão. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República, centrado na análise da obra e do tempo de Euclydes da Cunha e de Lima Barreto terá sido um dos mais inteligentes e bem escritos livros que tive o privilégio de ler nos últimos anos, ainda na primeira edição, da Brasiliense, de 1983. Sevcenko publicou outros livros, dos quais se devem destacar Orfeu Extático na Metrópole, 1992, Corrida para o século XXI, 2001, História da Vida Privada no Brasil, vol. 3, do qual foi co-organizador. Todos pela Cia. das Letras, que reeditou também o Literatura como missão.
Você, raro leitor, o que acha de ter acesso à segunda parte do texto acima?
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Nicolau Sevcenko
segunda-feira, 19 de maio de 2008
A vida na estante, de Ruy Castro
Às vezes, sou levado a dar palestras em livrarias e bibliotecas, dois lugares a salvo de gente suspeita, como punguistas, terroristas, políticos etc. O único risco que se corre nelas é abrir um livro ao acaso e deparar com uma informação ou idéia que nos transforma a vida para sempre, para o bem ou para o mal.
Numa livraria, há tempos, alguém na platéia perguntou o que eu gostaria de ser quando crescesse. A pergunta era de brincadeira, mas respondi a sério: um dia, gostaria de deixar de ser escritor ou eventual jornalista e reverter à condição de apenas, e com muita honra, leitor.
Afinal, venho me preparando para isso há décadas, desde o dia em que cruzei as pernas dentro das calças curtas e abri o primeiro livro. Milhares de livros depois, descobri que essa preparação incluiu plantar estantes em todos os endereços em que morei, sempre achando que seriam definitivos. E todas essas estantes foram deixadas para trás, na esperança de que o futuro morador as usasse para guardar livros - quaisquer livros -, e não bibelôs inúteis ou troféus conquistados em gincanas bancárias.
Outro sintoma dessa obsessão é procurar os sebos em cada cidade que visito. Se tenho duas horas livres, é neles que tento gastá-las. Até há pouco, eu ainda perguntava no hotel onde ficavam os sebos locais. Agora não preciso mais. Basta chegar à janela e apontar o nariz para a cidade lá em baixo. O cheiro de mofo e dos livros empoeirados me assola as narinas, e sei logo para onde devo ir. Ou então, já na rua, um ácaro me sopra ao ouvido que há um lindo sebo escondido numa galeria defronte.
Enfim, são planos. Do alto das estantes, um mundo de biografias, livros de história e romances clássicos, de "Elzira, a Morta Virgem" a "O Grande Industrial", me contempla. Gigi, eu chego lá.
In Folha de São Paulo, Sâo Paulo, 17 de maio de 2008
São os colunistas, rara leitora, que mais me fazem sentir falta da assinatura da Folha ou de O Globo. Teimo em não aceitar as ofertas de renovação que chegam, sedutoras, mas quase desesperadas, à minha caixa postal eletrônica, pela lembrança da pilha de jornais não lidos por falta de tempo, diante da rotina de leituras de livros, artigos e da Internet, além dos
compromissos do dia-a-dia, pois que todos precisamos trabalhar também fora das representações do escrito. Mas, assumo, sinto um vazio enorme, especialmente aos domingos, por não ter o jornal na soleira da porta, para ler antes ou depois do café da manhã.
Hoje, Hugo&Cândida brindaram seus amigos com a reprodução desta crônica de Ruy Castro, que repassamos a você, rara leitora. Por pouco não a assinei!
Numa livraria, há tempos, alguém na platéia perguntou o que eu gostaria de ser quando crescesse. A pergunta era de brincadeira, mas respondi a sério: um dia, gostaria de deixar de ser escritor ou eventual jornalista e reverter à condição de apenas, e com muita honra, leitor.
Afinal, venho me preparando para isso há décadas, desde o dia em que cruzei as pernas dentro das calças curtas e abri o primeiro livro. Milhares de livros depois, descobri que essa preparação incluiu plantar estantes em todos os endereços em que morei, sempre achando que seriam definitivos. E todas essas estantes foram deixadas para trás, na esperança de que o futuro morador as usasse para guardar livros - quaisquer livros -, e não bibelôs inúteis ou troféus conquistados em gincanas bancárias.
Outro sintoma dessa obsessão é procurar os sebos em cada cidade que visito. Se tenho duas horas livres, é neles que tento gastá-las. Até há pouco, eu ainda perguntava no hotel onde ficavam os sebos locais. Agora não preciso mais. Basta chegar à janela e apontar o nariz para a cidade lá em baixo. O cheiro de mofo e dos livros empoeirados me assola as narinas, e sei logo para onde devo ir. Ou então, já na rua, um ácaro me sopra ao ouvido que há um lindo sebo escondido numa galeria defronte.
Enfim, são planos. Do alto das estantes, um mundo de biografias, livros de história e romances clássicos, de "Elzira, a Morta Virgem" a "O Grande Industrial", me contempla. Gigi, eu chego lá.
In Folha de São Paulo, Sâo Paulo, 17 de maio de 2008
São os colunistas, rara leitora, que mais me fazem sentir falta da assinatura da Folha ou de O Globo. Teimo em não aceitar as ofertas de renovação que chegam, sedutoras, mas quase desesperadas, à minha caixa postal eletrônica, pela lembrança da pilha de jornais não lidos por falta de tempo, diante da rotina de leituras de livros, artigos e da Internet, além dos
compromissos do dia-a-dia, pois que todos precisamos trabalhar também fora das representações do escrito. Mas, assumo, sinto um vazio enorme, especialmente aos domingos, por não ter o jornal na soleira da porta, para ler antes ou depois do café da manhã.
Hoje, Hugo&Cândida brindaram seus amigos com a reprodução desta crônica de Ruy Castro, que repassamos a você, rara leitora. Por pouco não a assinei!
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sábado, 12 de abril de 2008
O saco de livros, de W. Somerset Maugham (1874-1965)
Algumas pessoas lêem para se instruir, o que é louvável, outras por prazer, o que considero inocente, e algumas por hábito – e isto já não se pode dizer que seja nem inocente nem louvável. Creio poder afirmar que pertenço a este terceiro lamentável grupo. Uma conversa longa me enfada, os jogos me cansam, e meus próprios pensamentos – na opinião de muitos o infalível recurso do homem sensato – esgotam-se com facilidade.
Recorro então ao meu livro, como o fumante de ópio ao seu cachimbo. Prefiro ler o catálogo do Army and Navy Stores, ou o Guia Bradshaw, a ficar sem leitura, e posso mesmo dizer que passei horas agradabilíssimas debruçado sobre esses dois livros.
Houve época em que nunca saí de casa sem levar no bolso o catálogo de uma livraria de segunda mão. Não conheço leitura mais proveitosa. Claro que ler desta forma é tão condenável como valer-se de um entorpecente. Até hoje me admiro do desplante dos grandes ledores que, por possuírem tal qualidade, zombam dos ignorantes. Sob o ponto de vista do que é a eternidade, será preferível ter lido mil livros a ter feito um milhão de regos com arado?
Admitamos que a leitura seja para nós apenas uma droga, sem a qual não podemos passar – quem, entre os desse grupo, desconhece a inquietação que dele se apodera depois de se ver durante muito tempo privado de leitura, a apreensão, o nervosismo, e o suspiro de alívio exalado ao ver uma página impressa?... – e não sejamos, portanto, mais vaidosos do que os pobres escravos da agulha hipodérmica ou da garrafa.
E assim, como o viciado em algum entorpecente não pode viajar sem levar consigo uma boa provisão do bálsamo fatal, jamais me aventuro a ir muito longe sem carregar um certo número de livros. Eles me são tão necessários que, quando noto num trem que muitos dos meus companheiros de viagem não trouxeram um único sequer, me sinto tomado de verdadeiro espanto. Mas é terrível o problema quando me disponho a uma viagem longa.
De alguma coisa me valeu a experiência. Certa vez, tendo por motivo de doença ficado durante três meses preso numa cidadezinha das montanhas, em Java, esgotei a minha provisão de livros e me vi obrigado, por não conhecer a língua holandesa, a comprar os livros escolares onde, creio eu, os javaneses inteligentes aprendiam o francês e o alemão. E por isso, depois de vinte e cinco anos, reli as frias peças de Goethe, as fábulas de La Fontaine, as tragéidas do terno e preciso Racine. (...)
Desde essa época faço questão de carregar sempre o maior saco existente feito para roupa usada, enchendo-o até a borda com livros apropriados para todas as ocasiões e as várias disposições de espírito. Pesa uma tonelada, e troncudos carrregadores vergam ao seu peso. Os funcionários da Alfândega olham-no com desconfiança, mas afastam-se consternados quando lhes dou minha palavra de que apenas contém livros. O inconveniente é que a obra que desejo ler sempre se acha no fundo, não podendo eu alcançá-la sem despejar no chão todo o contéudo do saco. Mas não fosse por isso, talvez eu nunca tivesse conhecido a estranha história de Olive Hardy.
(...)
In Ah King. Contos. Trad. de Leonel Vallandro. Porto Alegre: Globo, s/d. Coleção Nobel, n. 59, p. 121-159.
A Editora Globo apresenta Somerset Maugham, , na orelha deste livro, como “o Maupassant inglês”, afirmando que “poucos escritores alcançaram na literatura e no teatro contemporâneos o sucesso de William Somerset Maugham, sem fazer concessões ao chamado grande público”.
Nunca fui um leitor de Maugham, - tenho resistência a ler best-sellers - mas como livreiro vivi um tempo em que ele ainda tinha muitos leitores, especialmente por causa de seus livros Histórias dos Mares do Sul, Um gosto e seis vinténs, O fio da navalha e Servidão humana. Alguns foram adaptados para o cinema, com grande êxito.
Este Ah King me foi oferecido por um gentilíssimo diplomata chileno, Pedro José Correa, bibliófilo, que se desfez de sua extensa biblioteca, de leitor “por hábito”, quando voltou para seu país de origem.
Este conto - que é bem mais longo -, me fez refletir sobre um tempo em que a leitura de entretenimento era uma prática cultivada por muitos. Até mesmo no Brasil. Antes do sucesso da televisão com seus teledramas ou filmes da tarde, da noite e da madrugada. Hoje é prática para raros. E mais raros são ainda os que se lembram de Somerset Maugham, cujos livros certamente só se encontram nos sebos. Á sua espera, cara leitora, arrisca?
Leia mais sobre Somerset Maugham em
http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Somerset_Maugham
Recorro então ao meu livro, como o fumante de ópio ao seu cachimbo. Prefiro ler o catálogo do Army and Navy Stores, ou o Guia Bradshaw, a ficar sem leitura, e posso mesmo dizer que passei horas agradabilíssimas debruçado sobre esses dois livros.
Houve época em que nunca saí de casa sem levar no bolso o catálogo de uma livraria de segunda mão. Não conheço leitura mais proveitosa. Claro que ler desta forma é tão condenável como valer-se de um entorpecente. Até hoje me admiro do desplante dos grandes ledores que, por possuírem tal qualidade, zombam dos ignorantes. Sob o ponto de vista do que é a eternidade, será preferível ter lido mil livros a ter feito um milhão de regos com arado?
Admitamos que a leitura seja para nós apenas uma droga, sem a qual não podemos passar – quem, entre os desse grupo, desconhece a inquietação que dele se apodera depois de se ver durante muito tempo privado de leitura, a apreensão, o nervosismo, e o suspiro de alívio exalado ao ver uma página impressa?... – e não sejamos, portanto, mais vaidosos do que os pobres escravos da agulha hipodérmica ou da garrafa.
E assim, como o viciado em algum entorpecente não pode viajar sem levar consigo uma boa provisão do bálsamo fatal, jamais me aventuro a ir muito longe sem carregar um certo número de livros. Eles me são tão necessários que, quando noto num trem que muitos dos meus companheiros de viagem não trouxeram um único sequer, me sinto tomado de verdadeiro espanto. Mas é terrível o problema quando me disponho a uma viagem longa.
De alguma coisa me valeu a experiência. Certa vez, tendo por motivo de doença ficado durante três meses preso numa cidadezinha das montanhas, em Java, esgotei a minha provisão de livros e me vi obrigado, por não conhecer a língua holandesa, a comprar os livros escolares onde, creio eu, os javaneses inteligentes aprendiam o francês e o alemão. E por isso, depois de vinte e cinco anos, reli as frias peças de Goethe, as fábulas de La Fontaine, as tragéidas do terno e preciso Racine. (...)
Desde essa época faço questão de carregar sempre o maior saco existente feito para roupa usada, enchendo-o até a borda com livros apropriados para todas as ocasiões e as várias disposições de espírito. Pesa uma tonelada, e troncudos carrregadores vergam ao seu peso. Os funcionários da Alfândega olham-no com desconfiança, mas afastam-se consternados quando lhes dou minha palavra de que apenas contém livros. O inconveniente é que a obra que desejo ler sempre se acha no fundo, não podendo eu alcançá-la sem despejar no chão todo o contéudo do saco. Mas não fosse por isso, talvez eu nunca tivesse conhecido a estranha história de Olive Hardy.
(...)
In Ah King. Contos. Trad. de Leonel Vallandro. Porto Alegre: Globo, s/d. Coleção Nobel, n. 59, p. 121-159.
A Editora Globo apresenta Somerset Maugham, , na orelha deste livro, como “o Maupassant inglês”, afirmando que “poucos escritores alcançaram na literatura e no teatro contemporâneos o sucesso de William Somerset Maugham, sem fazer concessões ao chamado grande público”.
Nunca fui um leitor de Maugham, - tenho resistência a ler best-sellers - mas como livreiro vivi um tempo em que ele ainda tinha muitos leitores, especialmente por causa de seus livros Histórias dos Mares do Sul, Um gosto e seis vinténs, O fio da navalha e Servidão humana. Alguns foram adaptados para o cinema, com grande êxito.
Este Ah King me foi oferecido por um gentilíssimo diplomata chileno, Pedro José Correa, bibliófilo, que se desfez de sua extensa biblioteca, de leitor “por hábito”, quando voltou para seu país de origem.
Este conto - que é bem mais longo -, me fez refletir sobre um tempo em que a leitura de entretenimento era uma prática cultivada por muitos. Até mesmo no Brasil. Antes do sucesso da televisão com seus teledramas ou filmes da tarde, da noite e da madrugada. Hoje é prática para raros. E mais raros são ainda os que se lembram de Somerset Maugham, cujos livros certamente só se encontram nos sebos. Á sua espera, cara leitora, arrisca?
Leia mais sobre Somerset Maugham em
http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Somerset_Maugham
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Walter Benjamin (15/7/1892-27/9/1940), 115 anos.
Excertos de Desempacotando minha biblioteca. Um discurso sobre o colecionador.
Estou desempacotando minha biblioteca. Sim, estou. Os livros, portanto, ainda não estão nas estantes; o suave tédio da ordem ainda não os envolve. Tampouco posso passar ao longo de suas fileiras para, na presença de ouvintes amigos, revista-los. Nada disso vocês têm que temer. Ao contrário, devo pedir-lhes que se transfiram comigo para a desordem de caixotes abertos à força, para o ar cheio de pó de madeira, para o chão coberto de papéis rasgados, por entre as pilhas de volumes trazidos de novo à luz do dia após uma escuridão de dois anos
justamente, a fim de, desde o início, compartilhar comigo um pouco da disposição de espírito – certamente não elegíaca , mas, antes, tensa – que estes livros despertam no autêntico colecionar. Pois quem lhes fala é um deles, e, no fundo está falando de si. (...)
Tenho a intenção de dar uma idéia sobre o relacionamento de um colecionador com os seus pertences, uma idéia sobre a arte de colecionar mais do que sobre a coleção em si. É inteiramente arbitrário que eu faço isso baseando-me na observação das diversas maneiras de adquirir livros. Este processo ou qualquer outro é apenas um dique contra a maré de água viva de recordações que chega rolando na direção de todo colecionador ocupado com o que é seu. De fato, toda paixão confina com um caos, mas a de colecionar com o das lembranças. (...)
Assim, a existência do colecionador é uma tensão dialética entre os pólos da ordem e da desordem.
Naturalmente, sua existência está sujeita a muitas outras coisas: a uma relação muito misteriosa com a propriedade sobre a qual algumas palavras ainda devem ser ditas mais tarde; (...)
Para ele não só livros, mas também seus exemplares têm seu destino. E, neste sentido, o destino mais importante de todo exemplar é o encontro com ele, o colecionador, com sua própria coleção. E não estou exagerando: para o colecionador autêntico a aquisição de um livro velho representa o seu renascimento. E justamente neste ponto se acha o elemento pueril que, no colecionador, se interpenetra com elemento senil. (...)
De todas as formas de obter livros, escrevê-los é considerada a mais louvável. (...)
Quantas coisas não retornam à memória uma vez nos tenhamos aproximado das montanhas de caixas para delas extrair os livro para a luz do dia, ou melhor, da noite. (...)
Saibam que tenho plena consciência de quanto essa revelação que faço do mundo mental contido no ato de colecionar vai reforçar para muitos de vocês a convicção de que essa paixão é coisa do passado e a desconfiança contra o tipo humano do colecionador.
(...)
Bem-aventurado o colecionador! (,,,)
In Rua de mão única (Obras escolhidas II). São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 227-35.
Walter Benjamin tem sido uma referência, tanto pessoal quanto teórica, deste neoblogueiro, e foi sem dúvida o principal inspirador de um trabalho de pesquisa sobre os clientes dos sebos, feito em colaboração com colegas, durante o curso de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo. Foi concluído em 15.7.1992, quando o filósofo completaria 100 anos de nascimento e a ele foi dedicado.
Você poderá acessar esse trabalho, “O consumidor de livros de segunda mão – Perfil do cliente dos sebos”, no endereço virtual do Escritório do Livro, aliás um espaço rico de conteúdo para nossos raros leitores:
http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/perfil%20sebo.pdf
O texto “Desempacotando minha biblioteca” foi provavelmente escrito em 1936, na casa do amigo Bertolt Brecht, exilado na Dinamarca, onde Benjamin se hospedou, quando ambos fugiam da perseguição nazista. Um de seus maiores estudiosos brasileiros, Flávio Kothe, no entanto, afirma que o texto é de 1931.
Creio ser um dos mais belos depoimentos sobre o amor aos livros que já se escreveu e por isso o escolhemos para marcar a data de seu nascimento. Vale a pena correr à livraria ou à biblioteca e ler o texto inteiro. Aliás, diga-se, Rua de mão única é um livro que Benjamin nos legou e que, por existir ao nosso alcance, nos faz sentir privilegiados leitores.
Para saber mais, na rede, visite: http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
Estou desempacotando minha biblioteca. Sim, estou. Os livros, portanto, ainda não estão nas estantes; o suave tédio da ordem ainda não os envolve. Tampouco posso passar ao longo de suas fileiras para, na presença de ouvintes amigos, revista-los. Nada disso vocês têm que temer. Ao contrário, devo pedir-lhes que se transfiram comigo para a desordem de caixotes abertos à força, para o ar cheio de pó de madeira, para o chão coberto de papéis rasgados, por entre as pilhas de volumes trazidos de novo à luz do dia após uma escuridão de dois anos
justamente, a fim de, desde o início, compartilhar comigo um pouco da disposição de espírito – certamente não elegíaca , mas, antes, tensa – que estes livros despertam no autêntico colecionar. Pois quem lhes fala é um deles, e, no fundo está falando de si. (...)
Tenho a intenção de dar uma idéia sobre o relacionamento de um colecionador com os seus pertences, uma idéia sobre a arte de colecionar mais do que sobre a coleção em si. É inteiramente arbitrário que eu faço isso baseando-me na observação das diversas maneiras de adquirir livros. Este processo ou qualquer outro é apenas um dique contra a maré de água viva de recordações que chega rolando na direção de todo colecionador ocupado com o que é seu. De fato, toda paixão confina com um caos, mas a de colecionar com o das lembranças. (...)
Assim, a existência do colecionador é uma tensão dialética entre os pólos da ordem e da desordem.
Naturalmente, sua existência está sujeita a muitas outras coisas: a uma relação muito misteriosa com a propriedade sobre a qual algumas palavras ainda devem ser ditas mais tarde; (...)
Para ele não só livros, mas também seus exemplares têm seu destino. E, neste sentido, o destino mais importante de todo exemplar é o encontro com ele, o colecionador, com sua própria coleção. E não estou exagerando: para o colecionador autêntico a aquisição de um livro velho representa o seu renascimento. E justamente neste ponto se acha o elemento pueril que, no colecionador, se interpenetra com elemento senil. (...)
De todas as formas de obter livros, escrevê-los é considerada a mais louvável. (...)
Quantas coisas não retornam à memória uma vez nos tenhamos aproximado das montanhas de caixas para delas extrair os livro para a luz do dia, ou melhor, da noite. (...)
Saibam que tenho plena consciência de quanto essa revelação que faço do mundo mental contido no ato de colecionar vai reforçar para muitos de vocês a convicção de que essa paixão é coisa do passado e a desconfiança contra o tipo humano do colecionador.
(...)
Bem-aventurado o colecionador! (,,,)
In Rua de mão única (Obras escolhidas II). São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 227-35.
Walter Benjamin tem sido uma referência, tanto pessoal quanto teórica, deste neoblogueiro, e foi sem dúvida o principal inspirador de um trabalho de pesquisa sobre os clientes dos sebos, feito em colaboração com colegas, durante o curso de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo. Foi concluído em 15.7.1992, quando o filósofo completaria 100 anos de nascimento e a ele foi dedicado.
Você poderá acessar esse trabalho, “O consumidor de livros de segunda mão – Perfil do cliente dos sebos”, no endereço virtual do Escritório do Livro, aliás um espaço rico de conteúdo para nossos raros leitores:
http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/perfil%20sebo.pdf
O texto “Desempacotando minha biblioteca” foi provavelmente escrito em 1936, na casa do amigo Bertolt Brecht, exilado na Dinamarca, onde Benjamin se hospedou, quando ambos fugiam da perseguição nazista. Um de seus maiores estudiosos brasileiros, Flávio Kothe, no entanto, afirma que o texto é de 1931.
Creio ser um dos mais belos depoimentos sobre o amor aos livros que já se escreveu e por isso o escolhemos para marcar a data de seu nascimento. Vale a pena correr à livraria ou à biblioteca e ler o texto inteiro. Aliás, diga-se, Rua de mão única é um livro que Benjamin nos legou e que, por existir ao nosso alcance, nos faz sentir privilegiados leitores.
Para saber mais, na rede, visite: http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
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quinta-feira, 29 de março de 2007
Philobiblon, de Richard de Bury (1287-1345)
A notícia de nossa paixão pelos livros, sobretudo pelos antigos, se espalhou rapidamente e se difundiu a idéia de que se poderia ganhar nosso favor mais facilmente por meio de manuscritos do que por meio do dinheiro.
E graças àquele príncipe de memória prodigiosa, que nos outorgou o poder de rechaçar aos grandes ou aos pequenos, aconteceu que, em vez de presentes e dotes suntuosos, nos ofereciam abundantes cadernos imundos, manuscritos decrépitos e coisas semelhantes, que eram, tanto para nossos olhos quanto para nosso coração, o mais precioso dos presentes.
Diante de nós se abriram as portas das bibliotecas dos mais renomados mosteiros, os cofres se colocaram à nossa disposição e cestos cheios de livros se esvaziaram a nossos pés. Os volumes por tanto tempo esquecidos despertavam assombrados, já que jaziam nos cantos mais escuros das propriedades. Os mais belos textos antigos se encontravam, todos, em um estado miserável, cobertos de dejetos de ratos e semidestruídos pelas traças. Os livros, recobertos em outros tempos de púrpura ou linho e hoje completamente abandonados, deixados em um destino aziago, pareciam ter-se convertido em moradas de ratazanas.
Apesar disso, encontramos neles o objeto e consolo de nosso amor, e tivemos nessa época tão luminosa mais prazer do que um médico por vocação teria ao cuidar e salvar seus doentes. Desta maneira vieram parar em nossas mãos os sagrados receptáculos das ciências, fossem eles na forma de presente, fossem eles comprados ou, ainda, fossem eles apenas emprestados por algum tempo.
Excerto do capítulo VIII “Das muitas oportunidades que se apresentaram ao autor para adquirir livros”, do livro Philobiblon – Mui interessante tratado sobre o amor aos livros, escrito em 1344 pelo reverendo Richard de Bury, bispo de Durhan e chanceler do rei inglês Eduardo III, segundo a tradução de Marcello Rollemberg, publicada pela Ateliê Editorial em 2004 (p. 84-85).
http://www.atelie.com.br/
Este é considerado primeiro tratado de bibliofilia. Escrito originalmente em latim, havia sido traduzido em outras línguas, mas até 2004 permaneceu inacessível em nosso idioma. Por quê?
O preenchimento dessa lacuna em nossa bibliografia sobre livros se deveu à sensibilidade e ao faro de Plínio Martins Filho, um notável editor, e ao amor pelos livros do poeta e tradutor Marcello Rollemberg. A eles, o mérito. A nós, o deleite.
E graças àquele príncipe de memória prodigiosa, que nos outorgou o poder de rechaçar aos grandes ou aos pequenos, aconteceu que, em vez de presentes e dotes suntuosos, nos ofereciam abundantes cadernos imundos, manuscritos decrépitos e coisas semelhantes, que eram, tanto para nossos olhos quanto para nosso coração, o mais precioso dos presentes.
Diante de nós se abriram as portas das bibliotecas dos mais renomados mosteiros, os cofres se colocaram à nossa disposição e cestos cheios de livros se esvaziaram a nossos pés. Os volumes por tanto tempo esquecidos despertavam assombrados, já que jaziam nos cantos mais escuros das propriedades. Os mais belos textos antigos se encontravam, todos, em um estado miserável, cobertos de dejetos de ratos e semidestruídos pelas traças. Os livros, recobertos em outros tempos de púrpura ou linho e hoje completamente abandonados, deixados em um destino aziago, pareciam ter-se convertido em moradas de ratazanas.
Apesar disso, encontramos neles o objeto e consolo de nosso amor, e tivemos nessa época tão luminosa mais prazer do que um médico por vocação teria ao cuidar e salvar seus doentes. Desta maneira vieram parar em nossas mãos os sagrados receptáculos das ciências, fossem eles na forma de presente, fossem eles comprados ou, ainda, fossem eles apenas emprestados por algum tempo.
Excerto do capítulo VIII “Das muitas oportunidades que se apresentaram ao autor para adquirir livros”, do livro Philobiblon – Mui interessante tratado sobre o amor aos livros, escrito em 1344 pelo reverendo Richard de Bury, bispo de Durhan e chanceler do rei inglês Eduardo III, segundo a tradução de Marcello Rollemberg, publicada pela Ateliê Editorial em 2004 (p. 84-85).
http://www.atelie.com.br/
Este é considerado primeiro tratado de bibliofilia. Escrito originalmente em latim, havia sido traduzido em outras línguas, mas até 2004 permaneceu inacessível em nosso idioma. Por quê?
O preenchimento dessa lacuna em nossa bibliografia sobre livros se deveu à sensibilidade e ao faro de Plínio Martins Filho, um notável editor, e ao amor pelos livros do poeta e tradutor Marcello Rollemberg. A eles, o mérito. A nós, o deleite.
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