Ao retornar, rara leitora, a este espaço, trago as lembranças das pessoas queridas que revi no 15° encontro do grupo de pesquisadores de produção editorial, livro e leitura reunido na Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom, que fez realizar, em conjunto com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e outras instituições, o seu XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, na capital potiguar, entre 2 e 6 do corrente.
Afora as vivências e trocas acadêmicas que sempre nos enriquecem nesses encontros, foi muito bom estar com amigos que partilham afinidades e sonhos, o que dá mais sentido à vida, perene e precária.
Trago da bela cidade de Natal, que não pude ainda conhecer como queria, a alma em festa pela lembrança do reencontro com os amigos Rejane e Vicente Serejo, anfitriões gentis e generosos.
Além da afinidade no amor aos livros, admiramos a faceta de contador de causos de Serejo, o seu conhecimento profundo da cultura potiguar e brasileira, a visão crítica que tem da vida acadêmica, a discreta elegância e a inteligência refinada de Rejane. Além de tudo, encanta-nos no jornalista de O Jornal de Hoje a sua capacidade de transformar paisagens e experiências em ricos textos tecidos cotidianamente em suas crônicas.
Seu livro Canção da noite lilás, em bela edição da Lidador, do Rio de Janeiro, editado, em 2000, com capa de Nei Leandro de Castro, ilustrações de Mem de Sá, coordenação editorial de Márcia Carrilho, traz prefácio de Silviano Santiago, “Compartilhar o pão da palavra”, no qual afirma o consagrado crítico mineiro: “raramente a língua portuguesa buscou se igualar com tanta maestria à palheta de um pintor (...) A palheta da língua declamada pelas palavras de Vicente Serejo como que conduz os olhos do leitor para o mirante onde surpreendem e apreciam as misteriosas e secretas cores das duas naturezas. A natureza que ambienta dias e noites, que varre espaços com ventos e marés, que recorta acidentes geográficos e se deixa recortar pelas construções do homem, natureza que é finalmente dádiva verde e multicolorida de árvores, flores e frutos. E também a natureza dos corpos vivos (homem ou animal), seu estar no mundo e seu locomover pelas arestas do dia-a-dia, seu silêncio e sua fala, nosso diálogo, seu desaparecer pelas lâminas afiadas da morte, seus temores e amores, seus segredos e covardias, sua solidão e fugas pelos galopes da memória e os delírios do desejo”. Leitura prazerosa. Viagem imaginária que fez parecer mais rápida a volta e até esquecer dos desconfortos do avião.
Foi muito bom, Vicente e Rejane, poder rever, guiado por fraterna amizade, a biblioteca cultivada e culta onde fulguram as coleções mais completas das obras de Mário de Andrade e de Luís da Câmara Cascudo, paixões de pesquisadores e de bibliófilos. E, finalmente, compartilhar do tinto lusitano de boa cepa em belas taças na mesa da varanda, onde folheei, encantado, o exemplar da Iconografia Potiguar, em cuidada edição do SEBRAE-RN, que agora se abriga na biblioteca da nossa casa como lugar de memória de dias encantados.
Mostrando postagens com marcador Vicente Serejo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vicente Serejo. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 9 de setembro de 2008
O colecionador de promessas, Vicente Serejo
Dizia o meu amigo, molhando a garganta em lentos goles de uísque: sou um vigia das horas mais inúteis da tarde. Eis o meu posto e o ofício: uma janela transparente e nela os meus olhos pregados na vidraça. Do que vejo ou não vejo, pouco preciso. O importante é esse ofício da espera, afinal a tarde cumpre seu expediente lá fora, enquanto seus homens prometem vencer o livro de ponto. Sou um colecionador das promessas dos jornais.
E dizendo isto voltou a tomar outro longo gole de uísque e com seus olhos úmidos de ironia alisou a barba mansamente. Com uma mão levou o charuto aos lábios, num gesto lento e perfeito. Com a outra, aquela que usara para também lentamente repousar o copo sobre a mesinha do lado, afagou a barba enfiando os dedos no emaranhado dos cabelos grisalhos e ásperos. E nada mais disse ou pareceu desejar dizer.
Do silêncio que derramou em torno de si mesmo inventou uma floresta de sombras e nelas desapareceu como um duende. Estava ali. Bem perto dos olhos e das mãos, mas ao mesmo tempo parecia tão distante que qualquer palavra, mesmo pronunciada com cuidado, quebraria a fina lâmina de cristal que filtrava as suas ilusões. Era preciso esperar que todo o seu vôo se completasse como numa circunavegação em torno de si mesmo.
Só então pude notar como a matéria engana o espírito. E como a humanidade de um homem é feita das insondáveis razões do ser. Ali estava um homem diante de sua solidão, mas seus gestos aparentemente maquinais o faziam mais humano a cada instante. Todas as vezes que seus dedos caminhavam silenciosamente como centopéias, em busca do copo, e venciam os pequenos obstáculos da tolha de crochê, mais ele se humanizava.
De repente era como se da fumaça de seu charuto nascessem arandelas azuis que iam subindo até o teto da pequena sala de paredes forradas de livros. Só um homem, um vaqueiro e seus olhos de nanquim, vigiava o nosso silêncio. Do fundo, saltava pelo corte luminoso da porta uma réstia de luz da outra sala. E projetando no chão a silhueta distorcida da mesa cercada de cadeiras, criava uma confusão fantasmagórica de luzes e sombras.
O alarme de um carro disparou lá fora. O ruído foi tão perto, e tão estridente, que a vibração estilhaçou o vidro que separava os nosso silêncios. E juntos passamos a colher aquelas minúsculas contas de vidro como se guardássemos cristais, diamantes, águas-marinhas. Toda a riqueza de um silêncio que se quebrou. Enquanto a noite engolia a solidão do mundo e prometia a cada um de nós a primeira estrela da manhã.
In Canção da noite lilás, crônicas. Rio de Janeiro: Lidador, 2000, p. 160-161.
Este é, rara leitora, um pedaço de Vicente Alberto Serejo Gomes, como escreveu Márcia Carrilho na apresentação do volume, “um lírico entre alamandas, luares e solidões. Um peregrino do azul que faz a lúdica travessia do Potengi, chega à Redinha, a Extremoz, a Macau, e conquista todos aqueles que têm olhos para ver, além da penumbra, as coisas suavemente iluminadas pelo amor”. O cronista nasceu em Macau, RN, em 1951, e é jornalista desde 1976, tendo atuado durante 24 anos nos Diários Associados como repórter, editor, chefe de reportagem, editor geral e diretor comercial. Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Vicente Serejo, além de professor de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publica sua crônica diária em O Jornal de Hoje www.jornaldehoje.com.br .
E dizendo isto voltou a tomar outro longo gole de uísque e com seus olhos úmidos de ironia alisou a barba mansamente. Com uma mão levou o charuto aos lábios, num gesto lento e perfeito. Com a outra, aquela que usara para também lentamente repousar o copo sobre a mesinha do lado, afagou a barba enfiando os dedos no emaranhado dos cabelos grisalhos e ásperos. E nada mais disse ou pareceu desejar dizer.
Do silêncio que derramou em torno de si mesmo inventou uma floresta de sombras e nelas desapareceu como um duende. Estava ali. Bem perto dos olhos e das mãos, mas ao mesmo tempo parecia tão distante que qualquer palavra, mesmo pronunciada com cuidado, quebraria a fina lâmina de cristal que filtrava as suas ilusões. Era preciso esperar que todo o seu vôo se completasse como numa circunavegação em torno de si mesmo.
Só então pude notar como a matéria engana o espírito. E como a humanidade de um homem é feita das insondáveis razões do ser. Ali estava um homem diante de sua solidão, mas seus gestos aparentemente maquinais o faziam mais humano a cada instante. Todas as vezes que seus dedos caminhavam silenciosamente como centopéias, em busca do copo, e venciam os pequenos obstáculos da tolha de crochê, mais ele se humanizava.
De repente era como se da fumaça de seu charuto nascessem arandelas azuis que iam subindo até o teto da pequena sala de paredes forradas de livros. Só um homem, um vaqueiro e seus olhos de nanquim, vigiava o nosso silêncio. Do fundo, saltava pelo corte luminoso da porta uma réstia de luz da outra sala. E projetando no chão a silhueta distorcida da mesa cercada de cadeiras, criava uma confusão fantasmagórica de luzes e sombras.
O alarme de um carro disparou lá fora. O ruído foi tão perto, e tão estridente, que a vibração estilhaçou o vidro que separava os nosso silêncios. E juntos passamos a colher aquelas minúsculas contas de vidro como se guardássemos cristais, diamantes, águas-marinhas. Toda a riqueza de um silêncio que se quebrou. Enquanto a noite engolia a solidão do mundo e prometia a cada um de nós a primeira estrela da manhã.
In Canção da noite lilás, crônicas. Rio de Janeiro: Lidador, 2000, p. 160-161.
Este é, rara leitora, um pedaço de Vicente Alberto Serejo Gomes, como escreveu Márcia Carrilho na apresentação do volume, “um lírico entre alamandas, luares e solidões. Um peregrino do azul que faz a lúdica travessia do Potengi, chega à Redinha, a Extremoz, a Macau, e conquista todos aqueles que têm olhos para ver, além da penumbra, as coisas suavemente iluminadas pelo amor”. O cronista nasceu em Macau, RN, em 1951, e é jornalista desde 1976, tendo atuado durante 24 anos nos Diários Associados como repórter, editor, chefe de reportagem, editor geral e diretor comercial. Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Vicente Serejo, além de professor de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publica sua crônica diária em O Jornal de Hoje www.jornaldehoje.com.br .
Assinar:
Postagens (Atom)