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sexta-feira, 13 de junho de 2008

Dez razões para escrever, segundo Roland Barthes


Como escrever não é uma atividade normativa nem científica, não posso dizer por que nem para que se escreve. Posso apenas enumerar as razões pelas quais imagino escrever:

1. por necessidade de prazer que, como se sabe, não deixa de ter alguma relação com o encantamento erótico;

2. porque a escrita descentra a fala, o indivíduo, a pessoa, realiza um trabalho cuja origem é indiscernível;

3. para pôr em prática um “dom”, satisfazer uma atividade instintiva, marcar uma diferença;

4. para ser reconhecido, gratificado, amado, contestado, constatado;

5. para cumprir tarefas ideológicas ou contra-ideológicas;

6. para obedecer às injunções de uma tipologia secreta, de uma distribuição guerreira, de uma avaliação permanente;

7. para satisfazer amigos, irritar inimigos;

8. para contrbiuir para fissurar o sistema simbólico de nossa sociedade;

9. para produzir sentidos novos, ou seja, forças novas, apoderar-me das coisas de um modo novo, abalar e modificar a subjugação dos sentidos;

10. finalmente, como resultado da multiplicidade e da contradição deliberadas dessas razões, para burlar a idéia, o ídolo, o fetiche da Determinação Única, da Causa (causalidade e “boa causa”) e credenciar assim o valor superior de uma atividade pluralista, sem causalidade, finalidade nem generalidade, como o é o próprio texto.

In Roland Barthes, Inéditos, vol. 1 – teoria. S. Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 101-2.

Além de tudo o que pretende com sua escritura, e não é pouco, como se pode perceber acima, um dos objetivos de Barthes, parece-nos, raro leitor, neste como em outros textos, é tirar-nos qualquer resquício de certezas, abalar eventuais convicções e fazer-nos pensar de novo. Além, claro, de nos provocar o prazer da leitura pela beleza de seu texto. Se quer um pouco mais de Barthes, sugiro, rara leitora, ler – ou reler – o seu pequeno grande livro O Prazer do Texto (S. Paulo: Perspectiva, 3a. ed., 1993), fruto de uma conferência, que se tornou um clássico sobre o escrever e o ler.

E você, rara leitora, escreve e lê por prazer? Ou por quê?