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quinta-feira, 29 de março de 2007

Emerson, de Jorge Luis Borges

Esse alto cavalheiro americano
fecha o volume de Montaigne e sai
em busca de outro gozo que não vale
menos, a tarde que já exalta o plano.
Rumo ao fundo poente e seu declive,
rumo aos confins que esse poente doura,
caminha pelos campos como agora
pela memória de quem isto escreve.
Reflete: Eu li os livros essenciais
e outros compus também que o negro olvido
não riscará. Um deus me há concedido
o que é dado saber a alguns mortais.
Por todo o continente anda o meu nome;
mas não vivi. Quisera ser outro homem.

In Nova antologia pessoal. Trad. de Rolando Roque da Silva. S. Paulo: Difel, 1982, p. 23.

O nascimento do “homem de letras”, segundo Marshall McLuhan (21/7/1911-31/12/1980)*

Sob as condições do manuscrito, o papel de um autor era tão vago e incerto quanto o de um menestrel. Daí que a expressão própria fosse de pouco interesse. A tipografia inaugurou um meio que possibilitou falar alto e bom som ao próprio mundo, como antes fora possível circunavegar o mundo dos livros, devidamente enclausurado no mundo pluralístico das celas monásticas. A audácia dos tipos criou a audácia da expressão.

A uniformidade também atingiu as áreas da fala e da escrita, as composições escritas passando a se pautar por um mesmo tom e atitude em relação ao leitor e em relação ao assunto. Nascera o “homem de letras”. Estendido à palavra falada, este equitom letrado capacitou os literatos a manterem um “tom elevado” mesmo em discursos contundentes e facultou aos prosadores do século XIX a possibilidade de assumirem qualidades morais que poucos hoje se preocupariam em imitar.

*Trecho do capítulo 18, "A palavra impressa, o arquiteto do nacionalismo", do livro Os meios de comunicação como extensões do homem [1964], traduzido por Décio Pignatari para a Editora Cultrix, de S. Paulo, 1969, p. 203.

Um depoimento de Mário de Andrade

Escrevo meus livros só nas horas vagas de minhas outras ocupações. No Brasil ainda é raro o escritor que pode viver dos seus próprios livros. Me dedico por isso ao jornalismo e ao professorado, que são ocupações sempre de ordem intelectual, e me conservam dentro da minha realidade primeira que é a arte. Gosto porém muito de arte culinária, invento pratos, e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe, seria algum cozinheiro famoso. E gosto enormemente de comer bem.

In “1933 – Resposta ao inquérito sobre mim pra [Editora] Macaulay”, nº 5, do livro Entrevistas e depoimentos, organizado por Telê Porto Ancona Lopez, publicado pela extinta T. A. Queiroz (TAQ), de S. Paulo, em 1983, p. 40.